A rosa seca os lagos da Etiópia - Le Monde Diplomatique

UM PARQUE NACIONAL DEVASTADO EM NOME DO DESENVOLVIMENTO

A rosa seca os lagos da Etiópia

Edição - 141 | Etiópia
por Christelle Gérand
Abril 2, 2019
Imagem por Ninaras
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Em 12 de março, o presidente Emmanuel Macron fez a primeira visita de um chefe de Estado francês à Etiópia desde 1973. Ignorando as críticas quanto à falta de liberdades, ele preferiu destacar o sucesso econômico do país. Mas, embora o forte crescimento da Etiópia atraia investidores, esse desempenho tem um alto preço social e ecológico

Nas margens do Lago Abijata, na Etiópia, o solo range sob os pés do caminhante, como se fosse forrado com batatas chips. É impossível chegar perto das centenas de flamingos sem correr o risco de sentir a terra rachar e deixar a água jorrar. E com razão! Essa extensão branqueada pelo sal já pertenceu outrora ao lago, cujo tamanho diminuiu pela metade em trinta anos. Entre 1973 e 2006, sua superfície reduziu de 197 para 88 quilômetros quadrados, segundo as imagens de satélite coletadas pelo pesquisador Debelle Jebessa Wako.1 Entre 1970 e 1989, a profundidade das águas caiu de 13 para 7 metros.2 Os peixes desapareceram, sucumbindo a uma taxa de salinidade que aumentava à medida que a quantidade de água diminuía. Os outros lagos na parte central do Vale do Rift (Ziway, Shalla e Langano) enfrentam a mesma ameaça.

Na raiz do problema, o “desenvolvimento etíope”, o avesso do “milagre econômico” elogiado pelos economistas dominantes.3 O “crescimento de dois dígitos” durante dez anos (de 2005 a 2015), tão alardeado pelo Banco Mundial, baseia-se principalmente na “expansão da agricultura, da construção e dos serviços”.4 País sem litoral, a Etiópia faz qualquer coisa para atrair investidores estrangeiros: água e eletricidade quase de graça, e aluguéis dez vezes mais baixos que os preços de mercado, especialmente no setor têxtil (ler o boxe). Os que mais perdem com isso: as populações rurais e o meio ambiente.

Não muito longe do Lago Abijata, 200 quilômetros ao sul da capital, Adis-Abeba, a cidade de Ziway floresce, impulsionada pelo dinamismo do setor primário. O grupo francês Castel, o terceiro maior produtor de vinho do mundo,5 plantou vinhas ali. A multinacional holandesa Afriflora Sher construiu a maior fazenda de rosas do mundo e emprega 1.500 trabalhadores, com remuneração de 74 euros por mês. Ambas as empresas extraem gratuitamente a água do Rio Bulbula, que deságua no Lago Abijata. Já os agricultores locais instalam de forma totalmente ilegal bombas de água – de 5 mil a 6 mil, segundo as fontes – e, no final, captam ainda mais do que as empresas.

Desde 1970 e da criação do parque nacional de Abijata-Shalla, o lençol freático está oficialmente protegido. Essa área de 887 quilômetros quadrados, que inclui dois lagos (Abijata e Shalla), já foi uma floresta de acácias. Setenta mil pessoas moram ali; seus campos estão na área protegida, onde colocam gado para pastar. Algumas pessoas complementam a renda cortando árvores para fazer carvão, que vendem às margens da estrada principal. Essa prática é punível com cinco anos de prisão, mas pouco controlada. Os dois veículos dos guardas não são suficientes para realizar patrulhas eficazes. Saqueadores também enchem caminhões de areia que vendem em seguida para construtoras. O diretor do parque, Banki Budamo, não sabe o que fazer: “Dois anos atrás, um guarda foi morto enquanto tentava impedir um desses roubos. Sete outros foram gravemente feridos”.

