Arte e cultura como formas de nos tornamos quem somos

Nossa humanidade

Arte e cultura como formas de nos tornamos quem somos

por Benjamim Taubkin e Júlia Tygel
15 de setembro de 2020
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O que chamamos de “cultura” e, muito especialmente, “arte” – termos um tanto misturados em nossos tempos – parece ser apenas uma das áreas da experiência humana. Mas talvez seja aquela que nos torna mais o que somos. É o território onde podemos nos ver, refletir e elaborar sentimentos, emoções, imagens, percepções

Todas as culturas que conhecemos ao longo da história tiveram, de alguma forma, uma elaboração profunda desse universo. Seja por sua estreita ligação com a ideia do divino, seja na vivência de rituais, seja na busca do sentido de estarmos aqui – as eternas perguntas: quem sou, de onde venho e para onde vou?

A arte sempre foi o campo onde vamos buscar refinar o que temos como interrogação e princípios de resposta. É também, em qualquer tempo, o lugar da investigação sobre a nossa natureza mais abstrata – seja nas expressões artísticas que se integram a outras atividades da vida, como ocorre nas sociedades tradicionais, seja na arte entendida como um fim em si mesma.

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Em muitas tradições africanas, o canto sempre esteve ligado à história. O griot, designado para esta função, é quem guardava os importantes acontecimentos vividos ao longo dos tempos por aquele povo. Em certas populações indígenas do México, as viagens alucinógenas são descritas por meio de desenhos, muitas vezes bastante elaborados. Seria possível seguir relatando centenas, provavelmente milhares de experiências semelhantes, nas quais o papel da arte é vital para a integralidade da compreensão sobre a realidade.

O século XX viu o surgimento dos meios que possibilitam à arte ser mercantilizada em larga escala e com progressiva avidez. O surgimento do disco, da rádio e da televisão, além do cinema, bem como a adesão massiva do público a esses veículos, fez com que indivíduos e corporações totalmente desconectados da produção artística tomassem as rédeas do que viria a ser a indústria cultural. Sem levar em conta o papel fundamental que a vivência criativa tem para a saúde mental de todo um povo, e do que a aventura da criação – com todos os seus estágios e processos – representa na jornada humana, a indústria cultural passou a mirar apenas o lucro instantâneo, abandonando todas as outras instâncias – todas elas mais significativas.

Isso acabou por gerar um enorme empobrecimento da vida, coletiva e individual. Muitos psicólogos e pensadores – como Abraham Maslow e Dane Rudyar – se dedicaram a categorizar as necessidades e expressões do ser humano, estabelecendo uma espécie de hierarquia.  Assim, temos as funções mais básicas como alimentação, moradia e segurança que, uma vez satisfeitas, nos levam às outras instâncias: busca de sentido na vida, de propósito e de experiências com a criação.  Até a um olhar mais universal e inclusivo. Transcultural. Transpessoal.

O que estamos vivendo neste difícil momento é um ataque à concepção mais ampla e rica daquilo que significa estar vivo e convivendo em uma sociedade – habitando temporariamente um planeta com as inúmeras possibilidades que nossa presença acarreta. Parece que a representação e corporificação do mais baixo nível de consciência possível ao ser humano está, neste momento, no comando de governos e corporações. Impedida de avançar por conta própria e talvez confortavelmente instalada no mais básico e primário estágio, busca limitar o acesso de outros a níveis mais amplos e criativos da experiência e do pensamento, vendo cada iniciativa como uma ameaça à sua condição. Isso explica o ataque a tudo que possa representar a inteligência, como a ciência e as artes. O destino do ser para eles é apenas trabalhar, reproduzir e nada mais. Trabalho sem significado, sem afeto, sem valor social. Uma massa disforme.

Por outro lado, é importante registrar que aconteceram muitos avanços na mente coletiva dos últimos 100 anos: o surgimento da psicologia, a perda da influência das religiões mais dogmáticas (até o recente aparecimento das correntes evangélicas), o contato com filosofias de todo o mundo no ocidente e oriente… além das correntes de desenvolvimento na educação, sociologia, antropologia e outros campos.

