LITERATURA

Airton Souza: ‘Não aprendi a escrever de outra forma, a não ser olhando para o mundo dos subalternizados’

Autor do premiado ‘Outono de carne estranha’ é o quarto entrevistado do especial do Le Monde Diplomatique Brasil

Com uma vasta produção literária e mais de duas décadas de atividades como escritor, o paraense Airton Souza conquistou o Brasil com Outono de carne estranha, romance vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e finalista do prêmio Oceanos, São Paulo e Mix Literário. 

A narrativa se passa na Serra Pelada, área de garimpo no sul do Pará. “A minha obsessão como ficcionista é a geografia a qual eu nasci. Uma região marcada por uma violência que parece não ter cura e, em sua maioria, produzida ou ‘autorizada’ pelo Estado brasileiro. Tudo isso em nome de um falso progresso. Aqui não há limites para violentar a terra, os rios, os nossos corpos e sentimentos. Parece-me que a ideia central é a de animalizar cada um de nós e, com isso, tornar a nossa morte algo banal”, afirmou. 

O autor é o quarto entrevistado do especial do Le Monde Diplomatique Brasil em comemoração ao Dia Nacional do Escritor (25 de julho). Ao longo da conversa, Airton Souza ressaltou a importância de três obras literárias latino-americanas em sua vida, abordou o poder transformador da leitura em sua trajetória e refletiu sobre os temas que costuma abordar no seu trabalho literário. 

Confira na íntegra:  

Qual tema é a sua grande obsessão como ficcionista? De que forma esse tema se relaciona com a sua vida fora da literatura? 

A minha obsessão como ficcionista é a geografia a qual eu nasci. Uma região marcada por uma violência que parece não ter cura e, em sua maioria, produzida ou ‘autorizada’ pelo Estado brasileiro. Tudo isso em nome de um falso progresso. Aqui não há limites para violentar a terra, os rios, os nossos corpos e sentimentos. Parece-me que a ideia central é a de animalizar cada um de nós e, com isso, tornar a nossa morte algo banal. Então, é preciso denunciar tudo isso. Mostrar que as feridas estão abertas e sagrando o tempo todo. Eu comecei a tratar disso na minha poesia há quase trinta anos, mas foi em Outono de carne estranha, que consolidei a denúncia sobre as barbáries que aconteceram durante a garimpagem em Serra Pelada. Minha obsessão é narrar esses horrores, porque são marcadores históricos que realimentam a noção de colonização, com todos os mecanismos que ainda parecem muito vivos dentro da Amazônia. Eu não consigo pensar minha literatura sem essa obsessão geográfica. É a vida de todos nós que moramos nesse lugar que continua em jogo. Foi uma luta árdua se manter vivo, por isso a escrita é esse lugar da vingança para mim e para os que não tiveram a chance de aprender a ler e a escrever. 

Para escrever um bom livro, o enredo e a linguagem têm a mesma importância? 

Escrever me parece ser uma espécie de esfinge inexplicável. Traduzir parte da vida através de palavras é sempre muito complexo. Eu mesmo comecei a escrever meu primeiro romance fedor da carne de deus uma semana depois que meu pai morreu, ouvindo uma frase que ele veio me dizer, enquanto eu dormia. E sem saber nada sobre o enredo, os personagens, os tempos, os espaços dessa história. Então, para criamos um bom livro tudo tem que ser levado em consideração, incluindo a oralidade, a memória, as escutas, como o rizoma, de Deleuzee Guattari. Porque sempre tem algo na criação que se espraia. Além disso, há também algo importante dentro de um bom livro, que é o que falta: uma pontuação, uma frase, uma fala, o pedaço do espaço, a imprecisão do tempo. Escrever um bom livro é como mergulhar, sem medo, num abismo. 

Qual livro você mais gosta de reler? Por quê? 

Apesar de ter me tornado um leitor tardio, por conta de extrema pobreza, existem vários que eu releio, mas gostaria de citar três livros que são divisores de águas dentro da literatura latino-americana. Todas às vezes que releio esses três romances é como se eu os estivesse lendo pela primeira vez. É sempre o mesmo susto. O mesmo encanto. O absurdo da linguagem. O primeiro dele é Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez. Há nesse livro imagens que nunca saíram de minha cabeça, como a das formigas carregando o feto no meio de um roseiral. A ventania destruindo Macondo. A neve. Os tiros. As mãos do pai. Outro livro é o Grande Sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Toda a invenção de linguagem. A poética. A oralidade como marco dentro da filosofia e o amor move a história e que nos move no mundo. O último é o Hora da Estrela, de Clarice Lispector. Clarice traduziu nesse romance toda a genealogia da pobreza, das agruras enfrentadas pelos retirantes e pelo que Macabeia é de cada um de nós, em um país marcado pelas desigualdades. 

Qual obra literária foi essencial para que você se tornasse um leitor? E um escritor? 

A memória mais remota que eu tenho da literatura é a da escrita, muito antes de descobrir o poder transformador da leitura. Venho de uma família de lavradores extremante pobres e analfabetos e, de alguma forma, eu fui ‘forçado’ a começar a escrever antes de me tornar um leitor. Fato que até hoje pesa em tudo o que faço ligado à literatura, incluindo o ato de escrever. Mesmo depois de 25 anos escrevendo e com mais de 50 livros publicados, olhar para um papel em branco ainda me assusta, ao mesmo tempo em que me comove. Apesar disso, a poesia de Drummond foi a responsável para que eu me tornasse um leitor. E como eu tinha o desejo de, essencialmente, ser apenas poeta, assim como foi Max Martins, a poesia de Drummond contribuiu para que eu pudesse me compreender ainda mais como escritor e mais tarde como leitor. Foi um susto entender que “O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”. Ou seja, descobri tardiamente que não haveria possibilidade de ser escritor sem ser leitor. Esse é o gesto de dar às mãos de um ou uma escritora. 