Para lutar contra essas degradações, os 63 guardas estão experimentando novos métodos. “Estamos tentando ser diplomáticos e sensibilizar os moradores”, explica uma entre eles, Amane Gemachu. Para os que a veem brincar com os jovens aldeões e conversar com os mais velhos, a moça de uniforme militar parece feita para essa abordagem. Quando ela foi contratada há cinco anos, o lago era “1 quilômetro mais largo”. Ela questiona a Abijata-Shalla Soda Ash Company Share (Assasc), empresa que produz bicarbonato de sódio e capta a água diretamente do Lago Abijata. Segundo ela, os produtos despejados pela empresa, da qual o governo etíope detém 45%, também seriam responsáveis pelo desaparecimento dos peixes. Berhane Amedie, gerente-geral da Assasc, refuta categoricamente essa acusação: “Não usamos nenhum produto químico!”, diz sem piscar.

Ele nos recebe em seu imponente escritório na sede da empresa em Adis-Abeba, num encontro para o qual também convidou Worku Shirefaw. Esse engenheiro supervisiona a construção de uma nova fábrica, que dessa vez bombeará a água do Lago Shalla. “A fábrica Abijata é uma instalação-piloto. A ideia sempre foi construir outra, com mais capacidade. O Lago Shalla é muito mais profundo, portanto menos sujeito à evaporação.” A empresa pretende aumentar a produção das atuais 3 mil toneladas para… 200 mil ou até 1 milhão de toneladas. Amedie apresenta imediatamente um argumento de peso: “Esperamos ganhar US$ 150 milhões por ano”. O bicarbonato de sódio é usado para a produção de garrafas de vidro e produtos de limpeza, especialmente para curtumes locais. O tamanho da nova fábrica também permitiria exportá-lo, particularmente para a Ásia, e “trazer dólares”.

A Etiópia importa cinco vezes mais do que exporta (US$ 15,59 bilhões contra US$ 3,23 bilhões em 2017) e lhe faltam divisas. A obtenção de um empréstimo em dólares pode levar um ano, durante o qual as empresas não estão autorizadas a importar materiais ou maquinários necessários para sua atividade. Ao lado disso, qualquer investimento voltado para a exportação é estimulado pelo poder. É por isso que o relatório encomendado pelo governo, segundo o qual o projeto de expansão da fábrica “não é recomendável do ponto de vista do ambiente”,6 quase não impressiona Shirefaw. O engenheiro até anuncia que “os trabalhos começarão em um ano, e a produção, em quatro ou cinco anos”.

Outro setor com forte uso de água e incentivado pelos planos quinquenais de “desenvolvimento e transformação” é a horticultura. A primeira fazenda de rosas foi implantada em 2000, e a Etiópia logo se tornou o segundo maior exportador dessa flor na África, depois do Quênia. “Em 2005, o governo foi nos procurar no Quênia”, recorda Michel van den Bogaard, diretor financeiro da Afriflora Sher. “Tínhamos boa reputação.” A popularidade da multinacional holandesa vinha sobretudo de suas atividades filantrópicas. Em Ziway, por exemplo, ela financiou um hospital, uma escola, um colégio e uma escola secundária, nos quais remunera o pessoal. “Quando chegamos, bombeamos água do Lago Ziway, mas desde então cortamos nosso consumo pela metade graças a um sistema de gotejamento gerenciado por computador, à reciclagem de águas residuais e à recuperação da água da chuva”, assegura. “Chove tanto na Etiópia como na Holanda, mas aqui tudo cai em três meses!”

