A teologia do management - Le Monde Diplomatique

INFANTILIZAÇÃO INTELECTUAL NAS ESCOLAS DE NEGÓCIOS

A teologia do management

por Maurice Midena
21 de janeiro de 2019
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Para converter alunos de cursos preparatórios em administradores, as grandes escolas de negócios institucionalizam um fenômeno de desescolarização. Os estudantes perdem progressivamente o gosto pelo saber acadêmico para se submeter às obrigações da vida dos negócios. Liberados da preocupação escolar, eles podem se adaptar ao “sério” mundo das empresas

Uma vez diplomado, em 2016, na Grenoble École de Management (GEM) [Escola de Administração de Grenoble], uma renomada escola de negócios e administração francesa, Étienne Badaroux, de 25 anos, partiu em uma viagem pelos Bálcãs com colegas de classe a bordo de um velho furgão Peugeot, modelo J5. Ao voltar para a França, depois de dez meses de viagem, o jovem tomou uma decisão irrevogável: “Disse a mim mesmo que nunca mais trabalharia de terno”. Desde o verão de 2017, ele emenda experiências como barman. E prefere isso de longe aos escritórios nos quais trabalhou em suas experiências corporativas.

Esse jovem descreve um desconforto existencial que ultrapassa o campo da indumentária: “Repetiam para nós: ‘O curso preparatório é o Caminho Real’. Mas o Caminho Real para onde? Para que serve aprender as teorias da economia e da filosofia para depois passar a vida vendendo um produto e contando os centavos que podemos ganhar a cada exemplar? Não faz sentido”.

Antes de integrar a GEM, Badaroux passou por uma classe preparatória para as grandes escolas de negócios – as famosas “prepa-HEC” [da sigla em francês para Altos Estudos Comerciais], que atraem anualmente cerca de 20 mil alunos, um número estável há dez anos. Nessas turmas, os estudantes fazem malabarismos com conceitos de filosofia, economia e matemática, refletem sobre problemas geopolíticos do Oriente Médio e dissertam sobre as questões ontológicas do prazer ou do espaço. Em suma, um local onde o saber universitário é rei.

Ao final de dois anos marcados por uma grande intensidade de trabalho, eles prestam uma prova de admissão nacional. Segundo sua classificação e seus desejos, são admitidos em uma das 26 grandes escolas de negócios que recrutam estudantes levando em conta o nível bac+2 [com formação universitária de dois anos]. Essas prestigiosas organizações francesas formam os futuros executivos de economia e se distinguem das dezenas de outras que também carregam o nome de “escolas de negócios” ou de “administração” (nome adotado pelas grandes escolas de negócios), mas não oferecem o mesmo nível de oportunidades e não são reconhecidas pelo Estado. Esses grandes estabelecimentos franceses têm importantes orçamentos, financiados em mais de 50% por onerosos valores de matrícula (12.080 euros por ano em média em 2018), aos quais se acresce a taxa de aprendizagem, as subvenções das Câmaras de Comércio e Indústria (CCI) e, cada vez mais, os capitais privados.

Raros são os diplomados que, como Badaroux, renunciam a uma carreira previamente traçada na economia, em consultoria ou em marketing, com o salário que a acompanha: cerca de 35 mil euros por ano brutos na saída da escola. No entanto, o desencantamento que ele descreve está longe de ser excepcional. O mal-estar aparece principalmente no primeiro ano, diante da fraqueza da exigência intelectual dos ensinamentos. Nos primeiros cursos de marketing ou administração, os estudantes ficam desapontados. Ex-aluna da Audencia Business School de Nantes, Catherine Galtier se lembra das “evidências teorizadas”, uma maneira dela de designar a propensão dos livros de administração a conceitualizar noções que são puro bom senso. Esse tipo de infantilização intelectual parece também estar presente no discurso do corpo docente: “Os professores não se dão nem sequer conta do vazio que sentimos. Temos a impressão de fazer muito barulho por nada nos cursos”.

 

Uma “forte experiência comum”

“Não tenho muita certeza de que os cursos nos sirvam para alguma coisa”, diz por sua vez Albane Meteyer, que, depois de obter um BTS (diploma técnico superior) de comunicação em 2014, integrou a Skema Business School, no campus de Sophia Antipolis (região Alpes-Maritimes). “A gente paga a escola, mas não o conteúdo dos cursos.”

