PARA MUITOS POVOS, O MUNDO JÁ ACABOU

A gramática da catástrofe e o fim do mundo

De que mundo estamos falando quando falamos do fim do mundo?

Há muito tempo aprendemos a reconhecer o fim do mundo. Ele tem uma gramática.

No Apocalipse, chega a cavalo. Conquista, guerra, fome e morte atravessam a Terra como sinais de que o tempo se esgota. A literatura cristã ocidental transformou essa gramática da catástrofe em uma poderosa narrativa de futuro: haverá um dia em que aquilo que conhecemos terminará. Um último dia. Um último julgamento. Um último mundo.

Séculos passaram e continuamos reconhecendo os cavaleiros.

Eles atravessam cidades bombardeadas, campos devastados, rios secos, florestas incendiadas. Chegam com a fome, as epidemias, os deslocamentos forçados, as violências que se acumulam e se sobrepõem. Mudam os cavalos, as armas, as fronteiras, as tecnologias. A gramática permanece. Guerra, fome, peste, seca, morte. E agora, a emergência climática.

A profecia parece estranhamente familiar porque o fim do mundo nunca pertenceu apenas ao futuro.

Em um conto de Dezső Kosztolányi[1], Kornél Esti pergunta a seu interlocutor se ele costuma sonhar com o fim do mundo. A resposta surpreende menos pela frequência do que pela naturalidade. Cinco ou seis vezes por ano ele acaba com o mundo em seus sonhos. E conclui: “Parece que precisamos disso.”

Precisamos imaginar o fim.

A literatura faz isso há séculos. O cinema, a tv e as redes sociais, há menos tempo, porém, com majestática habilidade. Narram o fim, destroem cidades, exterminam civilizações, inventam dilúvios, pestes, alienígenas, monstros e guerras. Derrubam o céu para experimentar o que restaria depois. Kosztolányi parece compreender que imaginar o fim também é uma maneira de pensar sobre o mundo que construímos.

Julio Cortázar[2] escolhe outro caminho. Em O fim do mundo do fim, o apocalipse perde solenidade e ganha burocracia. A humanidade escreve. Escreve cada vez mais.

Os leitores tornam-se escribas. Multiplicam-se as fábricas de papel e tinta. Os escribas trabalham durante o dia, as máquinas imprimem durante a noite. A produção cresce até ocupar o espaço disponível. Livros acumulam-se, invadem territórios, chegam ao mar.

Cortázar inventou uma imagem quase perfeita do nosso tempo.

Produzir tornou-se uma espécie de prova de existência. Produzimos textos, dados, relatórios, mercadorias, indicadores, imagens, resíduos, informações, metas, avaliações. Criamos os produtores de conteúdo, como se alguém produzisse algo sem ele. Nunca escrevemos tantas mensagens, stories e reels. Produzimos conhecimento e também ruído. Registramos a vida enquanto a vida acontece. Medimos o mundo enquanto o consumimos.

No conto, quando os livros finalmente ocupam espaço demais, encontra-se uma solução perfeitamente racional: lançá-los ao mar. Enquanto isso, presidentes das repúblicas refugiam-se em transatlânticos transformados em ilhas, celebrando grandes festas e trocando mensagens entre si. Na Terra, os escribas sobrevivem precariamente.

É difícil encontrar uma metáfora mais adequada para uma civilização capaz de produzir as condições de sua própria destruição e continuar chamando esse movimento de progresso. Aqui podemos enxergar os bilionários dos combustíveis fósseis e dos data centers, as fazendas de sacrifício de milhões de animais criados para nos alimentar.

Durante muito tempo, aprendemos que a história caminhava para a frente. Desenvolvimento social, crescimento econômico, ciência e tecnologia pareciam conduzir inevitavelmente a mais conhecimento, mais conforto, mais liberdade, mais futuro. A própria ideia de progresso organizou uma linha do tempo na qual alguns povos estavam adiante e outros permaneciam atrás. Os que viviam de outras maneiras receberam nomes conhecidos: atrasados, primitivos, arcaicos, subdesenvolvidos.

O problema dessa linha é que ela termina sempre no mesmo lugar.

Existe um único destino desejável, uma única forma de desenvolvimento, uma única relação possível com a natureza, uma única ideia de riqueza, uma única medida de sucesso. Para chegar até lá, florestas podem cair, rios podem morrer, povos podem desaparecer. Tudo cabe na contabilidade do progresso.

É uma curiosa pedagogia do fim do mundo. Ensina-se que destruir certos mundos é o preço necessário para construir o mundo. Por isso a pergunta precisa mudar. De que mundo estamos falando quando falamos do fim do mundo?

Para muitos povos, o mundo já acabou. Acabou quando perderam seus territórios. Quando suas línguas desapareceram. Quando suas crianças foram arrancadas de suas comunidades. Quando seus conhecimentos foram tratados como superstição. Quando seus deuses receberam o nome de demônios. Quando suas maneiras de viver foram transformadas em atraso e suas terras, em recursos.

Crédito: Free Malaysia Today

O fim do mundo, para milhões de pessoas, nunca foi uma hipótese distante. É experiência histórica e ameaça cotidiana: o desaparecimento de línguas, culturas, cosmovisões, práticas, saberes, territórios, identidades e, no limite, dos próprios corpos.

É por isso que Ailton Krenak[3] respondeu de maneira tão desconcertante quando lhe perguntaram, em 2018, como os povos indígenas sobreviveriam àquilo que se anunciava no Brasil. Há quinhentos anos os povos indígenas resistem, respondeu. Sua preocupação era outra: como os brancos escapariam dessa?

A resposta-pergunta, astuta e disruptiva, inverte a gramática da catástrofe.

