A pílula da obediência - Le Monde Diplomatique Brasil

RECEITA MÉDICA PARA O SUCESSO ESCOLAR

A pílula da obediência

por Julien Brygo
3 de dezembro de 2019
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Originalmente, esse remédio deveria ser destinado apenas às crianças “hiperativas”, uma patologia relativamente rara. Contudo, depois de alguns anos, nos Estados Unidos a Ritalina poderia ser prescrita a qualquer criança um pouco bagunceira. Após inundar o mercado norte-americano, a pílula milagrosa se espalha pela França

No sábado, 13 de abril de 2019, em Paris, Claire Leblon, chefe de equipe em um grande hotel na região de Paris, sentou-se mais uma vez na sala de espera para uma consulta de rotina na psiquiatria infantil com Niels, seu filho de 11 anos. Em poucos minutos, o garoto estava em frente ao médico, respondendo perguntas sobre seu “desempenho escolar” e seu “comportamento”. Após alguns minutos sentado, o menino começa a se mexer, levanta-se, senta-se de novo e então pega o smartphone da mãe para ver fotos de cidades, sua paixão do momento – passadas as fases das luminárias, das latas de lixo e dos caminhões.

Plaft: o celular cai no chão. Claire se irrita; sua voz sobe de tom. Para ela, a cena é mais uma prova de que seu filho é diferente, impossível, incorrigível. Alguns anos atrás, ela encontrou a palavra adequada para isso: ele é “hiperativo”. E assim ele iniciou seu tratamento. Seu mau comportamento o torna insuportável, tanto em casa quanto na escola.

Ela havia ido bater à porta certa. O médico, cuja voz pode ser ouvida do outro lado da parede, tem fama de ser uma “referência na área”, sussurra ela. Assíduo convidado das rádios nacionais, Gabriel Wahl publica frequentes artigos na imprensa médica e geral. Ele assina muitos livros sobre seus temas favoritos, entre os quais se destacam o fracasso escolar, a precocidade e o famoso transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH). Seu remédio milagroso: Ritalina, medicamento derivado de uma molécula sintetizada em 1944 por um químico italiano, Leandro Panizzon. Diz a história que Panizzon desenvolveu o produto para sua esposa, Margarida (apelidada de “Rita”), a qual desejava melhorar sua concentração – e o desempenho no tênis. Nesse dia, todos os pacientes do Dr. Gabriel deixaram o consultório com uma receita de psicotrópicos em mãos.

A Ritalina é composta por cloridrato de metilfenidato, um derivado de anfetaminas que aumenta a produção de dopamina no cérebro. A molécula tem a missão de libertar adultos e crianças de uma lista impressionante de imperfeições, da irritante tendência a se aborrecer diante de tarefas tediosas à rejeição pura e simples da autoridade, passando pela desatenção e pela desconcentração. O medicamento é um dos principais produtos do laboratório Novartis (cujo volume de negócios foi de US$ 52 bilhões em 2018). Conhecida como smart drug [droga da inteligência], “pílula da obediência” ou kiddy coke [cocaína para crianças], o psicoestimulante deve melhorar o desempenho intelectual do paciente e fornecer a pais e professores crianças maleáveis. “A Ritalina não cura nada. Ela é um paliativo, não uma cura: apenas suspende os sintomas da desatenção”, admite o Dr. Gabriel. “Não há cura para o TDAH, que é um distúrbio biológico transmitido pelos genes.”1

Na França, cerca de 62 mil pessoas com menos de 20 anos – a maioria meninos de 6 a 17 anos – usaram metilfenidato em 2016.2 Como a maioria de seus colegas “hiperativos”, Niels toma os comprimidos apenas nos dias de escola. O modo de difusão do remédio, “de liberação prolongada”, foi projetado para que ele tenha efeito garantido exatamente das 8h às 16h. “Quando uma criança perturba, a classe toda fica prejudicada”, insiste o Dr. Gabriel. Graças à sua poção mágica, não há mais necessidade de punições ou de truques pedagógicos para controlar os meninos maluquinhos. As meninas, mais predispostas por sua educação a não causar perturbações em termos físicos, são mais frequentemente diagnosticadas com um simples TDA, o transtorno de déficit de atenção sem hiperatividade.

