A política da aniquilação e a democracia brasileira -

ESPÍRITO AUTORITÁRIO

A política da aniquilação e a democracia brasileira

por Vinicius Ruiz Albino de Freitas e Guilherme Antonio de A. L. Fernandes
17 de agosto de 2020
compartilhar
visualização

O pensamento autoritário, o costume com governos de personalidades fortes ou simplesmente democraticamente ilegítimas é um dos elementos que marca a construção do Estado nação latino-americano. Assim, não poderia deixar de ser uma realidade a presença de traços autoritários no brasileiro

O pensamento autoritário é um traço marcante do contexto histórico de nossa região. Na longa trajetória de formação dos Estados nacionais latino-americanos, uma série de golpes e contragolpes marcou o cenário político do Brasil, da Argentina, do Uruguai e do Paraguai, por exemplo. A construção da identidade no Estado nação latino-americano deu-se, então, em meio a contextos fortemente autoritários, marcados ora pelo controle do poder por forças militares, ora por determinada elite, que negociava com as forças militares a sua própria manutenção no poder, alternando-se em um jogo de cartas marcadas por meio de eleições quase sempre fraudulentas. Ou seja, é difícil pensar a formação do brasileiro, do argentino, do uruguaio, para ficarmos aqui apenas com três países do cone sul, sem colocar dentro do nosso caldeirão cultural a figura do autoritarismo. O pensamento autoritário, o costume com governos de personalidades fortes ou simplesmente democraticamente ilegítimas é um dos elementos que marca a construção do Estado nação latino-americano. Assim, não poderia deixar de ser uma realidade a presença de traços autoritários no brasileiro.

Muitos brasileiros têm entendido a política como uma real contraposição de aniquilação. Ou seja, a política para o brasileiro não tem sido compreendida como o espaço do diálogo e da contraposição construtiva, onde o diverso se encontra e opiniões divergentes buscam uma convergência. A política brasileira tem seguido o espírito autoritário onde o opositor deve ser destruído, não derrotado, mas alijado completamente da possibilidade de chegar ao poder e sendo jamais cogitado para construir algum caminho em comum. O Brasil vive a política do combate permanente. Quem está no poder tem como escopo impedir em definitivo que seu antagonista simplesmente exista. É, portanto, a contraposição de aniquilação.

Na contraposição de aniquilação, o brasileiro divide a sociedade entre detentores do bem e partidários do mal. Escolhe que só deve haver uma visão de mundo a prevalecer, pois a outra não se pode tolerar e tampouco aceitar. A política que vivemos é a da não pluralidade e a da não tolerância. Caberia, então, indagar-nos se essa visão de mundo nasceu do dia para a noite ou se sempre esteve dentro de nós, pairando nos ares, adormecida em nossos corações, mas pronta para reacender, ser colocada para fora ou cuspida violentamente diante das condições.

Na “longa noite autoritária”, que perdurou da década de 1960 ao final da década de 1980, não havia democracia. Então, por mais que muitos no Brasil sintam um saudosismo daquele tempo, que ainda carece de inventário pormenorizado e melhor tratamento em relação ao que foi e qual foi sua amplitude de violência e violação de direitos humanos, não havia qualquer possibilidade de política fundamentada na pluralidade. Havia violência na política.

A redemocratização nos trouxe a possibilidade da política fundamentada na pluralidade, que começou a sentir o perigo da erosão quando o ex-presidente Lula bradou que nunca mais o PSDB deveria voltaria ao poder. Nesse momento, a sociedade brasileira perdia aos poucos a chance de avançar na construção de um espírito democrático, que exige a pluralidade de visões de mundo. Os eventos que seguiram, então, em vez de ampliar a possibilidade de uma política de confronto para a convergência, ampliaram o fortalecimento do confronto para a aniquilação.

Nesse sentido, é possível pensar que o fenômeno bolsonarista é anterior às eleições de 2018. Desde as manifestações de 2013 ele encontrou possibilidades e oportunidades para tomar forma, corpo e chegar ao poder. Bolsonaro não nasceu na política brasileira da noite para o dia; ele não foi um acidente de percurso, por mais que tente, ele mesmo, construir a figura de um outsider político para si, ele é muito mais fruto da galvanização de um espírito autoritário, que permeia a longa jornada de existência do nosso Estado nação.

Todavia, se os ventos democráticos tinham começado a espantar esse espírito do corpo brasileiro, a homenagem ao torturador Carlos Brilhante Ulstra, feita pelo presidente, quando ainda era deputado, ao votar pelo impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, as comemorações do golpe de 1964, ressignificado como dia da liberdade, o discurso de potência e violência fizeram os ventos mudarem de direção e o espírito autoritário, que trabalhávamos para exorcizar, voltar com maior força.

O que assistimos hoje no Brasil flerta com o autoritarismo e os desejos claros de manutenção e concentração de poder nas mãos do clã Bolsonaro. Estamos mergulhados num Brasil que mais do que a crise sanitária e econômica vive uma crise moral. Enfermeiros passaram a ser desrespeitados e atacados por exigirem respeito e o mínimo de condições de trabalho. Em um ato pró governo no Rio Grande do Sul, mulheres foram covardemente atacadas por partidários do bolsonarismo enrolados em bandeiras nacionais e camisas da seleção. Os casos de agressões a jornalistas no Brasil cresceram 36,7% de 2017 a 2018. É o que aponta relatório recente da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj). Há poucos dias, um cinegrafista da TV Integração, afiliada da Rede Globo na região de Juiz de Fora (MG), foi agredido por um bolsonarista, quando gravava imagens para uma reportagem sobre casos de alunos da EPCAR (Escola Preparatória de Cadetes do Ar) infectados pelo novo coronavírus.