Quem imaginava estar conduzindo a humanidade ao futuro descobre-se incapaz de garantir o próprio futuro. Quem foi inúmeras vezes declarado condenado ao desaparecimento conhece há séculos tecnologias de sobrevivência, memória e resistência.

O fim do mundo muda de lugar. E muda também de tempo.

Ele deixa de ser apenas o grande acontecimento futuro que encerrará a história e passa a ser compreendido como experiência repetida. Mundos acabam todos os dias. Alguns desaparecem silenciosamente. Outros sobrevivem porque alguém conta uma história, ensina uma língua, preserva uma memória, planta novamente, canta, dança, escreve, cuida, lembra.

É nesse ponto que a gramática da catástrofe encontra outra gramática: a gramática do adiamento.

Ailton Krenak propõe adiar o fim do mundo ampliando nossa experiência, reconhecendo outras formas de estar aqui, contando mais uma história. Adiar significa abrir espaço para outros presentes e, com eles, outros futuros. Chama atenção para essa possibilidade de ampliar o presente, retirando do futuro único o poder de condenar todas as experiências que seguem outros caminhos.

É aqui que entram as escolas.

Todos os dias, milhões de crianças e jovens entram em salas de aula levando mundos consigo. Levam histórias de suas famílias, territórios, religiões, culturas, músicas, medos, desejos, conhecimentos, palavras e perguntas. Encontram professores que também carregam seus mundos. E dessa conversa, sempre imperfeita, surgem conhecimentos que nenhum documento curricular conseguiria prever por inteiro.

Currículo é também isso: o encontro entre mundos, o fim de uns mundos e o sonho com outros. Sonhar com outros mundos possíveis é parte do currículo escolar todos os dias.

Uma professora altera o planejamento porque uma criança fez uma pergunta. Uma história contada por uma avó entra na sala. Um evento climático extremo na cidade muda a aula. Uma palavra desconhecida obriga todos a pesquisar. Um conflito exige conversa. Uma memória reaparece. Um conhecimento que permanecia do lado de fora encontra lugar.

São acontecimentos pequenos diante dos cavaleiros do Apocalipse.

Ainda assim, carregam uma enorme força política.

A escola pode funcionar como máquina de repetição da história única, ensinando que existe um conhecimento legítimo, uma cultura superior, um caminho correto e um futuro já desenhado. Também pode transformar-se em lugar onde muitas histórias encontram condições de existir. Contar histórias é também enfrentar genocídios porque todo genocídio começa ou se completa tentando apagar histórias.

Essa segunda escola interessa especialmente quando o mundo parece diminuir.

Nos cotidianos escolares, professores criam currículos aproveitando as ocasiões que aparecem, inventando aquilo que cada circunstância pede e possibilita. Seus currículos são feitos de conhecimentos pessoais, sociais e culturais colocados em conversa. É nessa criação cotidiana que a escola amplia o mundo em vez de reduzi-lo.

Podemos chamá-las de escolas da gramática do adiamento.

Uma escola que conta para conhecer e conta para existir. Que entende cada história como presença e cada presença como possibilidade de mundo. Uma escola capaz de ensinar que nenhuma narrativa esgota a experiência humana e que o futuro permanece aberto enquanto pudermos imaginar mais de um.

Contar histórias, nesse sentido, é enfrentar apagamentos.

É guardar mundos e adiar seu fim.

É oferecer às crianças aquilo que toda gramática da catástrofe tenta sequestrar primeiro: a possibilidade de imaginar futuro.

Há uma ironia bonita em voltar, então, a Cortázar. Seus escribas escreveram tanto que acabaram soterrados pela própria escrita. As escolas da gramática do adiamento fazem outro movimento. Escrever para circular. Contar para encontrar. Escutar para aprender. Guardar aquilo que merece atravessar o tempo e abrir espaço para aquilo que ainda não foi contado.

Porque o fim do mundo é antigo. A sabedoria está em aprender a adiá-lo.

Krenak lembra que povos submetidos a sucessivos fins do mundo continuam aqui. Empurraram o céu para cima, produziram resistência, preservaram histórias e inventaram maneiras de continuar. Em nossos trabalhos sobre educação, essa imagem já nos levou a pensar escolas e outros espaços educativos como lugares capazes de empurrar o céu para cima e adiar o fim do mundo.

Essa é uma das tarefas mais bonitas da educação.

Ensinar que o mundo pode ser contado de muitas maneiras.

Fazer circular histórias que sobreviveram às tentativas de apagamento.

Criar condições para que histórias ainda desconhecidas possam nascer. Assim fizemos nas escolas, quando, ainda recentemente, a pandemia de Covid acabava com o mundo de forma catastrófica e, nas escolas, tentávamos adiar seu fim, fosse contando sobre os vivos, ou homenageando os mortos.

E, enquanto os velhos cavaleiros apocalípticos continuam atravessando o presente, manter aberta uma escola onde caibam muitos mundos é uma gramática anti-catástrofe.

Contar mais uma história pode ser apenas isso: adiar o fim do mundo por mais um dia.

 

Este artigo foi produzido a partir de pesquisas desenvolvidas pela autora sobre currículos e cotidianos escolares e retoma e atualiza reflexões presentes nos artigos “Ecologia de saberes, para adiar o fim da escola”, “O fim do mundo do fim” e “Três tardes (Ou contar histórias é enfrentar genocídios!)”.

 

Maria Luiza Süssekind é professora e pesquisadora com doutorado em Educação.

 

[1]KOSZTOLÁNYI, Dezső. O fim do mundo. In: KOSZTOLÁNYI, Dezső et al. Contos húngaros. São Paulo: Hedra, 2010.

[2] CORTÁZAR, Julio. Fim do mundo do fim. In: Histórias de cronópios e de famas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.

[3] KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

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