A sobrevivência das Borboletas - Le Monde Diplomatique

Queer

A sobrevivência das Borboletas

por Vinicios Ribeiro
1 de outubro de 2019
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Este é um relato pessoal, mas não um exercício narcisista.

É uma narrativa de interesse acadêmico, pois eu sou/estou professor universitário e pesquisador, apesar dos muitos obstáculos que atravessei para estar/ser/permanecer em instituições públicas de ensino superior.

Sou da ordem das bixas lepidópteras.

Rhopalocera

E é sobre isso que vou falar:

Ovo

Larva

 Pupa

 Imago

Evoco nesta conversa Eve Sedgwick 1. Ela nos conduzirá ao longo deste texto/fala. Desta metamorfose.

É uma leitura reparativa.

É uma tentativa de reparação às crianças desviadas.

É uma reparação ao desaparecimento de meus amigos.

É escavar a memória da dor e do trauma, um luto. Mas não um luto privado e íntimo, e sim, coletivo.

Saímos todos dos ovos fecundados. Lá fomos gerados. Para lá também se voltaram teorias biologicistas para dar conta do equívoco, do acidente, do ardor, da desestabilização, do terrorismo que nossos corpos se tornaram.

A leitura também é para reparar as figuras maternais das crianças desviadas.

Cabiam a elas, muitas das vezes, a dolorosa tarefa de nos colocar no caminho reto da imaginação cis-hetero-patriarcal.

Eram elas que choravam escondidas.

Eram elas que nos protegiam no escuro, ou velavam nossos sonos.

Deixem nossos genes em paz.

Estamos cansadas desse discurso que devemos ser respeitadas porque Michelangelo e Joana Darc era gay e lésbica.

Fomos assombradas pelas normas de gênero, que vigiavam também a sexualidade.

E era o armário.

O armário onde estão os monstros.

Onde estão os medos.

Os fantasmas.

Ouvindo vozes. 

Falando sozinho.

Negociando consigo mesmo estratégias de silêncio e segredo.

E se eu me esforçar ao máximo para desaparecer?

Se eu abaixar meu tom de voz, enrijecer meu corpo.

Se eu não for notada.

E se eu pudesse ser uma heroína? Uma justiceira lésbica, uma mutante.

Explodir todos trans/les/homofóbicos?

Explodir o armário e sair voando como Ludovic, em “Minha Vida em Cor de Rosa” 2.

Com bodes voadores, veados e araras azuis nos conduzindo. Resgatando crianças desviadas. Curando suas feridas, oferecendo metáforas.

É necessário fazer justiça ao que fomos. Voltar ao estado larval.

Foi exatamente lá que aprendemos a não receber amor.

Internalizamos a rejeição.

Nos sentimos inferiorizados, feios, machucados.

Então teremos que voltar a ser larva.

A imaginar outro crescimento.

Não mais silêncios.

Risos e brincadeiras.

Vamos refilmar e refotografar nossos acontecimentos.

Vamos fazer uma festa de aniversário com o tema de princesas da Disney, para a criança trans-veada.

E se a menina masculinizada queria jogar futebol, vamos com ela até a escolinha. Com chuteiras, caneleiras, shorts e camisa. Cabelo preso. Suor no rosto de tanto correr até faltar o ar.

E quando nos chamarem de sapatão

Bixa

Travesti

Vamos fazer como Paulete, em Tatuagem 3: “Parabéns, você descobriu o mundo”.

Ou dar o diploma de hétero-cis mais bem-informado.

Xerife

Policial do gênero

Parabéns.

E iremos nas reuniões de pais e mestres na escola.

Quando pedirem vigilâncias aos corpos larvais que fomos, vamos arremessar nas caras caretas de gestores e professores os três volumes da história da sexualidade, da Foucault, além de claro, vigiar e punir. Se ainda não abaixarem o chicote, jogaremos também o nascimento da biopolítica. Acreditem, eles precisam desses livros mais do que nos mesmos.

Nós precisamos de poesia e do possível.

Mas também precisamos de casa, comida quentinha e proteção.

As crianças são violentadas em casa.

Estupradas.

Amarradas.

Espancadas até a morte.

Se sobrevivermos:

Viramos crisálidas.

Pupa.

É o armário.

É o segredo.

Mas é ali onde também podemos avaliar nossa existência e forjar tecnologias de sobrevivência.

Alí encontramos aquela outra mana estranha como a gente, com problemas parecidos, dores existenciais.

Vamos escondido na primeira festa de entendidas.

A gente sempre soube de tudo, entendemos tudo, mesmo que nunca nos explicassem ou pudéssemos ler em manuais.

Entendemos como atravessar ruas, sob o risco de paus e pedras.

Entendemos do segredo, para sobreviver e viver.

De usar vestidos de mulheres adultos, calças e camisas de homens adultos, enquanto eles estão no trabalho.

De subverter nossos brinquedos.

De morar nas brechas de filmes infantis, que a priori não nos apresenta.

Eu gostaria que essas experiências de fato fossem pontuais, pessoais demais e irrelevantes.

Não, não são.

Elas constituem um sofisticado projeto de medo e desaparição.

Elas se emaranham na trama do tecido colonial, do evento racial, das desigualdades de gênero e da violência patriarcal.

