A vertiginosa queda da imagem do Brasil na França

DE LULA A BOLSONARO

A vertiginosa queda da imagem do Brasil na França

por Rémi Caron
9 de novembro de 2022
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Análise dos artigos publicados pelos dois maiores jornais franceses: Le Monde e Le Figaro

O Brasil é um país que seduz o mundo há séculos. Entre as inúmeras qualidades desse país-continente, podemos notar: suas paisagens deslumbrantes, uma biodiversidade de uma riqueza única, um povo dinâmico, conhecido por sua simpatia e sua festividade, uma cultura radiante, uma indústria forte e uma excelência esportiva inspiradora.

A ex-colônia portuguesa conseguiu aproveitar da sua imagem positiva para ser respeitada no exterior, e para fazer os turistas do mundo inteiro sonharem. Essa imagem é o resultado de um esforço diplomático muito antigo do Itamaraty – um dos órgãos diplomáticos mais potentes e tradicionais do mundo. Um dos exemplos mais marcantes foi a participação do Brasil na exposição universal de 1937 sediada em Paris, o então grande centro diplomático europeu. O pavilhão brasileiro causou uma forte impressão, conquistando o ministro francês do comércio, Fernand Chapsal, que enalteceu a aliança entre a natureza “paradisíaca” do gigante sul-americano e seu “grau avançado de industrialização”.

Nos anos 1960, assim como boa parte da América Latina, o Brasil afundou-se no autoritarismo das ditaduras militares apoiadas pelos Estados Unidos. Entretanto, nem mesmo o grave contexto atravessado pelo povo brasileiro foi capaz de reduzir o deslumbramento de turistas norte-americanos e europeus, atraídos pelas maravilhosas praias tropicais. Estes, muitas vezes, passavam toda a estadia no Brasil sem ao menos perceberem que ali se vivia sob um regime ditatorial. Concomitantemente, a França foi um dos países que mais recebeu exilados políticos brasileiros, entres eles alguns ilustres artistas como Nara Leão, estreitando as relações democráticas, culturais e sociais entre os dois povos.

A partir da redemocratização, o Brasil avançou no caminho da globalização, posicionando-se então como futura potência ao amanhecer do novo milénio. Mas foi preciso esperar a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva e de suas reformas sociais ambiciosas para ver o Brasil se afirmar enquanto nação incontornável na imprensa francesa. Para ilustrar a importância da cobertura midiática recebida pelo Brasil na França, somente entre os dias 28 de outubro e 4 de novembro deste ano, período que envolveu o segundo turno das eleições, o Le Monde publicou 23 artigos sobre o país.

Na década de 2000, o Brasil não se contenta apenas em fazer sonhar, ele se torna um exemplo, um modelo, quiçá um líder entre todos os países “em desenvolvimento”. Seu crescimento econômico vertiginoso, o carisma de seu presidente, assim como suas alianças estratégicas com outras nações oferecem ao país a melhor imagem internacional de sua história.

Durante o governo Lula, a aliança com a França é extremamente fortalecida. Em um primeiro momento com o presidente Jacques Chirac (até 2007) e depois com o presidente Nicolas Sarkozy – ambos de direita. As duas nações assinam uma quantidade importante de acordos comerciais, militares, ambientais, científicos… Essa cooperação é uma das prioridades estratégicas para ambos países, que compartilham uma fronteira (entre a Guiana francesa e o estado do Amapá).

A aliança franco-brasileira se intensifica também através da cultura. Entre os anos 2003 e 2008, Gilberto Gil, artista francófono admirado no país de Edith Piaf, é ministro da Cultura e participa ativamente da organização de dois eventos-chave para as relações entre as duas nações: o ano do Brasil na França, em 2005 e o ano da França no Brasil, em 2009. Ambos são um grande sucesso.

Lula em encontro com Emmanuel Macron, presidente da França, em Paris. (Foto: Ricardo Stuckert)

No final dos anos 2000, o Brasil é mais respeitado do que nunca na França. Me lembro com uma certa nostalgia da aparição frequente do presidente petista no jornal nacional francês durante a minha adolescência. Nessa época, essa figura da esquerda mundial era elogiada pela grande maioria das pessoas do meu país, independentemente de suas orientações políticas.

O Lula no jornal nacional, o Lula nas capas de revistas, o Lula nos livros de geografia, o Lula escolhido como “homem do ano” pelo Le Monde em 2009… A França – provavelmente mais que muitos outros países – foi arrastada por uma onda otimista vindo da esquerda brasileira.

Porém, é importante destacar que a imprensa e a população francesas são globalmente conscientes da manutenção dos grandes males desse país-continente que são a corrupção endêmica, as desigualdades raciais e econômicas e o nível altíssimo de criminalidade. Por exemplo, o escândalo do Mensalão decepciona boa parte da imprensa que via na vitória do Lula o começo de uma política mais exemplar em relação ao combate contra a corrupção.

