Alibaba, uma epopeia chinesa - Le Monde Diplomatique

JACK MA, O EMPRESÁRIO QUE INCOMODA O GOVERNO CHINÊS

Alibaba, uma epopeia chinesa

por Jordan Pouille
1 de março de 2021
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Por meio da coleta de dados pessoais de clientes e do idílio com o regime chinês, o grupo Alibaba se tornou um poderoso player global em comércio eletrônico, finanças on-line e saúde. Agora, Pequim começa a perceber sua dependência em relação ao conglomerado e conta com a crescente desconfiança da população em relação ao seu fundador, Jack Ma

“Todos sabemos que, quando você faz um empréstimo de 100 mil yuans, você morre de medo do banco. Quando você faz um empréstimo de 10 milhões de yuans, você e o banco morrem de medo. E quando você faz um empréstimo de 1 bilhão de yuans, é o banco que morre de medo de você.” No dia 24 de outubro de 2020, durante o Bund Summit de Xangai, um encontro que reúne as principais personalidades do setor bancário no mundo, Jack Ma, fundador do Alibaba, a gigante chinesa do comércio eletrônico, lançou essa ameaça velada. Tendo se retirado em setembro de 2019 da presidência do grupo, Jack Ma – cujo verdadeiro nome é Ma Yun – deu início, confiante, a um discurso sobre a obsolescência da oferta bancária atual e o advento do big data. E começou a delinear um “novo sistema financeiro no qual a inovação e a regulamentação estão em harmonia”, pedindo a “criação de uma moeda digital”. Sem se esquecer, claro, de celebrar sua própria criação: o Ant Group, braço financeiro do Alibaba, que concede empréstimos em grande escala a particulares e pequenas e médias empresas sem histórico bancário. “Nos últimos dezesseis anos, o desenvolvimento do Ant Group girou em torno do respeito ao meio ambiente, da sustentabilidade e da inclusão financeira. Se finanças ecologicamente corretas, sustentáveis e inclusivas são um erro, esse é o erro que vamos cometer para sempre.”

Esse voo lírico não agradou nada a Wang Qishan, vice-presidente da China, nem a Yi Gang, diretor do Banco Central do país, que falaram pouco antes dele. Poucos dias depois, em 2 de novembro, Ma foi convocado para uma entrevista com o regulador financeiro chinês. No dia seguinte, a introdução do Ant Group nas bolsas de Xangai e de Hong Kong, anunciada como a maior de todos os tempos, foi abruptamente cancelada. No mês seguinte, foi aberta uma investigação sobre as práticas comerciais do grupo, consideradas anticoncorrenciais. O bilionário mais famoso do país desapareceu por 88 dias, o que poderia significar uma prisão ou a fuga para o exterior. Ele reapareceu em um breve vídeo, desconfortável, dirigindo-se a professores de escolas rurais envolvidas nos trabalhos de sua fundação, e depois foi visto em um campo de golfe na Ilha de Hainan.

Se 2020 terminou mal para Ma, o ano de pandemia foi ótimo para o Alibaba, seu império do comércio eletrônico – ele ainda é conselheiro da direção e se mantém como segundo maior acionista individual, mesmo depois de ter vendido 1,4% de seu capital em julho, pela bagatela de US$ 8,2 bilhões de dólares (ver quadro virando a página). Com a crise sanitária, as vendas on-line tiveram um salto de 11% no ano passado, chegando a um quarto das vendas no varejo de bens de consumo.1 A aposta do grupo é a Taobao, uma plataforma lançada em 2003 na qual pequenas e médias empresas e pessoas físicas podem hospedar seus produtos.2 Em 2008, ela se dividiu e deu origem ao Taobao Mall, depois TMall, dedicado às grandes marcas chinesas e internacionais, bem como a seus distribuidores autorizados – a marca francesa de cosméticos e produtos de luxo Lancôme, por exemplo, confiou à plataforma todas as suas vendas on-line chinesas. Aos poucos, foi acrescentado o serviço de entrega Cainiao, ao estilo da Amazon, e a ferramenta de pagamento por smartphone Alipay. De 2008 a 2018, a Taobao conquistou 80% do mercado chinês de vendas on-line.

