A nova roupagem da Operação Condor - Le Monde Diplomatique

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América do Sul: a nova roupagem da Operação Condor

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por Miriam Moraes
20 de dezembro de 2017
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Se um simples bater de asas de uma borboleta pode causar um terremoto em alguma parte distante do mundo, um cenário global repleto de situações imprevistas faz estragos em toda parte, mas em nenhuma parte do planeta as mudanças têm sido tão determinantes quanto na América do Sul.

 

Ollanta Humala, ex-presidente do Peru por um partido de esquerda, é preso em julho de 2017. O atual presidente, Pedro Pablo Kuczynski, de centro esquerda, sofre processo de impeachment que abre caminho para a candidata da direita, Keiko Fujimore. Os dois foram denunciados pela Lava Jato por corrupção vinculada à Odebrecht. No Chile, Michelle Bachelet, também acusada de ter recebido dinheiro da Odebrecht, sequer teve candidato do seu partido para a sucessão. O candidato da direita, Sebastián Piñera, foi eleito com folga no dia 17 de dezembro. Na Argentina, Cristina Kirchner (Argentina) teve suas contas congeladas pela justiça, recentemente foi decretada sua prisão preventiva e aguarda definição do Congresso que vai definir sobre a detenção. No dia 24 de janeiro, o ex-presidente Lula terá sua condenação confirmada ou negada pelo TRF4. Embora todos os ex-presidentes do Brasil e diversos outros da América do Sul foram acusados pela Lava Jato ou foram citados em delações, mas em todos os casos, o tratamento dado às acusações pela justiça e pelos grandes conglomerados da imprensa produzem invariavelmente o mesmo resultado: a esquerda é demonizada e os governos terminam nas mãos dos representantes da direita.

Mas esta não é uma história que começa agora. Embora a operação Condor tenha deixado seu ovo chocando nas últimas 4 décadas, alguns fatos mundiais ocorridos do ano 2000 para cá definem a razão para a volta do Condor com nova plumagem, mas também sinaliza a porta de saída que a esquerda insiste em não enxergar.

 

11 de setembro de 2001 – Atentado ao World Trade Center abala o mundo

 Independente das dúvidas que permeiam as razões do atentado ao World Trade Center, o fato é que embora o bater das asas da borboleta tenha acontecido em Nova York, os desdobramentos para a América do Sul foram de natureza oposta ao que se deu no Oriente Médio. O Iraque tinha acabado de tentar uma invasão ao Kuwait, e os dois países figuravam em colocações privilegiadas entre as maiores reservas de petróleo do planeta. Obviamente o interesse das petrolíferas estrangeiras era o de garantir não apenas o Kuwait, mas sobretudo as novas portas que se abririam com a queda de Saddam Hussein.

Na mesma época, o Brasil tinha uma produção de petróleo de pouco mais de um terço do que extrai hoje, não figurava entre as grandes reservas e o custo de produção prometia se tornar cada vez maior em razão do esgotamento das camadas mais acessíveis, nosso petróleo era escasso e estava em águas profundas. Na Venezuela, Hugo Chavez foi eleito em 1999 e já tinha endurecido o jogo. As reservas do Rio Orinoco, que elevaram substancialmente a posição do país no ranking das maiores reservas mundiais, só seriam descobertas anos depois, em 2005.

Ao mesmo tempo em que o poderio militar dos EUA avançava sobre nações Árabes, a América do Sul foi recuperando sua liberdade, brotando em todos os países os governos socialistas ou fortalecendo os que haviam sido recentemente alçados ao poder. Sem o amparo do dinheiro americano, os grupos de comunicação perderam a força, resultando num avanço da esquerda representado por Hugo Chavez na Venezuela, Ricardo Lagos no Chile, os Kirchners na Argentina, Rafael Correa no Equador, Lula é eleito em 2002, no Brasil.

Foi uma década de mudanças. O fortalecimento do tratado de livre comercio com o Mercosul afastou a Alca do Brasil, as exportações brasileiras até então concentradas nos Estados Unidos passou a ser destinada a outros países dos continentes europeu e asiático por preços muito superiores. O crescimento médio da América do Sul foi expressivo. A partir de 2003, a Argentina crescia em média 8% ao ano, e a crise que levou mais da metade da população a viver abaixo da linha da pobreza foi debelada. O crescimento da Venezuela ainda superior, cerca de 10% ao ano. Com a nova política de preços e a nacionalização do Petróleo, o país saltou de uma receita de U$12 bilhões de dólares em 1998 para U$95 Bilhões em 2012. O Brasil ocupa quase a metade do território sulamericano (48%) e tem quase a mesma proporção de habitantes, 206 dos 422 milhões de pessoas. Embora o crescimento médio do Brasil, na ordem de quase 4%, possa não parecer tão relevante quanto aos dos países menores, em comparação com as maiores economias do mundo – ou entre países com população e território similares – alcançou a sétima posição no ranking mundial, tornando-se modelo de desenvolvimento econômico com inclusão social para o mundo. O relatório da ONU, em 2013, mostrou que a proporção de brasileiros considerados pobres ou extremamente pobres foi reduzida pela metade entre 2005 e 2012, de 36,4% para 18,6% e a população indigente caiu de 10,7% para 5,4%, um resultado que alcançou quase todos os países da América do Sul, com destaque para Venezuela e Equador, além do Brasil.

