A segunda vida de Guimarães Rosa - Le Monde Diplomatique

Literatura

A segunda vida de Guimarães Rosa

por René Daniel Decol
8 de novembro de 2007
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Em seu espaçoso apartamento carioca, no gabinete de onde avistava a praia do Diabo, o escritor produziu sua obra maior, Grande Sertão: Veredas. Ele encontrara no Rio de Janeiro o seu sertão particular. E lá viveu, mineiramente, até a consumação

O sertão mineiro em que Guimarães Rosa passou sua primeira vida já foi celebrado em verso e prosa, música e dança, teatro e cinema. Mas pouco se falou de sua segunda vida: os anos do escritor no Rio de Janeiro, onde viveu de 1951 até sua morte, acompanhado da segunda mulher, Aracy. Foi ali que Guimarães Rosa escreveu suas principais obras da maturidade – inclusive Grande Sertão: Veredas.

Foi ali também que o casal recebeu a nata da intelectualidade brasileira e da cena literária internacional. Os principais editores do mundo, como o norte-americano Alfred Knopf, lá iam disputar a tradução de suas obras, para dezenas de línguas. Em 19 de novembro de 1967, foi nesse lugar que ele morreu. A neta encontrou-o caído sobre a escrivaninha, vítima de um enfarte fulminante, aos 59 anos, no auge da carreira.

O escritor voltara ao Brasil definitivamente em 1951, depois de ocupar diversos cargos diplomáticos importantes no exterior, a começar pelo consulado de Hamburgo, onde conheceu Aracy. Uma vez no Rio, o casal morou inicialmente no edifício Perigot, na praia do Russel, no bairro da Glória. Mas logo Rosa encontraria um lugar mais adequado ao seu universo ficcional: o edifício Ícaro, na rua Francisco Otaviano, 33, no Arpoador.

Hoje, além do prédio construído no final dos anos 20, a rua abriga também antigos casarões, que convivem em total desarmonia com espigões, shopping centers e até mesmo um bingo. Do outro lado da rua está o Forte de Copacabana, a ponta do Arpoador e a praia do Diabo, um costão de acesso restrito aos militares. Quando o casal viveu lá, nos anos 50, o local já era bem especial.

Enquanto Copacabana florescia como praia mais famosa do mundo, Ipanema só tinha a lagoa Rodrigo de Freitas, onde ainda se pescava e, segundo alguns, dava muita cobra. Situado entre um lugar e outro, o Arpoador era, na a época, mais ou menos o que a Barra da Tijuca é hoje: um ponto extremo, espécie de “terceira margem do Rio”.

Imensos edifícios de concreto ocupam agora todo o espaço, fazendo do predinho antigo um anão em meio a gigantes de gosto duvidoso. Mas, em seu tempo, o apartamento, que se estendia por todo o quinto andar, tinha uma vista magnífica. E, de seu gabinete de trabalho, na parte de trás, o escritor divisava uma faixa privilegiada do mar, para além da praia do Diabo.

Como tudo que cercava sua vida, o prédio tem história. Foi a primeira construção do lugar, bem ao lado do Forte. Alegando que ele tornava a importante base do exército um alvo fácil para navios inimigos em caso de guerra, os militares quiseram derrubá-lo. Mas, então, já moravam ali altas patentes do primeiro governo Vargas: o brigadeiro Eduardo Gomes, o marechal-do-ar Henrique Fontenelle e seu sobrinho, o polêmico coronel Américo Fontenelle, que depois viria a ser nomeado diretor de trânsito do Rio e, mais tarde, de São Paulo.

Apesar de cercado pelo mar, Rosa não lhe dava muita atenção: preferia o zoológico, em São Cristóvão, onde passava horas fazendo anotações sobre o comportamento dos animais em pequenos blocos de papel. Ia também diariamente ao Palácio Rio Branco, onde funcionava o Itamaraty, e à livraria José Olympio, onde a intelectualidade se reunia.

O Rio ainda era a capital da República e a sede das embaixadas. Rosa, que falava dezenas de línguas, tinha em volta de si um mundo de infinita diversidade cultural. Certa vez, ele se deu ao trabalho de enumerar: “Falo alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio sueco, holandês, latim e grego – mas com o dicionário agarrado; entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituano, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras”.

1956 foi seu grande ano. Publicou os dois volumes de Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas. Foi traduzido e publicado na França, Estados Unidos, Alemanha, Itália e Canadá. Depois, na Polônia, Holanda e Tchecoslováquia. No apartamento do Arpoador, além do editor norte-americano Alfred Knopf, o casal recebia o tradutor alemão Curt Meyer-Clason, o tradutor italiano Edoardo Bizzarri, o tradutor espanhol Angel Crespo, o crítico alemão Willi Bolle e o crítico francês Renard Perez, entre outras celebridades.

Rosa colecionava as edições internacionais que se avolumavam. E continuava retocando interminavelmente seus livros. Quando não estava com diplomatas, tradutores, críticos ou editores, lia e escrevia, na companhia de Aracy, dos seus inseparáveis gatos, da eventual presença de Wilma e Laura, filhas do primeiro casamento, e de Eduardo Tess, filho do primeiro casamento de Aracy.

Em 1964, quando veio o golpe militar, o casal quis abrigar ali Franklin de Oliveira, jornalista e crítico literário que se tornara amigo e estava sendo procurado pelos golpistas. Franklin recusou, pois poderia comprometer o escritor. Só quando viu que não o demoveria de sua decisão foi que Rosa concordou em encaminhá-lo a uma embaixada. Segundo o crítico, Rosa praticava aquilo que os alemães chamam de “amizade combatente”: atuava a favor do amigo, sem esperar que este lhe pedisse ajuda. E fazia tudo a seu jeito, discretamente, mineiramente. O casal já agira assim na Alemanha, salvando judeus do nazismo.

No domingo, 19 de novembro de 1967, três dias depois de tomar posse na Academia Brasileira de Letras, ato que vinha adiando por superstição, Guimarães Rosa brincava com a neta, Vera Tess. Como fazia todo domingo, ela saiu com a avó Aracy para ir à missa da tarde na capela do Forte de Copacabana.

“Na volta para casa, eu levava pipoca para ele”, lembra Vera. “Naquele domingo, ao entrar no escritório, encontrei-o parado em frente à escrivaninha. Soube depois: ele estava tendo o enfarte.”

Um ano depois de sua morte veio o AI-5. Sabendo que o compositor Geraldo Vandré estava sendo procurado, Aracy praticou outra vez a “amizade combatente”: ofereceu-se para esconder o artista. Vandré ficou escondido durante dois meses no apartamento. Da janela, via a movimentação das tropas no Forte, transformado em presídio político.

Graças a Aracy, Vandré escapou pelas malhas da rede. Ele, que era um dos perseguidos mais procurados pelos generais, ficou escondido no gabinete de Rosa, onde tantas histórias de coronéis e jagunços foram escritas, praticamente nas barbas dos militares.

Quando Rosa morreu, o poeta Carlos Drummond de Andrade sentenciou: “Ficamos sem saber se João existiu, de se pegar”. Mas o prédio onde ele morou está lá. Ao lado da praia do Diabo. Definitivamente, parece que o escritor achou o seu pedaço de sertão em pleno Rio de Janeiro.

 

*René Daniel Decol é jornalista, escritour e doutor em ciências sociais pela Unicamp. Está escrevendo uma biografia de Aracy Guimarães Rosa.



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