A Ucrânia mais dividida do que nunca - Le Monde Diplomatique

BATALHAS NO DONBASS

A Ucrânia mais dividida do que nunca

Edição - 89 | Ucrânia
por Laurent Geslin|Sébastien Guex
1 de dezembro de 2014
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De cada lado da linha de cessar-fogo, o aumento das tropas gera dúvidas sobre uma retomada dos combates no Donbass. A vitória dos partidos ucranistas no oeste e a incapacidade da “comunidade internacional” em buscar um compromisso incentivam cada campo a apostar na força

Dimitri às vezes retorna para saber das novidades de seus antigos vizinhos, que ainda vivem no bairro em ruínas de Putilovka, a 2 quilômetros do aeroporto de Donetsk, na região oriental da Ucrânia. Explosões carregaram o teto dos edifícios, os incêndios escureceram os muros de tijolos. Alguns combatentes se agacham diante de um fogareiro onde uma cafeteira se aquece. “Não recebemos nenhuma ajuda”, lamenta o velho homem, contemplando um monte de pedregulhos e feixes de metal retorcido. Dimitri dorme na casa da família. Outros preferiram fugir para Kiev ou para a Rússia. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), mais de 830 mil pessoas abandonaram seus lares1 desde o início de uma guerra que já fez, oficialmente, mais de 4 mil mortos. Aqueles que permaneceram tentam sobreviver como podem. O trabalho é raro. Muitas empresas, lojas e a grande maioria dos bancos fecharam suas portas no território das “Repúblicas Populares” Autoproclamadas de Donetsk (DNR) e de Lugansk (LNR). Todos os dias, as filas aumentam diante dos correios, onde as pessoas recebem dinheiro enviado do exterior. “Vivo de minhas economias, mas logo elas se esgotarão”, explica Alexei, um minerador aposentado.

Em 4 de novembro, o primeiro-ministro ucraniano, Arseni Yatseniuk, anunciou a interrupção dos financiamentos públicos dirigidos às regiões controladas pelos rebeldes: “Se enviarmos hoje esse valor, o dinheiro não irá para o povo, mas será roubado pelos gângsteres russos e servirá principalmente para apoiar o terrorismo russo”, justificou. Em 15 de novembro, o presidente Petro Poroshenko, por sua vez, anunciou a retirada de todos os serviços públicos e empresas estatais. Essas medidas podem afastar ainda mais as zonas em secessão. No entanto, ainda que o governo não pague mais os salários dos funcionários e congele os 34 bilhões de grívnias (R$ 5,6 bilhões) inicialmente destinados a essas regiões em 2014, ele anunciou que continuará a fornecer gás e eletricidade.

As regiões administrativas de Donetsk e Lugansk contavam com 7 milhões de habitantes antes do conflito. Os rebeldes controlam as zonas mais populosas, com exceção de Mariupol, ou seja, provavelmente cerca de 5 milhões de pessoas. O governo ucraniano prefere desviar os olhos. “Não quero saber de nada do que acontece do outro lado da linha de frente”, martela Volodymyr Hritsishyn, vice-governador exilado da região de Lugansk. Ele se instalou no antigo escritório do reitor da universidade da cidade de Severdonetsk, que se tornou a sede de uma administração deslocada. Como muitos, ele sofreu as intimidações dos rebeldes: “Os funcionários, os professores e os aposentados que ficaram lá, foi por escolha própria, é seu direito. A Ucrânia não lhes deve mais nada, principalmente salários!”. Ele lembra, no entanto, que as pessoas idosas ainda podem receber suas aposentadorias. Para obter em dinheiro, elas devem se cadastrar em uma aldeia controlada pelo Exército ucraniano e atravessar todo mês a linha de frente – uma atividade que muitos são incapazes de realizar.

