A frente ampla é para ontem - Le Monde Diplomatique

ENTRE FICAR NA TORCIDA OU FAZER POLÍTICA

A frente ampla é para ontem

por Marcos Nobre
1 de março de 2021
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Se a situação geral melhorar a partir de 2022 e Bolsonaro se reeleger, aumentam consideravelmente as chances de ele e seu clã se perpetuarem no poder e de que consiga colocar em prática em definitivo seu projeto autoritário a partir de um segundo mandato. Esse cenário catastrófico só poderá ser evitado com a formação de uma frente ampla

Dois mil e vinte e um será um ano muito ruim. Será novamente muito cruel em termos de sofrimento social e perda de vidas, e muito duro em termos econômicos e sanitários. Só que isso não tornará Jair Bolsonaro um candidato menos forte ou mais fácil de ser batido na eleição de 2022.

Pelo contrário, aliás. Com a possibilidade de um impeachment hoje mais distante, é muito provável que Bolsonaro chegue ao segundo turno. Tem a Presidência da República, tem base no Congresso, dispõe de uma esfera pública alternativa relevante, controla uma poderosa rede de desinformação, conta com o apoio de cerca de um terço do eleitorado, incluindo parte relevante das forças de segurança do país.

Chegando ao segundo turno, Bolsonaro terá boas chances de emplacar a demonização de qualquer adversário como representante do “sistema”, da “velha política”, e conquistar a reeleição. Mais que isso ainda: ele quase levou no primeiro turno na eleição passada, quando era apenas um entre muitos, quando não era ainda o presidente da República. Pode até mesmo vencer em primeiro turno em 2022.

Bolsonaro foi um candidato antissistema e é um presidente antissistema. Não pretende “governar para todo mundo”. Pelo contrário, isso seria, segundo ele, “velha política”. Ele governa apenas para “os bons brasileiros”. Ou seja, governa apenas para quem o apoia. Isso inclui quem concorda com o presidente que a pandemia foi uma fatalidade pela qual ele não deve ser responsabilizado.

Há ainda que lembrar o óbvio: avaliar que as perspectivas para este ano são ruins não significa que 2022 e os anos seguintes serão ruins. E se a situação geral melhorar a partir de 2022 e Bolsonaro se reeleger, aumentam consideravelmente as chances de ele e seu clã se perpetuarem no poder. Aumentam consideravelmente as chances de que consiga colocar em prática em definitivo seu projeto autoritário a partir de um segundo mandato.

Esse cenário catastrófico só poderá ser evitado com a formação de uma frente ampla. Não apenas para que Bolsonaro seja derrotado em 2022. Trump foi derrotado eleitoralmente em 2020 e nem por isso foi social e politicamente derrotado. Pelo contrário, aliás. 

Na democracia, para que alguém ganhe, é preciso que todas as demais forças aceitem perder. O PT teve de aceitar perder para o PSDB duas vezes. O PSDB aceitou perder para o PT três vezes. Não aceitou a derrota da quarta vez, em 2014. O desrespeito a essa cláusula básica da convivência democrática teve peso relevante no conjunto de fatores que impediram Dilma Rousseff de governar em seu segundo mandato. E as desgraças que se seguiram consolidaram um ambiente político em que nenhuma força política reconhece as outras forças como legítimas, como podendo legitimamente ganhar uma eleição e governar.

A destruição da convivência democrática foi fundamental para a eleição de Bolsonaro em 2018. E só será possível evitar sua reeleição e o fechamento do regime a partir de 2023 se houver uma repactuação mínima da democracia. Uma repactuação que impeça a repetição da série de pancadas, rasteiras e golpes de todos os tipos que aconteceram nos últimos anos e destruíram as bases de uma convivência democrática entre as forças políticas.

E, no entanto, apesar de toda a dramaticidade da situação, as forças políticas organizadas continuam a operar como se risco não houvesse. Fazem cálculos eleitorais como se não fosse muito concreta a ameaça de 2022 ser o último ano de eleições limpas no país. Como se, com a reeleição de Bolsonaro, não fosse muito real o risco do fim da liberdade de opinião e de reunião, do fim do funcionamento democrático das instituições, como se não estivesse no horizonte a própria eliminação física de qualquer oposição.

No campo da esquerda, as forças políticas com candidaturas competitivas para a eleição presidencial de 2022 são contra a formação de uma frente ampla. É o caso de Lula/Haddad. É o caso de Ciro Gomes. Essas forças só não são contra a ideia quando declaram que suas próprias candidaturas já são a frente ampla. As demais forças do campo da esquerda traçam suas táticas eleitorais na dependência da definição de Ciro e de Lula/Haddad.