Ainda que esse mal-estar tenha uma grande tendência a se dissipar ao longo da formação, ele prefigura o que o sociólogo e economista Yves-Marie Abraham qualificou, ao final de uma pesquisa sobre as escolas de Altos Estudos Comerciais (HEC), de “desescolarização em ambiente escolar”.1 Essa “neutralização do jogo escolar”, observa ele, aparece como uma condição necessária da formação: os estudantes da HEC só se tornarão bons administradores “à medida que pararem de ser bons alunos”. Diretora do programa Grande Escola da Skema Business School, Sophie Gay concorda com a tese do pesquisador: “Há uma ruptura forte entre a formação preparatória e a escola. Os objetivos são muito diferentes. Nossa formação se voltou para a ação, mesmo que ela necessite de uma base reflexiva”.

Os bons resultados escolares influenciam apenas de forma periférica o projeto profissional desses futuros administradores. A classificação dos alunos no seio de sua classe determina duas coisas: o destino do semestre que eles vão passar em uma universidade estrangeira e a escolha de sua especialização, que são apenas “detalhes” do diploma, segundo Abraham. “O sucesso escolar não é a nota”, precisa Gay. “Falamos mais da validação das competências. O importante vem do conjunto do dispositivo, dos percursos individualizados e da rede.”

Em um jogo escolar sem dificuldades, a desmotivação é inevitável, ou quase. Quentin Pierrot, 26 anos, diplomado em 2016 na Escola Superior das Ciências Econômicas e Comerciais (Essec), em Cergy-Pontoise, se lembra das salas de aula e dos anfiteatros onde se estendiam “florestas de MacBooks atrás dos quais era sabido que nem todos estavam anotando o curso”. Poucos reivindicam uma atitude séria, ainda mais porque para ter sucesso em uma prova não é necessário muito trabalho: “No primeiro ano, em Macro e Microeconomia, eu consultei livros de ciências políticas para ter outras visões”, conta Brune Lange, também diplomada pela Essec. “E não atingi a média na prova! No ano seguinte, eu simplesmente trabalhei no básico e decorei as definições do curso: não tive problemas.”

Desde o começo da formação prevalece a famosa “vida de estudante”, marcada por uma obsessão coletiva pela fofoca. Associações “audiovisuais” reúnem regularmente os estudantes nos anfiteatros para difundir sequências das festas onde são expostas a bebedeira de uns e os beijos calorosos de outros, sem nenhuma forma de respeito pelo pudor ou pela vida privada. Para além do consumo excessivo de álcool e das histórias sórdidas de trote, frequentemente denunciadas, o folclore instiga sentimentos afetivos nos estudantes que haviam anteriormente colocado a vida social em suspenso durante dois ou três anos de classe preparatória: fins de semana de integração, torneios esportivos, festas open bar, degustações de vinho, esqui, cruzeiros em veleiros… “Ter uma experiência comum forte no primeiro ano é importante”, salienta Jean-François Fiorina, diretor adjunto da GEM. “É isso que permite a criação de um vínculo com a escola, o qual se perpetua por anos depois do fim da formação.”

A “vida de estudante” permite estruturar as relações sociais, principalmente graças a um tecido associativo denso, que participa de um movimento de hierarquização dos estudantes. Em 1999, o sociólogo Gilles Lazuech ressaltava que “todas as associações e todos os cargos não são equivalentes”.2 Há, de um lado, as associações valorizadas e, do outro, aquelas cujos membros são de certa maneira desclassificados. A influência da associação é inversamente proporcional à sua utilidade pública. Na Escola Superior de Comércio de Paris (ESCP-Europe, a mais antiga das escolas de economia da França), a Skloub, que organiza a viagem anual de esqui, é uma das mais importantes. Por outro lado, as associações humanitárias ocupam apenas um lugar marginal.

