Antes do clique, a fila
A organização digital da extrema direita explica a velocidade com que as lealdades mudam de nome. Para entender por que elas se fixam, é preciso olhar também para o trabalho e para a relação de cada um com o Estad
Pense numa operadora de caixa que trabalha seis dias por semana e folga um. Ela conhece o preço de cada domingo perdido, a espera por uma perícia do INSS, a fila da creche. Com dois candidatos acima de 45% dos votos válidos no primeiro turno de 4 de outubro, é razoável supor que gente com essa rotina esteja dos dois lados da disputa. Um projeto promete acabar com a escala 6×1. O outro fala em reduzir o custo do trabalho. A explicação mais comum para essa divisão aponta para as redes, a desinformação e a organização digital da extrema direita. Ela tem fundamento, mas deixa aberta a pergunta de que trato aqui. Por que pessoas com experiências parecidas de trabalho e de dependência da proteção pública chegam a juízos políticos tão distintos, e o que isso indica sobre o futuro dos direitos sociais?

Os números da totalização do Tribunal Superior Eleitoral mostram uma disputa apertada e uma ausência grande. Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, e Lula (PT), com 45,16% (Brasil, 2026b). A abstenção chegou a 21,08%, mais de 33 milhões de eleitores (TSE encerra…, 2026). Mais de um quinto do eleitorado não compareceu, dado relevante para entender a participação, mas que não informa as razões de cada ausência. Dezessete dias antes da votação, o governo havia corrigido o Bolsa Família pela inflação acumulada desde março de 2023, de 15,04%, e o piso passou de R$ 600 para R$ 691, na folha de outubro (Brasil, 2026a). O resultado não permite medir o efeito eleitoral dessa medida em nenhuma direção. Lembra apenas que transferência de renda e identificação política não se convertem uma na outra de modo automático.
A interpretação mais elaborada da força de Flávio vem de Marcos Nobre e da equipe do Centro para Imaginação Crítica do Cebrap. No livro O Partido Digital Bolsonarista, Nobre (2026, p. 6) propõe “demonstrar que há uma organização que opera como partido” e insiste que a palavra não é metáfora. O bolsonarismo seria uma identificação de massa, com expressão nas ruas e na cultura. Dentro dele, o ecossistema digital reúne quem atua nas plataformas. Dentro desse ecossistema, o Partido Digital Bolsonarista disputa a direção do conjunto para depois buscar poder institucional (Nobre, 2026, p. 10-11). Sem registro, sem estatuto e sem prestação de contas à Justiça Eleitoral, esse partido usa o PL como hospedeiro e mantém quadros em várias legendas do centrão (Nobre, 2026, p. 16-17). A tese tira o debate da oposição estéril entre manipulação centralizada e caos de influenciadores.
As lealdades, nessa leitura, se formam de modo próprio. A hierarquia nasce do cruzamento das chamadas cadeias de lealdade, e não do número de seguidores. Quem desafia a liderança e perde pode ser cancelado (Nobre, 2026, p. 12-14). No partido digital, “a internet não é apenas mais um instrumento de atuação: é o ambiente e o elemento em que existem e operam” (Nobre, 2026, p. 10). A mobilização é permanente, sustentada por cursos, monetização e verbas de mandato, e foi ela, segundo Nobre, que permitiu a Flávio subir nas pesquisas entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026 (Coll, 2026). Nobre insiste que há participação real nesse universo, e tem razão. A base tem voz a custo zero e influi em pautas e alvos. Participação e influência, porém, não equivalem a poder de decisão. Sem eleições internas nem mandatos, quem participa não dispõe de meios formais para controlar quem dirige nem para deliberar sobre o que é devido a quem.
Não creio que a organização, sozinha, explique por que essas lealdades encontram chão. Ela explica a velocidade com que circulam. O próprio Nobre oferece a pista ao dizer que lideranças lançam propostas e precisam avançar quando são bem recebidas e recuar quando são mal recebidas (Coll, 2026). Isso supõe que a base já tem critérios para julgar antes de a mensagem chegar. O livro reconhece ter deixado em segundo plano a gênese dos processos (Nobre, 2026, p. 8), e é nessa lacuna que a história social tem algo a dizer. Os critérios de aceitação também se formam fora das plataformas, no trabalho sem horário, na renda que oscila, no atendimento que humilha, na impressão de que alguém recebe sem merecer enquanto outro trabalha sem receber. Essas experiências não determinam o voto. Passam por mediações religiosas, familiares, territoriais e partidárias. Mas é contra elas que a organização testa suas propostas.