 

 

 

Embora houvesse na América do Sul os tropeços e embates naturais entre grupos políticos, a interferência das forças internacionais foi significativamente reduzida. Mas em 2005, a Venezuela faz grandes descobertas de petróleo e se torna a maior reserva mundial do mundo. E ao confirmar tecnicamente o imenso veio de petróleo na camada do pré-sal no Brasil, o presidente Lula fez um comentário durante seu discurso que se tornou vaticínio: “O pré-sal é uma dádiva, mas pode se tornar maldição”.

Barack Obama – Presidente com atuação de primeira-dama do Congresso Americano

Sim, ele podia. Em 2009 foi eleito o primeiro negro, com ideias socialistas, oriundo das classes menos privilegiadas para o cargo de presidente da maior potência mundial.

Foi muito. Mas obviamente as relações de poder não seriam fáceis.

Com uma visão mais humanista do que se costuma observar no perfil dos que o antecederam, Obama encampou algumas batalhas que tinham forte simbologia, como a política de imigração americana mais branda, o acesso à saúde à população de baixa renda, o fim do embargo comercial a Cuba… Mas o preço foi fazer vistas grossas à política internacional que acabou nas mãos dos congressistas. Quem conhece o Congresso Americano sabe que o Lobby das grandes multinacionais elege seus bonecos de corda para a maioria das cadeiras. O “senhor da guerra”? Não, este título se deslocou entre 2009 a 2017 para o Congresso Nacional, que permitia a Obama ocupar-se de questões sociais que costumeiramente ficavam a cargo das primeiras-damas. Nas questões mais “sérias”, Obama travou embates, mas acabou sendo reduzido ao papel de porta-voz dos interesses das grandes corporações.

O Iraque acabou se revelando um desafio maior que o esperado. Invadir o país foi fácil, mas as guerras entre xiitas e sunitas se revelaram intermináveis. O arsenal bélico americano se voltou para a conquista de outras nações, mas com estratégia diferente, camuflada de escolha do próprio povo. Foi o que se viu com a tal “primavera árabe”. Para quem estranha ver o Egito como um dos alvos, basta notar que o país faz divisa com a Líbia, esta sim, uma das maiores reservas de petróleo do mundo. Líbia e Egito eram parceiros nos projetos de exploração do petróleo e gás. Já com a Síria a questão se revelou um pouco mais complicada. Até hoje o que chamam de “guerra civil” permanece como obstáculo para os patrocinadores da discórdia. Líbia e Egito foram dóceis. Eles não apenas entregaram seu petróleo para exploração das estrangeiras como reduziram a tributação a inacreditáveis 6%. Melhor que isso, só o Brasil, que acaba de conceder isenção total.

Em apenas um ano de sua saída, todos os projetos que desenvolveu desapareceram tão rápido quanto as fotos da família Obama saíram dos aparadores da Casa Branca.

 

A Primavera Árabe – o novo modelo de colonização chega à América do Sul

O marco foi 2009, quando a confirmação das reservas de petróleo do pré-sal, somadas às novas descobertas na Venezuela mostraram que havia sido um erro se desfazer do sub continente. Mas o grupo que concentra o poderio financeiro e bélico americano andava ocupado com a nova estratégia para o Oriente Médio. Em 2011 eclodiram quase simultaneamente as revoltas populares na Síria, Líbia e Egito. Bradava-se lá contra as ditaduras. Já na América do Sul, a estratégia foi a reedição do que já havia funcionado por diversas vezes: o discurso contra “os comunistas” e acusações de corrupção. E o primeiro passo foi o reordenamento dos grupos de comunicação fincados aqui como suporte às ditaduras que dominaram a região até a década de 80, ao mesmo tempo em que grupos de trabalho eram treinados para atuar nas redes sociais.

Em 2010, morre na Argentina o presidente Nestor Kirchner, e sua mulher Cristina Kirchner, que participava ativamente do governo, é eleita em 2011. Na Venezuela, a morte de Hugo Chavez ocorreu quando seu irmão Nicolás Maduro já estava à frente do governo. Em 2010, Dilma era vista como uma candidata fácil de ser derrotada. Sem traquejo político, imagem severa, cara de poucos amigos… Não perceberam que ser a candidata que atravessou o governo Lula como seu braço direito teria tanto peso para os eleitores. Dilma venceu. E em 2013 foi a presidente com maior aprovação popular, chegando inclusive a superar a aprovação de Lula.