Um dos pontos fortes do grupo está na proximidade entre o vendedor e o cliente. Assim que é acessada, a Taobao abre um chat que permite uma conversa ao vivo entre as duas partes antes de cada transação. O uso generalizado de smartphones e a instalação maciça de rede de telefonia de alta velocidade popularizaram o streaming de vídeo e, com ele, uma comunidade de jovens influenciadores da internet, os Wang Hong, que recebem gorjetas em troca de uma canção ou de uma dança on-line. A Taobao os recebeu de braços abertos: são os ambulantes da era digital, renovando as televendas. O “11.11” (11 de novembro), “Dia dos Solteiros”, criado em 2009 pelo Alibaba, que significa 24 horas de liquidações – com 583 mil transações por segundo em 2020 –, consagrou seu triunfo. Esse dia maluco celebra a compra compulsiva entre uma juventude que está em perpétua busca por diversão.

 

Conglomerado onipresente

O chefe do Alibaba, porém, não se contenta com sua famosa plataforma. Ele está aceleradamente construindo um vasto conglomerado, que se desdobra para o comércio tradicional, com redes de supermercados, para os serviços de entrega, para o armazenamento em nuvem (cloud) e para o cinema, além de ter um sistema de orientação e navegação do tipo GPS e um site de vídeos como o YouTube… Ele tem inclusive um dos mais importantes jornais em língua inglesa de Hong Kong, o South China Morning Post.

Ma também mergulhou nas finanças, criando a Ant Financial, que se tornaria o Ant Group, também com sede em Hangzhou (Zhejiang). Segundo a lenda que se empenha em construir, o empresário embarcou nessa aventura para responder à afronta que ele próprio sofreu, como todos os que vêm de baixo, cujos pedidos de empréstimos são sistematicamente recusados. Em 2017, no Fórum Econômico Mundial de Davos, ele contou que, em 1995, no início de sua trajetória, precisou esperar três meses até receber uma resposta (negativa) do banco ao seu pedido de empréstimo. Na época ele queria lançar-se na criação de páginas da web para empresas. Quatro anos depois, com dezessete sócios, entre eles Joseph Tsai, um jovem advogado tributário canadense de origem taiwanesa, fundou o Alibaba.com e levantou US$ 20 milhões do japonês Softbank.

A Ant, da qual o Alibaba detém 33% do capital, ficou conhecida pelo aplicativo Alipay, que surgiu em 2004. Hoje essa ferramenta de pagamentos é utilizada para quase 56% das compras por smartphone,3 muito à frente do WeChat Pay, da concorrente Tencent, em um país onde apenas um quinto da população tem cartão de crédito, segundo dados do Banco Mundial de 2017. Mesmo nas menores lojas, agora é comum pagar com o telefone. Cada vez mais comerciantes deixam de usar dinheiro vivo, o que prejudica as pessoas mais idosas. O Banco Central chinês já expressou muitas vezes sua preocupação com esse fato, declarando no dia 15 de dezembro de 2020: “As instituições de pagamento não bancárias não devem promover o conceito de pagamento sem dinheiro nem discriminar de alguma forma os pagamentos em dinheiro”.4

Seja uma compra no TMall ou na Taobao, um jantar em um restaurante ou um atendimento em um salão de beleza, o Alipay gosta de criar ofertas promocionais – por meio da assinatura expressa de um empréstimo direto, concedido pelo serviço Huabei, nascido em 2015. Ele nunca manda dinheiro diretamente para o comprador, e sim para o vendedor. O cliente tem então até o dia 10 do mês seguinte para pagar. A taxa de juros costuma ser zero, mas o serviço incentiva o consumo permanente, sem que seja necessário aguardar o pagamento da mensalidade. Um sistema semelhante, chamado Jiebie, também é oferecido às pequenas e médias empresas, há muito ignoradas pelos bancos tradicionais.

Esses empréstimos ou pré-pagamentos são concedidos de maneira ainda mais fácil por se adaptarem às necessidades do cliente, por meio do Zhima Credit (ou Sesame Credit) – um modelo parecido com o do credit score norte-americano.5 Trata-se de uma classificação atribuída a cada usuário da Alipay que assim deseje, determinada com base em seu histórico de compras. Dessa forma, bilhões de dados são reunidos e analisados todos os dias para abrir as portas do crédito para o maior número possível de pessoas. Quanto maior a pontuação, maior o montante do empréstimo e mais longo o prazo de pagamento.

