REPORTAGEM

Acervos e futuros: Ciência e saberes amazônicos reinventam o museu contemporâneo

Partindo do diálogo entre arte contemporânea e ciência, a exposição “Quando o museu é rio”, no Instituto Tomie Ohtake, investiga como os museus podem responder aos desafios da crise climática e às demandas por novos modos de produzir e compartilhar conhecimento

“Um rio nunca existe sozinho.” Ele nasce da chuva e das correntes subterrâneas, se molda pela raiz e se desvia pela pedra, relacionando-se com tudo que o cerca, dos seres da floresta a cada um que navega e habita as paisagens conectadas e transformadas por seu curso. É essa imagem, simples e radical ao mesmo tempo, que o Instituto Tomie Ohtake escolheu para nomear sua investigação mais recente: “Quando o museu é rio”. A exposição é um desdobramento da mostra coletiva “Um rio não existe sozinho”, realizada em 2025 no Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, em Belém. A exposição expande as reflexões desenvolvidas no Pará para investigar o papel contemporâneo das instituições dedicadas à memória, à ciência e à produção de conhecimento sobre a Amazônia, reunindo artistas convidados e acervos científicos, arqueológicos e etnográficos do Museu Goeldi na sede do instituto em São Paulo. 

Não é a primeira vez que o Tomie Ohtake experimenta essa metáfora que conecta arte, memória e meio ambiente. Em setembro de 2025, a mostra A terra, o fogo, a água e os ventos – Por um Museu da Errância com Édouard Glissant já havia proposto, sob curadoria de Ana Roman e Paulo Miyada, um museu pensado a partir do poeta e filósofo martinicano: uma instituição que recusa se fundar numa origem fixa e se define, em vez disso, por “alianças provisórias, traduções, tremores”. Glissant chamava isso de errância: a possibilidade de habitar o pensamento errante mesmo sem se deslocar fisicamente, de estabelecer relação com o mundo a partir do lugar onde se está. “Mudar, mudando com o Outro, sem me perder entretanto, nem me desnaturar.” A frase, repetida como mantra pela curadoria daquela mostra, ecoa agora, um ano depois, na Amazônia.

Foto: Divulgação

As exposições compõem um projeto maior de investigação da instituição, que busca aproximar o ambiente cultural dos debates sobre mudanças climáticas e as implicações sensíveis que as transformações ambientais produzem socialmente. A história começa em 2024, com a exposição coletiva “Ensaios para o Museu das Origens”, inspirada na proposta de Mario Pedrosa para a reconstrução do MAM-Rio depois do incêndio que o atingiu em 1978. Para o crítico, além do restauro da coleção, o novo projeto deveria reunir os museus de Arte Moderna, do Índio e do Inconsciente, que já existiam, e os museus do Negro e das Artes Populares, a serem criados. A reflexão que atravessa os quase 50 anos que separam o projeto de Pedrosa e a exposição mais recente do Tomie Ohtake se resume em repensar o papel do museu. 

“Historicamente, os museus modernos constituíram-se a partir de uma lógica de coleta, classificação e estabilização do mundo, na qual colecionar significava retirar objetos de circulação, separá-los de seus contextos de uso e reinscrevê-los em sistemas de catalogação orientados por ideais universalizantes de conhecimento”, escrevem as curadoras Ana Roman, Sabrina Fontenele e Vânia Leal no folheto da exposição. É nesse contexto que foi criado o Museu Goeldi, em Belém. Fundado em 1866, ele se tornou uma das principais instituições científicas da Amazônia, ao mesmo tempo em que participava dos circuitos científicos e extrativistas coloniais. 

Por conta dessa ambiguidade, o Goeldi se tornou terreno fértil para o próprio Instituto Tomie Ohtake repensar o que pode ser um museu. “Talvez por não sermos um museu, isto é, não termos um acervo, possamos fabular sobre o que é fazer diferente enquanto instituição cultural”, explica Ana Roman, superintendente artística do Instituto Tomie Ohtake e curadora que acompanhou todas as exposições citadas até aqui. “Foi assim que nos aproximamos do Goeldi. Queríamos estar presentes na COP pois achávamos importante demarcar nosso local de enunciação enquanto instituição que também se coloca nessa dimensão de pensar crítico contemporâneo. Às vezes, as instituições culturais ficam muito apartadas do debate sobre as transformações climáticas, ou vão para um lugar meramente ilustrativo. Queríamos fazer um projeto que olhasse com cuidado para o clima, para as transformações, para os diferentes saberes que existem e para as possibilidades que eles nos trazem.”

Sue Costa, coordenadora de comunicação e extensão do Museu Goeldi, descreve o parque como uma anomalia geográfica: 5,4 hectares de floresta cercados pela segunda maior cidade da Amazônia. Belém, lembra Costa, costuma ser imaginada pelo senso comum como uma pequena cidade ribeirinha, mas na verdade é uma metrópole de 2 milhões de habitantes, envolta por todas as questões que uma cidade grande carrega no Brasil, mas que tem a floresta ao redor, proximidade que abre possibilidades raras para uma instituição tanto científica quanto cultural como o Goeldi.

Foto: Divulgação

Essa proximidade pautou a concepção da exposição “Quando o museu é rio” pois os trabalhos precisaram literalmente dialogar com o território: um artista propunha instalar um tecido pendurado entre árvores, e a equipe alertava que ali passava uma preguiça, que usava exatamente aquela copa para se deslocar; em outro ponto, era preciso evitar perfurar o solo, por causa de uma toca de tatu nas proximidades. “Todas as obras foram negociadas o tempo inteiro com a dinâmica da floresta no meio de uma metrópole”, resume.

