“As dores delas”, de Ana Raja
Abordando o luto paterno, Ana Raja constrói romance a partir da divisão de cinco irmãs por dois casamentos do patriarca e os traumas gerados por suas decisões
“Estou sozinha neste adeus. O espaço ao meu lado é o abismo que sempre me acompanhou. Nele caberiam as outras irmãs”
Se trata do trauma geracional, termo – para não dizer subgênero no campo da literatura – que vem ganhando contornos mais amplos nos últimos anos, inserindo o núcleo familiar na dinâmica disfuncional em que normalmente o narrador/a se encontra no impasse gerado pelos lastros ou do pai ou da mãe em sua grande maioria, tendo, como resultado, uma jornada autorreflexiva em busca do apaziguamento psíquico. No livro de Ana Raja, encontramos o abuso do “pai de minha mãe sobre ela”, com a tentativa de indiferença da “mãe de minha mãe” e suas “outras irmãs”. O círculo, portanto, é fechado no momento em que tenta ser apresentado ao leitor o sentimento de periculosidade de ambos os sexos, o que torna a narrativa menos essencialista em uma perspectiva do campo dos estudos de gênero: há algozes em variadas situações, com suas particularidades e ressalvas: o avô inflexível que anula o desejo do pai de Laura, encaminhando-o para a ambivalência, além da primeira família do patriarca, com suas próprias amarguras e passados que são aos poucos descritos e desenvolvidos ao longo das páginas, com ênfase na primeira mulher e em algumas de suas filhas (Ana e Verônica).

Contudo, ainda no tópico do modo de narrar dentro da literatura brasileira contemporânea, são encontrados lugares comuns no desfecho ou nos diálogos dos personagens, o que não retira o mérito de “As dores delas”, muito pelo contrário; é através da regularidade colocada no recurso de certos capítulos que se origina o interesse pela obra da autora. Os elementos estão ali: o registro do trauma que tenta ser (re)elaborado por Laura e suas duas famílias, a descrição dos ambientes, os diálogos e a quebra de expectativa em determinadas circunstâncias. Mas há algo de especial no trabalho ficcional do romance, sendo a boa condução lírica, poética da história: os pensamentos da personagem principal se realizam mediante a formação de imagens, metáforas, analogias, situações hipotéticas, garantindo o tom da fabulação e abstração nas temáticas escolhidas, isto é, o luto paterno, a memória, o abuso sexual e psicológico de mulheres e o drama familiar no geral.
A questão não é somente o uso dos temas, da montagem dos acontecimentos que, como visto na análise de Vigotski sobre Ivan Bunin no livro “Psicologia da arte” (1925), a ordenação das cenas na prosa arquiteta efeitos que caso mudassem de lugar, o receptor não conseguiria obter o sentimento proposto por seu criador: a tensão é exibida e alterada a partir da disposição dos eventos no enredo. Há uma distinção entre o acontecimento principal e aqueles que são desencadeados por ele. Indo mais a fundo no diálogo que aqui pretendo fazer de forma pincelada com Vigotski e sua análise sobre a prosa do escritor russo, é curioso notar sobre a digressão do romance conter suas potencialidades. Para o autor, o uso da narrativa que não obedece necessariamente uma ordem cronológica dos fatos pode fortalecer a história, desde que bem utilizada. Diante disso, “As dores delas” é o material quase que perfeito para se discutir a respeito.
O romance de Ana Raja vem em formato quase que igual de uma carta, só que ela obedece ao ritmo singular do fluxo de pensamentos de Laura: um objeto leva à lembrança, que leva a outra, que desencadeia inúmeros atos e imagens. Porém, Raja ainda é metódica na organização dos capítulos, em particular com epígrafes de falas do pai, como se ele estivesse comentando diretamente com suas filhas e nós, leitores.