Dois milhões de pessoas dependem do Lago Ziway, o único na bacia a ser constituído de água doce. Mas seu nível diminui inexoravelmente. A bióloga Kathleen Reaugh-Flower teme que o lago se torne endorreico, isto é, não flua mais para o Rio Bulbula, o qual deságua no Lago Abijata. Perto de Harar, 500 quilômetros a leste da capital, a cultura comercial do khat, a droga local favorita, exportada para o Chifre da África e para a Península Arábica, a cervejaria Harar e o pastoreio em excesso já levaram à secagem total de um lençol freático em 2011. Cactos agora crescem no que era uma extensão de água de 16 quilômetros de circunferência: o Lago Alemaya. A qualidade da água também está se deteriorando, o que torna mais caro seu tratamento. “Nesse ritmo, a água não será mais potável em uma década”, preocupa-se Amdemichael Mulugeta, diretor da ONG Wetlands International na Etiópia, “e o lago desaparecerá dentro de cinquenta a setenta anos. Antes, a cidade de Ziway usava água do lago, a qual bastava tratar um pouco. Agora, a purificação seria muito complexa para as capacidades locais e sobretudo muito cara. Como resultado, a água é bombeada a 46 quilômetros da cidade…”

Em razão da obsessão em atrair investidores estrangeiros, o governo vende a terra barato, em detrimento dos fazendeiros locais. Entre 2016 e 2018, grandes manifestações forçaram a renúncia do primeiro-ministro, Hailemariam Mariam Desalegn. Por muito tempo, o regime autoritário da Etiópia se beneficiou de certa complacência por parte dos observadores internacionais, que estavam entusiasmados com o crescimento econômico. Os abusos dos direitos humanos e o fraco desempenho social foram ignorados, sobretudo a taxa de pobreza muito alta, mas sistematicamente subavaliada: ela é calculada pela agência do governo com base em 19,7 birrs por dia (R$ 2,68), quando o limiar de pobreza extrema definido pelo Banco Mundial é fixado em US$ 1,90 (R$ 7,48) por dia…

 

Nem antílopes nem lobos

No cargo desde abril de 2018,7 o novo primeiro-ministro, Abiy Ahmed, colocou simbolicamente um freio no sistema de favoritismo construído pelo governo anterior. Ele anulou, por exemplo, uma série de benefícios públicos concedidos à Metals and Engineering Corporation (Metec), um conglomerado de 98 empresas administrado pelo Exército, do qual 26 líderes são hoje processados por corrupção.

Para lagos na área de Ziway, a mudança começa devagar. “Antes, raramente éramos autorizados a visitar os lugares, especialmente as fazendas de horticultura, cujos líderes não cansavam de repetir para nós que conheciam fulano ou sicrano… Agora eles têm de sentar na mesa de negociação”, diz Mulugeta. A Wetlands International está supervisionando um estudo para determinar a quantidade de água no Rio Bulbula que pode ser colhida sem danificar o Lago Abijata. Uma vez que esse número máximo tenha sido definido, a ONG planeja alocar uma porção para cada parte interessada na bacia. A ideia seria então cobrar pela água. Para não castigar os pequenos agricultores locais, com recursos muito limitados, a Wetlands International busca ao mesmo tempo melhorar suas técnicas de cultivo. Esse projeto-piloto de 200 hectares é financiado pelo Ministério das Relações Exteriores holandês como compensação por danos das fazendas de horticultura. Por sua vez, a Afriflora Sher reduz o consumo de pesticidas usando insetos especialmente trazidos da Europa e aplicados com uma espátula nos pés contaminados para devorar as aranhas vermelhas que atacam as folhas das rosas. Para os antílopes e lobos na Abissínia, já é tarde demais: não é mais possível encontrá-los no parque. Quanto às aves migratórias, elas fazem parada em outro lugar.

 

*Christelle Gérand é jornalista.

 

1 Debelle Jebessa Wako, “Settlement expansion and natural resource management problems in the Abijata-Shalla lakes national park” [Problemas de expansão do assentamento e de manejo de recursos naturais no Parque Nacional dos Lagos de Abijata-Shalla], Walia, n.26, Adis-Abeba, 2009.

