Antes da guerra - Le Monde Diplomatique

EDITORIAL

Antes da guerra

por Ignacio Ramonet
1 de fevereiro de 2003
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Não foi possível estabelecer qualquer tipo de vínculo entre Bagdá e as redes terroristas islâmicas. Conseqüentemente, a opinião pública mundial continua exigindo provas indiscutíveis que justifiquem a guerra contra o IraqueIgnacio Ramonet

Tudo indica que a guerra dos Estados Unidos e alguns de seus vassalos contra o Iraque irá, de fato, ocorrer. Por terra, mar e ar, a formidável máquina militar está inteiramente pronta e a logística, preparada. Câmeras de televisão do mundo inteiro também já estão no local. A ordem de abrir fogo não deverá tardar.

No entanto, até o momento, nada justifica tal agressão aos olhos da legalidade internacional. Os inspetores enviados pela Organização das Nações Unidas (ONU) para descobrir eventuais armas de destruição em massa continuam de mãos abanando. O relatório que endereçaram à ONU no dia 27 de janeiro não é conclusivo. Por outro lado, não foi possível estabelecer qualquer tipo de vínculo entre Bagdá e as redes terroristas islâmicas – em particular, a Al-Qaida, responsável pelos horríveis atentados de 11 de setembro de 2001 e considerada, posteriormente, o inimigo público número um de Washington. Conseqüentemente, a opinião pública mundial continua exigindo provas indiscutíveis que justifiquem este ataque.

Aliados exigem provas

Enquanto atendia a seus interesses, Washington jamais teve escrúpulos em apoiar Saddam Hussein, como o fez com outros ditadores igualmente abomináveis

Evidentemente, o regime iraquiano é odioso e Saddam Hussein, um autocrata particularmente detestável que não hesita em massacrar repetidamente sua própria população, chegando a usar contra ela gases de combate proibidos pelos tratados internacionais. Justificaria isso uma “guerra preventiva”? Infelizmente, não é ele o único dirigente com essa postura sinistra. E, enquanto atendia a seus interesses, Washington jamais teve quaisquer escrúpulos em apoiar Saddam Hussein, durante a década de 80, como o fez com outros ditadores igualmente abomináveis: Marcos, nas Filipinas, Suharto, na Indonésia, o Xá, no Irã, Somoza, na Nicarágua, Batista, em Cuba, Trujillo, na República Dominicana, Pinochet, no Chile, Mobutu, no Congo-Zaire etc.

Alguns dos mais sanguinários e repugnantes tiranos continuam sendo apoiados pelos Estados Unidos, como o delirante Teodoro Obiang1, da Guiné Equatorial2, que foi recebido com todas as honras pelo presidente George W. Bush na Casa Branca, em setembro de 2002…

Diante de uma posição tão arbitrária por parte de Washington, mesmo alguns velhos aliados dos Estados Unidos resistem em apoiá-los em sua cruzada contra o Iraque. Dois deles, a França e a Alemanha, numa atitude de quase insubordinação, afirmaram, no final de janeiro, que não existiam provas disponíveis que justificassem uma intervenção armada. Pedem que os inspetores da ONU tenham seu trabalho prolongado para que não existam quaisquer dúvidas sobre a possibilidade da existência de armas de destruição em massa por parte de Bagdá. A França não exclui a hipótese de utilizar, eventualmente, seu direito de veto. Essa postura franco-alemã parece ter incentivado a Rússia e a China, membros permanentes do Conselho de Segurança, a adotarem posições menos tímidas e também exigirem uma segunda resolução da ONU.

A guerra do desperdício

Alguns dos mais sanguinários tiranos continuam sendo apoiados pelos EUA, como Teodoro Obiang, da Guiné Equatorial, que foi recebido na Casa Branca

Esse cenário irritou bastante Washington, cuja raiva transparece, principalmente em relação a Berlim, acusada, como Paris, de deslealdade. Mas não parece ter modificado sua intenção de invadir o Iraque. À sua chegada ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, no dia 25 de janeiro, o secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, confirmou que os Estados Unidos contam com uma dúzia de “países amigos”, o que, em sua opinião, é mais do que suficiente para constituir uma coalizão internacional contra o Iraque.

O mundo continua a questionar, com grandes preocupações, os verdadeiros motivos para essa intervenção militar. Em Porto Alegre, por exemplo, no Fórum Social Mundial, que reúne os principais atores da sociedade civil do planeta, essa preocupação esteve bastante presente na maioria dos debates. Inúmeros intelectuais ali presentes – Noam Chomsky, Tariq Ali, Naomi Klein, Adolfo Pérez Esquivel, Eduardo Galeano etc. – perguntavam-se se não seria absurdo, e até criminoso, destinar dezenas de bilhões de dólares para fazer uma guerra que nada parece justificar, quando esse dinheiro seria tão mais útil se fosse destinado à educação, à saúde, à alimentação, à habitação e à alfabetização dos cerca de três bilhões de pessoas pobres que existem em nosso planeta. Foi essa, aliás, a mensagem que o presidente do Brasil, Lula da Silva, transmitiu, em nome de todos os deserdados, aos senhores do mundo reunidos em Davos.

A nova arrogância imperial

Diante de uma posição tão arbitrária por parte de Washington, mesmo alguns velhos aliados dos EUA resistem em apoiá-los em sua cruzada contra o Iraque

Para uma grande parte da opinião pública internacional, esta guerra tem como única meta o petróleo. Seu verdadeiro objetivo seria apoderar-se de uma das principais reservas de hidrocarbonetos do mundo. Essa estratégia apresenta-se como uma manifestação da nova arrogância imperial norte-americana, como uma espécie de “capricho do poder” cujas conseqüências geopolíticas (além dos milhares de vítimas humanas) poderiam ser desastrosas.

Uma guerra também desejada pela pequena camarilha de “falcões” de extrema-direita (Richard Cheney, Donald Rumsfeld, Paul Wolfowitz, Richard Perle, Douglas Feith, Jack D. Crouch, John R. Bolton etc.) que, em torno do presidente Bush, pensa, como todos os embriagados pelo poder, que para qualquer problema político, econômico ou social, há sempre a possibilidade de uma solução militar…

(Trad.: Jô Amado)

1 – Alçado ao poder por meio de um golpe de Estado, em 1979, o general Obiang foi “reeleito” para um mandato de sete anos em dez

Ignacio Ramonet é jornalista, sociólogo e diretor da versão espanhola de Le Monde Diplomatique.



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