Um bom Zhima Credit também permite fazer parte de um clube de consumidores virtuosos que podem contar com benefícios como não precisar de depósito para efetivar uma reserva de hotel, receber uma bateria externa de smartphone enquanto come em um restaurante, ter uma maior cota de livros para retirada em uma biblioteca… A lista é interminável. Por outro lado, um Zhima Credit ruim pode significar algo parecido com um banimento econômico.

“Havia muitos fantasmas em torno do Zhima”, pondera Brendan Zhang, ex-executivo da Ant Sudeste Asiático, em Cingapura. Ele se refere às recorrentes acusações de porosidade entre o Zhima de Jack Ma e o sistema de crédito social que o governo chinês vem experimentando desde 2014, o qual concede ou retira pontos dos cidadãos com base em boas ou más ações.6 “Claro que nenhum outro país gostaria de dar a uma empresa chinesa tanto acesso aos dados. Mas, embora o governo chinês goste de parecer estar no controle total, na verdade, tecnicamente, ele tem acesso a muito pouco desses dados pessoais”, garante.

Fórum Econômico Mundial/Divulgação
O projeto de moeda digital

De resto, o Estado chinês tem sido uma testemunha passiva da ascensão do Alibaba. “Em seu país, os carros começam a rodar depois que a estrada está pronta e os semáforos estão instalados. Aqui é diferente. Os semáforos vêm depois. Foi exatamente o que aconteceu com a abertura econômica do país”, explica Zhang. Primeiro se experimenta, deixa-se acontecer, depois… “Claro, depois que as regulações passam a existir, não se pode desrespeitá-las.”

É exatamente o que está acontecendo com a interrupção da expansão do Ant Group e a suspensão de sua entrada na bolsa. Claro que os comentários de Ma sobre a mentalidade de “penhorista” dos bancos (públicos) chineses e contra os controles desagradaram profundamente aos líderes políticos, a começar pelo principal deles, o presidente Xi Jinping. Porém, isso não é o mais importante. Acima de tudo, trata-se de controlar a distribuição do crédito e a criação de dinheiro.

“Essa recente suspensão tem o objetivo de evitar riscos sistêmicos”, explicou o ex-ministro das Finanças Lou Jiwei, no China Wealth Management 50 Forum, em Shenzhen, no dia 20 de dezembro. “Se houver algum problema e o governo prestar socorro, os contribuintes perderão dinheiro. […] Temos de evitar que se instale nas fintech o cenário ‘grande demais para falir’ [too big to fail, como nos Estados Unidos, durante a crise do subprime de 2008].” Para o governo chinês, está fora de questão confiar a gestão da dívida privada a um punhado de start-ups financeiras. O ex-ministro está em boa posição para saber quão podre já está o crédito dos bancos comerciais. No verão de 2020, o banco de Baoshang, na Mongólia Interior, faliu após acumular empréstimos duvidosos que foram longamente ignorados pelo governo.

A Ant “é uma das instituições financeiras mais importantes do mundo no plano sistêmico e, até o momento, é mal regulamentada”, observa Felix Salmon, especialista financeiro do site norte-americano Axios. “Se uma empresa de tecnologia é também uma instituição financeira de importância sistêmica, ela precisa ser regulamentada com o mesmo rigor dedicado a qualquer outro gigante de serviços financeiros.”7 A ênfase dada pelo bilionário chinês à criação de uma moeda digital, projetada fora dos países – como já havia feito, nos Estados Unidos, o chefe do Facebook, com o Diem (ex-libris) –, deve ter aumentado o temor de deixar se constituir um gigante impossível de controlar. Ainda mais se considerarmos que o Ant Group conseguiu atrair facilmente investidores estrangeiros, em particular um fundo soberano de Cingapura, com US$ 780 milhões, depois o fundo soberano da Malásia, com US$ 650 milhões, a agência de investimento do regime de pensões do Canadá, com US$ 600 milhões, e por fim o fundo norte-americano Silver Lake Management, Carlyle e Warburg Pincus, com US$ 500 milhões, em uma última rodada, em 2018.8

Então veio o veredicto: nada de entrada na Bolsa, pelo menos até segunda ordem – e azar de todas essas instituições e seu retorno sobre o investimento –; desmantelamento pelo menos parcial do mamute too big to fail… Talvez Jack Ma aproveite a oportunidade para sair da dualidade que mantém há vinte anos. Se de um lado da moeda ele se apresenta como o modesto professor de inglês que se tornou empresário altruísta, um Lei Feng – cidadão e trabalhador-modelo sob Mao Zedong – do século XXI, de outro lado está um homem de negócios narcisista que dá aulas de governança aos grandes do mundo, correndo o risco de ofuscar o presidente Xi Jinping.

