As formas do neoliberalismo autoritário - Le Monde Diplomatique

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As formas do neoliberalismo autoritário

por Adauto Novaes
12 de setembro de 2019
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Um novo ciclo de conferências da série Mutações começa no dia 1 de outubro em São Paulo no Sesc da Avenida Paulista e no dia 7 no Rio de Janeiro  no ArteSesc ( rua Marquês de Abrantes, Flamengo). Ainda sob a tempestade é o título do ciclo que busca analisar as formas do neoliberalismo autoritário que surge em várias partes do mundo. Participam do ciclo filósofos do Brasil e da França, entre eles Marilena Chauí, Grégoire Chamayou, Vladimir Safatle, Éric Fassin, Franklin Leopoldo e Silva, Renato Lessa, Renato Janine Ribeiro, Márcia de Sá Cavalcante, Pedro Duarte, Olgaria Matos, Newton Bignotto e outros.

Pretendia-se que o fascismo tinha morrido no fim da Segunda Guerra Mundial. Talvez esse decreto precipitado de morte tenha sido um grande erro de historiadores e teóricos da política. Se, 85 anos depois, uma forma de poder supostamente abolida volta a excitar as discussões é porque sua duração foi mal avaliada: não era apenas um meteoro, um acidente obscuro sem volta.

A questão que se põe hoje é se há um retorno do fascismo em várias partes do mundo. Tendemos a pensar no retorno, mas não na sua forma original. Em sua primeira conferência fora da França, em março de 1946 nos Estados Unidos, Albert Camus atribui à Crise do homem (tema da conferência) os acontecimentos da Segunda Guerra, e até mesmo do pós-guerra: é muito fácil, diz ele, neste ponto, “acusar apenas Hitler e dizer que a besta está morta, o veneno desapareceu. Pois sabemos bem que o veneno não desapareceu, que nós o trazemos todos no nosso coração e isso se sente na maneira pela qual a nações, os partidos e os indivíduos se olham ainda com um resto de cólera. Sempre pensei que uma nação era solidária com seus traidores e seus heróis. Mas uma civilização também. E a civilização ocidental branca, em particular, é responsável tanto por seus êxitos como por suas perversões.”

Em poucas palavras, Camus conclui: a crise não está aqui ou ali, ela é o surgimento do terror em consequência da perversão dos valores de tal maneira que um homem já não é mais julgado por sua dignidade mas sim em função de seu êxito.

As tentativas de explicação daqueles que tentam fugir da ideia de fascismo são precárias: Populismo? Conceito politicamente confuso que acaba por tornar as classes populares as únicas responsáveis, como escreveu o Ugo Palheta em seu último livro – La possibilité du fascisme; Neoliberalismo? Não é coisa nova: lemos em Récidive 1938, de Michael Foessel, que a palavra “neoliberalismo” entra no vocabulário político em 38, quando economistas e filósofos reúnem-se em torno de Walter Lippmann com o objetivo de “renovar um liberalismo econômico posto à prova com a crise de 29”.

Novas tecnologias de comunicação, efeitos do grande avanço da técnica e a utilização desenfreada das redes sociais e as famosas fake-news? Apenas em parte: pensemos, como nos lembra ainda Foessel, na idade de ouro da imprensa escrita: na França, o jornal diário Paris Soir tinha uma tiragem de 2 milhões, e dois dos principais semanários da extrema direita (leia-se fascista) – Gringoire e Candide – chegavam a 1 milhão e 200 mil exemplares.

É impossível afastar hoje a ideia de mobilização através do trabalho da técnica sobre o pulsional, desejo maquínico de quem recebe e difunde mensagens sem pensar, mas isso, por si só, não explica o que acontece; Causas econômicas? Em parte.

Vale lembrar que, logo depois da Segunda Guerra Mundial, Wittgenstein escreve, em um de seus inúmeros fragmentos, que as atrocidades do regime nazista haviam começado bem antes do início da guerra sem que a indignação dos países da Europa se manifestasse. É nesse sentido que Jacques Bouveresse comenta uma carta escrita por Wittgenstein a Brian McGuiness:

“É evidente que a confiança que ele [Wittgenstein] tinha na classe dirigente e nas elites intelectuais britânicas para trabalhar por uma melhora real das coisas não havia aumentado durante os anos de guerra, e o estado de espírito que reinava entre os vencedores depois da derrota da ditadura nazista não anunciava, a seus olhos, nada de bom para a Europa e para o mundo.”

Tanto que, depois de Pearl Harbour, Wittgenstein escreve ainda a McGuiness: “As coisas serão terríveis depois da guerra, qualquer que seja o vencedor. É claro que será terrível se os nazistas ganharem. Mas terrivelmente sombrio se forem os Aliados”. Wittgenstein, que temia a permanência do velho sistema – então, terrivelmente armado –, foi dos poucos a relacionar o fascismo ao avanço tecnocientífico, o que, aliás, constitui um dos elementos cruciais para entender o neofascismo de hoje. A concepção de mundo, depois das grandes guerras, gerou ceticismo e temor com a descoberta e o uso indiscriminado da ciência e da técnica. Citemos, por exemplo, o que diz Ray Monk no seu Wittgenstein. Le devoir de génie:

“Os meios mecânicos empregados para matar pessoas, as demonstrações impressionantes de potência tecnológica – bombas incendiárias sobre Dresde, câmaras de gás dos campos de concentração, engenhos atômicos lançados sobre o Japão – demonstravam com força e definitivamente que “são a ciência e a indústria que decidem guerras”. E isso parece reforçar a visão apocalíptica (de Wittgenstein) segundo a qual o fim da humanidade seria a consequência da substituição do espírito pela máquina.”

