A fome nossa de cada dia na TV - Le Monde Diplomatique

Opinião

A fome nossa de cada dia na TV

por Xixo/Maurício Piragino
8 de fevereiro de 2022
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Em tempos de pandemia cozinhei muito. Melhorei inclusive a minha performance. Aprendi muito vendo programas na televisão com simpáticos mestres: Cozinha Prática, Tempero de Família, Vida Mais Bela, Perto do Fogo, Quanto Mais Doce Melhor, Um Brinde ao Vinho, MasterChef, Mestre do Sabor, Mestres da Sabotagem, Bake Off… fora todos os programas das manhãs e tardes das TVs, que têm diversos Chefs que permanentemente, fazem parte da programação e engordam nossos olhos.

Aprender a usar novos temperos, saber misturar melhor condimentos, aprender os tempos dentro de cada receita, quanta coisa que podemos incrementar nessa alquimia. Tudo parece lindo e fácil. Porém, outra realidade paralela, sem glamour algum, se apresenta de novo no Brasil: a fome.

O retorno dela se deu na onda da reforma trabalhista, do ‘Teto de Gastos’ e todas as maldades que foram impetradas no Brasil desde o golpe em Dilma. Exatamente o contrário de qualquer nação cheia de cidadania.

Essa é a triste realidade de milhões de brasileiros que foram içados novamente ao Mapa da Fome, pelo descaso neoliberal que tem um pensamento frio, sem empatia alguma. Longe desta programação televisiva da fartura, a fome por um lado e, por outro essa comilança e o “Agro é tech, é pop, é tudo”, menos solidário.

Há 75 anos, idos do século passado, Josué de Castro escreveu sua pesquisa, que se tornou um clássico: Geografia da Fome. E mesmo assim com essa sabedoria, oscilamos nas últimas décadas entre a diminuição e o aumento da fome, sendo a miséria o fator que provoca insegurança alimentar grave e isso, vem aumentando em tempos adversos, como os da pandemia e de um governo descolado da realidade. Os dados são do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil[1], desenvolvido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede PENSSAN). E a insegurança alimentar grave afeta 9% da população – ou seja 19 milhões de brasileiros estão passando fome. E o que se considera como insegurança alimentar? Segundo a definição dessa Rede: “Insegurança alimentar é quando alguém não tem acesso pleno e permanente a alimentos.” E revela que hoje, em meio à pandemia, mais da metade da população brasileira, está nessa situação, nos mais variados níveis: leve, moderada ou grave. Isso significa que passam fome no Brasil, todos os dias, o equivalente a todos os habitantes da grande São Paulo. Imagine também se praticamente todos os cidadãos da população de Portugal somados a população da Grécia, passassem fome, isto é, iriam dormir com a barriga roncando. Os números do Brasil assustam!

Por outro lado, temos uma sociedade marcada, como nos mostra a grande cozinheira e Profa. Marilena Chaui, no seu livro “Brasil – Mito fundador e sociedade autoritária”, por uma solidariedade muito seletiva:

“Conservando as marcas da sociedade colonial escravista, ou aquilo que alguns estudiosos designam como “cultura senhorial”, a sociedade brasileira é marcada pela estrutura hierárquica do espaço social que determina a forma de uma sociedade fortemente verticalizada em todos os aspectos: nela, as relações sociais e intersubjetivas são sempre realizadas como relação entre um superior, que manda, e um inferior, que obedece. As diferenças e assimetrias são sempre transformadas em desigualdade que reforçam a relação mando-obediência. O outro jamais é reconhecido como sujeito nem como sujeito de direitos, jamais é reconhecido como subjetividade nem como alteridade. As relações entre os que se julgam iguais são de “parentesco”, isto é, de cumplicidade ou de compadrio; e entre os que são vistos como desiguais o relacionamento assume a forma do favor, da clientela, da tutela ou da cooptação. Enfim, quando a desigualdade é muito marcada, a relação social assume a forma nua da opressão física e/ou psíquica[2]

O Brasil havia saído do mapa da fome em 2013

Porém, certamente esse não é um problema só de nós brasileiros, apesar de aqui ele ser muito grave. Num mundo baseado nas ideias e ações neoliberais, segundo a ONU, 821,6 milhões de pessoas estão famintas. Uma em cada 9 pessoas. São, portanto, 6,5% da população mundial (2018) que se encontram nessa situação. Porém, se adicionarmos os que passam fome moderadamente o número mais que dobra: pulamos para 2 bilhões de pessoas.