Por exemplo, em uma publirreportagem transmitida pelo canal norte-americano CNN, em 2014, ele declarou sua vontade de tirar a província de Guizhou da pobreza, atraindo empresas digitais dos Estados Unidos para seu novo “Big Data Valley”. Em Wuhan, colocou sua tecnologia a serviço do governo de Hubei, rastreando as pessoas com base em suas interações próximo ao epicentro da pandemia de Covid-19. Uma corrida de táxi, uma passagem de trem, uma compra no Alipay, tudo isso fornece informações que os algoritmos do Alibaba podem interpretar. Pessoas com baixo risco de infecção recebiam um código de saúde “verde” e podiam sair do confinamento. Com o passar dos meses, o processo se espalhou pelo país. Foi a primeira vez que uma ligação tão evidente entre o governo e o Alibaba foi constatada.

 

“Não há rival sob os céus…”

Paralelamente a essa servidão zelosa, Jack Ma dá lições. Em janeiro de 2017, ele prometeu ao presidente eleito Donald Trump criar 1 milhão de empregos nos Estados Unidos em cinco anos, ao passo que, oito dias depois, em Davos, lançava críticas: “Em trinta anos, IBM, Cisco e Microsoft ganharam bilhões terceirizando sua produção para a China, e para onde foi o dinheiro? Os Estados Unidos iniciaram tantas guerras! Por que todo esse dinheiro não foi para sua infraestrutura? Vocês não distribuíram o dinheiro da maneira correta e hoje pagam o preço. A globalização é uma coisa boa, mas ela deve ser inclusiva”. Magnânimo, garantiu: “Como chinês, fico feliz que Xi Jinping aceite a responsabilidade de dirigir a segunda economia mundial […]. Mas a China precisa se abrir mais e sinto que Xi vai se abrir mais para o mundo”.

Diante de uma audiência fascinada, Ma também apresentou sua ferramenta para as pequenas e médias empresas de todo o mundo, a Electronic World Trade Platform (EWTP), que se propõe a remediar as deficiências da Organização Mundial do Comércio (OMC), “concebida para as grandes empresas”. Segundo ele, o que importa é seguir rumo à “harmonização global” das regras do comércio eletrônico, à simplificação dos procedimentos aduaneiros e ao desenvolvimento da infraestrutura logística. Ruanda foi o primeiro país africano a adotar a EWTP. “Se todos os países se juntassem [a ela], quão poderosa a África poderia ser!”, exclamou ele no lançamento oficial da plataforma, em Kigali, ao lado do presidente Paul Kagamé.9

O pico da megalomania, no entanto, foi alcançado no dia 11 de novembro de 2017, quando o bilionário publicou on-line um curta-metragem chamado O guardião das artes marciais (Gong Shou Dao, disponível no YouTube). A sequência dura 22 minutos, durante os quais ele enfrenta uma sucessão de adversários famosos, como os atores Jet Li e Donnie Yen, além de um lutador mongol. Como era de esperar, Ma vence a competição e encerra o vídeo com movimentos de tai chi. Frases laudatórias são exibidas ao redor do herói: “Não siga a doutrina, apenas o carma. Um coração invencível. Não há rival sob os céus…”.

Nessa época, porém, o bilionário não era mais o ícone que pensava ser. Alcançado pelas rivais Tencent, JD.com e Pinduoduo, a Alibaba já não ia mais de vento em popa. Entre os 500 milhões de chineses viciados em microcréditos, muitos jovens imersos na nova economia expressam seu ressentimento nas redes sociais: eles se sentem presos na armadilha da dívida permanente que os impede de poupar para comprar uma casa própria.