Apesar do cessar-fogo assinado em 5 de setembro passado em Minsk, os combates são diários no aeroporto de Donetsk, na região do Monte de Debaltsevo, controlado pelo Exército ucraniano e próximo da central elétrica de Schatye, no norte de Lugansk. Os recentes reforços de blindados e de artilharia provocam o temor de uma retomada dos combates. No dia a dia, as entidades separatistas se revelam incapazes de encontrar uma resposta para a pobreza que se propaga. Moscou se contenta em enviar “comboios humanitários”, cujo conteúdo não se pode verificar. O Kremlin e grupos privados garantiam uma parte do orçamento das duas “Repúblicas”, sem que fosse possível prová-lo. “Não poderíamos sobreviver sem a ajuda financeira de nossos vizinhos e amigos”, concede ainda assim Igor Kostianok, o “ministro da Educação” da DNR.

Desde meados de outubro, o inverno se instalou na planície ucraniana e à noite as temperaturas caem abaixo de 0ºC. Toda manhã, uma dezena de pessoas se aquece em torno de uma panela fumegante, sentadas sob uma tenda montada no pátio interno de um prédio do centro de Donetsk. “Encontramos toda a comida que queremos nas lojas, mas não tenho mais nenhum centavo”, explica Ana, uma antiga engenheira. A Fundação Rinat Akhmetov é uma das raras organizações que trazem apoio material à população do leste da Ucrânia. Em meados de novembro, ela anunciava ter distribuído mais de 1 milhão de pacotes contendo cada um o suficiente para alimentar uma família durante duas semanas. Chefe destronado da região e antigo parceiro de negócios do presidente Viktor Yanukovich, o oligarca Rinat Akhmetov é suspeito de ter financiado os primeiros movimentos rebeldes, a fim de pressionar o novo governo de Kiev. Hoje, o jogo que ele contribuiu para criar parece ter escapado de seu controle, e o oligarca não é mais visto na região.

A Bacia do Don parece mais do que nunca um no man’s land entregue ao apetite de grupos concorrentes e de milícias. “Nosso objetivo é formar a Nova Rússia, mas isso vai levar tempo”, explica Gennadi Tsipkalov, o “primeiro-ministro” da LNR. “Devemos ao mesmo tempo enfrentar as urgências do cotidiano e fundar a legitimidade do novo Estado por consultas populares”, garante.

 

Chefe de brigada, “poeta idealista” e juiz popular

Em 2 de novembro, as duas entidades tiveram eleições legislativas e presidenciais, uma semana depois das legislativas oficiais que tinham confirmado a vitória dos partidos pró-europeus em Kiev.2 Sem surpresa, os homens poderosos que dominavam as duas “Repúblicas” se mantiveram no poder: Aleksandr Zakharchenko, um antigo eletricista de 38 anos que se tornou chefe de guerra, foi eleito em Donetsk com cerca de 77% dos votos; o militar Igor Plotnitski, com 50 anos, foi o escolhido de Lugansk, com mais de 63% dos votos. Na realidade, estas eleições não reservavam nenhuma surpresa, já que todos os oponentes potenciais tinham sido colocados de lado nas semanas que precederam as eleições. O chefe do batalhão “Batman”, que controla a frente do norte de Lugansk, Alexander Biednov, também tentou se inscrever junto à comissão eleitoral da LNR antes das eleições. Uma fuzilada o dissuadiu da ideia, e desde então o homem entrou na linha. “Todos os candidatos que se apresentam às eleições são amigos”, explicou, alguns dias antes do voto, Andrei Purguine, “vice-primeiro-ministro” da DNR: “As Repúblicas Populares são democracias. No entanto, estamos em guerra e não podemos nos permitir partidos de oposição que poderiam semear a discórdia no seio da população”.

