“Algo está fermentando sob o coração do noroeste da Europa”

ENTREVISTA – CORNÉ KREEMER

“Algo está fermentando sob o coração do noroeste da Europa”

por Viviane Vaz, de Bruxelas
3 de julho de 2020
compartilhar
visualização

Cientista holandês descobre que a superfície terrestre está se movendo para cima e para fora em uma grande área centralizada na região de Eifel, na Alemanha

O professor de Geofísica da Universidade de Nevada (Estados Unidos), Corné Kreemer, usa dados geodésicos de estações de GPS para entender os processos que orientam a deformação e o movimento das placas tectônicas. Sua técnica lhe permitiu fazer uma descoberta inédita na Europa: a superfície terrestre está se movendo para cima e para fora em uma grande área centralizada na região de Eifel, na Alemanha, incluindo Luxemburgo, leste da Bélgica e a província de Limburgo, no sul da Holanda.

A história vulcânica da região é visível, com a presença de lagos circulares formados em antigas crateras, também chamados “maars”. O maior deles é o lago Laacher (em alemão, Laacher See). “A maioria dos cientistas assumiu que a atividade vulcânica na região de Eifel era coisa do passado”, afirmou Kreemer. “Mas, ligando os pontos, parece claro que algo está fermentando sob o coração do noroeste da Europa”. A pesquisa foi publicada em meados de maio no Geophysical Journal International, liderada por Kreemer e assinada com Geoffrey Blewitt e Paul M. Davis.

Corné Kreemer (Mike Wolterbeek, University of Nevada)
Corné Kreemer (Mike Wolterbeek, University of Nevada)

Você é um pesquisador holandês baseado na costa oeste dos Estados Unidos, uma área conhecida por terremotos e atividades vulcânicas. Você já tinha imaginado fazer descobertas semelhantes na Europa?

É realmente uma história interessante. Na primavera de 1992, eu estava no último ano do ensino médio e, alguns meses depois de ter decidido estudar Geofísica, ocorreu um terremoto na Holanda! Era de uma magnitude 5,3 (na escala Richter), e ainda hoje é o maior terremoto que já senti na vida. Na época, serviu para me confirmar que a geofísica era realmente um assunto digno. Mas também ficou claro que, apesar da impressão que o terremoto causou em mim, a Holanda não é um “país do terremoto” e eu tive que me mudar para outro lugar para encontrar mais atividade sísmica. Enquanto ainda espero sentir um terremoto maior, minha pesquisa me trouxe de volta à Europa, em parte porque tirei um ano sabático, na Holanda, em 2016. É muito emocionante que minha pesquisa esteja revelando que as falhas que podemos encontrar no sul dos Países Baixos, Bélgica e na vizinha Alemanha, estejam provavelmente mais sismicamente ativas por causa da pluma mantélica que está subindo por debaixo. O terremoto de 1992 ocorreu em uma dessas falhas.

 

A maioria dos cientistas pensou que a atividade vulcânica na região de Eifel estava extinta ou adormecida. Agora, você descobriu que existe uma pluma mantélica fervilhando lá. Como você teve a primeira ideia de que algo estava “fermentando embaixo” dessa área?

Quando fiz o meu sabático, em 2016, eu estava indo mapear o movimento da superfície da Terra, na Holanda. Notei que a região mais ao sul estava subindo bem mais rápido do que eu previra. Então, comecei a coletar dados nos países vizinhos e, pouco a pouco, a “Anomalia Eifel” ficou clara. Estendi minha pesquisa a toda a Europa “intraplaca”, e o Eifel permaneceu uma anomalia única. O fato de a anomalia de deformação da superfície estar aproximadamente centrada na área do vulcanismo Eifel e acima do local onde o sismólogo havia imaginado uma pluma mantélica sugeria fortemente uma causalidade. Quando modelamos a deformação da superfície que se poderia prever a partir de uma pluma flutuante, ela se assemelhava bastante às nossas observações, o que se confirmou.

 

A que distância está a pluma mantélica da crosta terrestre?

A crosta terrestre é a parte superior do que é chamado de litosfera, que também inclui a maior parte do manto. A litosfera é relativamente fina sob o Eifel e o topo da pluma parece estar localizado logo abaixo daquela litosfera, a cerca de 50 km de profundidade.

