As editoras independentes estão entregues ao capitalismo selvagem
Florencia Ferrari, diretora geral da Ubu, discute os desafios de manter uma casa editorial sustentável frente à concentração do mercado livreiro pela Amazon e às tensões políticas e sociais que marcaram a última década
Publicar livros no Brasil não é uma tarefa fácil. Desde 2024, o número de não leitores (53%) é maior do que o número de leitores (47%) no país, de acordo com dados levantados pela pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro. Se, por um lado, o dado reflete a forma como o tempo livre foi abduzido pelas redes sociais nos últimos anos, por outro, é fruto da ausência de políticas públicas de incentivo à leitura, desde programas de aquisição de livros por bibliotecas até a imposição do preço fixo, como é o caso da Lei Cortez, projeto que proíbe descontos superiores a 10% sobre o preço de capa nos primeiros 12 meses após o lançamento, para proteger a diversidade editorial e as livrarias contra a concorrência predatória dos grandes grupos de e-commerce, “que na verdade são os mesmos grupos da extrema direita” lembra Florencia Ferrari, diretora geral da Ubu.
A editora completa dez anos publicando obras que transitam entre o catálogo universitário e os clássicos, sempre atenta e ativa no debate contemporâneo. Cientista social e doutora em antropologia social pela USP, Florencia era diretora editorial da Cosac Naify quando a casa editorial fechou suas portas. Da experiência, levou para a Ubu – além da parceira Elaine Ramos, diretora de arte e sócia-fundadora da editora – “um modo de pensar a forma e o conteúdo juntas”. Apesar do mesmo apreço pelo cuidado editorial, Florencia destaca que o modelo financeiro da Ubu está muito longe do mecenato que financiava a editora onde trabalhava antes. Por isso teve que inventar formas diversas de viabilizar seu trabalho, como a publicação de edições especiais com preço mais elevado – “somos um pouco Robin Hood” – e a criação do clube de assinaturas Circuito Ubu.
“É uma equação que está baseada no fato de que construímos uma comunidade de leitores disposta a ler livros de diferentes áreas em volta da editora. Este é outro ponto que nos diferencia: o engajamento da editora no debate contemporâneo. Estamos na escuta das questões do mundo, buscando ferramentas críticas de autores e pesquisadores para fazer livros acessíveis”, afirma. Conversamos sobre os mecanismos que a editora adotou para se viabilizar, as dificuldades que enfrentou ao longo da pandemia e do governo Bolsonaro e as celebrações de seus dez anos, que acontecem entre os dias 26 e 29 de agosto na Biblioteca Mário de Andrade e na nova sede da Ubu na Galeria Metrópole.

Você chegou ao Brasil com 6 meses, filha de argentinos. Fez carreira acadêmica em antropologia e fundou a revista Sexta-Feira. Como essa história, desde a marca do deslocamento geográfico até o trabalho na antropologia social, te levou ao caminho dos livros?
Os livros sempre estiveram presentes na minha casa, em pouca quantidade, justamente porque quando eu era pequena meus pais deixaram suas bibliotecas na Argentina. Mas tive uma referência de casa com leitores, com biblioteca, com pessoas em silêncio lendo. Essa tendência constitui a infância, no sentido do valor que você atribui àquele momento. Constitui valores que estão escondidos mas fazem parte da sua ética, dos seus interesses, e te dão as bases para fazer escolhas e construir seu caminho.
Minha entrada no mercado editorial foi através da minha mãe, que tinha uma editora onde trabalhei aos 19 anos fazendo fascículos para o Estadão e guias de leituras para livros de vestibular. Logo depois, fundei com um grupo de amigos da graduação e da pós-graduação em antropologia da USP a Sexta-Feira, uma revista dentro da academia que queria fazer uma publicação não acadêmica, que não reproduzisse só textos de pesquisas para quem está estudando mas fazer pontes. Entrevistar antropólogos, mas também gente do teatro, do cinema e da literatura. Tínhamos ensaios e até uma seção para receitas etnográficas, que contava o contexto do prato. Aquilo foi uma escola editorial pra mim.
Continuei a minha carreira acadêmica e quando terminei o mestrado meu currículo caiu nas mãos do Heitor Ferraz, que o passou para Augusto Massi que me deu o trabalho de editar o livro A Inconstância da Alma Selvagem, do Eduardo Viveiros de Castro, com quem eu tinha trabalhado. Esse foi meu primeiro trabalho editorial, que levou à minha contratação como assistente editorial na Cosac Naify, enquanto estava no doutorado. Foram treze anos que a editora cresceu muito e teve que se estruturar. Eu fui uma das pessoas que estava na sua coordenação criando processos que ajudassem a estruturar a editora. Também abri uma linha editorial de antropologia cujos títulos depois vieram para a Ubu. Logo que a editora fechou, dentro de uma semana ocorreu a mim e a Elaine Ramos continuar esse trabalho.