A expulsão dos concorrentes potenciais não significa que os grupos no poder nas duas entidades sejam homogêneos e dispostos a cooperar para fundar um Estado federal, embrião da Nova Rússia.3 Os deputados representam uma ou outra “República”; nenhum parlamento federal foi eleito. “Por que a DNR e a LNR não se unem? Em primeiro lugar porque seus dirigentes não se gostam”, garante ao abrigo dos ouvidos indiscretos o historiador Yuli Fyodorovski, no resguardo de um carro estacionado em uma rua deserta de Lugansk: “O governo da LNR sabe muito bem que, se participar da instauração de mecanismos federais, a entidade será subserviente a Donetsk. E por enquanto ele já enfrenta dificuldades suficientes para conter os grupos rivais que lutam dentro de seu próprio território”. Mesmo para esse cronista especializado, é difícil identificar o papel da Rússia nisso tudo: “É claro que a nebulosa do Kremlin manipula certo número de peões na região, mas na maior parte do tempo é impossível dizer quais ou por quê”. Segundo ele, a principal linha de fratura entre os dirigentes separatistas se situa desde setembro entre “os grupos que apoiam o cessar-fogo e desejam reforçar a instalação de seu poder e os outros que recusam a trégua e tentam fazer avançar as linhas”.

Quando a noite cai, as ruas de Lugansk se esvaziam imediatamente por falta de eletricidade. Os abastecimentos de água quente são instáveis. “Eles dizem que as panes de eletricidade se devem aos ucranianos, mas a verdade é que eles são incapazes de fazer o que quer que seja para sua população”, exalta-se Pavel Dremov, um cossaco do Don com a barba descuidada. A cerca de 60 quilômetros de Lugansk, esse ex-pedreiro administra com mão de ferro a cidade de Stakhanov e se vangloria de praticar ali um socialismo “soviético” acrescido de uma “democracia direta popular” colocada em ação por grandes “assembleias cidadãs”. À sombra da casa de cultura local, rodeada por soldados, Dremov vem várias vezes por semana responder às reclamações dos cidadãos. “Organizamos o governo da consciência, contrariamente ao governo do dinheiro, que eles estabeleceram em Lugansk”, resume o chefe de guerra. A água quente e a eletricidade foram rapidamente restabelecidas em Stakhanov. Dremov não esconde seus desejos: ele sonha com uma “república socialista cossaca independente” e está alerta contra qualquer tentativa de ingerência em seus negócios.

Alguns quilômetros mais a leste, em Alchevsk, o temível chefe da brigada “Fantasma”, Alexei Mozgovoy, se define a si mesmo como um “poeta idealista”. Ele instituiu na cidade os “tribunais populares”, onde a população faz justiça levantando as mãos. A primeira sessão da nova “instituição” foi realizada em 30 de outubro: um homem acusado de estupro foi condenado à morte pela assembleia.4 O poder de Lugansk não pôde impedir que o processo acontecesse.

Esse despedaçamento contraria a constituição de uma estrutura de poder funcional e preocupa alguns combatentes: “Não estou nem aí para Lugansk. Eu luto pela Nova Rússia. Esse é o projeto que deve reunir a todos. Essas pequenas repúblicas são apenas estruturas circunstanciais”, explica Rotislav Juralev, um miliciano originário do Ural, enquanto esfrega sua Kalashnikov no hall de um hotel de Lugansk. “Para ser honesto, sou comunista”, continua. “Vejo que essas repúblicas estão longe de serem comunistas: muita coisa precisa mudar para que se desenvolvam verdadeiras políticas sociais. A prioridade, porém, é a união do mundo russo [russkiy mir]. A união tem de acontecer, ela vai acontecer. E se as lutas pelo poder continuarem, acredite em mim, saberemos fazer os ambiciosos retomar a razão.”

Apesar dessas divisões, uma administração e uma polícia foram laboriosamente instauradas, fundando-se, para o bem ou para o mal, no que restava das infraestruturas ucranianas. Ainda que muitos policiais tenham ajudado os separatistas durante as manifestações do primeiro semestre, “há 90% dos efetivos da polícia a se reconstituir na DNR”, garante o comandante do distrito da cidade de Torez, que deseja permanecer anônimo.

