Artigo: A rede europeia pela democracia brasileira -

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A rede europeia pela democracia brasileira

por Neto Tavares
25 de dezembro de 2019
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Na capital da França, o embrião que deu ensejo à atual defesa enfática da abalada democracia brasileira veio à tona, primeiramente, no processo de gênese da Rede Europeia pela Democracia no Brasil, associação parisiense conhecida como RED.Br.

A formação da RED.Br se deu em meados de 2016, a partir da articulação de vários intelectuais, professores e atores/atrizes do meio cultural, desembocando na aliança de um dos membros do Movimento Democrático de 18 de março (MD18) e com boa parte dos membros da ARBRE (associação de Intelectuais que objetiva o desenvolvimento de pesquisas sobre o Brasil em solo europeu). Advogava-se, assim, a construção de um discurso contrário àquele propagado pela grande mídia brasileira e muitas vezes reproduzido por boa parte dos veículos hegemônicos da imprensa europeia no tocante ao processo de destituição da ex-presidenta Dilma Rousseff. Desse encontro, de denúncia e solidariedade quanto aos rumos políticos tomados àquela altura no Brasil, conglobaram-se tais sujeitos, originando a RED.Br.

Nesse contexto, franco-brasileiros e seus confrades de diferentes nacionalidades mobilizaram – e continuam a fazê-lo -, através da RED.Br, milhares de pessoas na França e em toda a Europa com o intuito de informar, alertar e debater sobre o que se passa nas terras politicamente conturbadas do outro lado do atlântico.

Nestes tempos espinhosos, repletos de episódios sócio-políticos alvoroçados e de difícil digestão para as pessoas que creem, lutam e desejam o mundo estabelecido nas veredas progressista e democrática, o papel das manifestações pela democracia brasileira vivenciadas num dos principais centros do mundo, imprimidas mediante eventos socioculturais variados, é um contraponto essencial para a ferrenha disputa do sentido político entre a civilização e a barbárie autoritária exemplificada infeliz e eficazmente pelo governo brasileiro vigente.

Homenagem à Marielle Franco

O ato mais importante realizado pela organização foi a campanha pela nomeação de uma passagem urbana com o nome de Marielle Franco, vereadora do PSOL-RJ, brutalmente assassinada em março de 2018, junto com seu motorista Anderson Gomes. A iniciativa, proposta e parlamentada no primeiro trimestre de 2019, veio logo depois da criação da ONG, funcionando como o carro-chefe propulsor das primeiras ações do grupo. O projeto acabou resultando na construção e inauguração do jardim Marielle Franco, localizado no décimo distrito de Paris.

Inauguração Jardim Marielle Franco em Paris
Marinete da Silva, mãe de Marielle Franco, durante inauguração do Jardim Marielle Franco, em Paris – setembro de 2019. (Crédito Fernanda Peruzzo)

A família de Marielle Franco esteve presente na inauguração de seu jardim. Além disso, atos e debates contaram com a participação de artistas, de intelectuais e de lideranças indígenas brasileiras, como a cacique Tanoné Também participaram de peças de teatro, conferências e exibição de filmes que denunciam  a situação caótica com a qual se depara a sociedade brasileira, nome como Chico Buarque, Sebastião Salgado, Djamila Ribeiro e Jessé Souza.

Para Maud Chirio, cofundadora da RED.Br, historiadora especialista em extrema direita, exército, ditadura e sua memória “este momento deve ser consagrado para analisar a conjuntura”. De acordo com ela, a organização pretende continuar explicitando o que acontece no Brasil. ” Queremos crescer, estamos ampliando a frente de luta pela democracia brasileira. Deve haver uma continuação do papel de agitação pública e de ajuda à divulgação deste cenário nas diversas mídias e para o público francês e europeu, procurando, inicialmente, alastrar essa mobilização para o interior da França. É preciso, nesse sentido, continuar a análise do contexto brasileiro, que é cada vez mais complicado e mais difícil de ser lido por conta das brigas internas no seio do governo e da evolução complicada da cobertura dos veículos da mídia hegemônica brasileiros. Isso obscurece a leitura. O bolsonarismo, vale acrescentar, não tem mais a novidade que tinha meses atrás. Ele não está mais no centro das preocupações da opinião pública francesa. Nesse momento, na França, não se fala mais no Brasil. A mídia francesa se acostumou com a figura anômala do Presidente brasileiro; ela perdeu a sedução negativa da personagem. Agora as pessoas sabem que existe aquele ‘Trump dos Trópicos’. As loucuras que ele faz não tem mais o mesmo impacto. Precisa-se, então, renovar o interesse das pessoas, dando mais chaves de compreensão, mais elementos sobre a gravidade do que está acontecendo. Um outro elemento para esse esquecimento é que, na França, existe uma atualidade forte de contestação, de greve e isso ocupa muito o espaço midiático. Porém, nosso papel, enquanto especialistas do Brasil, enquanto ativistas preocupados com a democracia brasileira, é abraçar o país, prosseguindo com este gesto de preocupação a fim de atrair, crescentemente, a atenção da opinião pública e dos políticos franceses e europeus de maneira mais ampla.”

Cabe evocar, finalmente, que os intercâmbios vivenciados entre os dois países são históricos. De acordo com Anaïs Flechet, também historiadora e cofundadora da RED.Br, “as relações entre França e Brasil são muito antigas, elas tiveram períodos de maior intensidade com os exilados da década de 1960 e 1970, e muitos intercâmbios durante os anos 2000.” Os laços progressistas franco-brasileiros, portanto, em defesa da humanidade fincada nas bases do progresso civilizatório, voltam a se intensificar.

Neto Tavares é advogado, com especialização em direito constitucional e colunista do site Brasil 247. Com colaboração de Maud Chirio



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