Costa exalta o olhar dos curadores do Tomie Ohtake em relação à maleabilidade das construções narrativas em uma instituição cultural que tem a liberdade de desconstruir a forma do museu. Se, por um lado, o Goeldi foi construído como um museu etnográfico no senso mais estrito do termo – se equilibrando “entre preservação e captura, entre conhecimento e apropriação”, nos termos da curadoria – a parceria com a instituição paulistana agregou “outras perspectivas de construção narrativa e simbólica”, define Costa. 

Ao transpor e reformular a exposição do parque para o prédio do instituto, na região da Faria Lima, centro financeiro de São Paulo, há uma inversão entre as instituições.  Costa chama atenção para o espaço do Instituto Tomie Ohtake: “não é um museu no sentido convencional, mas é um espaço absolutamente musealizado”, onde o ato de musealizar – de construir coletivamente narrativas a partir do patrimônio material, imaterial ou da arte – pauta o trabalho. É esse processo que aproxima as duas instituições, apesar das diferenças aparentes entre um museu de ciência com quase 160 anos e um instituto cultural sem acervo fixo. “A diferença é só na casca”, brinca Costa, “se você morde, o recheio é igual.”

Essa tensão criada entre ciência e arte no território amazônico é central na exposição, que coloca lado a lado obras de artistas contemporâneas como Noara Quintana e Mari Nagem; fotografias históricas da Amazônia; registros de oficinas oferecidas pelo Goeldi; e artefatos científicos, como a réplica da garra de uma preguiça gigante que viveu na região há aproximadamente 12 mil anos. Ana Roman menciona uma entrevista do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro para os saberes reconhecidos institucionalmente como ciência e os saberes cultivados por povos indígenas. 

No ato de publicação de seu livro Os involuntários da pátria: ensaios de antropologia II, ele diz: “Uma das diferenças importantes entre as práticas modernas e as não modernas me parece residir no fato de que os micróbios e elétrons seriam muito mais facilmente acolhidos por um povo que regula publicamente sua vida pelos seres sobrenaturais do que os espíritos amazônicos seriam acolhidos pelo povo da mercadoria, por nós, os herdeiros das revoluções científicas. Isso não apenas em virtude do diferencial de poder entre esses dois povos, mas também por causa das suas atitudes cosmológicas radicalmente opostas. A tendência é que os brancos tolerem os espíritos, no melhor dos casos, enquanto os indígenas incorporam os micróbios e os elétrons, se isso lhes convém.”

Para Roman, a arte funciona como “meio de campo entre saberes científicos e saberes que vêm do mundo da prática, do mundo ancestral, desse mundo que habitamos”. A força da arte contemporânea reside no seu “potencial de habitar esse lugar e entendê-lo como um espaço de fabulação, de criação, de interrogação constante”. Sue Costa corrobora ao afirmar que “não há diferença alguma entre ciência e arte, pois a finalidade de ambas é falar sobre realidades, com a premissa de melhorar o mundo”.

Foto: Divulgação

O trabalho das curadoras une ciência e artes, práticas que se servem de vocabulários distintos, em um mesmo espaço expográfico para potencializar as discussões urgentes sobre a crise climática. Costa resume a lógica da união entre os saberes: “A arte traz a poética e uma abertura para o simbólico. São esses dois elementos que costuram algo fundamental: o afeto. Quando falamos de crise climática, nosso problema hoje já não é de ordem científica. Há pelo menos 30 anos a ciência vem dizendo o que precisa ser feito. Hoje, o desafio é ético. Ainda não conseguimos colocar em prática o que diferentes formas de conhecimento – indígenas, ribeirinhas e acadêmicas – vêm apontando sobre como preservar o planeta. É nesse ponto que o afeto e a arte se tornam essenciais. A ética precisa do sentimento para se consolidar. Mesmo tendo uma formação em ciências naturais, não consigo imaginar uma boa comunicação científica que não caminhe junto com a arte. Informação sem afeto é o que tem nos levado a essa situação. Informação nós já temos; o que falta é construir um vínculo afetivo com ela. Por isso, considero a arte fundamental nesse processo”.

Transposta para São Paulo, a exposição destaca os modos como saberes e práticas se entrelaçam no território amazônico. Isso é feito através não apenas das obras de arte, mas das histórias dos artistas e pesquisadores que a compõem. Como espécie de lição para a megalópole, a exposição evidencia como as diversas expressões do conhecimento e da realidade “respondem a necessidades concretas da vida”, nas palavras de Sâmia Baptista, chefe do serviço de comunicação do Museu Goeldi: “Existe uma tradição hierárquica que coloca a ciência e a arte em campos distintos, mas esse entrelaçamento é fundamental para pensarmos outros modos de habitar o mundo. A arte cria relações, desperta afetos e aproxima as pessoas de questões que a ciência sozinha não consegue comunicar. Debate-se muito sobre a crise climática, mas ainda se faz pouco. A exposição procura justamente apontar caminhos possíveis de adaptação – porque hoje já não falamos apenas em enfrentar as mudanças climáticas, mas em aprender a viver com elas”.

Se a COP-30 mobilizou o país em torno das questões climáticas por algumas semanas, a exposição busca tornar perenes e correntes, como os rios que atravessam a mostra, as reflexões propostas naquele espaço de fabulação utópica, mas não menos realista e urgente. “A ideia de levar a exposição para São Paulo é reiterar que a Amazônia é brasileira”, diz Sue Costa. “Ao fazer circular o trabalho do Museu Goeldi para além do território amazônico e dos círculos acadêmicos, a exposição apresenta uma Amazônia em sua complexidade. Afinal, só conseguimos defender e proteger aquilo que conhecemos.”

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