A forma das ideias políticas - Le Monde Diplomatique Brasil

Metafísica

A forma das ideias políticas

por Carlos Fernando Galvão
7 de dezembro de 2020
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Pela tradição clássica, Metafísica era o estudo do ser, enquanto ser (ontologia). No pensamento moderno ocidental, essa concepção mudou um pouco

Em Platão (428 a.C. – 348 a.C.), a Dialética nos levaria a um processo “dialógico”, que seria fazer passar logos (saber) entre interlocutores, para que transformem sua doxa (opinião) em episteme (conhecimento). A ideia, para Platão, não seria apenas o conhecimento verdadeiro sobre as coisas, ela seria a própria coisa: um ser em si mesmo, existindo, assim, independente de nós. A ideia estaria nas coisas, externa e alheia ao ser, que seria induzido pelo sensível, pelas impressões extra-sensoriais. A Dialética platônica elevaria o espírito do mundo sensível ao mundo verdadeiro, embora intangível: o mundo das ideias.

Para Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C), Dialética seria uma dedução feita a partir de premissas prováveis, o que nos levaria a uma conclusão lógica e verdadeira; a ideia aristotélica estaria no ser e não teria existência separada de nós. Reais seriam os seres humanos, que Aristóteles chamava de “indivíduos concretos” de seres políticos. A ideia, assim, só existiria nos indivíduos, o que contraria o “ideal platônico”. Nesta condição, a substância (essência) seria a forma da ideia, dizia Sócrates.

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Maiêutica, método filosófico de Sócrates (469 a.C – 399 a.C), consistia em um procedimento dialético onde, partindo das opiniões de seu interlocutor sobre alguma coisa ou assunto, procurava fazê-lo cair em contradição ou, ao menos, ficar sem resposta para um ou mais questionamentos, levando o interlocutor a admitir sua visão limitada sobre o mundo. O reconhecimento da própria ignorância (dúvida infinita) é o melhor caminho para que cheguemos o mais perto possível da verdade do mundo.

Em Hegel (1770-1831), Dialética seria um processo onde a ideia “sairia” de si mesma (tese), para ser confrontada com outra ideia (antítese), fazendo “nascer” no mundo uma terceira ideia (síntese). A tese seria o ser (substância) e o porvir o não-ser (sem substância, porque ainda não é). Destrinchando isso um pouco mais, Hegel considerava a ideia com um ser separado do ser (humano), seria, por suposto, um “ser indutivo”. Dialético seria, isto posto, um movimento racional do ser, que permitiria a superação as contradições que o confronta; não seria, pois, um método. A História, para Hegel, seria uma sucessão de momentos, cada um com sua própria totalidade em si e o momento presente negaria o anterior, construindo o momento seguinte, que também seria desmentido e assim por diante. Esse movimento dialético seria a manifestação de suas próprias insuficiências e contradições, ou seja, de sua parcialidade. A movimentação do pensamento serviria para apreender o todo, o absoluto e esse seria, para Hegel, o caráter metafísico da Dialética. Em termos sociais, o todo absoluto seria o poder estatal.

Podemos resumir a compreensão do conceito de Metafísica como “o que vai além da física”, ou seja, que transcende o mundo material. Pela tradição clássica, Metafísica era o estudo do ser, enquanto ser (ontologia). No pensamento moderno ocidental, essa concepção mudou um pouco. A partir do racionalismo de Immanuel Kant (1724-1804), a filosofia começou a estabelecer uma distinção entre a consciência e a razão científica e entre essas e outros domínios do saber onde a ciência tem pouco a responder, resvalando para razões especulativas não comprováveis empiricamente e essas se tornaram, para Kant, as questões metafísicas e, em outro sentido, morais.