Instalado no bar de um hotel de luxo do centro da cidade de Donetsk, Alexander Kalyussky fuma meticulosamente seu narguilé. “Se não instaurarmos nosso próprio sistema bancário, seremos incapazes de taxar as empresas, coletar impostos e auxiliar os mais desprovidos”, explica o “vice-primeiro-ministro encarregado da política social” da DNR. “Mas se Moscou apoia nossa independência, os bancos russos virão se instalar aqui e um novo sistema econômico será instaurado.” Em 27 de outubro, a Rússia tinha anunciado pela voz de seu ministro das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, que reconheceria o resultado das eleições de 2 de novembro. O Kremlin apenas “respeitou” a eleição, decepcionando por enquanto os sonhos de reconhecimento dos dirigentes separatistas. Seus planos iniciais visavam à reunião com a Rússia depois dos plebiscitos sobre a independência organizados no primeiro semestre. No entanto, Moscou teria muito a perder com uma nova anexação, logo em seguida à da Crimeia. É por isso que as autoridades separatistas se apegam ao fortalecimento das estruturas estatais. “Enquanto esperamos que os Estados estrangeiros nos reconheçam, devemos reconstruir uma economia eficiente, livre dos oligarcas que exploravam outrora a população do Donbass”, continua Kalyussky.

Na realidade, ninguém sabe sobre que base a indústria poderia funcionar. Antes da guerra, as minas e as fábricas da região faziam parte de um sistema integrado em escala internacional. O essencial das exportações transitava pelo porto de Mariupol, mas essa cidade estratégica permanece controlada pelo Exército ucraniano. As nacionalizações decretadas pelas novas autoridades visam principalmente repartir as grandes empresas entre os grupos rebeldes. O “ministro da Agricultura” da DNR, Alexei Krasilnikov, afirma, por exemplo, que “o Estado vai tomar o controle da maioria dos grandes grupos agrícolas” e que “seus dirigentes serão nomeados pelo governo”. Por enquanto, a maioria das indústrias do leste da Ucrânia está parada. Antes do início dos combates, a estatal Makievka Ugol explorava oito minas em Makievka, uma cidade da Grande Donetsk, e empregava 17 mil trabalhadores. Desde julho, porém, apenas três poços trabalham, e em ritmo reduzido. “O carvão se acumula, pois o trânsito para o resto da Ucrânia foi interrompido, e não estamos ganhando nenhum salário”, lamenta-se Vladimir Filimonchuk, membro do Sindicato dos Mineradores Independentes.

Para sobreviverem economicamente, os separatistas não têm outra escolha a não ser diminuir a pressão militar que limita por enquanto a viabilidade de suas entidades. De resto, alguns chefes rebeldes não escondem sua estratégia. “Vamos retomar os territórios dos oblastsde Donetsk e de Lugansk ainda sob o controle dos fascistas de Kiev”, quer acreditar o supernacionalista Andrei Purguine, acrescentando: “Também estou convencido de que as cidades que falam russo, como Dnipropetrovsk, Carcóvia e Odessa, também vão se rebelar e fundar novas repúblicas populares”. Se o conflito se eternizar e Moscou se contentar em utilizar essas entidades para desestabilizar seu vizinho ucraniano, sem reconhecer sua independência, o leste da Ucrânia correrá o risco de permanecer por muito tempo uma zona infernal aberta a todos os tráficos.

 

Laurent Geslin é jornalista do Correio dos Bálcãs e Sébastien Guex é professor de história contemporânea na Universidade de Lausanne; autor de “La politique des caisses vides. Etat, finances publiques e mondialisation” [“A política das caixas vazias. Estado, finanças públicas e mundialização”], Actes de la recherche en sciences sociales [Atas de Pesquisa em Ciências Sociais], n° 146-147, março 2003.

 

1  Segundo o Acnur, cerca de 400 mil cidadãos ucranianos se refugiaram na Rússia desde o início de 2014. Os deslocamentos internos na Ucrânia são estimados em 430 mil. Ver: www.acnur.org/t3/portugues/.

2  A participação nestas eleições foi de 52,4% dos inscritos.

Novorossia, ou “Nova Rússia”: o termo retoma, no imaginário coletivo russo, o governorat criado pela imperatriz Catarina II no fim do século XVIII. Esses territórios se estendiam do porto de Odessa, no Mar Negro, ao de Mariupol, no Mar de Azov.

4   BBC, 3 nov. 2014. Em novembro, a sentença ainda não tinha sido executada.



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