Em termos de gestão, o midiático empresário orgulha-se de estar rodeado de jovens, dos quais retira energias e ideias, retribuindo com lições sobre abnegação e sofrimento em nome de uma distante consagração. Em 18 de outubro de 2017, ele foi convidado para falar na Universidade Estatal de Moscou, um prestigioso campus que abriga 40 mil estudantes. Já não era mais o sujeito franzino de camisa amarela que seis anos antes se apresentara na Universidade Stanford, com os códigos de vestimenta e de linguagem de um Steve Jobs ou de um Bill Gates. Terno de camurça azul-marinho, camisa branca de gola mandarim, o Jack Ma de Moscou mostrava-se confiante: “As pessoas que se preocupem com a revolução tecnológica. Eu não vou ficar lamentando, pois isso não ajuda em nada. Temos de fazer os rivais se lamentarem. Nada vem de graça, nada é fácil. Se você quer vencer, é preciso pagar o preço. No último ano, eu passei 867 horas dentro de um avião. No Alibaba, nós trabalhamos dia e noite. Tentamos ser únicos, diferentes. Hoje é duro, amanhã será mais duro ainda, depois de amanhã será magnífico”.10

“Cada dia no Alibaba é um dia de luta”, completa um pai de família que deseja ser identificado pelo pseudônimo Hong Cha (“Chá Preto”). Ele trabalhou por dois anos na sede da Cainiao, a filial de logística do grupo, em Hangzhou, uma cidade que se tornou muito atraente e decuplicou sua população em duas décadas. “Embora a cidade não esteja no nível artístico de Xangai, ela respira comércio eletrônico, nova economia, como Jack Ma.” O homem descreve os dias de acordo com a regra do “996”, já formulada publicamente por Ma: trabalho das nove às nove, seis dias por semana. Na contratação, sete dias são totalmente dedicados ao aprendizado dos valores do Alibaba.

Hong Cha garante que, em dois anos, sua renda foi, em média, de 257 mil euros por ano, uma parte em ações. A contrapartida, segundo ele, é uma organização dos cargos na qual todos competem com todos. “A arquitetura do Alibaba é muito centralizada. Ela apresenta 10 mil cargos do tipo P8, como o meu na China, mas apenas 300 a 400 P10s, altos cargos de direção. Meu superior, que está nesse nível, tinha quatro equipes de P8 sob sua gestão, prometendo promover apenas uma a P9. Subir para essa posição significa ter seu salário e seu volume de ações duplicados. Imagine a competição…” Ele também fala das avaliações anuais, chamadas “3-6-1”: “Do total de executivos, 30% são classificados como excepcionais; 60%, como aptos; e 10%, como não qualificados. Após dois anos consecutivos entre os 10%, você deve deixar a empresa”.

 

Produtor de vinho na França

Também é necessário, simultaneamente, promover o espírito de equipe (teambuilding), considerado essencial. “Somos reunidos em grupos de dez, perguntas são feitas e precisamos respondê-las. São coisas um pouco íntimas, como o lugar onde você beijou sua namorada pela primeira vez, por exemplo. Entendo que é uma coisa cultural de vendedores, a profissão original do Alibaba.” A empresa tem um Bulletin Board System (BBS), um fórum na internet no qual os funcionários se expressam, sob sua identidade real. Qualquer assunto pode ser abordado, não existe moderação. “É comum ver postagens nas quais os funcionários reclamam da avaliação injusta de um supervisor. Isso gera comentários, princípios de crises, e geralmente ambas as partes acabam saindo da conversa. Os funcionários adoram essas polêmicas.” É também nesse fórum que Jack Ma fala com todos os funcionários para trazer à tona polêmicas externas ou quando questões importantes são levantadas. Hong Cha fica tranquilo: “No fim das contas, os verdadeiros escravos ainda estão na Pinduoduo [concorrente de baixo custo da Taobao]. Eles trabalham 330 horas por mês, só voltam para casa depois do jantar, é a regra”.

Na Europa, onde o Alibaba está conquistando mercado, o grupo quer montar uma plataforma logística próxima ao aeroporto de Liège.11 Na França, o bilionário chinês persegue um projeto mais pessoal. Em 2016, comprou a propriedade Château de Sours, uma antiga escala de peregrinos no Caminho de Santiago, em Saint-Quentin-de-Baron. “Eu nunca tinha ouvido falar desse homem, até que ônibus de turistas chineses cruzaram a vila para tentar vê-lo”, confessa Jack Allais, prefeito do lugar entre 2014 e 2020. Ma fechou a loja de vinhos para manter os visitantes a distância, instalou sem falar com ninguém canhões antigranizo em seus 200 hectares de terra, trouxe cepas portuguesas e espanholas, adotou a permacultura, proibiu pesticidas e abriu mão de sua denominação de origem controlada (DOC), a ponto de irritar alguns produtores de vinho vizinhos. Já foram investidos 20 milhões de euros. As primeiras garrafas desse novo vinho estão previstas para 2023, todas para exportação. Não é lenda: na França, como em toda parte, Jack Ma pretende derrubar o modelo dominante, enxerga longe e gasta à vontade. Pelo menos até o momento…

 

*Jordan Pouille é jornalista.

