A profusão de sentidos na poesia de Danilo da Costa-Cobra Leite: ‘Caminho das aves’
Caminho das aves vem com a proposta de tirar o receptor de sua zona de conforto com recursos bem trabalhados para seu propósito: palavra, imagem e objeto
“diante do muro, fechado ao horizonte/a imagem na mente de uma saída”
Com esses primeiros versos, a obra Caminho das aves (Editora Kotter/2025) nos abre uma possibilidade explícita, mas, ao mesmo tempo, nebulosa: se estamos diante de um muro, uma estrutura sólida cujo intuito é delimitar espaços, por que o sentimento de precisar de uma saída?
É a partir dessa pergunta intuitiva que o leitor irá se deparar com elementos centrais da obra, sendo elas os conceitos de liberdade e restrição, crítica ao lucro desenfreado e o existencialismo.
Se pudesse definir o eu lírico de Danilo seria de tom angustiado, com odes, tal qual a melodia do compositor germano polonês citado no começo do livro, com o virtuosismo, entre cortes rápidos e harmonias, se equilibrando entre um polo e outro. Não é um conforto, mas uma sensação constante de desamparo, lendo cada declamação mediante um fôlego em disparada. Não há nesse livro caminho fácil para o leitor nesse sentido. Ele que lute para aceitar essa jornada, que diria de difícil recusa, pois Caminho das aves vem com essa proposta de retirada do receptor de sua zona de conforto com recursos bem trabalhados para seu propósito: palavra, imagem e objeto.

Dado que é uma obra híbrida, isto é, uma mistura de variedades técnicas, estéticas, não me deixa passar batido a noção de “livro de artista”. A intersecção da palavra com a imagem realiza uma identidade própria, uma sintaxe visual por assim dizer, o que implica em diferentes significados, diferentes trânsitos. Em variados trechos, Costa Leite retoma o jogo de palavras para demonstrar as temáticas. Um poemóbiles, livro-poema de Augusto de Campos e Julio Plaza, mas dessa vez com tom sombrio.
Quando me refiro à profusão de sentidos é justamente pelo recurso sinestésico da palavra com a folha em branco: o autor elabora – e reelabora – seus significados pela escolha das palavras, em um diálogo com a poesia visual em algumas instâncias. “Um empurrão e pronto cada palavra parada no lugar indevido”.
Se Danilo cita elementos da cultura, seja pop ou não – new york city, psicanálise, aparelhos eletrônicos e sua nostalgia do século XX etc –, cabe aqui a reflexão sobre a fala do personagem
Prospero da peça de Shakespeare, A tempestade: we are such stuff as dreams are made on. Mais uma vez, é possível pensar a metáfora do muro com estruturas sólidas, que nesse caso não há, pois, a frase do célebre dramaturgo inglês evoca a noção de que a vida é passageira, efêmera, passível a não ter, portanto, controle absoluto, mas uma relativa autonomia. A mesma matéria que são feitos os sonhos. Inclusive, por falar em menções a cultura pop, a inserção da imagem dos pássaros traz diálogo com o imaginário de Hitchcook no final do livro, trazendo a relação entre palavra, imagem e objeto; quando se desenha, se escreve algo.
Costa Leite articula como um maestro as palavras gritadas com silêncio, um balbucio ensanguentado, pronto para ecoar apesar da solidão e das celas que fizeram crer que o mundo é violento demais para viver por si. Nessas últimas e poéticas linhas, o êxito do autor é ter tido a coragem de se fazer compreendido na metáfora do encarceramento do cotidiano.
Lorraine Ramos Assis é socióloga e crítica literária. Foi publicada em diversas revistas/jornais nacionais e estrangeiros, tais como Jornal Cândido, Cult revista, Relevo, Granuja (México) e Incomunidade (Portugal). Colabora para São Paulo Review e Revista Caliban, além de integrar o corpo de poetas do portal Faziapoesia. Pesquisa sociologia da literatura e gênero, em particular violência contra a mulher

