RESENHA

“A verdade é um corpo sem alma”, de Aluísio Martins

Confira resenha do livro de Aluísio Martins, A verdade é um corpo sem alma, lançado neste ano pela editora TAUP

“chega com uma aparência antiga, frágil, criança, eu diria –

como você foi naquele dia em que pôs tudo a perder na sua vida.

Mas por enquanto nada sei”

Esses versos marcam o espaço do sujeito lírico de Aluísio Martins, no qual percorre as andanças da memória e identidade, temas do livro A verdade é um corpo sem alma (Editora TAUP/2026).

Foto: Reprodução/Instagram

No interior da imagem – aqui fruto da poiesis e sua condução –, há um ciclo de distância e proximidade da voz que narra, matéria-prima, formadora de dor, desejo, escrita, leitura, elementos da natureza (o vento, o úmido, a raiz, a água) e do passar dos anos. Ao todo, podemos analisar como que a fala do autor se manifesta ao longo da obra em características sensoriais nos momentos em que incita a menção ao próprio título do livro.

O trabalho com a sintaxe é percebida com mais força a depender dos poemas. Em determinados versos, os substantivos e adjetivos são o ponto nodal do escrito: a condição do eu lírico é posta a partir de representações, guiando um fluxo contínuo, apesar das quebras entre os tópicos, que vão desde o teor metafísico até o urbano das cidades.

“Se deixarmos, as costuras das mãos acenam cumprimentos sem cadarços.

Aquela verdade morreu como um parafuso, oxidada,

no fundo de um navio atracado com o esquecimento”

A princípio, um texto hermético, mas não necessariamente indecifrável caso seja colocado o todo da obra em relevo. A memória que se fisga no presente, cuja angústia, sentimento bastante carregado no decorrer dos poemas, se apresenta para o leitor de forma curiosa. A mão que se costura (por quem? pelo o quê?) indica uma ação passada, ou seja, sofreu um abalo. Se ela acena, não podemos conceber, pois não há um diálogo por parte do outro. Os seis primeiros versos revelam uma omissão, resultando nas próximas metáforas ligadas aos elementos da natureza: mar, oxigênio, terra, respectivamente, navio, oxidada, atracado.

Se nos primeiros versos as temáticas são apresentadas sob o registro do significante, Martins vai criando a relação conforme as páginas. A ausência, por exemplo, retorna como figura central, em particular no poema intitulado “Ela que não fecha os olhos quando morre”.

“me cumprimenta –

prova que morreu oito vezes”

Em geral, não há uma interpretação fechada sobre forma e conteúdo do poeta, me baseando, aqui, nas ideias, em rastros encontrados no livro, pois não é uma estrutura linear caso assim deseje aquele que tentar emergir em A verdade é um corpo sem alma.

É interessante notar que o convite de Aluísio Martins é realizado sob essa falha na língua que não aparenta se encontrar, se direcionar por um foco específico. Por mais que os recursos formais entreguem o jogo das sensações, o corpóreo, os “braços das amendoeiras” não são possibilitados em uma análise que privilegie o que chamo de “grande poema”: uma narrativa concisa, em que determinados elementos são escolhidos com um fim mais ou menos estruturado. Não são, em sua totalidade, poemas esparsos, pois ainda temos imagens que se repetem: as mulheres, o discurso político através da observação do dia a dia e de suas funções regidas por indivíduos: os porteiros, a classe média alta ou elite, as mães, os filhos, além das relações afetivas, que são o fator mais trabalhado dentro de uma perspectiva da analogia e metáfora. É como se houvesse uma associação livre na técnica, tentando mostrar o processo de construção do objeto artístico. Experimental? Uma mistura de gêneros? Talvez.

Caso se tratasse de mostrar qualidades idiossincráticas como parte essencial do “respiro” do autor, o livro seria apenas uma coleção de quadros do cotidiano, um mero andarilho preso em seus pensamentos. Ora, é preciso ter em mente que há também fragmentos que deveriam produzir uma necessária distancia, mesmo que sejam bastante particulares. O que une essa colcha de retalhos de Aluísio Martins é a ode ao ócio, a imersão em si sem que seja um falatório, o que costuma ser uma tendência na poesia e ficção, para não dizer mais intensa na literatura contemporânea, destacando as consequências do pensamento do “Império do Eu”. O poeta, aqui, não comporta tal atitude, dialogando com seu leitor, chamando-o nesse corpo que se aventura pelas palavras e suas possíveis traduções.

 

Lorraine Ramos Assis é revisora e pesquisadora.

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