Agir levando em conta a diferença para criar laços democráticos -

O DESAFIO DAS FRENTES

Agir levando em conta a diferença para criar laços democráticos

por Ana Caroline Azevedo, Annie Oviedo, Gabriel Vaz de Melo, Juliana Afonso, Letícia Birchal Domingues e Mário Corrêa
1 de março de 2021
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A transversalidade da tarifa zero como viabilizadora de direitos deve ganhar corpo e espaço nas propostas programáticas de derrota do bolsonarismo

Um dos aspectos cruciais do fascismo é sua concepção do que é o povo. Para os adeptos dessa ideologia, o povo é um conjunto homogêneo, sem conflitos, sem história. Essa é, certamente, a concepção de Bolsonaro sobre o povo brasileiro. E ela é uma abstração, uma proposta irreal. Ainda assim, quem não cabe nessa definição de povo é inimigo e fim de conversa. É aqui que várias das forças sociais que acham expressão no autoritarismo se encontram: em uma concepção homogênea das pessoas, divididas entre iguais e inimigas. É com base nessa perspectiva que essas forças sociais atuam, naturalizando hierarquias sociais violentas e sustentando as práticas do atual governo.

Em oposição a essa ideia está a grande potência do antifascismo: o entendimento das coletividades como corpos políticos, com multiplicidades, conflitos, necessidades e desejos divergentes. A força coletiva dessa proposta se dá pela capacidade de olhar o outro como um igual, sendo, ao mesmo tempo, capaz de acolher as diferenças.

Se queremos que a sociedade mude, é nesse ponto que precisamos atuar. É necessário impulsionar a auto-organização popular para que não precisemos esperar por um líder, mas, principalmente, para que seja possível construir uma experiência de democracia radical, em que as pessoas façam parte de um conjunto no qual sejam iguais, mas tenham suas diferenças respeitadas. Uma sociedade onde o diferente não é visto com medo ou repulsa.

(Crédito: Vitor Flynn)

 

Aqui, partimos de nossa experiência no Tarifa Zero BH. Quando uma comunidade no Aglomerado da Serra, a maior favela de Belo Horizonte, se uniu para conseguir uma linha de ônibus, fomos convidados a fortalecer a mobilização. O processo possibilitou o encontro entre pessoas de diferentes gerações que pensam a política de diferentes formas, muitas vezes apenas interessadas em uma nova linha de ônibus. Enfrentamos conflitos e opiniões divergentes em um fazer lento, mas constante. Hoje, a linha existe, com qualidade e tarifa acessível, uma vitória no campo do concreto. Além de conquistarmos o Busão da Comunidade, criamos laços de natureza democrática. Só a coletividade foi capaz de construir essa conquista. Essa perspectiva é nossa prática cotidiana como organização.

Nosso foco é ampliar espaços e vínculos democráticos. E isso significa dialogar, fazer, atuar com quem é politicamente diferente de nós. O objetivo é que nossa sociedade possa se tornar mais democrática nas relações políticas do dia a dia – e de forma radical.

A mobilidade urbana é fundamental, pois é um direito que viabiliza direitos. Em cidades constituídas sob a segregação socioespacial, em que marcadores de gênero, sexualidade, raça e classe podem ser barreiras de acesso a serviços essenciais, a luta pelo transporte agrega diversas demandas da vida urbana. A mobilidade se relaciona com a saúde, a educação, o trabalho, a moradia, a cultura, o ócio e a pluralidade de formas que temos para viver no cotidiano.

Nossas cidades são construídas com base em uma lógica individualista, carrocêntrica. Acesso a direitos e ascensão social são viabilizados por saídas individuais e mercadológicas, das quais o carro é o símbolo fundamental. Durante a pandemia de Covid-19, o presidente vetou o auxílio emergencial ao setor de transporte público, proposto por seu próprio governo por meio do Projeto de Lei n. 3.364/2020. Mais uma vez, usuários de transporte coletivo tiveram de arcar com os custos – financeiros e sociais – de um serviço que deveria ser um direito.

O que acontece no transporte é o mesmo que acontece em outras esferas de atuação governamental. Não há políticas públicas que contribuam para a redução da desigualdade social e zelem por uma melhor qualidade de vida para a população. Encaramos a negligência do Estado no momento em que mais precisamos de amparo e de medidas eficazes de enfrentamento à crise sanitária e econômica.

Assim, a proposta da tarifa zero – a gratuidade para todos no uso do transporte público – vem ganhando mais relevância à medida que a crise da mobilidade urbana se agrava. Além dela, a transversalidade da pauta como viabilizadora de direitos deve ganhar corpo e espaço nas propostas programáticas de derrota do bolsonarismo: seja em sua frente eleitoral, seja em sua frente da política cotidiana. 

Outro campo importante para ampliar o alcance de nosso trabalho, principalmente durante a pandemia, é investir em estratégias de comunicação. Hoje, a maioria dos brasileiros se informa por WhatsApp, Facebook e YouTube: é nesses canais que notícias se espalham rapidamente e alcançam com facilidade boa parte da população. Os pacotes de dados comercializados com frequência oferecem acesso ilimitado às redes sociais, mas não aos sites jornalísticos. Além disso, os portais de notícias trabalham com conteúdos exclusivos para assinantes, prática conhecida como paywall. Essas restrições de acesso à mídia tradicional dificultam ainda mais a checagem dos fatos disseminados por meio de correntes de texto sem autoria e imagens que ostentam uma estética grosseira, amadora e, muitas vezes, violenta. 

A campanha de Bolsonaro em 2018, com pouco tempo de televisão, se aproveitou desses mecanismos para alimentar uma máquina de produção de mentiras que contribuiu para sua eleição. Ao usar uma linguagem popular, acessível e agressiva, o presidente e seus aliados ocupam essas redes, falseiam a realidade e promovem a desinformação, a ponto de vender um país fictício aos eleitores.

O Tarifa Zero BH, desde o início de sua atuação, utilizou a comunicação como instrumento de luta. Com cores vivas, campanhas lúdicas e positivas, conseguimos, em oito anos de trabalho, expandir a discussão sobre o transporte gratuito e angariar novos apoiadores. Uma comunicação que busca se aproximar de públicos diversos também faz parte do combate à estratégia bolsonarista. Precisamos, mais do que nunca, acirrar a disputa por novas narrativas, contrapondo nosso discurso e nossas reivindicações à política de morte do governo e abrindo espaço para um diálogo propositivo que recupere nossa esperança. 

 

*O Tarifa Zero BH é um movimento horizontal e aberto de Belo Horizonte, que atua em prol da efetivação da mobilidade urbana como direito. O presente artigo foi escrito de forma coletiva pelos integrantes que o assinam.



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