O cálculo dessas duas candidaturas é muito semelhante. Para ganhar a eleição, é preciso primeiro conseguir manter seu eleitorado mais fiel, a começar pela parte mais mobilizada – nas redes apenas, neste momento de pandemia; depois nas ruas, quando for novamente possível. Para isso, é necessário repetir as candidaturas da eleição de 2018, partir do “recall” da eleição presidencial para chegar ao segundo turno em 2022. E cruzar os dedos para o resultado ser diferente. Mesmo as candidaturas sendo as mesmas. Mesmo tendo agora Bolsonaro na cadeira de presidente.

Para manter a parcela do eleitorado conquistada no primeiro turno em 2018, a candidatura Lula/Haddad precisa conseguir manter o Nordeste, principalmente. Precisará continuar a isolar Ciro, portanto. Para manter mobilizado seu núcleo duro de apoio, deve continuar a demonizar Ciro por sua atitude no segundo turno da última eleição. Já há alguns anos o PT está em modo de autodefesa por sua sobrevivência. Chegar ao segundo turno em 2022 significa para o partido eleger deputados, governadores e senadores, e assegurar alguma sobrevivência por mais algum tempo, com a esperança de se reerguer mais adiante.

Com o caminho à esquerda congestionado, com parte do eleitorado à esquerda fidelizado pelo PT, Ciro precisa acenar para a centro-direita, o que inclui não apenas se afastar do PT, mas acenar para o antipetismo. Ciro está convencido de que é o único à esquerda que pode derrotar Bolsonaro em 2022, porque acha que é o único que pode atrair o voto da centro-direita, justamente, e porque acha que o PT é incapaz de ganhar uma eleição em segundo turno.

Se já é difícil ver uma possibilidade de acordo dentro do campo da esquerda e de formação de uma frente de esquerda, com programa mínimo e ações coordenadas, mais difícil ainda parece ser um acordo em torno de uma frente ampla, que seria a reunião de uma frente de esquerda com uma frente da direita não bolsonarista. Porque, no campo da direita não bolsonarista, as forças políticas com candidaturas competitivas para a eleição presidencial de 2022 também são contra a formação de uma frente ampla. Não querem nem ouvir falar em ser vistos ou ouvidos conversando com o PT, por exemplo. Acham que isso fortaleceria o discurso bolsonarista de que seriam, na verdade, “comunistas”, “vermelhos”.

Arte com o imagem de Bolsonaro e a famosa frase: “E daí?” (Crédito: Unsplash)

Esse tipo de demonização funcionou muito bem em 2018 e nos segundos turnos das eleições municipais de 2020. O bolsonarismo é especialista nesse tipo de tática de combate. E a direita não bolsonarista sabe o tamanho do risco de ter esse tipo de campanha negativa contra si.

No entanto, as dificuldades no campo dessa direita são ainda maiores do que no caso da esquerda. Diferentemente do campo da esquerda, não há aí “recall” de candidaturas, não haverá repetição das candidaturas de 2018. Esse campo nem sequer sabe com que forças poderá contar, mal sabe dizer quem não vai aderir a Bolsonaro, simplesmente, porque precisa conseguir convencer seu eleitorado e as forças políticas que o representam de que vale a pena não aderir a Bolsonaro.

É razoável supor que Bolsonaro não conseguirá manter com ele os mais de trezentos deputados que votaram em Arthur Lira para a presidência da Câmara dos Deputados. Haverá muitas defecções. A questão é saber se a direita não bolsonarista terá organização suficiente para recepcionar esses “arrependidos”. A direita que pretende se distinguir de Bolsonaro e se opor a ele está em disputa interna para se organizar, uma disputa entre os nomes que pretendem representar esse campo. Essa luta interna ao campo permanece até agora indefinida, sem vencedores nem perdedores claros.

A organização da direita não bolsonarista é decisiva para que o atual presidente não se reeleja. É de interesse de qualquer pessoa que lute pela sobrevivência da democracia que ela se organize, porque, em um eventual segundo turno, quem vai decidir a eleição é o eleitorado “nem nem”: aquela parcela que nem rejeita nem apoia Bolsonaro. Em 2018, a maior parte desse eleitorado optou por Bolsonaro, que quase ganhou já em primeiro turno.

Se não houver candidaturas não bolsonaristas competitivas, a chance de uma decisão em primeiro turno aumenta muito. Além disso, caso a direita não bolsonarista não ganhe corpo, não haverá sequer com quem negociar apoio se uma candidatura de esquerda passar ao segundo turno contra Bolsonaro. Se houver segundo turno.

A esquerda vai para a eleição exatamente como foi em 2018. Sua tática corresponde exatamente à definição de insanidade segundo Albert Einstein: esperar resultados diferentes fazendo sempre as mesmas coisas. De seu lado, a direita não bolsonarista luta para existir, para construir uma alternativa à extrema direita no poder. Não se sabe se algo sairá daí, mas não se pode dizer que não existam forças políticas tentando tornar realidade esse polo não bolsonarista.