Foto do escritor. Ele usa uma blusa clara (branca ou amarelo claro) e está sorrindo.
Airton Souza – Crédito para Sara Lopes

Em 25 de julho é comemorado o Dia Nacional do Escritor. Na atualidade, o que os autores e as autoras mais têm a celebrar no país? E com o que eles e elas devem se preocupar? 

O circuito literário é muito complexo. Há muitas coisas em disputas, o que torna ainda mais difícil responder a essa pergunta. No entanto, uma das coisas que faz com que diversos escritores e escritoras brasileiras possam celebrar como conquista é a relação direta entre a educação pública brasileira e a literatura que vem sendo produzida nesse momento. Foi essa escola, com todos os seus problemas estruturais, que nos ajudou a alcançar esse lugar da escrita. Lugar esse que foi, historicamente, sacralizado para meter medo em homens e mulheres que vieram de onde eu vim. Apesar de o projeto de marginalização de nossas vozes continuar, hoje é possível perceber que muitos e muitas de nós já conseguem ter acesso aos espaços que nos foi negado. E, ao chegamos nesses lugares nós não apenas contribuímos para dessacralizá-los, mas os tornamos ainda mais humanizados. Isso porque nós estamos narrando histórias coletivas, que foram soterradas propositalmente. Contudo, apenas nós sabíamos onde elas estavam enterradas. Apenas nós tínhamos as unhas para desenterrá-las. Portanto, a escola pública brasileira não apenas tem nos ensinado a ler e a escrever, mas nos mostrado que nós mesmos podemos reencantar o mundo por meio de palavras e do imaginário. 

Em sua opinião, qual escritor ou escritora merece maior atenção de leitores, leitoras, editoras e da crítica especializada no Brasil? 

Eu admiro muito quem escreve. Vibro com autores e autoras que começam nesse momento a chegar às grandes editoras, merecidamente, a exemplo do querido Marcelo Labes e Monique Malcher, que estão lançando esse ano seus livros pela Companhia das Letras. Quem não sonha com isso?  

Uma das grandes escolhas que fiz em minha vida foi começar a ler muito as literaturas feitas por mulheres, inclusive de várias nacionalidades. Então, eu gostaria de citar aqui três escritoras que eu gostaria muito que ganhassem mais atenção de leitores, leitoras, das editoras e da crítica especializada brasileira, que são a poeta maranhense, mas radicada no Rio de Janeiro, Lila Maia, que tem uma obra impressionante e é, sem dúvida, uma das grandes poetas desse país. A outra é a escritora genial Maria Fernanda Elias Maglio, que venceu o Prêmio Jabuti com um livraço Enfim, Imperatriz, publicado pela Editora Patuá e a outra é a grandiosa escritora Cinthia Kriemler, que publicou uma vasta obra de extrema importância para esse país. 

Qual foi o melhor conselho que você já recebeu no meio literário? E o pior? 

Muitas situações que eu vivenciei com a literatura nesses mais de 25 anos lidando diariamente com ela, eu aprendi sofrendo muito. Por diversas vezes fui assediado sexualmente por pessoas que tinham o poder de me ajudar a publicar meus livros. Eu perdi as contas de quantas vezes fui humilhado por editores. Mas, isso só me fortalecia cada vez mais. Mas, o melhor conselho que recebi no meio literário foi ter paciência. Contar que o tempo sempre é um fato determinante. Só o tempo pode nos ajudar a entender, inclusive os nossos processos de escrita. Esse foi um conselho extremamente importante. Fez-me entender que a vida de escritor não se resumia apenas em escrever e publicar, mas que cada livro, cada escrita tem o seu tempo. Coisa que eu demorei a entender. O bom é que eu nunca recebi um conselho ruim. 

O que move sua escrita? 

Umas das primeiras coisas que move a minha escrita é a vivência daquela gente que o escritor Dalcídio Jurandir chamou de aristocracia de pés no chão, que é a minha gente. Elas pertencem ao lugar de onde eu vim. Da extrema pobreza. Da fome. Da miséria que parece que nunca terá fim. Portanto, a minha literatura vem desse chão que é, ao mesmo tempo, de miséria e esperança. Ela emerge da boca dessas pessoas. De seus gestos. Da maneira como sentimentalizam o mundo. Dentro da escrita, eu ainda não aprendi a escrever de outra forma, a não ser olhando para o mundo dos subalternizados. O mundo dos que foram emudecidos, mas que me incentivaram a continuar a caminhada, porque viram em mim em algum momento que eu poderia balbuciar por nós. Às custas disso, a minha ficção é uma espécie de balbucio coletivo. Uma hora dessas, ela se transforma em um grito. 

 

Sobre o escritor 

Airton Souza nasceu em Marabá (PA), em 1982. É escritor, doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e professor da educação básica. Autor de Outono de carne estranha (Record, 2023), seu romance de estreia e vencedor do Prêmio Sesc de Literatura, finalista do Prêmio Oceanos 2024, do Prêmio São Paulo de Literatura 2024 e do Prêmio Mix Literário 2024. Com o livro de poemas Horóscopo de batizar brumas contra a solidão das asas venceu o Prêmio Cidade de Manaus. 

 

Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de Desprazeres existenciais em colapso (Patuá), Desemprego e outras heresias (Sabiá Livros) e De repente nenhum som (Sabiá Livros). É colaborador do Le Monde Diplomatique, Jornal Rascunho e São Paulo Review e tem textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas. 

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