 

1 “Chine: les ventes au détail en ligne en hausse de 10% en 2020” [China: vendas de varejo on-line têm alta de 10% em 2020], Xinhua, Pequim, 3 fev. 2021.

2 Ler Martine Bulard, “Paysans chinois entre cueillette et internet” [Os agricultores chineses entre a colheita e a internet], Le Monde Diplomatique, nov. 2015.

3 Primeiro semestre de 2020, de acordo com a agência IResearch, de Pequim.

4 “China central bank urges wider acceptance of cash as payments go digital” [Enquanto avança o pagamento digital, Banco Central da China pede uma aceitação mais ampla do dinheiro], Reuters, 15 dez. 2020.

5 Ler Maxime Robin, “Aux États-Unis, l’art de rançonner les pauvres” [Nos Estados Unidos, a arte de extorquir os pobres], Le Monde Diplomatique, set. 2015.

6 Ler René Raphaël e Ling Xi, “Bon et mauvais Chinois” [Bons e maus chineses], Le Monde Diplomatique, jan. 2019.

7 Citado por William Pesek, “Xi walks a tightrope by reining in Jack Ma” [Xi na corda bamba para controlar Jack Ma], Asia Times, Hong Kong, 9 fev. 2021.

8 Jing Yang e Julie Steinberg, “How a ‘surefire’ bet on Ant Group has trapped global investors” [Como uma aposta “à prova de fogo” no Ant Group meteu investidores globais em uma armadilha], The Wall Street Journal, Nova York, 9 fev. 2021.

9 Rastel Tchounand, “E-commerce: avec eWTP Africa, Alibaba fait du Rwanda le premier pays d’Afrique de sa plate-forme mondiale” [E-commerce: com EWTP África, Alibaba faz de Ruanda o primeiro país africano em sua plataforma global], La Tribune Afrique, 1 nov. 2018. Disponível em: https://afrique.latribune.fr.

10 “Jack Ma holds lecture at Moscow State University” [Jack Ma dá palestra na Universidade Estatal de Moscou], Ruptly, 18 out. 2017, no YouTube.

11 Cf. principalmente Cédric Leterme e Sebastian Franco, “La Belgique sur l’échiquier mondial d’Alibaba” [A Bélgica no tabuleiro mundial do Alibaba], Mirador, 1º out. 2019. Disponível em: www.mirador-multinationales.be.

 

 

Em poucas palavras…

  • O Grupo Alibaba foi fundado em 1999 por Jack Ma e dezessete amigos.
  • Sede: Hangzhou (China).
  • Diretor-presidente: Daniel Yong Zhang (desde a saída de Jack Ma, em 10 de setembro de 2019).
  • Pessoal contratado em todo o mundo: 122.399 pessoas (2020) + 4% em um ano.
  • Entrada na Bolsa: Nova York em 2014; Hong Kong em 2019.
  • Acionistas: Softbank (Japão), 25%; Joseph Tsai (cofundador taiwanês-canadense), 6,2%; Jack Ma, 4,8%; BlackRock (Estados Unidos), 3,1%; T. Rowe Price (Estados Unidos), 2,3%.
  • Subsidiárias: Taobao e TMall (vendas on-line); Cainiao (plataforma logística); Ele.me (entrega de refeições); Sun Art e Freshippo (supermercados); Alibaba Cloud (computação em nuvem); AliHealth (saúde); Fliggy (agência de viagens); AutoNavi (cartografia); Youku (site de vídeos); Alibaba Pictures (cinema); South China Morning Post (um dos maiores jornais em inglês de Hong Kong).
  • O Ant Group, grupo financeiro da Alipay, foi criado em 2004 por Jack Ma. A Alibaba detém 33% de seu capital.


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