Na França, a prescrição do metilfenidato explodiu: ele é consumido trinta vezes mais hoje do que era em 1996, quando foi lançado. Em 2017, o medicamento vendeu 810 mil caixas, quatro vezes mais que em 2005. E há quem considere que o mercado ainda não está inundado o bastante: “40 mil crianças tratadas [em 2014] é pouco”, acha, por exemplo, o jornal Le Figaro, lamentando que “centenas de milhares de crianças não possam contar com o tratamento que deveriam receber”.3 O site Allô Docteurs também adverte: “A Ritalina não está sendo suficientemente prescrita” (5 set. 2017). Claire Leblon vai direto ao ponto: “Nós damos isso a ele para ter um pouco de paz, pois assim ele obedece, vai bem nas aulas e tem boas notas. Nós éramos chamados na escola todo dia! Mas não faz mais efeito, ele se sente angustiado, então vamos parar”.

 

Anfetaminas para crianças

Não há estudos sobre os efeitos de longo prazo do metilfenidato sobre crianças.4 O que preocupa Claire, e é confirmado pelo Dr. Gabriel, com a fleuma habitual dos grandes médicos: “Sim, pode haver problemas relacionados ao sono, ao apetite, dores abdominais… Mas o medicamento é prescrito em 75 países, foi descoberto há mais de setenta anos. Não existe aventura humana sem riscos. É um medicamento que não causa nenhum dano e não cria nenhuma dependência. O metilfenidato permite salvar vidas, principalmente de pessoas que não conseguem se concentrar e não vão bem na escola”. Como uma aluna “com um altíssimo quociente de inteligência” que não conseguia se concentrar adequadamente nos estudos e viu, “de um dia para o outro”, suas médias passarem de 4,5 para 8. Ou o “grande médico” de Lyon que “declarou explicitamente que, se seu filho não tivesse tomado Ritalina, não teria sido capaz de estudar medicina e se tornar cirurgião”. O que não falta ao Dr. Gabriel são casos para contar. “Para meus pacientes, iniciar o tratamento é como ligar o aquecedor no inverno, abrir o guarda-chuva debaixo de chuva ou colocar óculos quando se é míope. Vá falar com eles sobre o Kentucky, o social, isso e aquilo outro… Eles não estão nem aí.”

Por que o Kentucky? Porque é o estado dos Estados Unidos com a maior taxa de crianças diagnosticadas como hiperativas: 14,8%, de acordo com o Center for Disease Control and Prevention (CDC), que se baseia nas declarações dos pais. Uma em cada dez crianças está sob medicação.5 Em alguns condados, como o de Henderson, no oeste do estado, um quarto das crianças em idade escolar declarou à escola ter recebido o diagnóstico de TDAH. Isso coloca o Kentucky e seus 4,5 milhões de habitantes na primeira posição mundial em termos de medicalização de crianças por déficit de atenção. No total, em 2017, mais de 20 milhões de norte-americanos tomavam psicoestimulantes, sendo 16 milhões adultos – 5 milhões deles de forma ilegal – e 4 milhões de crianças.6 Os estados do oeste e do sul, rurais e industriais, são mais afetados do que o resto do país. A Ritalina e seus concorrentes, principalmente o Adderall (Shire Lab), são classificados como narcóticos de nível 2, mesma classificação dada à cocaína.

Domingo, 29 de setembro de 2019, Lexington, Kentucky. Diversas rodovias, uma sucessão de lojas e, no fundo de uma área residencial, a biblioteca Beaumont. Jesse Dune e seus dois filhos vieram pegar livros para a semana. “Esse recorde mundial não me surpreende nem um pouco”, afirma a farmacologista de 39 anos, que trabalha no hospital universitário. “É um estado muito conservador; nunca falamos sobre as emoções, os sentimentos das crianças. Preferimos dar um comprimido, é mais fácil. Na Califórnia, é o contrário: ser criativo e hiperativo não o coloca sob suspeição. Aqui, é um distúrbio amplamente sobrediagnosticado, principalmente entre os meninos.”

