A vigilância anti-muçulmana - Le Monde Diplomatique

ESTADOS UNIDOS

A vigilância anti-muçulmana

por Joel Beinin
1 de julho de 2003
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Para alguns intelectuais norte-americanos, os costumes muçulmanos são preocupantes e é preciso “vigiar e informar” sobre as atividades dos professores universitários especialistas em Oriente Médio, que “parecem não gostar de seu país”.Joel Beinin

Um trio de intelectuais norte-americanos conduz o movimento contra qualquer pensamento crítico referente ao Islã e ao Oriente Médio, em particular nos campi. Explorando os temores legítimos nascidos dos atentados de 11 de setembro de 2001, as publicações e os discursos de Martin Kramer, Daniel Pipes e Steven Emerson procuram impor uma ortodoxia anti-islâmica e antiárabe.

Pouco depois de 11 de setembro, Kramer, antigo diretor do Centro Dayan para os estudos sobre o Oriente Médio da universidade de Tel-Aviv, publicou um texto incendiário condenando o conjunto das universidades especializadas no Oriente Médio1. O autor proclamava nesta ocasião que “mandarins” da Middle East Studies Association of North América, inspirados pelas análises do livro de Edward Saïd “Orientalismo” teriam imposto um “politicamente correto” e teriam se demonstrado incapazes de avisar o público norte-americano dos perigos do islamismo. O fracasso do FBI e da CIA no 11 de setembro não é objeto das mesmas censuras.

O site “Campus Watch” serve para vigiar os professores especialistas em Oriente Médio nos EUA, que “alimentam a desinformação, a incitação e a ignorância”

Kramer também é responsável pelo Middle East Quarterly, publicação do Middle East Fórum, um think tank dirigido por Daniel Pipes. Este último tem como hábito os pressuopostos antiárabes2. Em 1990, ele já escrevia: “As sociedades da Europa ocidental não estão preparadas para a imigração maciça dos povos de pele escura que cozinham pratos estranhos e têm regras de higiene diferentes[?] Mas os costumes muçulmanos são os mais preocupantes3“.

Vigiar e informar

O Campus Watch representa um dos projetos mais recentes do Middle East Fórum. Trata-se de um site na Internet encarregado de “vigiar e informar sobre os professores que alimentam as chamas da desinformação, da incitação e da ignorância”. Segundo o Campus Watch, os universitários norte-americanos especialistas em Oriente Médio “muitas vezes parecem não gostar de seu país e estimar ainda menos os aliados estrangeiros dos Estados Unidos”. A explicação não demora: esta área de estudo seria “a exclusividade de árabes do Oriente Médio que trouxeram a sua ideologia com eles”. Pipes foi recentemente nomeado pelo presidente Bush membro do conselho de administração do United States Institute for Peace, uma fundação financiada pelo Congresso a fim de “promover a prevenção, a gestão e a resolução pacífica dos conflitos internacionais”.

Para Emerson, os EUA são base para milhares de terroristas muçulmanos. Com esta tese, imputou ao islamismo atentados sem qualquer relação com ele

Steven Emerson é jornalista e diretor de cinema. Desde o seu documentário de 1994, “Jihad in America”, ele não pára de proclamar que os Estados Unidos servem de base a milhares de terroristas muçulmanos. Sua última obra, “Os terroristas que vivem entre nós”, retoma esta linha. Os atentados de 11 de setembro aparentemente confortaram a tese de Emerson. Mas já aconteceu dele divagar. Ele tinha, da mesma forma, imputado ao islamismo o atentado contra um prédio federal em Oklahoma City em 19954 e a queda de um vôo da TWA em 1996. Errou nos dois casos.

(Trad.: David Catasiner)

1 – Martin Kramer, Ivory Towers on Sand: The Failure of Middle Eastern Studies in America, Washington Institute for Near East Policy, outubro de 2001.

2 – Ler Dominique Vidal, “Cruzado de pai para filho”, Le Monde diplomatique, março de 2003.

3 – National Review, 19 de novembro de 1990.

4 – Vide Serge Ha



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