No trimestre de junho a agosto de 2026, a desocupação ficou em 5,3%, e o rendimento real habitual chegou a R$ 3.777, alta de 3,7% em um ano (IBGE, 2026). No mesmo período, 38,8 milhões de pessoas trabalhavam na informalidade, 37,5% dos ocupados. Havia 13,7 milhões de empregados sem carteira no setor privado e 26,1 milhões de trabalhadores por conta própria, para quem a proteção previdenciária depende de contribuição individual. Para parte dessas pessoas, o contato mais frequente com o Estado pode ser a cobrança, a fiscalização ou a fila, mais do que a proteção. Barbosa e Nobre (2026, p. 56) situam o partido digital em “sociedades e classes notavelmente fluidas, apesar da crescente desigualdade social”. A identificação política de fato ficou fluida. A dependência do salário, a informalidade e a falta de proteção continuam rígidas, e é contra elas que cada discurso é testado.
Daí a ambiguidade com que a proteção pública é vivida. Com o reajuste, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social estima o benefício médio do Bolsa Família em R$ 777, a partir de outubro (Brasil, 2026a). Na mesma rua convivem quem recebe o benefício, quem paga o carnê do INSS como autônomo e quem não tem nenhum dos dois. O trabalhador que defende a aposentadoria como direito, porque a vê paga com o próprio esforço, pode tratar a transferência do vizinho como favor. Essa ambiguidade é antiga. Ao estudar a relação dos trabalhadores com a CLT, French (2001) mostrou que a lei foi vivida ao mesmo tempo como fraude e como esperança, e que seu sentido dependeu da luta para fazê-la valer. Direitos que existem no papel e falham no balcão produzem desconfiança. Essa desconfiança não é ignorância. É um juízo sobre a distância entre a promessa e a prática.
Os planos de governo são mais precisos que a propaganda. A avaliação de Nobre de que Flávio “não se comprometeu com absolutamente nada nessa campanha” (Felício, 2026, não paginado) é um juízo político, não a descrição de um vazio documental. O plano registrado no TSE promete “manter os programas sociais existentes, com aperfeiçoamento da gestão, correção de distorções e combate às fraudes” e “reduzir gradualmente o custo do trabalho, sem retirar direitos”. Propõe contratos mais baratos para jovens de 18 a 24 anos, jornada flexível e prevalência do negociado sobre o legislado, sem mencionar a escala 6×1 no trecho dedicado ao trabalho (Bolsonaro, 2026, p. 42-44). O programa registrado por Lula propõe acabar com a 6×1, reduzir a jornada para 40 horas semanais sem redução salarial e manter a valorização real do salário mínimo (Silva, 2026, p. 19, 75). Um aposta na lei para limitar o tempo de trabalho. O outro aposta no barateamento da contratação e na negociação direta para ampliar o emprego formal.
Na entrevista ao Valor Econômico, Nobre levanta hipóteses mais graves para um eventual governo Flávio: a troca de alinhamento aos Estados Unidos por investimento externo, uma crise fiscal se a troca falhar e o risco de fechar o regime por dentro, com controle do Supremo, nos moldes da Turquia de Erdogan (Felício, 2026). São projeções. O plano fala em atrair capital estrangeiro para minerais críticos e em buscar soluções diplomáticas contra sanções americanas (Bolsonaro, 2026, p. 54-55). Vista de baixo, a hipótese muda de feição. Investimento estrangeiro direto não se converte automaticamente em recursos para aposentadorias, assistência ou SUS. Sua contribuição à capacidade fiscal depende do crescimento que gerar e de como for tributado. Quando o orçamento aperta, a disputa recai sobre previdência, assistência e pisos de saúde e educação. Para quem trabalha, a democracia existe também na Justiça do Trabalho, na fiscalização da jornada e no INSS, e é ali que um eventual fechamento institucional tenderia a ser sentido.