Com ela, nesta manhã, está Elizabeth, 11 anos, calma como um lago. “Minha filha sempre foi precoce; ela leu antes de todo mundo. Passa a vida lendo. Mas, à noite, não era administrável. Nunca comia com calma junto comigo e o pai. Eu trabalho 50 horas por semana, tenho um trabalho que me absorve muito e à noite estou exausta. Além disso, ela tinha ideias mórbidas, dizia coisas como: ‘Eu queria nunca ter nascido, mamãe’. Isso me partia o coração. Então consultamos vários médicos e, quando ela tinha 7 anos, começamos a dar o Concerta [um concorrente da Ritalina]. Ela toma o medicamento sem pausa desde então, inclusive nas férias e finais de semana. Quando tentamos parar, suas notas caíram. É muito difícil, como pai ou mãe, dar anfetaminas a um filho, mas sentimos que não temos escolha.”

Todo mês, Jesse precisa marcar uma consulta com o médico para renovar seu estoque. “Somos autorizados a comprar apenas o suficiente para trinta dias, então todo mês eu preciso ir ao psiquiatra infantil renovar a receita. Depois tenho de ligar para a farmácia com quatro dias de antecedência, mostrar meus documentos… É muito controlado, por causa das pessoas que vendem clandestinamente para estudantes.”

 

Ingresso para a categoria dos superdotados

Segundo um estudo realizado em 2008 por uma grande universidade do sudeste dos Estados Unidos, 34% dos estudantes do país usaram o metilfenidato para estudar.7 Shannon,8 que cursa Administração, se espanta: “Só isso? Eu diria mais, muito mais. Aqui é pelo menos 70%, se quer saber minha opinião. Todo mundo que eu conheço toma”. No campus da Universidade de Kentucky, em Lexington, nada pode ser mais fácil do que encontrar o metilfenidato. “Quando tomo Concerta, fico superconcentrada. Ontem tomei às 2 da tarde e estudei até 1 da manhã, sem comer. Paguei US$ 8 por 27 miligramas, por meio de um grupo de discussão na internet. É muito simples”, garante Maya, de 19 anos, que, com o olhar vidrado e a tez pálida, acaba de sair da prova de Psicologia. “Sou a primeira pessoa da minha família a ir para a universidade. Não tenho escolha: preciso ter 100% de sucesso. De onde eu venho, no norte do Kentucky, ninguém faz faculdade, nem quem é bom no basquete.” Pagando US$ 13 mil por semestre na UK, a jovem não hesita em “usar todos os recursos possíveis”.

Uma situação “perigosa”, segundo Matthew Neltner, médico universitário que atua na unidade de saúde mental estudantil da UK. “O argumento de que os psicoestimulantes não levam à adição parece o discurso sobre os opioides: foi exatamente assim que a crise começou! Quando fica sem Ritalina, a pessoa se sente deprimida, cansada, dorme o dia todo e não tem motivação para nada.” Ele diz que muitos pacientes vêm se consultar e de cara já dizem sofrer de TDAH: “Ninguém me diz ‘sou bipolar’ ou ‘estou com depressão’. Não é sexy. Os estudantes não querem saber de terapias comportamentais, mesmo que sejam eficazes, ou de soluções mais simples, como fazer exercícios. Mas correr, sair e praticar esportes são ações que curam a hiperatividade”. Em sua unidade, Neltner diz: “Tente não exagerar: nós nos baseamos no [manual de diagnóstico] DSM-5, o qual estabelece que 5% das crianças e 2,5% dos adultos têm TDAH”.9