 

Existe alguma razão para se assustar? As plumas mantélicas podem “esfriar” ou “entrar em erupção”, certo? Você acha que essa pluma mantélica vai acabar em erupção? Quando isso pode acontecer?

Não há razão para ter medo. Nossos resultados revelam um ingrediente importante para, eventualmente, ter uma erupção novamente, mas é difícil saber quando. A presença da pluma mais quente está causando o derretimento e o magma resultante deve subir até a superfície. Provavelmente se acumula em reservatórios de magma dentro da crosta. Esses reservatórios precisam pressurizar, e isso pode levar muito tempo, antes que causem uma erupção.

 

Eu li que a explosão que criou o lago Laacher, há cerca de 13 mil anos, teve um poder explosivo semelhante ao da erupção do Monte Pinatubo, em 1991, nas Filipinas. Isso está correto? E se algum dia houver uma erupção na região de Eifel, quão poderosa você acha que poderia ser?

Está correto. E isso nos diz que, se uma erupção desse tamanho aconteceu no passado, poderia acontecer de novo.

 

Os governos geralmente evitam construir usinas nucleares em regiões com riscos vulcânicos. Você acha que essa pluma mantélica poderia afetar as da Bélgica e da Alemanha?

Não sei muito sobre como o risco vulcânico está sendo incluído, mas sei sobre o risco sísmico. As falhas que ocorrem entre a área de Eifel e o sul da Holanda já foram reconhecidas como relativamente ativas e, como resultado, o risco sísmico na área já é considerado mais alto lá do que em muitas outras áreas da Europa “intraplaca”. Isso significa que, em teoria, essa área já deveria ter códigos de construção mais rígidos. Nossa pesquisa não está realmente adicionando novas informações à avaliação de riscos, exceto para postular que o motivo pelo qual essas falhas são relativamente ativas é por causa da pluma embaixo.

 

Seu artigo menciona que você usou os dados do Sistema de Posicionamento Global (GPS) para gerar imagens do movimento vertical da terra (VLM) e taxas de deformação horizontal na maior parte da Europa intraplaca. Você está preocupado com a instalação da tecnologia5G na Europa? Isso poderia afetar a continuidade da sua pesquisa? (Nos EUA, o Departamento de Defesa manifestou recentemente preocupação de que a tecnologia 5G interfira nos serviços GPS).

Eu não estou ciente dessa preocupação.

 

Há algum outro ponto que você gostaria de destacar ou compartilhar com os leitores?

É importante entender que essa nova pesquisa não sugere nenhum perigo iminente. Apenas sugere que esta área é um sistema magmático em constante evolução, que um dia provavelmente terá erupções de novo. Isso pode ser dentro em breve ao considerar o tempo geológico, mas provavelmente levará muito tempo ao considerar as escalas de tempo humanas. Nos raros casos em que uma erupção comece a se desenvolver em breve, é muito provável que o cientista tenha recebido vários sinais e esses devem ajudar a fazer alertas oportunos.

 

Viviane Vaz é jornalista.



Artigos Relacionados

Bom, adequado, o mais desejável

Usando compras públicas para o desenvolvimento sustentável

por Thiago Uehara
Segurança alimentar

Fome, racismo, tortura e morte no supermercado mais próximo de você

Online | Brasil
por Valéria Burity
Retórica

Bolsonaro mente ao dizer que luta pela soberania nacional na Amazônia

Online | Brasil
por Gabriel Dantas
Cinema e Meio Ambiente

Entretecendo comunidade: audiovisual, movimentos sociais e meio ambiente

por Maria Camila Ortiz, Suelen Rodrigues e Tereza Spyer
Indústria alimentícia

O sequestro dos orgânicos pelos ultraprocessados

Online | Brasil
por Elaine de Azevedo e Fernando Ataliba
Malcolm X

Prefácio do livro com discursos do Malcolm X

por Silvio Almeida

China: êxito na retomada econômica e na luta contra a extrema pobreza

Online | China
por Melissa Cambuhy
Guerra invisibilizada

Armênia, uma civilização se protegendo contra o pan-turquismo

Online | Armênia
por Plataforma9