A monstruosidade Brasil, com nuances de democracia eleitoral.

Um governador que une imagens de Farocki 4 e porta dos fundos, ao sobrevoar favelas com uma metralhadora.

Um prefeito pateta, que convoca os trapalhões para ir atrás de um livro onde dois desenhos se beijam.

Desenho: representação, alegoria.

“Vamos verificar se o ECA não está sendo desrespeitado”.

Prefeito, vem aqui na minha rua.

Bairro classe média, com gente bem mediana e medíocre. E eu me incluo.

Tem crianças aqui debaixo da marquise, com frio, com sede, com fome, com sono, com sonhos.

“Os defensores da infância e da família apelam para a figura política de uma criança que eles constroem, uma criança pressupostamente heterossexual e com o gênero normatizado. Uma criança que privamos de qualquer força de resistência, de qualquer possibilidade de fazer um uso livre e coletivo de seu corpo, de seus órgãos e de seus fluidos sexuais. Essa infância que eles pretendem proteger exige o terror, a opressão e a morte (Paul Preciado)5.

E a gente combinamos de não morrer, Conceição Evaristo 6.

É sobre videira, novidade, é sobre ventura profana 7.

Chegamos no Imago.

É a transformação.

Curamos nossas feridas.

Estamos abertos ao acontecimento.

Estamos nos cuidando e aprendendo receber e ofertar amor.

Não um amor escasso, finito.

Mas múltiplo, abundante, contundente.

Vamos atrás da imagem que falta, a imagem roubada.

Vamos dissolver a imagem que nos aprisionou. Este foi um trabalho sofisticado da empresa racista-patriarcal. Ensinaram a nos odiar.

A dizer que não gostamos de afeminadas, masculinizadas, não-binárias, gordas, passivas. Veadas demais, caminhoneira demais.

Estranhas demais.

Escandalosas demais.

Nossa voz. Puxa, fizeram a gente odiar a nossa voz.

Então vamos nos escutar.

Gravar áudios e colocar bem alto e estridente.

A paixão está na pesquisa, sim. Não há algo além do que paixão aqui.

Não quero distâncias, nem extremidades.

Quero proximidade. 

Rompimento com a comunicação proxêmica.

O rigor está nos nossos corpos que vivem, existem.

Que se levantam pela manhã.

Que atravessam o espelho.

Que escuta que devíamos ter apanhados mais para nos endireitar.

Que segura uma catuaba, afrontosa.

Que é finíssima, fumando maconha.

Que fresca no sírio.

Que luta para que as suas não tombem, não morram em vão. Que não sejam mutiladas, arrastadas no chão de asfalto.

Que não sejam arremessadas em cis-ternas.

Gisbertas, Veronicas, Luanas, Tonhas, Allan, Lucas.

“Eu não sei se a noite me leva, Eu não ouço o meu grito na treva, E o fim vem-me buscar.
Sambei na avenida, No escuro fui porta-estandarte, Apagaram-se as luzes, É o futuro que parte.
Escrevi o desejo, Corações que já esqueci, Com sedas matei E com ferros morri.
Eu não sei se um Anjo me chama, Eu não sei dos mil homens na cama E o céu não pode esperar […] E o amor é tão longe, O amor é tão longe…
E a dor é tão perto. 8

Criança viada

Travesti da Lambada

Deusa das Águas.

A estrutura heterossexista, racista e elitista não nos quer, mas não damos a eles essa possibilidade. Nós ocupamos.

Que saibamos ouvir os nãos, as recusas e as paredes invisíveis com pólvora e gasolina. Aprendi isso no dia a dia e com Anzaldua 9: “Gostaria de chamar os perigos de ‘obstáculos’, mas isto seria uma mentira. Não podemos transcender os perigos, não podemos ultrapassá-los. Nós devemos atravessá-los e não esperar a repetição da performance.”

Não tem metáforas, eles (homens brancos cis-héteros ) vão ressoar os perigos. Mas nosso projeto é não ouvi-los e ampliar nossas pesquisas e metodologias de cura e cuidado.

Nossos artigos, monografias, dissertações e teses “intimistas” são dispositivos e ferramentas para desmantelar a caravela colonial epistêmica. A intimidade é uma potência política, em um mundo que cada vez mais invade os mínimos detalhes da existência, pretende colonizar o sono e o sonho. Nos conhecer, conhecer a outra o outro, e nos reconhecer em nós mesmos é o que eles temem.

Neste deserto do real, de ideias e fragilidades brancas e dos machos, emerge a fúria travesti, as venturas profanas, as Indianaras, lésbica futuristas. E quando disserem que nossos trabalhos não são acadêmicos, podemos responder como GA31 10:

Eu não vou deixar a inveja me abalar
Pra sempre […] Lésbicas rumo a nova era”.

É a nossa alegria e a celebração da vida, como na igreja lesbiteriana 11, profecias de vida. Como disse Foucault 12: “Não imaginem que seja preciso ser triste para ser militante, mesmo se o que se combate é abominável. É a ligação do desejo com a realidade (e não sua fuga nas formas da representação) que possui uma força revolucionária”.

 

Vinicios Ribeiro é professor do Departamento de História e Teoria da Arte da Escola de Belas Artes da UFRJ [vrkabral@eba.ufrj.br]



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