“A juventude sempre será a força motora das grandes mudanças” - Le Monde Diplomatique

Entrevista

“A juventude sempre será a força motora das grandes mudanças”

por Juan Manuel P. Domínguez
16 de fevereiro de 2020
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Eduardo Suplicy, com quase 79 anos, hoje é um dos pré-candidatos do PT para prefeito de São Paulo nas próximas eleições de outubro. Vale lembrar que Suplicy foi o primeiro candidato a prefeito pelo PT, também em São Paulo, em 1985, em uma eleição marcada pela volta do direito da população de eleger seu prefeito após 20 anos e teve. A disputa foi com Fernando Henrique Cardoso (PMDB), Jânio Quadros (PTB), entre outros. Aquela campanha será lembrada por um ato falho de FHC, que sentou na cadeira do então prefeito Mário Covas, antecipando uma possível vitória. Como resultado final FHC perdeu por pequena diferença para Jânio Quadros que logo declararia “Estou desinfetando essa poltrona porque nádegas indevidas a usaram”. Eduardo Suplicy finalizou em terceiro lugar, com 827.563 votos e um percentual final de 19%. Luiza Erundina concorreu como vice-prefeita em sua chapa.

Em Janeiro de 2020, Suplicy chamou Eliane Dias, advogada e empresária dos Racionais Mc’s, para ser ela a candidata a prefeita e ele ir como vice na chapa para a disputa eleitoral em outubro. Suplicy destacou o fato dela ser mulher, negra e de ter um histórico de luta contra o racismo e pela promoção da igualdade social entre mulheres e homens. Eliane acabou por recusar a proposta e por entender que seria melhor o partido se organizar com mais tempo para estimular mais mulheres das periferias a serem candidatas.

Recentemente, a presidenta nacional do PT, Gleisi Hoffmann, declarou-se contra a realização de prévias para a definição do candidato a prefeito em São Paulo. Suplicy escreveu como resposta nas suas redes sociais: “Nos 40 anos de vida no PT, a experiência me mostrou que o intenso debate de ideias no processo democrático das prévias, previsto em nosso regimento, além de saudável, contribuiu para o fortalecimento do partido e nos levou a inúmeras vitórias”. Recentemente o ex-presidente Lula anunciou-se favorável a uma candidatura de Fernando Haddad e Marta Suplicy como a chapa ideal do partido para disputar a prefeitura de São Paulo. Haddad aparece nas pesquisas internas como o melhor nome para chegar num segundo turno na eleições.

Renda básica

No mês de Janeiro do ano 2004, durante o governo do presidente Lula da Silva, foi sancionada a Lei 10.835, ou renda básica de cidadania, proposta por Suplicy e aprovada pelo Congresso. A lei estabelece que todos os brasileiros e estrangeiros residentes há pelo menos cinco anos no país devem receber um benefício monetário suficiente para atender às despesas mínimas com alimentação, educação e saúde. A renda básica tornou-se um ícone na trajetória do vereador. “Ela é uma renda suficiente para que todos possam prover suas necessidades vitais. Assim é que vamos reduzir as desigualdades no Brasil. É o direito de todas e de todos a participar da riqueza da nação. Nos EUA, em 1982, o Alasca adotou uma renda básica universal. Resultado: deixou de ser o mais desigual dentre os estados norte-americanos para se tornar um dos mais igualitários”, escreveu Suplicy recentemente em suas redes sociais.

Eduardo Suplicy (Foto Giuliano Magnelli)
Eduardo Suplicy (Foto Giuliano Magnelli)

Após mais de vinte anos, a renda básica segue sendo uma luta atual para você, como se encontra essa situação?

Brasil foi o primeiro país no mundo que aprovou uma lei nesse sentido. Para que seja instituída, passa por etapas e a critério do poder executivo, começando pelos mais necessitados, como os beneficiário do “Bolsa Família” e até que consigamos fazer dela um direito universal. Em 2019, na câmara municipal de São Paulo tivemos uma excelente audiência pública para tratar sobre o projeto de lei que o ex-prefeito Fernando Haddad encaminhou no último dia da sua gestão, em dezembro de 2016, para gradualmente instituir a implementação da renda básica na cidade de São Paulo. A renda básica é a primeira chave que precisamos para reduzir definitivamente os níveis de desigualdade que existem no nosso país. Ela é hoje debatida em mais de 40 países ao redor do mundo. E não estamos falando só de países da periferia do sistema capitalista. Estamos falando de todos aqueles países, incluindo os do primeiro mundo, que entenderam a importância de reduzir as brechas entre seus cidadãos, é algo fundamental para construir uma harmonia e uma paz social sólida e permanente.

Durante toda sua carreira você mantém um laço muito forte com a juventude, você percebe neles uma força política determinante?

Os jovens sempre tem enorme vontade de pensar, de conhecer e de tomar iniciativas. Eu acho muito bom e necessário ter interação com os jovens. Eles sempre tem afinidade e vontade de aprender as ideias de como melhorar o Brasil e o mundo. Como realizar justiça, fraternidade e solidariedade na nossa cidade e no nosso Brasil. A juventude sempre será a força motora das grandes mudanças. Temos que seguir a direção que esses jovens estão tomando, ouvir suas inquietudes, pensar o porquê é que estão pedindo o que estão pedindo. É um erro grave desse novo governo federal achar que você pode criar um dique para conter as reclamações das novas gerações. As novas gerações sempre serão as que nos marcam o rumo a seguir.

Já foi visto em vários shows da banda Racionais e em outros festivais de rock e hip hop. O que poderia falar sobre isso?

Eu avalio que as canções de hip-hop e rap tem muito a nos ensinar porque elas transmitem exatamente o que os jovens de hoje, sobretudo nas áreas periféricas, sentem, e tem como ideais e objetivos. Acredito que seria difícil para eles se fazer ouvir de outra forma. A política tradicional só se aproxima de aqueles lugares com fins proselitistas. Porém, nos shows de bandas como Racionais se respira um ar de fraternidade, é uma energia muito boa de ser experimentada. As letras são representativas das suas ansiedades, das carências e das vivências de toda uma classe social muito ampla no nosso país, que sofre com a violência do estado, com a estigmatização que se faz deles desde as mídias e outros setores conservadores. O Hip-Hop, o Rap, e esses festivais, assim como outras expressões artísticas tem sido para eles um veículo de escape para essa história à que estavam destinados.

Como vê o futuro da esquerda de cara às próximas eleições?

É muito importante que os partidos progressistas e de esquerda venham a interagir, a se unir, na medida do possível, e até para essas próximas eleições, que cada um dos partidos PT, PSOL, PCdoB, PDT e todos os outros do campo da esquerda progressista se alinhem para chegarmos unidos às próximas eleições. É necessária uma frente sólida, progressista e democrática. É a reclamação da sociedade hoje. De outro modo será muito difícil enfrentar a essa direita conservadora. É preciso uma revitalização das esquerdas, abrir os espaços cada vez mais.



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