O que desse período você levou pra Ubu e o que deixou pra trás?
Participar de um projeto de intervenção cultural no Brasil como a Cosac Naify foi um privilégio. Tínhamos muita autonomia lá dentro. A maneira Cosac de editar um livro era totalmente nova, em sua relação com o livro como objeto. Dávamos todo o cuidado editorial, não só de tradução e revisão, mas da experiência de leitura possível, com o melhor acabamento. Nenhum tipo de esforço era deixado de lado, portanto conseguimos resultados muito prazerosos, que nos enchiam de orgulho. Nossa proposta era mudar o patamar de publicação no Brasil.
Mas a Cosac estava dentro de um modelo financeiro de mecenato. Charles [Cosac] era um mecenas que tentou com bastante custo tornar a editora saudável, mas o ethos da editora era o mecenato. Tínhamos projetos que eram importantes culturalmente e que eram efetivados mesmo que a equação financeira não funcionasse. Essa é a grande diferença em relação à Ubu: na hora que abrimos a editora, a questão financeira apareceu no primeiro plano. Não existe nenhuma possibilidade da editora existir sem ser saudável financeiramente. Começamos com um empréstimo que permitiu acelerar o começo da editora, mas ela tinha dois anos para ficar de pé. Começamos em um coworking, alugando três mesas, e fomos crescendo organicamente. Enquanto não tínhamos um faturamento necessário, não crescemos o catálogo. Nunca contratamos milhares de títulos de uma vez.
Trouxemos da Cosac um modo de pensar a forma e o conteúdo juntas, que é a minha parceria com a Elaine que continua caracterizando a Ubu. Elaine lê os livros e pensa os projetos gráficos a partir do conteúdo. Mas trabalhamos com restrições financeiras, então temos que ser muito mais inventivos, dar uma volta a mais para encontrar uma solução viável para diferenciar o livro no mercado sem que a equação fuja do nosso controle. Ter uma gestão financeira saudável, lucrativa e com reserva – com pagamento de bônus para funcionários e com a possibilidade de fazer uma reforma no espaço – é uma riqueza que a própria editora gerou. Não somos herdeiras e o valor que a editora gerou foi pelo seu próprio trabalho.
Um dos motivos do fechamento da Cosac é justamente o trabalho editorial caprichado que custava caro às suas edições. Como a Ubu equilibra custo e venda? Vale a pena caprichar tanto?
A equação financeira é o primeiro ponto, ela não é negociável. A pergunta que fazemos é: como fazer este livro de modo sustentável? Às vezes, a resposta é na comunicação, no marketing. Começamos fazendo pré-vendas antes da impressão para conhecer o público que está disposto a pagar determinado valor e qual a demanda por tal livro a tal preço. Quando fizemos A origem das espécies, sabíamos que uma parte dos nossos leitores estaria disposta a pagar mais para ter um livro especial, de colecionador e que a gente pode cobrar mais por esse livro. Somos um pouco Robin Hood: fazemos essa edição exclusiva, a vendemos por um valor de colecionador e ela viabiliza a edição de mercado. Contratar um artista para fazer uma edição ilustrada de A origem das espécies faria com que a edição comercial ficasse muito cara. Mas se uma parte dessas vendas inclui uma gravura exclusiva por um valor maior, ela consegue pagar todo esse investimento inicial para a edição comercial continuar sozinha. É uma estratégia financeira de equalizar públicos que estão dispostos a pagar mais, para viabilizar o todo.
Também temos o Circuito Ubu que é nossa grande forma de viabilizar os livros, Posso dizer com todas as letras: não precisamos fazer nenhum livro comercial em que não acreditemos. Nós acreditamos que todos os livros que editamos têm um conteúdo importante. Não fazemos projetos só porque eles vendem, por isso mantemos uma coerência do catálogo. O clube de assinatura existe há sete anos e tem por volta de 2 mil assinantes há cinco anos. Publicamos 24 livros por ano, 12 vão para o circuito e deles imprimimos entre 4 e 5 mil exemplares, número muito alto para o mercado do livro hoje. Às vezes é um livro acadêmico difícil, um livro de filosofia ou de antropologia que temos conseguido imprimir em tiragens grandes por conta dos assinantes.
