MÚSICA BRASILEIRA

Angela Velloso: Bahia, emoção e canção na nova MPB

A cantora é parte de um movimento que entende a canção como campo de batalha e de afeto. Sua escuta atenta da rua, do cotidiano e das vozes que parecem esquecidas — mas que compuseram a música popular da Bahia — confere à sua obra um sentido de presença viva e urgente

Você precisa conhecer Angela Velloso!

Ela é tão baiana que hoje reside no centro histórico de Salvador — mais precisamente entre o Pelourinho e o Santo Antônio Além do Carmo. Ali, numa ladeira onde o tempo caminha devagar e os sons da cidade ecoam com ancestralidade, começa a subida. E é desse ponto de vista — físico, simbólico, sonoro — que Angela Velloso tem composto uma das obras mais potentes da nova Música Popular Brasileira.

Filha do compositor e multi-instrumentista Duarte Velloso, Angela cresceu entre partituras, ensaios e afetos. Mas sua música não é apenas herança: é invenção. Graduada em Música Popular pela UFBA e com passagem pela faculdade de Música na Alemanha, ela domina com elegância os arranjos, os improvisos e a construção melódica, transitando entre o Recôncavo e Coltrane sem perder o fio da própria voz. Sua formação técnica é visível, mas é a sua escuta atenta da rua, do cotidiano e das vozes que parecem estar esquecidas, mas que foram a música popular da Bahia que dá à sua música um sentido de presença viva e urgente.

Desde o álbum de estreia Reisen (2019), passando pelo espetáculo autoral Manakin (2022) e pelo EP Quase Esquecem (2023), Angela tem afirmado uma estética própria — urbana, baiana, feminista, refinada. Mais que intérprete, é artesã da canção. Mais que cantora, é corpo que canta. Cada projeto seu parece costurado com o cuidado de quem entende a canção como território de invenção e resistência.

O show Manakin, apresentado em 2022 no Teatro Sesc-Senac Pelourinho, firmou sua potência de cena. Com repertório majoritariamente autoral, direção musical de Duarte Velloso e participações de Roberto Mendes, Isa Meirelles e Paul Andrew, o espetáculo revelou uma artista pronta para o risco. O EP Quase Esquecem, por sua vez, amplia o alcance poético e musical de sua voz: seis faixas que transitam entre a crônica social e o lirismo íntimo, com arranjos que desafiam o óbvio e escavam beleza na simplicidade. Não há concessões comerciais: o que se ouve é um convite à escuta aprofundada, ao silêncio entre os acordes e à palavra que chega como quem sussurra uma denúncia ou um afeto guardado.

Angela também integra o projeto Solana Star, ao lado de O Fatiota, com quem lançou o Saga dos Ventos — uma obra que mistura baião, folk e rock de forma livre, com ecos experimentais, mas sem perder o pé no chão da canção. Não se trata de revival nem homenagem: é invenção em curso, com uma sonoridade que flerta com o psicodélico, mas que volta sempre para a pulsação da música popular.

Com apenas 27 anos, já dividiu palco com nomes como Lazzo Matumbi, Mariene de Castro, Xênia França, Daniela Mercury, Camilla Bertault e Moreno Veloso. Em 2024, apresentou-se no Beco das Garrafas, templo da música brasileira no Rio de Janeiro, ao lado do violonista Paulo Mutti, em performance intimista que reafirmou sua potência interpretativa e capacidade de reinvenção. Cada apresentação ao vivo é um manifesto de liberdade artística, onde a improvisação e o improviso cênico ganham corpo.

O cenário da nova música brasileira vive hoje um momento fértil, com artistas que resgatam a canção como espaço de complexidade estética e discurso político. De Tiganá Santana a Juliana Linhares, de Josyara a João Milet Meirelles, de Illy a Nêssa, uma geração inteira vem desafiando rótulos e atualizando linguagens. Nesse contexto, Angela Velloso se destaca não apenas pelo talento, mas pela clareza de sua proposta: fazer música viva, sem fetiche, sem pressa e sem molduras. Ela é parte de um movimento que entende a canção como campo de batalha e de afeto.

Crédito: Divulgação/Spotify

Seu próximo trabalho, o aguardado álbum QUEDÉ, nasce como um gesto de escuta e provocação. O título — uma pergunta comum no vocabulário baiano, que significa “onde está?” — funciona como chave poética para um disco que busca aquilo que foi perdido, esquecido ou silenciado. QUEDÉ não é uma busca nostálgica, mas um chamado. O repertório reúne canções inéditas compostas por Duarte Velloso, João Dude e a própria Angela, explorando temas como memória coletiva, abandono institucional, erotismo sutil e resistência afetiva. As referências vão do samba do Recôncavo às harmonias do jazz modal, passando por ritmos iorubanos, beats quebrados e canções quase sussurradas. Produzido de forma independente, com direção musical compartilhada com Duarte Velloso, o disco deve chegar ao público no final de 2025 — e já carrega a promessa de ser uma das obras mais sensíveis e necessárias da nova MPB baiana.

E se até aqui Angela foi reconhecida sobretudo como uma intérprete com assinatura vocal forte e uma presença cênica marcante, o futuro aponta para novos caminhos autorais. Cada vez mais, ela tem se dedicado ao ofício da composição, criando narrativas líricas e sonoras que partem da sua vivência como mulher, artista e cidadã da Bahia. Esse mergulho autoral já dá sinais em algumas faixas de QUEDÉ e, ao que tudo indica, será aprofundado nos próximos projetos. Há quem diga, entre os músicos mais próximos, que suas novas composições guardam boas surpresas: melodias envolventes e uma poesia afiada que transita entre o cotidiano e o simbólico com a mesma naturalidade com que ela transita entre os bairros de Salvador.

O que faz de Angela Velloso uma das mais promissoras artistas da nova música brasileira não é um desejo de ser “a nova” qualquer coisa. Ela não é a nova Elis Regina. Também não é um revival do tropicalismo. Sua música se basta. É feita de Bahia e de escuta, de ladeira e de harmonia, de coragem e de silêncio. É canção que pensa, improvisa, dança, desafia. É música popular brasileira — em sua mais viva acepção.

Num país que busca reinventar sua linguagem musical sem abandonar suas raízes, Angela Velloso não é promessa. É presença. E sua caminhada só está começando.

Herlon Miguel é bacharel em Administração, produtor cultural e mestrando em Gestão de Tecnologias Aplicadas à Educação pela Universidade do Estado da Bahia. É criador da plataforma Ative a Cidadania, dedicada à formação, capacitação e lançamento de autores e autoras negras, além de fundador da plataforma de comunicação Negrito LAB. Como escritor, é coautor do livro “Amar pode ser perigoso” e colabora com o jornal Le Monde Diplomatique Brasil com textos sobre antirracismo, cultura, política e comunicação.

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