LITERATURA

Amara Moira: ‘encontrei nos livros a acolhida que não tive em outras esferas da vida’

Autora de E se eu fosse puta e Neca: Romance em bajubá é a oitava entrevistada do especial do Le Monde Diplomatique Brasil

Em todos os momentos em que me deparei com o pensamento de Amara Moira, saí impactado. Foi assim quando tive contato com suas obras literárias, sua produção acadêmica, seus textos em veículos de comunicação, suas falas em eventos literários e, agora, com essa entrevista.  

A escritora, tradutora, professora, ativista, doutora em Teoria Literária e primeira mulher trans a defender uma tese com nome social na Unicamp é a oitava entrevistada do especial do Le Monde Diplomatique Brasil em comemoração ao Dia Nacional do Escritor que foi no dia 25 de julho. “A literatura pode assumir um papel na reorganização social, mas para isso teremos que aprender a escapulir da lógica das redes sociais, com seus julgamentos apressados e seu estímulo permanente à polarização”, afirmou.  

Como de costume, ela refletiu com profundidade e sensibilidade sobre os mais diversos temas, como a solidão na infância, o trabalho com a linguagem, as obsessões como ficcionista e até IA. 

Confira na íntegra:  

Qual tema é a sua grande obsessão como ficcionista? De que forma esse tema se relaciona com a sua vida fora da literatura? 

Desde que me entendo por gente, eu sempre quis ser escritora. Fui uma criança solitária e encontrei nos livros a acolhida que não tive em outras esferas da vida, daí talvez o motivo do meu fascínio precoce. No entanto, não sei se por saber das dificuldades que escritores enfrentam no Brasil ou se somente por não querer transformar as minhas produções num trabalho mais formal, oficial, já na adolescência eu comecei a pensar outras profissões que eu poderia exercer para poder, em paralelo, me dedicar à escrita. Eu queria escrever o que me desse prazer, sem ter que me preocupar com vendagem de livros ou o que estaria na moda, por isso era importante eu ter outra fonte de renda que não essa. De qualquer forma, a minha transição de gênero foi o grande divisor de águas na minha vida de escritora: até ali, era como se eu estivesse só ensaiando, aprendendo a brincar com as palavras. Foi a experiência da transição e, depois dela, da prostituição que eu descobri sobre o que eu gostaria de explorar nas minhas obras. 

Para escrever um bom livro, o enredo e a linguagem têm a mesma importância? 

Todos nós sabemos cantar, o que não nos transforma naturalmente em cantores. É preciso muita dedicação, orientação adequada e uma boa dose de predisposição genética para alcançarmos feitos notáveis nesse campo. O mesmo pode-se dizer de todas as outras áreas artísticas, mas tenho sentido que, quando falamos especificamente de literatura, parece que nada disso importa. O resultado são leituras que só conseguem explorar a camada mais superficial das obras e que não pestanejam em descartá-las caso não se mostrem adequadas aos padrões morais das nossas trupes. Conservadores têm, ainda hoje, medo de que obras LGBTI+ transformem leitores em sodomitas inveterados, mas o outro lado da moeda são progressistas que defendem que, se não limparmos as produções de qualquer traço de discurso discriminatório, vamos nos tornar pessoas piores. A literatura é vista como uma ameaça e precisa ser vigiada com atenção, independente do espectro político. O problema é que isso reduz os livros ao enredo e trata o trabalho mais complexo com a linguagem como uma simples moldura. O Marquês de Sade, por exemplo: por mais asqueroso que ele possa ter sido como pessoa (e por mais discriminatória que seja a sua produção), ele fez da sua obra um vasto laboratório de investigação da linguagem, com a qual temos muito o que aprender. Por isso, acredito que só se pode falar de literatura se a linguagem for a protagonista da obra. Caso contrário, a IA já é capaz de fazer o trabalho melhor do que nós. 

Qual livro você mais gosta de reler? Por quê? 

