Alarme ecológico - Le Monde Diplomatique

NOVA EDIÇÃO DE "MANIÈRE DE VOIR" A

Alarme ecológico

por Agnès Sinaï
1 de abril de 2000
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A revista bimensal editada pelo Diplô chega à edição 50. Um conjunto de artigos focaliza as principais ameaças ao equilíbrio ecológico do planetaAgnès Sinaï

Da corrente El Niño ao efeito-estufa, de desordens a desatres ecológicos, tudo confirma o caráter insustentável do atual modo de desenvolvimento industrial, marcado pelo opção por um produtivismo cego. Como constata Ignacio Ramonet, o alarme ecológico começou a soar. Mas será que ele foi ouvido a partir da ECO-92, reunião de cúpula realizada no Rio, que colocava prioritariamente a necessidade imperativa de orientar os modos de produção e de consumo para opções sustentáveis? A concordância recente da União Européia com um mercado de “direitos de poluição” tende a provar que não. Com esse mercado, o céu — ou seja, o ar — pertencerá “aos que podem comprá-lo” (ver texto de Hélène Connor), desprezando-se o aumento da temperatura terrestre e as conseqüentes catástrofes que daí decorrem (segundo Dominique Frommel).

Assim como o ar, a água está em vias de ser privatizada. A separação entre a lógica de uma necessária reapropriação pública da gestão dos recursos comuns e a sua apropriação por empresas privadas só tende a se radicalizar (Riccardo Petrella). Trata-se de um desafio essencial: no Oriente Médio as rivalidades entre Israel e Jordânia, bem como o confisco de recursos hidráulicos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza fazem da água um grande desafio geopolítico (Christian Chesnot). Além disso, o projeto de barragem superdimensionado do rio Yang-tsé, na China, terá como consequência deslocar dezenas de milhares de pessoas (Jean-Philippe Béja); mesmas causas e consequências no vale da Narmada, na Índia, onde a desintegração social e cultural dos aborígenes Adivassis será perpetrada através de um gigantesco plano dito de “desenvolvimento” (Christian Ferrié). E mais: no Brasil um dos maiores ecossistemas do planeta está ameaçado pelo projeto Hidrovia (Edouard Bailby).

Biodiversidade tornou-se mercado

Desde que o patenteamento foi estendido ao mundo dos seres vivos, até a biodiversidade tornou-se um mercado (Jean-Paul Maréchal). Ora, segundo Alain Zecchini, será necessário que 50% da superfície de ecossistemas da Terra sejam protegidos para que o essencial da biodiversidade possa ser mantido. Mas não é o caminho que está sendo tomado. Da mesma forma como contribuem para desmatar a Amazônia equatoriana (Karim Bourtel), os lobbies petrolíferos continuam, aqui e ali, asfixiando as cidades (Isabelle Bourboulon, Philippe Bovet), quando não são a causa manchas negras em rios e mares: o navio Erika constitui a última “amostra” e, ao mesmo tempo, a encarnação evidente da selva que reina no transporte marítimo (Laurent Carroué).

Esterilização de terras por inundação, esterilização dos seres vivos por uma pretensa melhoria genética que desemboca em projetos de aprendiz de feiticeiro: com esses processos os camponeses são despojados do controle natural do ciclo da vida pelo complexo genético-industrial, cujas ramificações se estendem até ao núcleo central da pesquisa científica pública (Jean-Pierre Berlan, Richard C. Lewontin). Quanto ao excesso de pesticidas altamente tóxicos, eles são despejados nos países do Sul (Mohamed Larbi Bouguera), onde a sanha desenfreada por lucros contribui para o desmatamento — como na América Latina (Jaime Massardo) — e mais freqüentemente para a desorganização do sistema alimentar (Christian de Brie). É que, das dioxinas aos organismos geneticamente modificados, a agricultura encontra-se em posição de exterioridade em relação à natureza. Frente aos lobbies do setor agro-alimentar (François Dufour) é necessário uma filosofia de segurança alimentar, o que implica tanto em vistorias controladas por cidadãos, quanto na generalização de classificações explícitas e roteiro dos produtos (Dorothée Benoit Browaeys e Pierre-Henri Gouyon).

Um pacto de aliança com a Terra

Diante dessas “catástrofes pouco naturais” (Bernard Cassen) rapidamente evocadas aqui, é tempo de a humanidade fazer um pacto de aliança com a Terra. Símbolo da emergente tomada de consciência (como sublinha José Bové, cujo percurso dentro da Confederação Camponesa se inscreve na mesma filosofia) o movimento camponês internacional Via Campesina tornou-se o porta-voz mundial de projetos alternativos viáveis. Assim sendo, se as constatações são pessimistas, não faltam protagonistas prontos a aceitar o desafio de tentar inverter esta tendência.

Complementando o panorama da crise ecológica (onde falta, entretanto a evocação dos riscos nucleares, cuja ausência neste número surpreende), vem uma lista bem documentad

Agnès Sinaï é jornalista e coordenador do Atlas do meio ambiente de Le Monde Diplomatique.



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