Assim, o que assistimos é a gradativa separação de dois caminhos, que vão se apartando até quase perderem o contato para além da mera presença física em um mesmo espaço, mas pouco ou nenhum diálogo. Que perspectivas poderemos imaginar para estes tempos que se aproximam?

Talvez tenhamos que buscar nas experiências de civilizações do passado algumas referências para nossas ações, adaptando-as aos nossos tempos e necessidades. A ideia de arte como commodity, ou seja, como produto de mercado, chegou ao seu limite. Será difícil seguir construindo trabalhos com algum conteúdo significativo a partir dessa perspectiva. Ou a arte volta a ter seu papel do conexão com instâncias mais sutis e profundas na vida de cada um, ou seremos conduzidos ao abismo coletivo… dançando tragicamente e sacudindo o esqueleto sem saber por que. Além de balançar o esqueleto, temos que fazer dançar a alma e o espírito.

Claro que há momentos para cada dimensão. Como há, por exemplo, na alimentação, ou em qualquer outra área. Mas não dá pra se ter uma vida saudável comendo apenas balas de goma – que é o que em grande parte se oferece na indústria cultural hoje, 24 horas por dia.

A indústria da música passou por distintos estágios em seu percurso no século XX. Primeiro registrou e industrializou a criação que acontecia em cada momento – tanto popular quanto erudita. E pouco a pouco foi se apropriando do próprio universo da produção artística, eliminando passo a passo o conteúdo criativo e substituindo-o por arremedos de criação – até eliminar por completo a alma de cada projeto.

O ofício a que se dedica o criador, com a busca da excelência técnica, criativa, de linguagem – seja dentro de uma corrente artística ou cultural, ou na contracorrente – deixou de ter qualquer importância neste processo. Passou a ser algo excêntrico… sem importância prática. Mas, como dizia o poeta Manoel de Barros, tudo aquilo que é inútil interessa à poesia.

É voz corrente hoje, especialmente em certos grupos de criadores, que não interessa ao povo criações com conteúdos mais densos, e que o que se apresenta por aí é o que as pessoas querem consumir. Mas parece que escapa a toda essa gente o fato de que todos os espaços de difusão – rádios, TVs , redes sociais, cinemas – são comprados. A música que toca na rádio pagou por isso. E pagou caro. Da mesma forma, um blockbuster jogou pesado para ter 80% das salas de uma cidade como São Paulo na sua estreia. Não há nisso a tal da liberdade, tão falsamente apregoada.

Esse contexto acarreta a enorme dificuldade que os artistas independentes encontram para se sustentar (em sentido figurado e literal): a concorrência com os produtos do mercado é simplesmente desleal. E se, por um lado, a horizontalização dos meios de produção permitiu que os artistas não mais dependam de grandes corporações para lançar seus trabalhos (hoje em dia um músico pode produzir um CD em um pequeno estúdio, muitas vezes em casa, e lançar na internet), por outro, ela os sobrecarregou com funções executivas que desviam o foco de própria criação. O músico de hoje é responsável não apenas por produzir o conteúdo artístico de seu trabalho, mas também por divulgá-lo, criando constantemente peças quase publicitárias para promovê-lo nas redes sociais, além de trazer público para suas apresentações – tudo isso, muitas vezes, toma mais tempo que o próprio tempo da criação artística. Daí a importância da existência de políticas públicas voltadas a artistas e projetos que não se inserem na lógica do mercado e não possuem meios para transpô-lo – sem falar nas políticas públicas que permitam a fruição universal desses conteúdos, sem entender o público como massa consumidora em potencial.

Este mundo/pesadelo com o qual nos defrontamos hoje foi sendo construído, ou desconstruído, às custas daquilo que nos faz humanos. Do respeito ao outro e à diferença. Da compreensão mais integral. Do silêncio. Da contemplação. Da paciência. Da calma. Do risco. Da coragem. Da individualidade. E da participação coletiva. Todos esses são valores que procuramos desenvolver na arte. Assim, plantar uma ideia de futuro é, sem dúvida, investir na criação. Na criação pura, sem adaptações de qualquer natureza. Pois o que nos faltou, em todos esses tempos, foi saber ouvir o coração. Não uma emoção derramada, artificial… mas sim um olhar inclusivo, que busca aprender com cada experiência. Que compreende que nada é de ninguém. E que a vida é breve… dure 50 ou 100 anos. Ainda assim, é um sopro.