O Ulysses, de James Joyce, foi a obra que mais transformou a minha escrita e sempre volto a ela quando começo a achar que estou confortável demais no meu jeito de escrever. A radicalidade com que ele desafia a linguagem é um farol que me lembre que sempre é possível ir mais fundo, ser menos óbvia. 

Qual obra literária foi essencial para que você se tornasse uma leitora? E uma escritora? 

Se só conhecemos junkie food, hot dog com coca cola pode parecer o suprassumo da gastronomia. E isso não é uma crítica a quem consome esse tipo de lixo, porque eu me incluo nessa lista também. Não é simples, por exemplo, perceber que o nosso desejo não é uma manifestação fidedigna do que somos, mas sim um reflexo dos condicionamentos que recebemos ao longo da vida. O mesmo pode ser dito da literatura. Só que, se a comida parece ter uma função óbvia, nos nutrir (ainda que cada vez mais pareça que esse agora é um objetivo secundário dela), não sabemos dar um propósito tão claro para as obras literárias. Entretenimento talvez? Bom, tudo isso para dizer que o ABC da literatura, de Ezra Pound, foi a obra que me ensinou a olhar de outra forma para os livros. Eu era leitora de enlatados até ali, uma leitora que transformava em enlatados mesmo as preciosidades que caíam na minha mão (como o Machado e a Clarice que a professora Eunice me fez ler no Fundamental). 

Amara Moira
Crédito: Renato Parada

Em 25 de julho foi comemorado o Dia Nacional do Escritor. Na atualidade, o que os autores e as autoras mais têm a celebrar no país? E com o que eles e elas devem se preocupar? 

Vivemos num mundo fendido e que se mostra cada vez mais incapaz de diálogo. A literatura pode assumir um papel na reorganização social, mas para isso teremos que aprender a escapulir da lógica das redes sociais, com seus julgamentos apressados e seu estímulo permanente à polarização. Não bastasse esse desafio absurdo, ainda temos que aprender a lidar com a IA. Ou seja, não há quase nada a se comemorar. 

Em sua opinião, qual escritor ou escritora merece maior atenção de leitores, leitoras, editoras e da crítica especializada no Brasil? 

Uma das figuras mais injustiçadas da literatura brasileira é Glauco Mattoso, um marginal que mesmo a Geração Marginal não deu conta de engolir. 

Qual foi o melhor conselho que você já recebeu no meio literário? E o pior? 

O melhor veio de Ezra Pound: “se você quer desenvolver suas habilidades de escritor, a tradução pode ser um excelente caminho”. Pegar uma obra gigante e fazer com que ela permaneça gigante no seu idioma é um baita exercício, equiparável a qualquer crossfit doido por aí. Sem contar que, ao comparar o que é possível no nosso idioma com o que outros idiomas são capazes, vamos também entendendo melhor as ferramentas de que dispomos e como podemos aperfeiçoá-las. O pior acho que veio de um familiar: “escreva menos putaria, senão você vai limitar muito o alcance das suas obras”. Se bem que, depois disso, eu fiquei com ainda mais vontade de escrever putaria, então talvez tenha sido um bom conselho. 

O que move sua escrita? 

O tesão. Quero escrever obras que excitem a minha imaginação, quero escrever obras que revelem o tesão que é a vida. 

 

Sobre a escritora 

Amara Moira é escritora, professora de literatura e ativista brasileira. Seu doutorado em teoria e crítica literária (Unicamp) discute as indeterminações de sentido em Ulysses, de James Joyce, um divisor de águas em sua vida. É autora dos livros E se eu fosse puta (2016) e Neca: Romance em bajubá (2024) e é coordenadora do Museu da Diversidade (MDS), em São Paulo. 

 

Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de Desprazeres existenciais em colapso (Patuá), Desemprego e outras heresias (Sabiá Livros) e  De repente nenhum som (Sabiá Livros). É colaborador do Le Monde Diplomatique, Jornal Rascunho e São Paulo Review e tem textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas.   

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