A esquerda enfrenta um problema de prazo e outro de enraizamento. Nobre vê o PT sem um programa que ultrapasse os treze anos de governo encerrados em 2016 e considera uma esquerda digital uma construção de médio e longo prazo (Felício, 2026). O diagnóstico de prazo é correto, mas o problema não se resume à comunicação. A força histórica da esquerda veio de locais de trabalho, sindicatos, comunidades de base e movimentos por moradia e terra, onde interesses eram discutidos em conjunto. Essa infraestrutura perdeu densidade num processo longo, em que pesaram, entre outros fatores, a desindustrialização, a expansão do trabalho por conta própria e o fim da contribuição sindical obrigatória em 2017 (Brasil, 2017). O debate sobre a escala 6×1 indica o caminho inverso. A reivindicação ganhou as redes e chegou ao Congresso porque nomeava uma experiência comum no comércio e nos serviços. A circulação digital funcionou porque tinha o que fazer circular.
A classe não aparece pronta nas urnas. Entre quem vive do trabalho estão a empregada doméstica com carteira e a diarista sem ela, o motorista de aplicativo que se vê como empreendedor, o servidor público, o pequeno comerciante registrado como microempreendedor, e o jovem que alterna bicos e cursos. Cada um mantém com o Estado uma relação diferente. Para um, o Estado é o INSS que demora. Para outro, é o fiscal que multa. Para a mãe inscrita no Cadastro Único, é também o benefício que pode ser bloqueado. Divisões de gênero, raça, religião e território atravessam essas posições. Tratar como engano o voto de quem depende da proteção pública e escolhe um projeto que propõe redefini-la é recusar-se a entender a escolha. Uma eleição registra apenas um momento do processo em que as classes se fazem, nos conflitos e no modo como cada um os interpreta.
O que me parece decisivo é o modo como a experiência forma critérios de justiça. Reciprocidade, mérito, dignidade e proteção são noções partilhadas por eleitores dos dois lados e mobilizadas para fins opostos. “Quem trabalha merece” pode justificar a defesa do salário mínimo ou a suspeita contra o beneficiário. “Não quero esmola” pode expressar orgulho ou recusa do Estado. Esses critérios não nascem na campanha. Formam-se ao longo de gerações, na carteira assinada que dava acesso a direitos e deixava de fora rurais e domésticas, nas greves que arrancaram reajustes, nas filas que ensinaram que o direito escrito nem sempre chega. Quando direitos são apresentados como presentes de governo, viram moeda de lealdade e ficam expostos ao governo seguinte. Quando são entendidos como resultado de lutas, leis e decisões institucionais, passam a integrar o que uma sociedade considera devido. A extrema direita opera na distância entre a promessa e o balcão.
O segundo turno decide quem governa a partir de 2027. O destino dos direitos sociais depende de mais coisas: das relações de força no Congresso e nos tribunais, da capacidade de organização de quem trabalha, dos conflitos sobre quem paga impostos e quem recebe serviços. Um partido nascido nas redes pode transferir intenções de voto de um nome para outro em poucos meses. Nenhuma organização produz nesse ritmo a convicção coletiva de que algo é devido a alguém por direito. Essa convicção levou décadas para se formar, em greves, assembleias, processos trabalhistas e filas, passou por derrotas e divisões, e pode levar menos tempo para se desfazer. Uma democracia dura enquanto quem vive do trabalho reconhece nela o lugar onde suas perdas podem ser contestadas e suas conquistas defendidas. Esse reconhecimento não se transfere de um perfil para outro. Forma-se devagar, na experiência repetida de lutar junto com outros e, às vezes, ganhar.
Erik Chiconelli Gomes é doutor em História Econômica pela USP. Pós-doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito (FDUSP) e em Economia (IE/Unicamp). Coordenador Acadêmico da Escola Superior de Advocacia da OAB/SP.
Referências
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BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) vão disputar o 2º turno para a Presidência da República. Portal TSE, Brasília, DF, 5 out. 2026b. Disponível em: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/flavio-bolsonaro-e-lula-vao-disputar-o-2o-turno-para-a-presidencia-da-republica. Acesso em: 9 out. 2026.
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FELÍCIO, César. Para Marcos Nobre, Flávio tentará ‘submissão negociada’ aos EUA. Valor Econômico, São Paulo, 9 out. 2026. Política. Disponível em: https://valor.globo.com/politica/noticia/2026/10/09/para-marcos-nobre-flavio-tentara-submissao-negociada-aos-eua.ghtml. Acesso em: 9 out. 2026.
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