É uma equação que está baseada no fato de que construímos uma comunidade de leitores disposta a ler livros de diferentes áreas em volta da editora. Este é outro ponto que nos diferencia: o engajamento da editora no debate contemporâneo. Estamos na escuta das questões do mundo, buscando ferramentas críticas de autores e pesquisadores para fazer livros acessíveis. Um bom exemplo desse é o livro da Hanna Limulja, O desejo dos outros – Uma etnografia dos sonhos yanomami, uma tese que transformamos em livro pois era algo que acreditávamos ser muito interessante, entender como sonham os Yanomami e como isso ressoa em uma sociedade que está com dificuldade de sonhar seu próprio futuro. [Ouça episódio do Guilhotina sobre o livro com Hanna Limulja em https://diplomatique.org.br/guilhotina/guilhotina-214-hanna-limulja/]
O que mudou na cara da Ubu nos últimos anos? Que área do conhecimento ganhou mais espaço?
A questão do antirracismo teve um boom editorial e nós trabalhamos para continuar dando atenção a essa questão que é estrutural na sociedade, tentando investigá-la de outra maneira. Uma das coisas que nos interessa é promover diálogo entre as temáticas do catálogo. Colocar a psicanálise para conversar com as questões raciais e a tecnologia. Não deixá-las estancar.
Outra coisa é que claramente não vamos parar de falar de inteligência artificial e de tecnologia. Gostaríamos de dar ferramentas para as pessoas conseguirem imaginar outro futuro possível, por isso destacamos as narrativas quilombolas, indígenas e contracoloniais, que estão há milhares de anos se relacionando com o planeta de modos que identificamos como caminhos de uma utopia possível. Essa é uma linha editorial que seguimos, de imaginação do futuro.
Outra é oferecer ferramentas para lidar com o sofrimento psíquico. Nesse sentido, publicamos desde Winnicott – um autor inserido na nossa maneira de entender a sociedade, que dá ferramentas para o desenvolvimento emocional humano, para que a sociedade se desenvolva emocionalmente, sem pessoas infantiloides no poder – até nosso catálogo de psicanálise infantil, que parece totalmente desconectado da crítica ao capitalismo tardio, mas não está. Pensamos a vocação da editora nessa mediação da sociedade.
A editora nasce em um momento político conturbado, em 2016, e atravessa esses anos de extrema direita e de pandemia para chegar até hoje. Quais foram os momentos mais desafiadores para a Ubu nesses dez anos?
Os momentos desafiadores foram os que mais nos deram uma sensação de urgência e coesão, portanto os que nos trouxeram mais frutos. A pandemia foi, sem dúvida, um deles. Colocamos todos os nossos livros em e-book e no clube de assinaturas. Ali tivemos uma adesão absurda de assinantes e conseguimos construir essa comunidade que temos hoje. Usamos o espaço virtual, que a pandemia nos colocou como o único espaço possível, como um lugar para estar junto. Foi um momento ultra desafiador, economicamente, mentalmente, psiquicamente, mas que fortaleceu nossos vínculos com os leitores.
Outro foi a eleição do Bolsonaro. Eu que venho de uma família que teve que fazer as malas e sair correndo de um dia para o outro, literalmente, tive muito medo. Logo que ele foi eleito, minha mãe perguntou, “está todo mundo com passaporte válido?” Porque, sendo uma editora de esquerda, publicando livros anti-Bolsonaro, com o ar de violência que existia na rua, eu tinha a sensação de que poderia entrar alguém na editora e nos levar embora. É assim que funciona, você não vê a coisa até que ela acontece.
Lidar com esses medos fez com que a editora se fortalecesse em seu ethos, em seus valores e em seu posicionamento político. Somos uma editora independente que não responde a nenhum grupo de dinheiro. Nunca tivemos problemas para nos posicionar politicamente. Essa liberdade nos deu a sensação de que era possível fazer alguma coisa, sair desse lugar de impotência que estivemos durante o governo Bolsonaro. Foi terapêutico nesse sentido, ter uma base de atuação conjunta.
Por fim, questões financeiras: quando a Livraria Cultura quebrou, não pagou pelos livros; a Amazon pediu para aumentar o desconto para 57% e, quando negamos, as vendas caíram para 30% do que eram. Ter uma empresa no Brasil é uma coisa muito arriscada, você não tem proteção. São várias coisas que se tem que lidar no mercado editorial, porque é a categoria não é cuidada como na França ou na Argentina. Estamos entregues para o capitalismo selvagem.
As discussões do mercado editorial sempre envolvem uma série de fatores, articulando interesses de autores, editoras, livrarias, Amazon e leitores. O que precisa mudar para garantir a sustentabilidade do ambiente editorial e a bibliodiversidade?
