A ira dos deuses - Le Monde Diplomatique

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A ira dos deuses

por Augusta Conchiglia
1 de julho de 2002
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Livro de escritor angolano é uma deliciosa sátira social, crítica da corrupção e da indiferença de uma elite que virou as costas ao seu povoAugusta Conchiglia

No seu segundo romance publicado na França1, o escritor angolano Pepetela abandona a narrativa histórica para nos oferecer uma deliciosa sátira social. L?esprit des eaux foi escrito em plena crise, quando estavam ocorrendo os fatos em que se inspira: o fim do regime de partido único e o início de uma liberalização econômica tão brusca quanto desenfreada e que lembra as perturbações no antigo bloco comunista da Europa Oriental.

No início da década de 90, Angola preparava-se para realizar suas primeiras eleições democráticas em decorrência dos acordos de paz assinados com a rebelião armada. Nessa transição para o desconhecido, algumas pessoas descobrem, no entanto, energias insuspeitas e reciclam-se com empenho. No centro da história, encontra-se um jovem casal de moradores da capital. São eles: João Evangelista e sua mulher, conhecida pelo apelido de Carmina Cabeça de Cacto (CCC). Militante dedicada do partido único, do qual é funcionária, “CCC” fica inconsolável com o sucessivo abandono dos dogmas de antigamente, deprimida pelas concessões do poder. Por trás dessas concessões acredita, aliás, perceber as insidiosas manobras da CIA norte-americana…

A “síndrome” de Luanda

Os fatos inspiram-se na crise provocada pelo fim do regime de partido único e início de uma liberalização econômica tão brusca quanto desenfreada

Entretanto, ficará boa bem depressa. Tendo como “capital” inicial sua agenda de endereços, onde estão catalogados os nomes dos membros da cúpula política, CCC transforma-se, num abrir e fechar de olhos, em mulher de negócios. Até estaria, inclusive, na linha de frente desses novos empresários que se tornariam ricos com as ações que transformam em retalhos os bens do Estado. Carmina, que nesse meio tempo, conseguiria ser eleita para o Comitê Central – porque, como admite, “o político e os negócios se completam” -, lança-se com sucesso no setor de importações. Especialmente na importação de armas, de que se tem grande necessidade após a retomada do conflito desencadeado pelos antigos rebeldes, maus perdedores das eleições. Enquanto os negócios de CCC prosperam, seu marido, João, não aprova essa virada e se fecha em sua nova paixão: um jogo de estratégia no computador de nome revelador, o “Império Romano”, em que um simples centurião se deve elevar à condição de César…

Mas a capital está às voltas com um estranho fenômeno. Um após outro, os grandes edifícios de Kinachichi, em volta do mercado do centro da cidade, se desmoronam suavemente, como castelos de cartas. Os locatários e seus bens encontram-se no chão, submersos por nuvens de poeira. Seu destino de novos sem domicílio fixo – SDF – não comove as autoridades. Enquanto cientistas vindos de toda parte são incapazes de esclarecer a “síndrome” de Luanda, Carmina está convencida de que se trata de obra de sabotadores, sempre prontos a agir a serviço de interesses ocultos.

Crítica à corrupção e à indiferença

Luanda está às voltas com um estranho fenômeno: um após outro, os edifícios em volta do mercado desmoronam suavemente, como castelos de cartas

Tal como a classe política que a cerca, Carmina não percebe as lamentações de Kianda, o espírito das águas. É ele que abala dessa forma os edifícios construídos sobre uma lagoa seca, seu antigo domínio. A revolta da divindade Kianda, mito popular de Luanda e que a influência cultural portuguesa acabou, injustamente, identificando com uma sereia, é aqui o presságio de outras reivindicações.

Essa crítica da corrupção e da indiferença de uma elite que virou as costas ao destino de seu próprio povo atinge seu objetivo, principalmente porque emana de um homem que foi até o fim em seu engajamento pela liberdade de Angola. Esse neto de portugueses instalados em Benguela há dois séculos foi guerrilheiro desde o fim da década de 60 e vice-ministro da Educação após a independência. No entanto, não se deve ver em L?esprit des eaux um livro de desespero. Este escritor prolífico que, em 1997, recebeu o Prêmio Camões, a mais alta distinção concedida em Portugal aos escritores de língua portuguesa, continua a acreditar no renascimento de seu país.
(Trad.: Iraci D. Poleti)

Referência
L?Esprit des eaux, de Pepetela, traduzido do português por Michel Laban, Actes Sud, coleção “Áfricas”, ed. Arles, 2002, 160 páginas, 13,90 euros (35 reais).

Augusta Conchiglia é jornalista.



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