A estrutura já estava montada. Aliados aos grupos dominantes em cada país, as acusações de corrupção começaram a pipocar nas redes e jornais. Como a economia de todos os países alvo estavam em ascensão, propagava-se que não adianta ter desenvolvimento se os governos são corruptos. Os financiamentos de campanhas passaram a ser tratados como corrupção e cada medida adotada por cada governo sofria retaliações através da imprensa e das redes sociais.

O discurso foi o mesmo, as mesmas acusações mudando apenas o idioma. Assim como na Síria, Líbia e Egito, logo havia milhares de pessoas nas ruas em protestos contra a corrupção.

Cristina Kirchner perdeu a eleição em 2015 para o candidato da imprensa, o direitista Maurício Macri. A eleição em 2014 no Brasil foi a mais acirrada dos últimos tempos, envolvendo inclusive uma queda de avião que levou à morte o candidato Eduardo Campos e possibilitou o segundo turno com a entrada na disputa de sua candidata a vice, Marina Silva que dividiu os votos da esquerda. Com a vitória, ainda que apertada, iniciou-se a trava ao governo, com diversas medidas de cerceamento à governança imposta pelo Congresso que levaram ao impeachment de Dilma em 2016. Apenas Maduro resiste, e em grande parte porque conseguiu permanecer no enfrentamento até que o imponderável surgisse através do bater de asas… desta vez não de uma borboleta, mas da grande águia americana.

 

Agenda igual em todos os países mostra um plano de colonização branca para toda a América do Sul.

O programa implantado pela esquerda durante a década de crescimento da América do Sul seguia o modelo do bem estar social que se vê na Europa Socialista e no Canadá, ancorado em uma série de direitos sociais e trabalhistas que resultava acesso do trabalhador aos bens de consumo.

O que se vê agora é a retirada dos direitos trabalhistas, as privatizações, mudanças na aposentadoria, portas abertas para grupos estrangeiros.

– Vão nos transformar numa nova China!

A fala é de um trabalhador argentino que participava dos protestos contra a reforma da previdência, aprovada na Argentina em dezembro. A reforma trabalhista já foi aprovada nos mesmos moldes da que foi feita no Brasil. O achatamento do salário, o desemprego em alta, a volta de milhões de habitantes para a fome se assemelha em todos os países, mas a combinação do trabalho da imprensa com ações jurídicas que só atingem a esquerda vem produzindo uma incapacidade de reação por parte da esquerda talvez já prevista pelos organizadores do processo. Acostumados a aliar o uniforme militar a ditaduras, os mais diversos setores da esquerda lidam com o momento confiando em ferramentas democráticas. A única exceção é a Venezuela.

 

Donald Trump – É uma maldição, mas pode tornar-se uma dádiva

Em 16 de novembro de 2016, o mundo acordou duvidando dos próprios sentidos. Embora a vitória de Trump aparecesse estampada em todos os jornais, nos noticiários de rádios e tvs, era difícil acreditar que o “Império” tinha caído nas mãos de um candidato equivalente ao apelo político que produzia palhaço Tiririca no Brasil. Sem nunca demonstrar interesse genuíno pela política, sem bons modos, sem pertencer aos grupos tradicionais do parlamento americano… Trump era a incógnita da vez. Parecia um bom candidato para divertir o público e quebrar o marasmo dos entediantes debates eleitorais, mas ninguém acreditava que ele seria eleito.

Trump já estreou em grande estilo, fazendo pouco dos europeus na parceria bélica, dizendo ao Congresso que não estava desposto a dar muitas explicações, e logo de cara cismou com o baixinho atrevido da Coreia do Norte. Obviamente fez suas maldades domésticas, mostrando aos imigrantes que eles não são bem vindos, cortando o acesso à saúde da população de baixa renda, e até destratando a esposa em público.

Porém, até mesmo a eleição de Trump começa a revelar seu lado bom. A Europa já se organiza para discutir a criação de uma defesa de suas fronteiras sem a participação subserviente aos Estados Unidos. O grupo empresarial que ditava as regras no governo americano foi alijado, Trump não compõe com ninguém, o que acabou desarticulando os esquemas que contavam com os arsenais bélicos e econômicos do tio Sam como suporte.

Os sinais são claros. Num dos leilões de petróleo, Temer pediu aos americanos para participar. A China, ciente de que o projeto inicial incluía a transformação da América do Sul num polo de mão-de-obra barata para concorrer com o selo “Made in China”, aproveitou-se da lacuna deixada pelos desnorteados americanos e está investindo em empresas, sobretudo nas que controlam a energia. Em 2017, a China superou os 60 Bilhões em compras de ativos somente no Brasil.

Enquanto a esquerda treme de medo de uma reação, acreditando que a tropa americana cairia sobre suas cabeças, a China acordou há tempos e aproveita o bater das asas da destrambelhada águia americana Donald Trump.

Não são pequenos os olhos chineses, são olhos astutos.

*Miriam Moraes é jornalista

 



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