Nos Estados Unidos, sofrer de TDAH pode até mesmo chegar a ser desejável, pois equivale a um ingresso para a categoria dos superdotados. Muitas celebridades, do cantor Justin Timberlake à atriz Emma Watson, passando pelo empresário Richard Branson, pelo nadador Michael Phelps, pelo falecido músico Kurt Cobain – e até por Leonard da Vinci! –, foram diagnosticadas com o transtorno. São incontáveis os louvores à glória do metilfenidato, tão inserido ele está no cotidiano da sociedade norte-americana, em todos os campos: nas finanças, nos videogames, no beisebol, no show business, no Exército e até nas corridas de cavalo.10

“Meu filho é um gênio”, afirma Mary Fuller Proffit, uma garçonete de 63 anos que cria sozinha Isiac, adotado há onze anos. “Ele é capaz de desenhar de olhos fechados o mapa da Europa antes e depois da Primeira Guerra Mundial, e depois da Segunda Guerra Mundial.” Ex-assistente social dedicada às pessoas com transtornos metais (“Eu tinha de cuidar de 38 pacientes, com um total de 10 mil medicamentos para administrar por mês”), faz muito tempo que ela se opõe aos psicoestimulantes. Os médicos logo concluíram que Isiac tinha TDAH, mas Mary, desconfiada, acredita que há muito sobrediagnóstico no Kentucky. “Isiac nasceu viciado em crack e álcool, porque sua mãe biológica usava essas substâncias. Eu precisei deixar meu emprego para cuidar dele. Desde que era pequeno, só ouço reclamações de seu comportamento na escola. Ele fala o tempo todo, não quer se sentar, só faz o que quer. Seus professores me pressionaram para medicá-lo. Eles estão interessados em mantê-lo sentado e quieto.” Mary acabou cedendo: “Eu dou Concerta a ele apenas para ir à escola, e seus professores estão felizes. Mas dou uma dose um pouco menor, porque sou pobre, não tenho um bom seguro e o remédio me custa US$ 130 por mês”.

No leste do Kentucky, aos pés dos Apalaches, a cidade de Hazard, com 5 mil habitantes, é uma sequência de farmácias com drive-in, supermercados dispersos e montanhas cortadas pelas escavadeiras para extrair carvão ou consertar as estradas. No caminho para a cooperativa educacional da cidade, que concordou em nos receber, paramos em uma clínica onde brilha a sigla “ADHD” – de Attention-Deficit Hyperactivity Disorder, a versão anglófona do TDAH – em um painel destinado aos motoristas. No interior, damos com um anúncio do Crossroads Health Center: “Seu filho não consegue seguir instruções e terminar a lição de casa? Você conhece uma criança em idade escolar ou universitário que não consegue se sentar ou ficar em fila? Mora com uma criança que não para de se mexer, vive agitada, corre, pula ou está sempre em movimento? Conhece alguém que parece ter TDAH e gostaria de ajuda para estabelecer o diagnóstico? Ligue para este número”. Na recepção, perguntamos sobre a idade com que uma criança pode ser diagnosticada como hiperativa na região: “A partir dos 18 meses”, responde o médico de plantão.

Na sala de reuniões da Kentucky Valley Educational Cooperative (50 mil crianças em idade escolar, 2.900 professores), a diretora adjunta, Dessie Bowling, reuniu pelo menos oito pessoas para responder às nossas perguntas sobre a epidemia de TDAH na região. “Entre os vinte alunos da minha turma”, conta Emily K., professora de uma grande escola da região, “tenho provavelmente 30% com TDA ou TDAH. Sou professora há cinco anos e sempre foi assim. Acho que isso é normal para todo mundo aqui. Pelo menos metade dos meus alunos não está mais com os pais por causa do uso de opioides ou outras drogas, e vive com os avós ou com famílias adotivas. Esse é o assunto que realmente interessa na minha turma.”

