Apenas reagir ou inventar o Brasil que nós queremos?

Povo brasileiro

Apenas reagir ou inventar o Brasil que nós queremos?

por Leonardo Lusitano
2 de novembro de 2019
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Existem milhões de pessoas que votaram branco, nulo ou nem votaram. Juntas são mais de quarenta milhões. Sem contar jovens que ainda não votam. São pessoas que não estão envenenadas com o bolsonarismo mas não acreditam em nenhuma outra alternativa. É com elas que podemos criar uma cidadania que inclua a toda nossa gente.

O governo Bolsonaro combina elementos de uma sociedade disciplinar com técnicas neoliberais de uma sociedade de controle. Porém, não estamos relegados a uma distopia. Para Darcy Ribeiro, o povo brasileiro também pode inventar uma linha de força diversa, criadora. Inventar o Brasil que nós queremos. Com o reforço luminoso de Guimarães Rosa, nos perguntamos: como destravar uma imaginação social que acione essas linhas criativas, linhas que podem fazer de nós uma gente que não só reage contra a barbárie mas se abre ao futuro?

É pau, é pedra, é projeto future-se, é reforma da previdência, é reforma tributária; são os aplausos diante da morte, os fazendeiros e grileiros incendiando a Amazônia amparados pelas palavras do presidente, a incompetência diante do vazamento de óleo no Nordeste. Nas últimas eleições presidenciais, cinquenta e sete milhões de pessoas votaram a favor do medo, do individualismo, da ignorância e do ressentimento- combinando de maneiras diferentes esses elementos. Enquanto o segundo lugar obteve quarenta e sete milhões de votos, as abstenções chegaram a trinta e um milhões. Com quem tentar conversar? Bolsonaristas convictos? Abstêmios?

Nos últimos meses, escutamos muitos relatos como os de uma professora da rede municipal do Rio de Janeiro, que tentou conversar com bolsonaristas mais moderados desde o vira voto das eleições até o mês de maio desse ano.

Quando compartilhavam ou repetiam pessoalmente notícias falsas ou opiniões que atacam os próprios trabalhadores, a educadora buscava falar de como essas opiniões detonam os consensos científicos, a educação como um campo e até a Constituição Federal- e mesmo muitas leis. Argumentava esclarecendo esses marcos civilizatórios, tentando saber o que a pessoa conhece deles e mostrando que violá-los não poderia trazer uma boa mudança. Mudar par ampliá-los, sim.

De acordo com os relatos, as reações incrivelmente foram as mesmas: lançavam uma falácia. Quando ela era exposta a fatos e argumentos que a tornavam insustentável, perguntavam onde o socialismo deu certo. Quando a colega lembrava que estavam falando de consensos em uma democracia liberal, vinha a última cartada: o discurso do humilde que está sendo atacado pela professora arrogante. Dezenas de conversas com essa mesma sequência!

Essa professora concluiu que aquela aparente moderação era fruto de um esforço por uma polidez, talvez por saberem que a interlocutora tem formação e não escorrega em opinologia. Acontece que durante as conversas, essa polidez foi se desmanchando e mostrando pessoas individualistas e muito ressentidas por não terem alguns direitos, como o acesso à universidade pública. Se sentem tendo sua revanche.

Culpa do sol

Exemplos como esse se repetem diariamente. Circulou nas redes a fala de um bolsonarista que, diante dos incêndios na Amazônia, parabeniza o presidente por chamar a atenção para a temática ambiental. Vai ver é por isso que as ações do governo no combate ao desemprego e contra a violência são inócuas; para mostrar ao povo a importância do emprego e da segurança. Também devem ter cortado verbas de educação para mostrar como estudar é fundamental. É o bolsonarismo criando uma pedagogia transversal. Não vale a penas gastar tempo discutindo com quem foi afetado por essa peste chamada ressentimento. Cansa, adoece e não tem efeito algum. Como diz Chico Buarque em Caravanas, ressoando Marcel Camus: A culpa deve ser do sol que bate na moleira. O sol que estoura as veias. O suor que embaça os olhos e a razão.

