A primavera brasileira
A primavera brasileira nasceu do enfrentamento, como uma primavera de defesa, a partir de uma necessidade real e legítima de uma população que viu a extrema direita avançar sobre direitos, sobre instituições e sobre a convivência entre brasileiros
Em Brasília, a seca costuma terminar com os ipês. Depois de meses, árvores que pareciam mortas se cobrem de amarelo, roxo e rosa quase de uma hora para outra, como se a primavera no cerrado não soubesse chegar devagar.
Algo parecido aconteceu em 25 de outubro. Lula havia terminado o primeiro turno atrás, com 45,16% dos votos válidos contra 47,03% de Flávio Bolsonaro, e três semanas depois saiu das urnas com 51,79%. Desde a criação do segundo turno, em 1989, nenhum candidato à Presidência tinha conseguido virar uma eleição. Enquanto o processo eleitoral avançava, um gesto simples, o polegar e o indicador formando um L, se espalhava pelas ruas, pelas janelas dos ônibus e pelas fotos de perfil.
A comparação com a Primavera Árabe aparece de forma espontânea, mas pede cuidado. Em 2011, tunisianos e egípcios ocuparam as ruas para derrubar ditaduras, enquanto no Brasil a sociedade recorreu às próprias regras da democracia para protegê-la, sem ruptura, nas ruas e pelo voto.

A cientista política Marina Lacerda, uma das autoras de Cartografia da extrema direita, ajuda a entender o que estava em jogo. Ela mostra que a extrema direita brasileira cresceu ao combinar um conservadorismo moral, centrado na família e na religião, com o liberalismo econômico, e que esse projeto se alimenta das crises da democracia e do esgotamento das promessas neoliberais, amplificados pelas plataformas digitais. Enfrentá-lo exige compreendê-lo, sem atalhos nem simplificações. A primavera brasileira nasceu desse enfrentamento, como uma primavera de defesa, a partir de uma necessidade real e legítima de uma população que viu a extrema direita avançar sobre direitos, sobre instituições e sobre a convivência entre brasileiros.
O nome, aliás, já tinha sido usado em junho de 2013. Aquela energia era genuína, mas difusa e sem canal, e acabou disputada por agendas que pouco tinham a ver com sua origem. Desta vez a mobilização encontrou um caminho.
Parte desse caminho explodiu pelo celular. Numa live com o deputado André Janones, Lula chamou seus apoiadores de exército, um exército que constrói e não destrói. O canal Exército do Lula, criado por Janones no WhatsApp, passou dos 10 milhões de participantes e se tornou o segundo maior do aplicativo no país. Era um exército sem farda e sem fuzil, cujos soldados trabalharam com hashtags e conversa de porta em porta, nas redes sociais e mensagens estratégicas no grupo da família.
A batalha também teve frentes fora do país. Houve quem acompanhasse de longe e apostasse alto no resultado, com apoio declarado, promessas, recursos e atenção voltada para as riquezas do país. Houve ainda os algoritmos, que nunca são neutros e decidem em silêncio quem será ouvido, num ambiente em que as grandes empresas de tecnologia lucram com o engajamento que o ódio produz. Mesmo assim, o resultado foi diverso.
O gesto ajudou. Movimentos deste tempo se espalham menos por estruturas formais e mais por símbolos simples, que cada pessoa reproduz a seu modo, e o L não custa nada, não pede filiação nem cartaz. Basta levantar a mão para fazer parte. A ideia já atravessa fronteiras e começa a ser levada a outros países onde o avanço da extrema direita é uma ameaça concreta.
Levantaram essa mão, sobretudo, aqueles que mais perdem quando a democracia se desgasta. Mulheres negras, que sustentam tantas famílias brasileiras, idosos que dependem da aposentadoria e do SUS, povos indígenas e comunidades tradicionais, que defendem seus territórios e sua sobrevivência, a população LGBTQIA+, que ainda luta pelo direito de existir em paz e a juventude que expõe sua energia e seus ideais. A primavera depende dessas pessoas e precisa falar com elas.
A Primavera Árabe deixou uma lição dura. Quase todas as revoluções de 2011 terminaram em inverno, e mesmo a Tunísia, que chegou a fazer a transição, não conseguiu sustentá-la. Primaveras se apagam quando a energia das ruas volta para casa e a política volta a ser assunto de poucos, e duram quando se convertem em participação social, com conselhos que funcionam, escuta da sociedade civil, direitos que saem do papel e um governo que presta contas e governa, inclusive para quem votou contra.
Fabíola Veiga é formada em Direito, mestre em Psicologia Clínica e Cultura pela UnB e trabalha há mais de 20 anos com direitos humanos, participação social e cooperação internacional. Foi assessora nacional de Direitos Humanos do Escritório da ONU no Brasil e do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, e atuou no UNODC em projetos de justiça, segurança pública e violência de gênero. Vive em Brasília.