2 Dagnachew Legesse et al., “A review of the current status and an outline of a future management plan for lakes Abijiata and Ziway” [Uma revisão do status atual e um esboço de um plano de gerenciamento futuro para os lagos Abijata e Ziway], relatório não publicado, Oromia Environmental Protection Office, Adis-Abeba, 2005.

3 Cf. “Ethiopia: A growth miracle” [Etiópia: um milagre do crescimento], Deloitte, Joanesburgo, 2014.

4 “Ethiopia’s great run: The growth acceleration and how to pace it. 2004-2014” [A grande corrida da Etiópia: a aceleração do crescimento e como ritmá-la. 2004-2014], Banco Mundial, Washington, DC, fev. 2016.

5 Ler Olivier Blamangin, “Castel, l’empire qui fait trinquer l’Afrique” [Castel, o império que faz a África beber]”, Le Monde Diplomatique, out. 2018.

6 Kathleen Reaugh Flower “Abijata-Shalla lakes national park: Assessment of factors driving environmental change for management decision-making” [Parque Nacional dos Lagos Abijata-Shalla: avaliação dos fatores que impulsionam a mudança ambiental para a tomada de decisão], The Sustainable Development of the Protected Area System of Ethiopia Program and the Ethiopian Wildlife Conservation Authority, Adis-Abeba, 2011.

7 Ler Gérard Prunier, “Éthiopie-Érythrée, fin des hostilités” [Etiópia-Eritreia, fim das hostilidades], Le Monde Diplomatique, nov. 2018.

 

 

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A nova fábrica do mundo?

 

Para desenvolver sua economia, a Etiópia está apostando no setor de manufatura têxtil. Adis-Abeba multiplica seus esforços para atrair gigantes da confecção que podem importar suas máquinas sem taxas alfandegárias ou ainda se beneficiar de isenção de impostos por dez anos. Essa estratégia parece estar valendo a pena: o país agora está em segundo lugar – depois do Vietnã – em termos de investimentos estrangeiros na indústria têxtil.

A Etiópia atrai assim grandes marcas de roupas e calçados, como a francesa Decathlon e a marca sueca de fast fashion barata H&M. A chinesa Huajian, que fabrica sapatos para a Calvin Klein e a Guess, também escolheu esse grande país do Chifre da África, com seus 105 milhões de habitantes e… seus trabalhadores de baixo custo. O salário mensal etíope, em torno de 35 euros, é desproporcional, por exemplo, ao dos empregados chineses (mais de 500 euros em média).1

Outra vantagem essencial na competição global: uma vez sediadas na Etiópia, essas empresas se beneficiam de vários acordos comerciais, como a Lei de Desenvolvimento e Oportunidades Africanas (Agoa) e o “Tudo Menos Armas”, que lhes permitem exportar com isenção de direitos para os Estados Unidos e a Europa.2 O setor têxtil gerou 78 milhões de euros em exportações no ano fiscal de 2017 – longe dos 238 milhões esperados este ano pelos planos quinquenais do governo, que fixou como objetivo atingir 880 milhões de euros em exportações e 300 mil empregos criados em 2020.

O setor têxtil ainda representa apenas 5% do PIB, comparado com 39% da agricultura. Contudo, as autoridades esperam aumentar esse número para 20% nos próximos dez anos. Para isso, continuam a construir parques industriais, todos feitos por empresas chinesas. A Etiópia deverá ter trinta deles em 2025. Cada parque traz sua parcela de miséria, desalojando os agricultores locais e indenizando-os muito pouco. Sem terra, eles não têm mais nada. A disciplina militar e os altos ritmos de produção na linha de montagem na área têxtil tornam-se sua única opção. (C.G.)

 

1 Esse é o salário médio dos empregados no setor privado na cidade, de acordo com o Anuário Estatístico da China 2018, Pequim.

2 Ler “Libre-échange, la déferlante” [Livre-comércio, a explosão], Manière de Voir, n.141, jun.-jul. 2015.

 

 

 

 



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