O que temos experimentado nestes dias de pandemia são pequenos exercícios de construção desse imaginário. E aqui menciono dois projetos voltados à área da música nos quais estamos envolvidos: um é o Conexão Música, uma iniciativa de profissionais e apoiadores da área que criaram uma plataforma de transferência de renda. Simples assim: quem pode, contribui com o que tem disponível, ou que lhe pareça justo, e quem está em uma situação emergencial se inscreve como beneficiário.

O outro é o A Nossa Música, um projeto de encomenda de músicas que surgiu como alternativa de trabalho para músicos e interação dos artistas com o público. As pessoas enviam um mote, ou seja, uma ideia inicial para uma composição, e recebem uma música feita especialmente para elas (canção ou música instrumental), com dois músicos tocando em um vídeo “ao vivo”, cada um na sua casa. Esse projeto envolve cerca de trinta artistas, em maioria nomes expressivos de uma nova geração, tanto de São Paulo como de outros estados brasileiros. A ideia foi inspirada no projeto Versinhos de Bem-Querer, que também surgiu na pandemia, que entrega por encomenda versinhos cantados pelas bordadeiras de verso do Vale do Jequitinhonha. O projeto tem promovido novos encontros entre os artistas e gerado músicas lindas. Parte da renda destina-se ainda ao Conexão Música.

A parte mais bonita desse projeto, contudo, vai muito além da música, e tem a ver com os afetos que acontecem em todo o processo: em geral, as músicas são presentes para entes queridos (par romântico, pais, filhos, amigos) e os pedidos vêm carregados de sentimentos como amor, cumplicidade, votos de esperança e felicidade. Por mais que cada música tenha detalhes específicos e pessoais, essas relações e sentimentos são universais, e provocam conexões profundas dos artistas com os pedidos. Depois, as reações das pessoas ao receberem as músicas feitas a partir das suas ideias são emocionantes. Recentemente, por exemplo, uma criança nasceu ao som da música que a mãe encomendou para sua chegada. Uma família de mudança para o exterior levou consigo uma canção como memória. Muitos aniversariantes receberam canções pessoais de presente – inclusive, muitas crianças! Declarações de amor foram feitas de forma musical. Fizemos até uma música para presentear o povo Paiter Suruí (hoje lamentavelmente afetado pelo vírus, como tantos outros povos indígenas). Recebemos também alguns motes de cunho crítico, com questões relevantes para todos nós, como o racismo – que resultou em uma música em homenagem à Mirtes e ao Miguel.

Tanto o Conexão Música como o A Nossa Música têm como premissa a solidariedade, a colaboração, a empatia, o amor – sentimentos que sustentam a nossa vivência saudável em sociedade e que são transmitidos, fio a fio, pela trama da nossa cultura. São projetos que resgatam valores intrínsecos ao fazer artístico desvinculado das leis de mercado, com uma práxis sustentável na realidade em que vivemos. São pequenas iniciativas, é claro. Mas é apenas pela soma de pequenas ações que podemos transformar, pouco a pouco, o contexto maior.

Não voltaremos a viver a vida que conhecíamos antes da pandemia. Não da mesma forma, nem com os mesmos acordos sociais. Algo está se transformando. Não há espaço para as mesmas perguntas, que já não fazem sentido. Teremos de formular novas questões. E a arte – quando genuína – lida com o risco, o desafio, a busca. Caberá a ela um importante papel na construção de novos modelos, novas realidades. O desafio é imenso, histórico.

Existe algo infinitamente maior e mais importante que o mercado. Que é a vida. E que é tudo o que significa – estarmos despertos e conscientes neste pequeno planeta. Redondo, circular.

Júlia Tygel, assessora artística da OSESP e idealizadora do projeto A Nossa Música.

Benjamim Taubkin, pianista, compositor, produtor musical, idealizador do Conexão Música – Fundo Emergencial e curador do projeto A Nossa Música.



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