Existem milhões de pessoas que votaram branco, nulo ou nem votaram. Juntas são mais de quarenta milhões. Sem contar jovens que ainda não votam. São pessoas que não estão envenenadas com o bolsonarismo mas não acreditam em nenhuma outra alternativa. É com elas que podemos criar uma cidadania que inclua a toda nossa gente. Estamos abertos a pensar, criar, propor ou apenas a apontar o óbvio sobre toscos e raivosos? Quais são nossas propostas? Como sensibilizar as pessoas que estão perdidas e se sentindo sozinhas?

Para Ernst Bloch, em O princípio esperança, os seres humanos de forma alguma sonham apenas à noite. Também o dia possui bordas crepusculares, também ali os desejos encontram corpos. Diferentemente do sonho noturno, de dia podemos delirar mas também transformar nossos sonhos numa prática. Nessa obra, Bloch fala da alegria das crianças em casa, quando alguém toca a campainha. Nesse momento a vida fica em estado de espera, de surpresa, de desejo pelo novo, ainda aberto, que o futuro nos lança. Como fazer para que milhões de desalentados sintam com a política a alegria do tocar de uma surpreendente campainha?

Darcy Ribeiro

Se você, caro leitor ou leitora chegou até aqui e ouviu o tocar dessa campainha, quem abre a porta é o professor Darcy Ribeiro. Em O Processo Civilizatório, Darcy responsabiliza as classes dominantes por todas as experiências fracassadas de um Brasil mais justo. Em um programa de tv de 1988, um jornalista pergunta que processo diabólico se passa com nossa sociedade para que não force essas classes dominantes a terem um comportamento diferente, assim como outros povos conseguiram fazer com suas classes dominantes. Para Darcy, nosso país é enfermo de brutalidade, de desigualdade e de perversidade. Uma nação em que a classe dominante é de descendentes de senhores de escravos leva na alma o pendor, o calejamento do senhor de escravos.

Esse senhor é aquele que compra um homem e tira dele, com um chicote, a renda que esse homem pode dar. Enquanto o escravo estava condenado a lutar por sua liberdade, o senhor de escravo estava condicionado a usar o escravo como carvão que se queima para a produção, para ter mais lucro. Uma classe dominante de senhores de escravos é marcada por essa “natureza”. De acordo com Darcy, essa classe representou historicamente interesses de ingleses, depois de norte-americanos, formando um corpo não de proprietários, mas de gerentes, senhores que representam capital estrangeiro.

Portanto, esse conjunto, em que o setor predominante está no exterior, seria uma classe dominante pervertida. Como no exemplo da questão fundiária. O professor conclui que o Brasil continua optando por formas de organização que não atendem a necessidade do povo.

Torcedores brasileiros desapontados (Crédito Agência Brasil)
Crédito: Agência Brasil

Para Darcy, seria preciso fazer coisas mínimas, elementares, sem necessidade de nenhum capital estrangeiro. Pequenas utopias que fariam o Brasil florescer como civilização. Por exemplo, reordenar a economia de modo em que o fundamental não seja lucro de grandes empresas e sim o pleno emprego. Para o professor, o desemprego seria um dos fatores para o aumento da criminalidade. A segunda pequena utopia: que todo mundo coma. Políticas que reorientem a economia agrícola, tirando o centro do que apenas dá lucros, como a soja, para também plantar o que o povo come-garantindo fartura alimentar. E terceiro, escola pública honesta, com um dia completo de estudo, alimentação, saúde, esportes, arte, salas de leitura e gestão democrática.

O governo que tome essas pequenas utopias como programa não será compatível com o lucro abusivo dos banqueiros. Lucrativo para nós seria empregar e integrar a maior parte dos brasileiros.

Para Darcy, quando se diz que a maior parte da população não está plenamente integrada e por isso seria marginal, significa que os marginais são aquela minoria que vive sugando o povo no mercado, nas multinacionais e, muitas vezes, no Estado através de uma religião privatista. O professor é bastante claro nessa entrevista: há um pendor colonial em privatizar e acabar com a estabilidade do emprego, que seria oferecido em sua maioria não por grandes empresas mas por pequenos empresários. Assim grandes empresas caberiam no país mas não poderiam dar a pauta do Brasil. O país precisaria se organizar para que o povo trabalhe, coma e se eduque. Apesar de um classe dominante azeda, temos o melhor lugar para se fazer um país.

