A ‘política negativa’ nos moldes do bolsonarismo - Le Monde Diplomatique

O negacionismo enquanto política

A ‘política negativa’ nos moldes do bolsonarismo

por Frederico Augusto Auad
20 de maio de 2020
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Antes mesmo do resultado eleitoral, Bolsonaro vinha mostrando seus ares negacionistas. Apesar de crer e gozar dos resultados oito vezes durante 30 anos consecutivos, Jair Bolsonaro por diversas vezes colocou sob suspeita a tecnologia eleitoral usada e os resultados que seriam mostrados.

O título pode erroneamente induzir-nos a visualizar o bolsonarismo como um fenômeno de negação para o estabelecimento de algo novo. O que ocorre é justamente o inverso. A negação exerce um papel retroativo, de estabelecimento de ordens política, social e epistêmica corroídas pelo tempo.

Logo ao expressar o seu interesse pela corrida eleitoral, Jair Bolsonaro proferiu algumas opiniões no mínimo controversas tanto com o que já estava socialmente pacificado e aceito, quanto consigo mesmo. Os descaminhos de suas argumentações e até mesmo a ausência delas – quem iria esquecer da célebre frase de Jair constantemente repetida ‘pergunta pro Guedes’ no início de sua campanha? – não fez diminuir os entusiastas pelo seu governo. A sua inexperiência, mesmo com anos dentro da carreira política como vereador (1988-1991 PDC) e deputado federal (1991-2018 diversas legendas), e ingenuidade fez surgir uma relação de empatia dentre seus eleitores. Ao lado da imagem tão esperançosa de uma entidade superior em bondade, justiça e beleza há tanto cultivada pela sociedade brasileira, surgiu a figura de um líder quixotesco. Frágil e, justamente por sua fragilidade, próxima.

Antes mesmo do resultado eleitoral, Bolsonaro vinha mostrando seus ares negacionistas. Apesar de crer e gozar dos resultados oito vezes durante 30 anos consecutivos, Jair Bolsonaro por diversas vezes colocou sob suspeita a tecnologia eleitoral usada e os resultados que seriam mostrados. Demonstrava sua política do ‘comigo tudo, contra mim nada’ ao afirmar que estaria sendo vítima de fraude eleitoral se perdesse as eleições, mas, se vencesse, a voz do povo teria sido ouvida. O negacionismo político se dava com ares pueris numa típica cena de egoísmo infantil ‘a bola é minha, quem ganha sou eu’.

Velha política e narcisismo

Não eram apenas as regras do jogo que passavam por esse desmonte, mas a própria política. Ou melhor, a ‘velha política’. Mas vamos devagar aqui. Há que se tentar compreender o que estava sendo dito nessa ocasião. Pode-se visualizar a ‘velha política’ sob dois vieses. O primeiro deles seria da política feita por aqueles velhos atores – ‘parasitários’, para citar o Ipiranga do governo . O segundo seria da política dos conchavos, das nomeações, das coligações e do toma lá dá cá. Uma política feita como em qualquer outro lugar do mundo e por partidos experientes na lógica eleitoral. Sob o primeiro ponto de vista, há que se dizer que não há nada mais esquizofrênico do que a negação de si mesmo. Isto é, o velho político negando a velha política. Perante a segunda concepção, são perceptíveis os danos quanto à fragilidade decisional e de governabilidade que o atual presidente vem sofrendo. Ocorre que a ‘velha política’ foi negada em seus dois aspectos.

Mais uma conformação da personalidade de Jair Bolsonaro é exteriorizada na política bolsonarista: o narcisismo patriarcal. Toda e qualquer divergência ou tentativa de limitação de suas ações e opiniões é tida como um ataque frontal à sua persona. E aqui o pluralismo, liberdade de opinião e o bom senso entram em rota de esfacelamento. O caráter messiânico já insculpido em seu nome dá margem a uma paráfrase perfeita da política personalista de Bolsonaro ‘eu sou o caminho, a verdade e a vida’. O caráter patriarcal na esfera pública é a continuidade de sua centralidade no âmbito doméstico. O pai dos cinco filhos estabelece sua centralidade e dominação não apenas quanto a estes, mas inclusive quanto à ‘boa-moça’ que aparece sempre com seu papel feminino estereotipado numa ética do cuidado. E aqui patriarcalismo e patrimonialismo segue numa relação simbiótica aos moldes do pensamento weberiano1. Há uma confusão entre público e privado, entre os quadros políticos/burocráticos e a família/os amigos.