A esquerda não tem nem mesmo um acordo de apoio mútuo caso uma de suas candidaturas vá ao segundo turno. De outro lado, se a direita não bolsonarista conseguir viabilizar candidaturas competitivas e uma delas conseguir passar ao segundo turno contra Bolsonaro, precisará do voto da esquerda para vencer. Se estiver contando com um apoio automático da esquerda em um segundo turno contra Bolsonaro, pode sentar e esperar. A lição de 2018 é que o suicídio democrático parece a muita gente preferível a ver um adversário do campo democrático vencer. E, até o momento, isso vale tanto para a esquerda como para a direita.

A variável que poderia romper o imobilismo dos cálculos imediatistas de candidaturas e forças políticas seria a mobilização social. Que falta. Que impede que a pauta do impeachment seja colocada de maneira definitiva e incontornável.

A continuidade da pandemia nos impede de ir às ruas. Mas também os nós de mobilização social estão comprometidos em maior ou menor grau com alinhamentos partidários e com as lutas divisivas dos últimos anos – a grande e bem-vinda exceção sendo aqui talvez a novidade da Coalizão Negra por Direitos. É uma situação que reforça ainda mais a posição de poder dos partidos em seu cálculo imediatista e politicamente suicida.

No fundo, a estratégia das candidaturas dos campos da esquerda e da direita é bastante semelhante. Em um cenário de alta fragmentação, a ideia é partir de uma base em torno de 20% a 25% da votação para chegar ao segundo turno, demonizar o adversário e conquistar o voto no “menos pior”. Acontece que o craque da demonização é Bolsonaro. Agora, como presidente, terá ainda mais condições de impor a lógica “Bolsonaro contra a rapa”.

Resumindo: a esquerda está travada e dividida, a direita não bolsonarista nem sequer sabe se existe, muito menos consegue ter rumo claro. Na atual correlação de forças, nem mesmo um dos campos políticos sozinho, seja o da esquerda, seja o da direita, tem condições de enfrentar Bolsonaro. Muito menos uma candidatura isoladamente. E, ainda assim, ninguém acha que vai ganhar nada em conversar com outras forças políticas, mesmo aquelas que pertencem ao mesmo campo político. Se olharmos para as forças políticas tal como estão organizadas hoje, não se vê nenhuma perspectiva de romper com o imobilismo e construir a frente ampla.

Diante desse quadro, duas atitudes são possíveis. A primeira é torcer para que Bolsonaro perca a eleição e seja malsucedido no golpe que certamente tentará dar para se manter no poder caso seja eleitoralmente derrotado. É também uma torcida para que quem ganhe consiga governar dentro da democracia. É torcida, muita torcida, nada mais do que isso. Como se fosse futebol.

A segunda atitude é fazer política. Articular, e não torcer. Só essa segunda atitude está à altura da tarefa histórica premente de preservar minimamente a democracia. Na atual correlação de forças, essa atitude exige construir uma frente ampla. Mesmo que hoje esse caminho pareça obstruído, travado e difícil, ainda não surgiu outro que possa de fato evitar o desastre.

Os paradoxos são tantos que, até mesmo para que as forças do campo da esquerda possam de fato conversar entre si, seria preciso trazer as forças políticas não bolsonaristas para a mesa. Para fulanizar a discussão: Ciro e Lula só conversarão de verdade e procurarão algum tipo de acordo se a direita não bolsonarista estiver na mesa. Só um diálogo para a formação de uma frente ampla pode impedir o campo da esquerda de caminhar para mais uma disputa autodestrutiva em 2022. Já a direita não bolsonarista está hoje tão fragilizada e dividida que, paradoxalmente, talvez não consiga se erguer sozinha se não for escorada pela esquerda no ambiente de uma frente ampla.

Não existe quem goste de ter de se sentar para negociar com quem trapaceou, enganou, traiu e golpeou. A necessidade de fazer isso dá a dimensão de nossa desgraça histórica, que pode ser ainda maior se decidirmos torcer em lugar de fazer política.

Por fim, pode haver quem lembre que formar a frente ampla significa justamente jogar gasolina na fogueira antissistema de Bolsonaro. De fato, é isso que vai acontecer. Só que acontecerá de qualquer maneira, com ou sem a formação da frente ampla.

Bolsonaro é o único que conseguiu até agora convencer a parcela antissistema do eleitorado. Quem quer que chegue ao segundo turno contra ele será demonizado como “sistema”, como “velha política”. Quem tentar escapar dessa armadilha cairá nela com ainda maior rapidez.

Como presidente no exercício do mandato que se apresenta para a reeleição, é Bolsonaro quem dá as cartas, é sua Presidência que organiza a disputa. Na situação atual, isso pode servir para reorganizar o campo democrático na oposição a ele, ou levar à destruição da democracia. Se a opção for pela destruição, basta não fazer nada. Se, ao contrário, a opção for preservar minimamente a democracia, a construção da frente ampla é tarefa para ontem.

*Marcos Nobre é professor da Unicamp e presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).



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