Talvez seja importante nos perguntarmos: como alcançar essas pequenas utopias? Apenas reagindo aos cultuadores da ignorância que estão em alta, deixando que eles digam no cotidiano contra quais assuntos devemos ter raiva e nos mobilizar? Permitindo que nos condenem sempre a denunciar a próxima barbárie, resistindo em círculos- até o adoecimento de nossos corpos e espíritos- contra a ignorância, a violência, o individualismo e uma consequente vontade de poder? Ou inventando, como propunha Darcy, o Brasil que nós queremos?

Povo brasileiro

Em O Povo Brasileiro, o professor mostra que surgimos da confluência, do entrechoque e do caldeamento do invasor português com indígenas e com negros africanos, uns e outros escravizados. Nessa confluência, regida pelos portugueses, matrizes raciais díspares, tradições culturais e formações sociais distintas se enfrentam e se fundem para dar lugar a um povo novo. Novo porque surge como uma etnia nacional, dinamizada por uma cultura sincrética, diferente de suas matrizes formadoras. Povo novo também por sua organização sócio-econômica, fundada tanto pelo escravismo como, paradoxalmente, pela vontade de conhecimento dos portugueses combinada com uma espantosa vontade de beleza indígena e uma vontade de alegria dos negros africanos. Com aquelas pequenas utopias, é esse povo novo, diverso, que compõe uma etnia nacional, um povo-nação, combinando as vontades que vibram virtualmente em suas matrizes formadoras. Seria preciso então extrair do virtual para nossos corpos, nossas vidas, essas vontades, que na leitura de Darcy Ribeiro, seriam nossa potência como povo.

Para não deixar dúvidas de que não falamos de algo vago, genérico, essas vontades de um povo novo podem vibrar na política, assim como na arte. Podemos ver nas pequenas utopias do professor Darcy Ribeiro uma vontade de conhecimento. Já a vontade de beleza possivelmente não caminha separada de uma vontade de alegria. Para o filósofo Spinoza, quando nos encontramos com algo que aumenta nossa potência de ser a agir no mundo, somos afetados pela alegria. Assim, a beleza seria uma das maneiras mais fortes de sensibilizar nossos corpos, aumentando nossa alegria. A arte é onde se cria essas sensações, sempre novas, consistentes e afirmativas.

Através desse olhar artístico, João Guimarães Rosa pensou num povo brasileiro feito de alegria e beleza. São os sertanejos( onde se combinam portugueses, negros, indígenas e suas vontades) presentes em obras como Sagarana, Corpo de Baile, Primeiras Estórias e Grande Sertão: Veredas. Aqui bichos, plantas e gentes não possuem hierarquia, são vozes da terra, forças da natureza e sua capacidade de criar vida- capacidade tão odiada pelos perversos e ressentidos que nos assustam no Brasil de 2019.

Como o homem não está num topo hierárquico, ele nem mesmo consegue na obra de Rosa ser um sujeito, indivíduo. A obra de Rosa funciona com uma micropolítica onde a forma de se criar sujeitos não é individual mas sim coletiva. Isso faz com que esse povo sertanejo das estórias, Matraga, Manuelzão, Miguilim, Riobaldo, Diadorim, seja um coletivo de vozes. Ao ponto da própria figura do autor ficar em xeque. Rosa não escreve em primeira pessoa. Dá voz a essas vozes, que são virtuais mais tem uma existência. Quem é que mais existe, que tem mais vida? Riobaldo e Diadorim ou Jair Messias, Sérgio Moro e Weintraub? Nas vozes se sertanejos como o velho Riobaldo, que no Grande Sertão:Veredas narra lutas e amores, se pode escutar que sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. A força de pensar em vez de opinar e odiar nos torna mais fortes do que o poder desse lugar onde vivemos atualmente, entre muitos opinadores e odiadores. E essa força do pensamento racha com qualquer individualismo. Nos faz povo, coletivo. Muitas vozes inseparáveis da natureza, voltadas para o conhecimento, para a alegria e para a beleza. Misturados com essas vozes não estamos sozinhos.

Leonardo Lusitano é graduado em História pela UFF, mestre em Poética pela UFRJ, doutorando em Filosofia pela UERJ e atua na rede pública de Itaboraí lecionando história no ensino fundamental.



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