Desmonte

O caráter patrimonial da política bolsonarista se demonstra na tentativa de desmonte de uma administração burocrática2 com a política feita por amigos e familiares claramente não técnicos. Há pouco, o caráter negacionista da burocracia ficou evidente na entrevista (07/05) concedida pela secretária do extinto Ministério da Cultura (criado em 1985), hoje Secretaria Especial da Cultura vinculada ao Ministério do Turismo. Regina Duarte repetiu o mantra do bolsonarismo de que a burocracia é um entrave para o governo, sem falar na reiterada tentativa de obscurecer os acontecimentos do período ditatorial.

Regina Duarte no dia de sua posse (Antonio Cruz/Agência Brasil)
O presidente Jair Bolsonaro dá posse à secretária especial da Cultura do Ministério do Turismo, Regina Duarte (Antonio Cruz/Agência Brasil)

Esse desprezo pela política aliado ao seu caráter personalista reverbera-se no desrespeito pelas instituições e pela própria Constituição. Ao ver com maus olhos toda e qualquer limitação ao seu governo, Bolsonaro nega a própria dinâmica de checks and balances típica da prática institucional e prevista nos dispositivos constitucionais. Quem não se lembra da frase do filho número 03 de que bastava um cabo e um soldado para fechar o STF? Ou ainda da frase do próprio presidente na manifestação (17/04/2020) em prol do AI-5 ocorrida em frente ao Quartel General do Exército em Brasília ‘Eu estou aqui porque acredito em vocês … Não queremos negociar nada’? Ocorre que a dinâmica continua a ocorrer e as instituições continuam a limitá-lo. Como se não bastasse, a própria sociedade, a mídia e ciência exercem esse mesmo papel e, por óbvio, não ficam fora da negação.

Há um tempo que o conhecimento embasado e empiricamente justificado vem sofrendo ataques em prol de um pseudo-cartesianismo. Rogam dúvidas quanto à veracidade de uma pandemia que vitima milhares – especialmente os que se apresentam em situação de vulnerabilidade: os desfavorecidos economicamente, os excluídos da própria geografia urbana e os trabalhadores informais – em solo nacional e milhões ao redor do mundo. Questionaram e ainda questionam quanto ao desenho da terra. Apenas onde o terraplanismo recebe reconhecimento é que a negação de um conhecimento científico é possível.

Voltando ao tema das manifestações pró-bolsonaro e contra tudo o que está posto ‘aí’. A própria concepção política do bolsonarismo é um resultado negativo. É negada enquanto concepção política, colocando-se como objetiva, neutra e nacional – por que não romântica? Para lembrarmos da fala de Roberto Alvim. O que Bolsonaro e os bolsonaristas pregam não é de esquerda – longe disso! – ou de direita, nem de centro; é a verdade e só ‘a verdade vos libertará’. A opinião política pessoal é exteriorizada e ganha um caráter objetivo. Colocam como indubitável que o que se almeja é o bem do povo e do Brasil, como se o povo fosse um todo homogêneo, sem distinção de classes e sua frações.

A política bolsonarista é negacionista. Nega-se fatos, divergências, instituições, o moderno, a história, um regime político democrático e a si mesmo. É algo novo, de fato. O novo em trajes velhos. O autoritário num figurino democrático. A expressão da antiga anedota fabular do lobo na pele do cordeiro. O bolsonarismo é o exemplo clássico da nova crise democrática. Uma crise que não se expressa mais em rompimentos claros com a ordem política vigente, mas silenciosamente no interior do arcabouço legal.

Frederico Augusto Auad é bacharel em Ciências Sociais e graduando em Direito (UFRJ).

1 WEBER, Max. Economia e Sociedade: Fundamentos da Sociologia Compreensiva. Vol. II. Editora UNB, São Paulo, 2004, p. 234.
2 Burocracia tendo como um dos seus principais fundamentos o conhecimento técnico sob um aspecto de dominação racional presente no Estado moderno. WEBER, Max. Economia e Sociedade: Fundamentos da Sociologia Compreensiva. Vol. II. Editora UNB, São Paulo, 2004, p. 213.



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