E os números nos continentes estão assim:

na Ásia: 513,9 milhões

na África: 256,1 milhões

na América Latina e no Caribe: 42,5 milhões

Mesmo quando a curva de famintos no mundo vinha decrescendo até 2014, a partir de 2015 houve uma estagnação no número.

O filósofo Byung-Chul Han em sua obra “Psicopolítica – O neoliberalismo e as novas técnicas de poder”, explica:

“O neoliberalismo transforma o cidadão em consumidor. A liberdade do cidadão cede diante da passividade do consumidor. Atualmente, o eleitor enquanto consumidor não tem nenhum interesse real pela política, pela formação ativa da comunidade. Não está disposto a um comum agir político, tampouco é capacitado para tal. O eleitor apensa reage de forma passiva à política, criticando, reclamando, exatamente como faz o consumidor diante de um produto ou de um serviço de que não gosta. Os políticos e os partidos seguem a mesma lógica do consumo. Eles têm que fornecer. Com isso, degradam-se fornecedores, que têm que satisfazer os eleitores como consumidores ou clientes”

Cidadania aqui quase zerada. Nos tornamos consumidores de tudo: da caridade às emoções. Da religião ao esporte. Até os sonhos se transformam nessa lógica do consumo descartável.

Enquanto no país da hipocrisia, os programas de receitas culinárias vão de multiplicando como coelhos, metade da população, vende o almoço para comprar o jantar. E uma grande parcela, numa tremenda miserabilidade, deve aguardar pacientemente a tecnologia do século XXI (ou XXII!) para ver o dia em que vai conseguir ver a comida na TV, como mágica, os transformando em gente alimentada. Como essa ideia parece ainda muito absurda, vamos vivendo nesse amontoado de gente intitulado Brasil, onde uma elite acumuladora de dinheiro e poder– numa perspectiva psiquiátrica do termo, não só capitalista – sonha com o dia em que a riqueza possa se transformar em imortalidade, pois o único aprisionamento democrático a todos os seres humanos é a certeza da morte. Essa mesma que alimenta e nutre os salões das diversas religiões que apaziguam essa angústia descrevendo outros mundos ou deuses imaginados.

Amartya Sen no seu brilhante “Desenvolvimento como Liberdade”, nos recorda de um texto em sânscrito (Brihadaranyaka), a história de uma conversa de um casal no século VIII antes de Cristo, em que a mulher Maytreyee questiona seu esposo Yajnavalkya: “De que me serve isso (a riqueza), se não me torna imortal?”

Hoje respondendo a Maytreyee, eu diria que em tempos digitais, tão ilusórios e de narrativas tão toscas e superficiais, a elite brasileira, no fundo, se considera um pouco imortal pois tudo pode, inclusive tem a possibilidade de travestir seu egoísmo em auto defesa, sem corar a face.

No início de 2022 no Brasil, se a nossa realidade se assemelha como análoga a um inferno, a massa publicitária digital com tantas formas hoje de alcançar a todos através dos algoritmos, nos convence que tudo pode ser muito pior e vendem a nós “consumidores”, remédio como veneno e veneno como esperança.

Para esses que têm como estratégia política a tentativa de destruir as instituições, destruir a democracia, quanto mais tudo for embaralhado e confuso, melhor será, isto é,  quanto mais luz, mais se ofusca a visão, portanto, menos enxergaremos. E mais pessoas na sociedade vão se tornando vulneráveis.

João Pedro Stédile numa aula na Escola de Governo nos induzia a enxergar a realidade dizendo algo assim: “Quando vemos nas cidades brasileiras mais farmácias do que padarias, alguma coisa está muito equivocada, muito doente!”

Essa enorme quantidade de programas de culinária num país que metade da população está em insegurança alimentar, mostra algo muito fora do lugar. Ou estou vendo pelo em ovo?

[1] O Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 foi realizado em 2.180 domicílios nas cinco regiões do país, em áreas urbanas e rurais, entre 5 e 24 de dezembro de 2020

[2] “Brasil – Mito fundador e sociedade autoritária” Marilena Chaui Editora Fundação Perseu Abramo página 89



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