Os anos 2010 são um desafio imenso para o gigante sul-americano. Enquanto o mundo é golpeado pela crise econômica desde 2008, o Brasil parece estar resistindo de maneira insolente. Em 2010, último ano do mandato do presidente Lula, a imprensa francesa realiza um balanço político dos oito anos de seu governo.

Le Monde publica um artigo intitulado “Lula, a consagração de um homem do povo”, onde considera que a “ascensão do presidente acompanhou a ascensão do Brasil”. O artigo é globalmente muito elogioso.

Le Figaro não tem uma opinião diferente. No artigo “O milagre Lula”, o jornal conservador afirma: “se existe no mundo um país cujo sucesso é unanimidade, é sem dúvida o Brasil do Lula”. Posso dizer que em toda minha vida essa foi a primeira vez que vi esse jornal elogiar de tal maneira uma personalidade política de esquerda.

Quando a favorita do ex-metalúrgico, Dilma Rousseff, é eleita, ela fica diante da difícil tarefa de prosseguir as políticas de seu predecessor em um contexto menos favorável. A crise internacional acaba atingindo o Brasil e a primeira mulher presidente da história da nação tem que enfrentar protestos históricos da oposição, o primeiro em 2013 e depois em 2015, durante seu segundo mandato. É nesse período que a imagem do país desmorona na imprensa francesa. Le Monde e Le Figaro se interessam particularmente pela crise profunda que o Brasil atravessa e expressam uma preocupação real a propósito das consequências que ela poderia ter. O primeiro pergunta: “Enfrentando uma crise econômica, política, moral e uma impopularidade recorde, conseguirá a presidenta brasileira ir até o fim do seu mandato?”, enquanto o segundo afirma: “Crise econômica, política e moral: o Brasil parece estar à beira do precipício”.

A destituição extremamente controversa da presidenta petista marca a queda vertiginosa da esquerda brasileira. Le Monde, jornal de centro-esquerda que estava globalmente bastante satisfeito com a gestão de Lula e depois de Dilma, deixa transparecer uma certa frustração em relação ao processo de impeachment. Le Figaro, apesar de ser um jornal de direita, reconhece também o sucesso das políticas passadas do PT e sua constatação da situação na qual se encontra a Dilma não difere daquela do Le Monde.

Com Michel Temer, o Brasil entra em um período de transição e perde incontestavelmente sua posição de potência incontornável a nível mundial. Em 2018, ano eleitoral, o Brasil chama a atenção do mundo quase exclusivamente por sua violência e seus escândalos. Em alguns meses, a vereadora e militante de esquerda, Marielle Franco, é assassinada, o grande favorito da eleição presidencial, Lula, é condenado em um processo controverso, o Museu Nacional do Rio sofre um incêndio e o candidato de extrema-direita, Jair Bolsonaro, é notícia tanto por seus discursos de ódio como pela facada da qual é vítima. A imagem internacional do Brasil segue sua longa degradação, o que ilustram os numerosos artigos do Le Monde e do Le Figaro durante esse período.

A vitória de Bolsonaro choca grande parte da imprensa estrangeira, não sendo diferente para os dois periódicos aqui analisados. Esse representante da ultradireita é incompatível com a imagem – às vezes exagerada ou simplista demais – de nação aberta, misturada e progressista que os franceses têm do Brasil.

No país das Luzes, os dois principais jornais expressam sua preocupação, embora em graus variados. Le Monde milita abertamente contra tudo o que, no seu ponto de vista, o presidente de extrema-direita representa: “O Brasil acabou de eleger um presidente racista, sexista, homofóbico, a favor da tortura […], nostálgico de um período ditatorial”. O jornal de centro-esquerda teme pelo futuro do Brasil, da Amazônia e do planeta.

Le Figaro, por sua vez, adota uma postura bem mais moderada. Podemos observar que o jornal de direita está incomodado pelo perfil atípico do Bolsonaro que ele considera radical demais, mas se limita a leves críticas.

As inúmeras crises durante a gestão do Bolsonaro – os incêndios na Amazónia, a tensão diplomática com a França, a hecatombe de Covid-19, as ameaças repetidas contra a democracia… – acabam criando uma forma de consenso na imprensa francesa e em particular entre Le Monde e Le Figaro. O primeiro conserva a postura que adotava desde a eleição, e o segundo torna-se cada vez mais crítico em relação ao presidente brasileiro.