No meio dessa crise moral, o cenário político e social recente pode nos confundir e nos fazer crer que a maioria dos brasileiros se identifica com o bolsonarismo. Entretanto, pesquisas e trabalhos dizem o contrário. A maioria não se identifica com o bolsonarismo e nem com os valores do presidente da República e dos outros órfãos da ditadura militar. Muito se debate acerca dos 30% que avaliam o governo como bom ou ótimo. Mas dentre estes, só metade é bolsonarista convicto. A maioria não se identifica com aqueles que defendem a intervenção militar, a tortura e o fim da liberdade de imprensa. Os números de duas pesquisas do Datafolha nos ajudam a esclarecer.

Na pesquisa de agosto de 2019, Mauro Paulino e Alessandro Janoni construíram uma escala de seis pontos baseada no voto declarado em Bolsonaro no segundo turno, na avaliação de seu governo e na confiança em suas palavras. O grupo dos mais alinhados com Bolsonaro é formado pelos que votaram nele, aprovam seu mandato e concordam com suas declarações. Representavam, assim, 12% da população adulta. Trata-se do núcleo duro de apoiadores irrestritos, constituído por bolsonaristas radicais. Bolsonaro confunde com o povo brasileiro esse grupo de adeptos fiéis, fanáticos, que vai às ruas por ele. A última pesquisa do Datafolha intitulada Democracia e Ditadura, realizada em junho deste ano, demonstra que esse grupo é formado por em torno de 15%, seguindo a mesma metodologia da pesquisa anterior.

Desse modo, se por um lado há os fanáticos, por outro, há os que desprezam e rejeitam de forma veemente o bolsonarismo, o presidente e seus valores. De acordo com a pesquisa citada, 30% dos brasileiros reprovam seu governo e discordam do que ele diz. Restam os 55%, que ora rejeitam e ora apoiam as palavras e medidas do presidente. A grande maioria prefere a democracia a qualquer outro regime de governo e também concorda que houve uma ditadura no Brasil.

Bolsonaro governa para o seu público e essa sempre foi sua tática para garantir um segundo mandato em 2022. Segue com seu discurso antissistema e de criminalização da política, mesmo negociando, descaradamente, cargos com o centrão. Segue soprando forte na direção dos ventos do autoritarismo.

É de se notar inclusive que, apesar de Bolsonaro ter diminuído seu ímpeto com a prisão de Fabrício Queiroz, ele não parece ter mudado seu perfil de confronto. Isto é, a sua natureza de confronto voltado para a aniquilação. É evidente que Bolsonaro não busca cativar os 55% de intermediários para que se tornem apoiadores convictos do bolsonarismo, mas sim resguardar os filhos e a sua imagem perante os 15% de adoradores.

Bolsonaro continua sendo aquele que mandou um “cala a boca” para jornalistas, bem em frente ao Palácio do Planalto; continua sendo aquele que faz um churrasco quando temos um recorde no número de vítimas do terrível vírus que assola o mundo; continua a ignorar a ciência em razão de interesses mesquinhos, sendo presidente e garoto propaganda de um remédio comprovadamente ineficaz para o combate ao vírus; continua sendo o presidente que em meio a uma terrível crise anda a cavalo, desfila de moto, tira suas fotos e faz suas lives como se fosse alheio a todos os problemas do Brasil. Bolsonaro é isso e não mudará; é a personificação da nossa crise moral.

Cabe àqueles que não foram tomados pelos ventos dessa política de violência, do confronto para a aniquilação, seguir lutando pela consolidação da democracia brasileira. É nosso dever espantar o espírito autoritário de nossa raiz e retomar o curso de nossa história para construirmos um país onde a pluralidade e a diversidade de opiniões construam pontes entre si e não essa política de destruição. Nesse contexto, os 100 mil brasileiros que já não podem mais falar terão voz. Por mais que Bolsonaro tente transferir sua culpa pela desastrosa e irresponsável omissão no combate à pandemia, entre cloroquinas, mordidas de emas e frases como “e daí” e “todo mundo vai morrer um dia”, que não se esqueça o seu deboche diante da democracia e da morte de seu povo.

 

Vinicius Ruiz Albino de Freitas, doutor em Ciências Sociais pela Unesp, professor da UFABC e professor colaborador do mestrado em Políticas Públicas da UMC. Membro do Gebrics-USP.

Guilherme Antonio de A. L. Fernandes é doutor em Direito e mestre em Integração da América Latina pela USP, pesquisador membro do Gebrics-USP, professor e advogado em São Paulo.



Artigos Relacionados

Desmonte do Ensino Superior

Uma onda de desistências: o desgosto generalizado nas universidades

Online | Mundo
por Marcelo Vinicius Miranda Barros
Guilhotina

Guilhotina #172 - Ynaê Lopes dos Santos

Direito à Comunicação

Resistência e agenda de futuro na comunicação: saídas para o Brasil

Online | Brasil
por Patrícia Paixão de Oliveira Leite e Paulo Victor Melo
Guilhotina

Guilhotina #171 - André Flores Penha Valle e Pedro Felipe Narciso

Reforma urbana e direito à cidade

Propostas para a construção de uma agenda para a habitação social

por Vários autores
AMBIENTALISTAS E DEFENSORES DE DIREITOS HUMANOS

A face do desaparecimento político na democracia

Online | Brasil
por Simone Rodrigues Pinto e Teresa L. C. Soares
ANÁLISE JURÍDICA

A PEC do "equilíbrio entre os poderes" e a decadência da democracia

por Vinicius Marinho Minhoto

O Estado, as caravelas e a re-existência Kaiowá e Guarani

Online | Brasil
por Kuna Aranduhá Kaiowá [Jaqueline Gonçalves Porto] e Danielle Tega