Em Marx (1818-1883), a Dialética é semelhante à concepção de Hegel, só que o processo seria iniciado a partir das deduções do mundo material (Materialismo) e não das induções dos seres. A Dialética assumiu, na concepção marxista, o status de método analítico (Materialismo Dialético) da História, através da dedução das condições materiais de produção econômica, quando e onde a classe proprietária usurpa o lucro advindo da exploração dos não proprietários ou proletários, ou seja, do “sobretrabalho” (Mais-valia). A ideia seria considerada concreta, mas só existiria no ser (humano), ela estaria no ser.

Um exemplo claro do movimento dialético pode ser encontrado nos Estados Unidos, em plena Guerra Fria. Os Direitos Civis dos negros eram os alvos principais dos ativistas liderados pelo pastor Martin Luther King Jr. (1929-1968), mas não eram seu único alvo. Em um plano mais amplo, ele lutava por direitos também econômicos dos mais desfavorecidos, tanto que, na pauta de suas reivindicações, constavam a luta pela garantia de um salário mínimo, a participação de comitês populares no processo legislativo, a redistribuição da renda nacional pela população, a garantia à moradia e a criação de empregos.

King ironizava as elites porque usavam o termo “assistencialismo” para falar sobre direitos que eram garantidos aos mais pobres, mas eram (e são) chamados de “subvenções” ou “subsídios” quando os benefícios eram (e são) ofertados aos mais ricos. Ele dizia que o sistema norte-americano era “um sistema socialista para os ricos e capitalista selvagem para os pobres”. Por essas e outras defesas de justiça social, o reverendo foi chamado de comunista. King disse que concordava com parte das análises de Marx, mas não se dizia um marxista. Um dia, em 1968, em entrevista ao jornal The New York Times, King disse que estava engajado em uma “luta de classes”. Foi assassinado um mês depois.

Martin Luther King Jr. pregava a “política do amor” e a não violência, no que seguia Gandhi, mas não significava que fazia uma política covarde e do não-confronto, posto que a ação direta, que também pregava, necessariamente, leva a confrontos e desorganizam a ordem pública pré-estabelecida pelos poderosos. A ordem das coisas, que não é natural, mas sim construída, espacial e historicamente, deve ser alterada, e quem está no topo social não costuma abrir mão de seus privilégios de modo tranquilo. A força, não raro, alertava King, era (e é) a única forma dos excluídos de serem ouvidos pelos detentores da ordem imposta. Não obstante, o ideal é usarmos a força do argumento e da ação coletiva vigorosa que não se deixa enganar nem explorar, bem entendido. Imitamos tanto os norte-americanos… por que não imitar esse exemplo? Silenciar é omitir-se e omitir-se é ser conivente, por inação.

A Maiêutica de Sócrates deve nos servir de método para conscientização das pessoas, ao inquirimos os outros sobre suas certezas acerca das histórias edulcoradas que o grande capital insiste em nos vender como democráticas, sem o serem. Já a Dialética de Marx pode nos servir de método analítico para entendermos, não a realidade completa, porque ela é, como toda teoria, insuficiente para que formemos uma visão abalizada sobre tudo, mas para que possamos entender o porquê de sermos explorados economicamente e como esse processo é realizado, levando-nos a superá-los. A História não pode ser uma totalidade absoluta hegeliana porque o porvir está para ser construído e mesmo o passado pode ser relido, à luz de novas descobertas e isso independente das novas ideias estarem ou não no ser; Aristóteles e Platão estavam, ambos, certos.

A luta social não pode ser apenas Metafísica. Contudo, de pouco isso adiantará se não conseguirmos motivar as pessoas a sair de sua zona de conforto para lutar, pacífica, mas convicta, solidária e generosamente, por melhores condições de vida. Luther King dizia: “chega uma hora em que o silêncio é uma traição à consciência do bem”. As diferenças não podem nos calar, tampouco nos fazer querer aniquilar o outro; é possível construirmos juntos, apesar de diferentes, uma nova sociedade.

Carlos Fernando Galvão, geógrafo e pós doutor em Geografia Humana, cfgalvao@terra.com.br



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