Ilustração: Claudius
Prescrição a partir dos 4 anos

Na região corroída pelo declínio do setor do carvão e pela devastação causada pelas drogas (basicamente opioides, metanfetaminas e cocaína), os professores fazem o que podem. “Tentamos incentivar as crianças que se distraem com facilidade a frequentar o laboratório de realidade virtual ou a carpintaria”, explica Dessie. “Quando constroem drones ou imprimem seus objetos em 3D, elas não têm problema de concentração. Talvez sejam apenas crianças que se sentem mais à vontade com um motor e um projeto construção do que com papel e caneta. Muitos professores são incentivados a equipar suas salas com grandes bolas, cadeiras altas para quem prefere ficar de pé, cadeiras de balanço. Tudo isso podem ser soluções para evitar a medicação.”

Nos últimos vinte anos, a educação dos Estados Unidos passou por duas reformas sucessivas que aumentaram a competição entre as instituições, entre os alunos e entre os professores. A lei No Child Left Behind [Nenhuma criança deixada para trás], aprovada na gestão de George W. Bush, e o programa Race to the Top [Corrida para o topo], instaurado no governo de Barack Obama, agravaram as desigualdades escolares. A escola ficou tão difícil que é necessário drogar as crianças para que consigam acompanhar? “Precisamos prepará-los para serem adultos, para serem membros produtivos da sociedade”, responde Emily. “Uma boa parte do problema é que, na segunda-feira de manhã, algumas crianças não tomaram seus remédios o fim de semana todo. Então começam a semana com todos os seus estados e só na terça-feira estão novamente operacionais.”

No topo de uma montanha de carvão, no Primary Care Center de Hazard, o maior do condado, Molly O’Rourke, pediatra, abre a porta de seu consultório. “Veja minha agenda: quinta-feira é um dia longo. Dos 26 pacientes, doze vêm me procurar por causa de hiperatividade ou distúrbios de atenção. Eles precisam renovar a receita mensal. Às vezes, isso representa mais da metade das minhas consultas.” Para estabelecer um diagnóstico de TDAH, Molly submete os pacientes a um questionário, o Vanderbilt ADHD Diagnostic Rating Scale (VADRS). “É subjetivo”, ela explica. “Os pais preenchem o questionário de acordo com o comportamento do filho. Se ele tiver os mesmos sintomas na escola e em casa, então podemos considerar a medicação.” O formulário tem 47 perguntas, cujas respostas variam de 0 (nunca) a 3 (com muita frequência).

Como no DSM, marcamos os itens e, a partir de certo número de pontos, somos considerados “hiperativos” ou simplesmente “desatentos”. Exemplos: “Fala demais”, “Esquece suas coisas com frequência”, “Tem dificuldade de organizar suas tarefas”, “Interrompe os outros com frequência”, “Tem tendência a se irritar”, “Já fugiu à noite”, “Já praticou alguma agressão sexual”, “Briga com os adultos”. As questões são variadas, mas todas se relacionam ao tema da capacidade que as crianças têm de perturbar. Molly prescreve Ritalina, Concerta, Focalin, Adderall e Vyvanse “a partir dos 4 anos, se necessário. Todo mês lançam um medicamento novo”, exclama.

O mais recente é o Adhansia, que sai das fábricas do Purdue Pharma, laboratório do Oxycontin, considerado o principal responsável pela crise dos opioides (400 mil mortes em vinte anos).11 “Venho de um programa no qual tentamos reduzir doses, promover terapias comportamentais, interromper a medicação”, prossegue Molly. “Meu objetivo é que eles sejam capazes de ser crianças, de brincar e de aprender. Nunca vi efeitos negativos a longo prazo, exceto um crescimento perturbado. O maior problema seria a adição, especialmente para os adolescentes, e a revenda.” Para ela não há dúvida: “A televisão é amplamente responsável pelo TDAH. Ela é a principal babá do país”. Em sua sala de espera, mais um garoto. Jayden, de 12 anos, “não para quieto”. Diagnosticado como hiperativo, usa psicotrópicos há quatro anos. Sua mãe, Tasha, comenta: “Quando não toma o remédio, ele é insuportável”. E a escola? “Acho chata”, responde Jayden: “Ler é chato. Ficar sentado o dia todo é chato. Prefiro jogar beisebol com meu pai, ou então [os jogos eletrônicos] Fortnite, World of Warcraft ou NBA 2K com meus amigos”.