A crise amazônica tem consequências graves para a imagem do Brasil no mundo e em particular na França. Quando em 2019 Bolsonaro insulta a primeira-dama francesa, Brigitte Macron, todos os blocos políticos do país europeu se solidarizam com a esposa do presidente e criticam o sexismo do chefe de Estado brasileiro. Quando o ministro da diplomacia francesa, Jean-Yves Le Drian, chega ao Brasil para se encontrar com o Bolsonaro, o mesmo decide fugir para cortar o cabelo em uma live do Facebook. Do outro lado do Atlântico, a incompreensão é total. Como o presidente de uma potência do tamanho do Brasil pode tratar um aliado histórico com tanto desprezo? Segundo o Le Monde, seria “o conflito mais grave de toda a história das relações bilaterais” franco-brasileiras. O Le Figaro afirma que “Bolsonaro costuma insultar seus adversários”.

A gestão – ou ausência de gestão – da Covid-19 no Brasil afunda ainda mais a reputação internacional de Bolsonaro. As impressionantes imagens de covas sendo preparadas para as centenas de vítimas cotidianas em Manaus ou São Paulo aparecem com frequência nas capas dos jornais. O Le Figaro critica a “gestão calamitosa do presidente Bolsonaro” e o Le Monde, por sua vez, considera que o Brasil, incarnado por seu chefe de Estado, “se tornou um pária internacional”.

Enquanto Bolsonaro recebe críticas dos quatro cantos do mundo, Lula, recém-libertado de um processo judicial parcial, torna-se cidadão honorário da cidade de Paris e é recebido pela prefeita da capital francesa, Anne Hidalgo, em 2020. Em 2021, o ex-sindicalista é recebido por Emmanuel Macron no Palais de l’Elysée – o palácio presidencial francês – com o protocolo habitualmente reservado aos chefes de Estado. Apoiando o maior inimigo do presidente Bolsonaro, a França envia uma mensagem diplomática clara para Brasília.

O ano 2022 é coincidentemente marcado pelas eleições presidenciais tanto para a França como para o Brasil. Em abril, o presidente liberal Emmanuel Macron vence pela segunda vez a candidata da extrema-direita, Marine Le Pen. Em outubro, foi a vez do Brasil escolher entre a manutenção do populismo ultraconservador no Poder Executivo e a volta da esquerda e de seu líder histórico: Lula.

As eleições brasileiras sempre ocuparam espaço na mídia francesa, porém devido à sua grande importância, o escrutínio deste ano tomou proporções inéditas. As revistas lançaram edições especiais sobre o evento, as fotos dos principais candidatos lotaram as bancas de jornais, os canais de TV organizaram debates sobre a eleição brasileira e a situação do país. Em sua grande maioria, os meios de comunicação da França não esconderam sua preferência, enfatizando o desastre do governo Bolsonaro e colocando Lula como o único capaz de resgatar a democracia e o meio ambiente no maior país da América Latina.

Em 30 de outubro, acompanhei os meus amigos brasileiros que moram na França para a votação em Paris. Na fila e pelas ruas da capital francesa, o clima era de festa, as batucadas e as fantasias criaram um ambiente de Carnaval eleitoral. Para a apuração dos votos, fui para um bar, com a maior concentração de brasileiros daquela noite, havia centenas – talvez milhares – de brasileiros e franceses. Quando o Lula ultrapassou Bolsonaro na apuração, a multidão foi à loucura. Parecia a reação de uma torcida comemorando o gol da vitória na Copa do Mundo. A evolução dos resultados deixava cada vez mais claro que Lula iria vencer. Vi muitas lágrimas, muito alívio. Foi um momento extremamente emocionante, que anunciava o fim de um pesadelo de quatro anos.

Dos quase 10 mil eleitores que compareceram às urnas em Paris, 83% deram seu voto a Lula. Isso demonstra que a comunidade brasileira instalada no país é particularmente progressista e possui um histórico de luta social e de combate à extrema-direita. O presidente Macron foi um dos primeiros líderes a parabenizar Lula. Em uma chamada telefônica filmada particularmente calorosa, o presidente francês não esconde sua felicidade: “Tenho que admitir que esperava este momento com muita impaciência”.

Nestas semanas pós-eleição, já é notável o impacto do resultado na imagem do Brasil. Após quatro anos de notícias políticas exclusivamente negativas, a vitória do Lula traz uma esperança mais que bem-vinda.

Grande parte da imprensa francesa saúda a vitória de Lula no Brasil. Porém, ela alerta que se Bolsonaro perdeu a eleição, o bolsonarismo se mantém profundamente consolidado no campo político e social. A sociedade brasileira parece estar mais fraturada que nunca e as tensões provocadas pelos apoiadores do futuro ex-presidente freiam a euforia do resultado. A experiência política brasileira pode ser uma lição para a França, a Europa e todo o Ocidente de forma geral, que está flertando cada vez mais perigosamente com o populismo nacionalista.

O desafio de Lula é imenso: resgatar um país que se afundou em todos os aspectos nos últimos quatro anos. Se ele conseguir, certamente o Brasil voltará a fazer o mundo sonhar.

 

Rémi Caron é mestre em línguas e civilizações na Universidade de Toulouse, com pesquisa sobre a evolução da imagem política do Brasil na imprensa francesa.



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