Somos a favor da Lei Cortez, porque o preço fixo impõe limites aos grandes grupos de e-commerce, que na verdade são os mesmos grupos da extrema direita. A lei Cortez tem várias questões, vai além disso, mas estabelecer o preço fixo é uma maneira de garantir que as livrarias continuem existindo, que as editoras possam vender com preço cheio, sem ter que comparar com a Amazon.
Somos a favor de que o Estado cuide da leitura, já que o livro não é uma mercadoria, mas uma fonte de conhecimento. Todo tipo de incentivo à aquisição de livros por bibliotecas é relevante. Existem muitas políticas públicas possíveis, eu não sou especialista nisso. É o ovo e a galinha: os livros estão caros para muitas pessoas porque fazemos tiragens muito pequenas, o preço de capa fica altíssimo, então ninguém compra. Se a pessoa não tem o livro em casa, ela não cria um hábito de leitura. É um círculo vicioso que poderia virar um círculo virtuoso, se pensarmos em como uma coisa pode alimentar a outra.
Por que escolheram a Galeria Metrópole como nova casa da editora?
Estávamos procurando um espaço maior porque a revista Quatro cinco um, com quem dividíamos o espaço, virou também Feira do Livro e a editora Tinta da China e nós também crescemos. Quando pensamos em sair, decidimos que queríamos ter um showroom. Quando descobrimos a disponibilidade desse espaço no topo da Galeria Metrópole, resolvemos que valia a pena arriscar, ter um espaço maior, bem mais caro, mas que teria uma loja. O que não imaginávamos é que essa loja teria uma visitação orgânica absurda. Com ela, já pagamos a mudança, além de atrair gente que não conhece bem a editora e de poder promover eventos aqui.
A galeria é um polo de manifestações de vários tipos, de comércio, de cultura, de inovação e nós nos identificamos com isso. Além de estar no centro da cidade, um lugar super acessível. O centro é muito vivo, tem manifestações culturais de todo tipo. Criamos uma relação com o público que vem visitar a Metrópole e acaba fazendo parte da nossa comunidade. Nos mudamos em março e estamos tirando muito proveito de estar na galeria, fazendo parcerias. É um lugar de efervescência cultural e de troca, um grande coletivo do qual estamos dispostos a fazer parte.
O Festival Ubu 10 anos acontece agora no fim de agosto, na Biblioteca Mário de Andrade e na nova sede na galeria Metrópole. O que esse festival representa simbolicamente para vocês?
O festival é uma maneira de comemorar os 10 anos da Ubu e festejar com os nossos autores. O primeiro dia, quarta-feira, vai ser com o Malcolm Ferdinand, autor martinicano que já veio ao Brasil e tem uma relação próxima com a editora. A Françoise Vergès vinha, mas teve uma questão familiar que a impediu. Na quinta-feira vamos ter uma mesa com Hanna Limulja e Manuela Carneiro da Cunha, com mediação do Renato Sztutman. Na sexta-feira, uma conversa com Christian Dunker e Paula Sibilia, com mediação da Anna Virginia Balloussier. Dunker foi um dos primeiros autores a me escrever e oferecer um livro, em 2017 quando estávamos começando a ocupar esse espaço – foi um presente.
Na manhã do sábado vamos fazer o aniversário do Jacaré, não! que publicamos em 2016, primeiro livro do Antonio Prata, um dos mais vendidos da editora com mais de 50 mil exemplares. Depois, vamos fazer um grande festejo aqui na praça na frente da editora com mais dois debates: Giselle Beiguelman com Guilherme Wisnik e Vladimir Safatle com Letícia Cesarino. Estamos preparando um novo livro da Letícia sobre radicalização nas redes e recrutamento de adolescentes nas redes extremistas. Vai ser um debate focado nas eleições. A partir das 18h30 vamos fazer um Happy Hour, porque somos festivas por natureza.
Por que o nome Ubu?
Ubu é o protagonista de uma peça de Alfred Jarry que se chama Ubu Rei, um personagem grotesco, desagradável, um Bolsonaro-Trump. Mas Jarry era um escritor, poeta e dramaturgo muito livre, inventivo e experimental. Ele tinha um frescor e uma vontade de experimentar. Era também um personagem, esquisito, andava de bicicleta com uma pistola. É um personagem que você não consegue capturar, ele pode ir para qualquer lado, mas é um personagem amado pelos escritores. Era uma referência para nós, pois tem um lado de posicionamento político também. Ubu é sobre causar um mal-estar, estranhamento, sair da zona de conforto, provocar o pensamento crítico, sair da sociedade do consumo. São muitas camadas.