De volta à França. No consultório do Dr. Gabriel, Claire é franca com o médico. “No fim das contas, não vamos mentir: a Ritalina é para dar tranquilidade à escola. Porque não damos no fim de semana nem durante as férias escolares…” O Dr. Gabriel parece irritado. Ele se apruma na cadeira: “Sinceramente, não concordo com vocês. O objetivo principal é, na verdade, permitir que as crianças que passam por esse sofrimento se sintam melhor, pois uma criança com TDAH está em conflito permanente. Ela passa o dia levando bronca dos professores, e à noite, dos pais!”. Claire imediatamente responde: “Isso é verdade, doutor. Ficamos cansados de brigar o tempo todo!”. O psiquiatra infantil repete sua doutrina: “É um distúrbio biológico. Vocês não são bons nem ruins. Você não é mais responsável pelo TDAH do seu filho do que meus pais são responsáveis pela minha miopia”. Niels começa a rir. O médico lembra: “Niels não tem um TDAH puro”. Mas não importa: ele tomou drogas psicotrópicas durante quatro anos e agora está sentindo o que poderíamos chamar de uma grande angústia.

 

Angústia e tentativas de suicídio

Poderiam as longas horas assistindo a Investigação Exclusiva, Investigação em Ação, Investigação de Alta Tensão e outros programas de “reportagem” sobre as forças da ordem explicar seu medo de um improvável sequestro? “Infelizmente, a Ritalina trata apenas o TDAH, não a ansiedade”, esclarece o Dr. Gabriel. Niels não é o primeiro caso de uma criança sob estimulantes que apresenta angústias preocupantes. Podemos pensar em Gab T., adolescente de 14 anos que tentou se suicidar após tomar Adderall desde os 7 anos; ou em Trey McCormick, de 23 anos, funcionário do setor de hotelaria e restauração em Kentucky que, quando mais jovem, fez sua mãe acreditar que tomava o remédio, porém jogava os comprimidos na privada, pois lhe davam “ideias negras, opressivas, visões horrorosas”; ou ainda no trabalhador da construção Joe Dazier, que não tem palavras fortes o bastante para falar desse “veneno” que seus pais o “obrigaram” a tomar.

De acordo com um estudo publicado em 2019, crianças sob a administração de psicoestimulantes têm duas vezes mais chances de desenvolver psicoses.12 Mas o Dr. Gabriel não está nada convencido disso: “A Ritalina reduz o risco de adição e, em princípio, limita o risco de psicose, uma vez que o desempenho escolar da criança melhora”. Desde que as notas estejam boas, a missão está cumprida e o médico está contente.

Claire nos recebe em sua casa, em Saint-Prix, ao norte de Paris. “Quando prescreveu a Ritalina, o Dr. Gabriel me disse: ‘Não leia a bula, porque a lista de efeitos colaterais vai te desanimar!’. Como ele é uma referência, segui seu conselho. Mas as coisas que li em outros lugares, principalmente sobre a proximidade com as anfetaminas, me preocupou. Foi depois dessas descobertas, e constatando que a Ritalina já não fazia mais efeito, que decidimos parar. Ele tomou isso durante quatro anos; é muito. No próximo ano, começa a segunda fase do ensino fundamental. Estamos preocupados.”

Na sala de jantar, Claire sacode o frasco de Ritalina, depois nos mostra a bula perfeitamente dobrada daquilo que chama ironicamente de “pequena pílula mágica”. No capítulo 4, existem nada menos do que sessenta “possíveis efeitos adversos”, dos “mais frequentes” (palpitações, batimentos cardíacos irregulares, dores de cabeça, nervosismo, insônia etc.) aos “frequentes” (redução do apetite, febre, perda de cabelo etc.) e aos “muito raros” (ataque cardíaco, tentativa de suicídio, pensamentos anormais, falta de sentimento ou emoção…). Na seção “Outras reações adversas”, pode-se ler, entre outras menções: “Dependência do medicamento”.