Lazuech coloca também em destaque uma divisão de gênero do espaço associativo, com os homens obtendo a maioria dos cargos de responsabilidade. Segundo um estudo da rede de associações estudantis Animafac, em 2013 eles representavam 59% dos presidentes de associações de escolas de economia. A divisão também é social: os alunos com maiores capitais econômicos, sociais e culturais dominam o campo associativo. Diante disso, o sociólogo afirma que “as hierarquizações internas que caracterizam o espaço das atividades extraescolares” parecem ter por efeito “reproduzir os grandes princípios de divisão e de oposição que estruturam o espaço profissional dos executivos”. Menos conhecida que a formatação ideológica e o credo neoliberal, a passagem por uma associação é um elo essencial da conversão ao “administrador sério”, já que essa “instituição dentro da instituição” prepara os estudantes para as situações que eles enfrentarão quando evoluírem em uma empresa, levando-os a desenvolver tanto as competências técnicas como os conhecimentos úteis nas relações interpessoais. Um cargo de tesoureiro, por exemplo, permite que o estudante se familiarize com os trabalhos de contabilidade, mas também com a arte da negociação, principalmente na atribuição de orçamentos aos diversos polos que compõem uma associação.

A conversão da preocupação escolar em “administração séria”, completada por diversos estágios em empresas, revela uma ambiguidade intrínseca às business schools. A fim de garantir seu lugar no seio da família das grandes escolas, estas sempre sofreram com as contradições entre oferecer uma formação prática, que torne seus diplomados diretamente operacionais para as empresas, e a necessidade de uma legitimidade acadêmica, principalmente por meio do recrutamento de estudantes de classes preparatórias. Essa busca por legitimidade passa também pela pesquisa em ciências de administração, que conheceu um forte crescimento nos últimos vinte anos.

Essa tendência responde a uma lógica de competitividade crescente entre os estabelecimentos da França e fora dela. Concedidos um por uma fundação europeia e outro por uma organização profissional norte-americana, os importantes e regrados selos Equis (European Quality Improvement System) e AACSB (Association to Advance Collegiate Schools of Business), que certificam a excelência de uma formação, dão relevância à pesquisa universitária. Para remunerar os professores pesquisadores pagos a preço de ouro nesses estabelecimentos (um jovem doutor ganha no mínimo 50 mil euros brutos por ano), é preciso obter financiamentos junto às empresas… ou cobrar dos estudantes. Segundo os números fornecidos pelas escolas, seus gastos com escolaridade aumentaram 14% nos três últimos anos. “A virada acadêmica teve um papel essencial na alta de suas necessidades financeiras, e seu investimento recente na pesquisa induz a um reforço certo na ordem de prioridades”, explica a socióloga Marianne Blanchard.3 E isso mesmo que o aporte da pesquisa à qualidade do ensino pareça longe de ser substancial: “Os professores com forte atividade de pesquisa não são particularmente chamados a dividir os resultados”, continua Blanchard, “nem a formar os estudantes, já que estes são vistos como essencialmente interessados em uma formação ‘pragmática’”.

 

Diploma, um “produto final”

Essa tensão entre a universidade e a prática chegou a se tornar um conflito ao longo da história. Desde 1806, quando foi proposto que uma formação comercial fosse criada em Paris (a futura ESCP), o Conselho Geral do Comércio Francês garantia que “o comércio como ciência [era] um estudo supérfluo e inútil a um grande número de negociantes que precisam somente de conhecimentos práticos”.4 Em 1988, o  especialista em ciências da administração Henry Mintzberg afirmava: “Nossas organizações são muito importantes para entrar nesse jogo”5 – subentendendo o jogo universitário, o da reflexão, da pesquisa, do saber gratuito. Ao contrário, o economista norte-americano Thorstein Veblen escrevia desde 1918: “Uma escola desse tipo, com seu corpo docente, suas instalações, ocupa um lugar comparável às faculdades de Teologia em nosso sistema universitário. Todas são estranhas à empresa intelectual, que é a razão de ser aparente de nossas universidades”.6

As escolas de comércio afirmam colocar tudo em ação para favorecer a satisfação pessoal de seus estudantes, mas não se deve perder de vista seu objetivo principal: formar executivos operacionais para as empresas privadas. “Não podemos mais falar de escolaridade, mas de experiência estudantil”, precisa Fiorina à GEM. “Com tudo o que se pode fazer fora dos muros da escola, o ‘produto final’ que entregamos terá compilado um conjunto de competências.” Em 2017, 60% dos estudantes tinham encontrado um emprego antes mesmo de deixar a escola, segundo a Conferência das Grandes Escolas: a cadeia de produção anda bem.

 

*Maurice Midena é jornalista e ex-aluno de uma escola de negócios.



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