Enfatizo, também, o ponto chave, que ouso dizer ter sido um dos motivos da categoria de finalista do “Prêmio Candango de Literatura” de 2025 e o mérito da obra da escritora: a difícil tarefa de não transformar a voz narrativa como expositiva e professoral, comprometendo o desenvolvimento psicológico das personagens, incluindo Laura, a narradora. Essa última tem um destaque interessante a ser pontuado: a metalinguagem é colocada em determinadas circunstâncias, trechos do livro, em particular ao mencionar sobre “o lirismo desse livro”, ainda nos primeiros capítulos. É alguém que tanto sabe, mas também se movimenta no oculto, tentando revelar o que o homem que a concebeu guardou. Ela é a observadora que tenta se fazer presente na vida das irmãs, mas que a cada esforço, um conflito se instaura, mesmo naquelas mais afeitas à sua presença, vide Ana. Laura administra o caos, mantendo resiliência, mas ao mesmo tempo agonia ao perceber que a qualquer momento o imprevisível chegará. A vida, assim sendo.
Nos romances contemporâneos, colocando em média um distanciamento de uma década em diante, a tendência da construção do narrador – para não mencionar personagens no geral – é de informar o leitor e seu público, tal qual uma fábula, chamando diretamente sua “plateia” para a solução das intempéries da sociedade, seja qual for o caráter da denúncia social. Nesse caso, a escritora ganha amadurecimento, não caindo na prepotência do artista que insiste em dizer o que está errado e o que deve ser consertado “tim-tim por tim-tim”. É de fácil entendimento que todo objeto estético carrega um teor racional e orientado, isto é, ele é introduzido para determinada função, e nela caberá a representação e desenvolvimento de seus elementos constitutivos. O luto paterno é introduzido, trabalhado e absorvido através da tese do que poderia ser interpretado como conservadorismo, misoginia ou distanciamento emocional, apesar da figura do pai ser ainda presente, preocupada, um acalento para as irmãs de famílias diferentes e ocultadas. Só que é mais do que isso: a tese do luto está indicada de forma explícita no título do romance em questão, ou seja, “As dores delas”. É sobre os rastros de memórias não elaborados, mal resolvidos, sustentando uma dinâmica não somente penosa para cada mulher, mas de toda uma família. O núcleo vai aos poucos se desmanchando pelo egoísmo e preocupação exacerbada do pai na função de patriarca. Em dado momento, o leitor, inclusive, poderá sentir repulsa, mas também compaixão, incluindo identificação pela humanidade desse indivíduo na narrativa, uma vez que a contradição é um dado universal, comum a todos os seres humanos; não somos caixinhas fechadas, sequer os personagens que tentamos criar, erro esse cometido a esmo na prosa contemporânea brasileira a depender dos procedimentos e compreensão por parte do autor/a sobre o que deseja anunciar a quem o lê.
Um dos pontos fortes, portanto, é a prudência em não tornar as irmãs, o pai, a mãe e os avôs/avós e tias um grande imbróglio de estereótipos, cumprindo uma mera função no sentido de ser didático ao tentar demonstrar os conflitos sociais e culturais que ainda permeiam a nossa sociedade. “As dores delas” chega como um respiro em meio ao tema do luto e seu desgaste sentido por uma parte da crítica e público, não devendo ser encarado como um alarde, mas uma pequena provocação nessa resenha crítica: esse gênero costuma ser matéria-prima encontrada no contexto da memória de uma criança interior ainda ferida, normalmente vinculada à personagem feminina com seus conflitos existenciais, marcado por um ritmo ora lento, ora frenético, o que não é um problema em si, me interessando muito, aliás, até como autora de ficção. O “respiro” que menciono é um diferencial e o questionamento de nós, autores/as não pensarmos com outros recursos um drama que, mesmo singular, acomete a todos nós em determinado momento de nossas vidas: o difícil processo interno do enlutado e das mazelas de ordem sociais depositadas em nossas costas.
Lorraine Ramos Assis é revisora e pesquisadora.