Risonho e brincalhão, Niels diz que está muito feliz por ter parado de tomar aquele comprimido que “não o deixava dormir” e fazia seu “coração bater rápido demais”. “Eu tinha certeza de que ele era hiperativo”, confessa sua mãe, que se pergunta: “Será que não estamos só tentando esconder a realidade, dando drogas aos nossos filhos?”.

 

Julien Brygo é jornalista. Coautor, com Olivier Cyran, de Boulots de merde! Du cireur au trader, enquête sur l’utilité et la nuisance sociales des métiers [Empregos de merda! Do sapateiro ao corretor financeiro, pesquisa sobre a utilidade e o prejuízo social das profissões], La Découverte Poche, Paris, 2018.

 

1 Ler Gérard Pommier, “La médicalisation de l’expérience humaine” [A medicalização da experiência humana], Le Monde Diplomatique, mar. 2018.

2 Cf. “Méthylphénidate (Ritaline): dernier choix dans l’hyperactivité” [Metilfenidato (Ritalina): a última opção para a hiperatividade], Prescrire, 1º ago. 2018. Disponível em: <www.prescrire.org>.

3 Damien Mascret, “La Ritaline, entre sous-prescription et abus” [Ritalina, entre a subprescrição e o abuso], Le Figaro, Paris, 16 maio 2017.

4 A revista Prescrire, que denuncia “a falta de estudos de médio e longo prazo sobre o efeito do metilfenidato”, publicou vários artigos para alertar sobre os efeitos indesejáveis desse psicotrópico, “banalizado apesar dos perigos” e cuja prescrição, segundo ela, equivale a “um doping das crianças” (Prescrire, n.406, Paris, ago. 2017).

5 Números de 2011. “State profiles – Diagnosis and medication treatment among children ages 4-17 years (survey data)” [Perfis do estado – Diagnóstico e tratamento medicamentoso entre crianças de 4 a 17 anos (dados da pesquisa)], Centers for Disease Control and Prevention. Disponível em: <www.cdc.gov>.

6 Amelia M. Arria e Robert L. DuPont, “Prescription stimulant use and misuse: Implications for responsible prescribing practices” [Uso e abuso da prescrição de estimulantes: implicações para práticas de prescrição responsáveis], The American Journal of Psychiatry, v.175, n.8, Washington, DC, ago. 2018.

7 Alan DeSantis e Audrey Curtis Hane, “‘Adderall is definitely not a drug’: Justifications for the illegal use of ADHD stimulants” [“Adderall não é uma droga”: justificativas para o uso ilegal de estimulantes para TDAH], Informa Healthcare, 2010. Disponível em: <http://www.uky.edu>.

8 Os nomes foram alterados.

9 O Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM) [Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM)], publicado pela Associação Norte-Americana de Psiquiatria, estabelece os critérios de diagnóstico para transtornos mentais, incluindo o TDAH. Em 1968, no DSM-2, apenas duas linhas mencionavam uma “reação hipercinética da infância”. Em 2013, no DSM-5, o TDAH ocupa quase dez páginas e dezoito sintomas foram estabelecidos – para o diagnóstico, é preciso identificar onze deles.

10 Em 2015, durante uma auditoria no laboratório Trusdail, os auditores descobriram que sete casos de cavalos com teste positivo para metilfenidato (um dopante de categoria 1 no campeonato equestre) haviam sido ocultados.

11 Adhansia é um psicoestimulante cujos efeitos duram 16 horas, o dobro da Ritalina. Ler Maxime Robin, “Overdoses sur ordonnance” [Overdoses com receita médica], Le Monde Diplomatique, fev. 2018.

12 Edith Bracho-Sanchez, “Young people on amphetamines for ADHD have twice the psychosis risk compared to other stimulants, study says” [Jovens que tomam anfetaminas para TDAH têm o dobro de risco de psicose em comparação com outros estimulantes, diz estudo], Cable News Network (CNN), 20 mar. 2019. Disponível em: <https://edition.cnn.com>.



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