Para entender melhor a relação entre fascismo, técnica e ciência, convém recorrer ao esclarecedor ensaio de Reinhart Maurer – O que existe de propriamente escandaloso na filosofia da técnica de Heidegger. Nele, podemos ler a tese tardia de Heidegger de que, com o nazismo (escreve Maurer) “irrompera uma vontade de poder que, de nenhum modo, estaria liquidada com ele”. Este é um diagnóstico de Heidegger do pós-guerra.

Diagnóstico semelhante é feito em 1946 pelo escritor católico Georges Bernanos:

“É certo, com efeito, que, apesar de seu gigantesco esforço, a Alemanha não conseguiu se tornar (…) o embrião de uma humanidade que, sob sua direção, deveria pouco a pouco se tornar uma colônia de cruéis insetos operosos. Porém, as mesmas forças que detiveram o nazismo podem, já amanhã, assumir sua causa. Estas, em realidade, de modo algum, se sublevaram contra a barbárie politécnica, mas apenas contra a pretensão da Alemanha em ser a primeira a organizá-la”. Citemos ainda parte da matéria de um jornalista inglês, publicada no dia 9.4.1944 no Observer: “Em certa medida, Albert Speer é hoje para a Alemanha mais importante que Hitler, Himmler, Goering (…) Todos eles se tornaram nada mais que colaboradores desse homem que, de fato, dirige a gigantesca máquina de força… Nele vemos uma precisa efetivação da revolução dos menager (…) Ele simboliza, antes, um tipo que se torna importante, em medida crescente, em todos os estados beligerantes: um puro técnico (…) Podemos prescindir dos Hitlers e dos Himmlers, mas os Speers ficarão muito tempo conosco”.

O que certamente diferencia a técnica no nazismo da técnica dos países democráticos é o possível controle ético do uso da técnica. Mas não se pode afirmar, com rigor, que ele seja aplicado.

O neo ou pós-fascismo deve ser pensado a partir desse novo mundo. Há, certamente elementos comuns ao que aconteceu na década de 1930 – predomínio do militar nas instituições políticas, a religião volta a imperar na política (“Deus acima de todos”, ou seja, pensar o Estado à luz da lei divina), religião nas escolas, caça à esquerda, homofobia, destituição do trabalho do pensamento, das artes e da cultura, preconceito contra as mulheres, contra as nações indígenas etc. Mas essa simples analogia não explica tudo: o mundo hoje é inteiramente outro, passa por uma mutação, e é preciso considerar isso.

Antigas propostas da época do nazi-fascismo continuam na ordem do dia, é verdade, mas elas se apresentam de maneira diferente. Enzo Traverso, professor de história política e especialista em totalitarismo, descreve essa retomada no livro Les nouveaux Visages du fascismes, onde ele define o que chama pós-fascismo. Para ele, a principal característica do pós-fascismo está na coexistência contraditória entre a herança do fascismo antigo e o surgimento de elementos novos que não pertencem à sua tradição. A ideologia não é mais problema – afirma Traverso –, já que hoje a social-democracia acomoda-se com facilidade aos preceitos neoliberais, que “puseram entre parênteses todos os seus valores em nome do realismo econômico”.

Em sentido inverso, a Frente Nacional, extrema direita na França, por exemplo, admite certas bandeiras da esquerda. Um exemplo: o pós-fascismo parte de uma matriz antifeminista, racista, antisemita, homofóbica… e as direitas radicais continuam a federar estas pulsões, uma vez que os mais reacionários votam FN. Mas, ao lado disso, elas integram outros elementos de linguagem e práticas sociais que não pertencem a seu código genético… e defendem, por exemplo, diante das câmeras e microfones o direito de a mulher usar minissaia…

Assim, na Manif pour tous, Marine Le Pen tinha uma posição bem ambígua. Distanciava-se, com seu silêncio, do discurso conservador e tradicionalista dos manifestantes.“Isso é possível – continua Traverso – por uma simples razão: a existência de um contexto global favorável. De fato, esta incoerência e esta fragilidade ideológica estão também nos outros partidos.

A Frente Nacional, como os outros partidos da extrema direita na Europa fazem política no mundo atual na qual a esfera pública se transformou e o mundo político mudou”. Uma das principais mudanças é o acolhimento dos partidos fascistas pela democracia. Eles que investem contra a própria democracia. Jean Baudrillard fala do terrorismo, mas que se aplica também ao que acontece com a democracia de hoje: a existência de uma fratura interna invisível, reversão silenciosa, “como se todo o aparelho de dominação secretasse seu antidispositivo, seu próprio fermento de desaparição”.

Permanecem, pois, as ambiguidades da relação entre religião civil republicana e islamofobia, xenofobia ou racismo. E isso num país que gerou o Iluminismo e espelha os ideais republicanos.

Alguns desses elementos podem ter origem na crise política, no apolitismo mesmo ou no “tudo é política” e na consequente fragmentação de seu ideário (facilmente recuperável pela direita: movimento das mulheres, dos negros, dos homossexuais… de modo a suscitar o esquecimento de concepções mais amplas) e a grande crise das ideologias, a partir da qual os partidos políticos passaram dos ideólogos aos estrategistas da comunicação.

Muitos pensam e agem como se o que acontece hoje na política fosse apenas coisa passageira, um tropeço da “civilização”, não propriamente uma mutação. Ainda que reconheçam que é um salto nas trevas, na barbárie, não pensam que talvez a ascensão do neofascismo seja o último refúgio, ou expressão, de um neoliberalismo que se construiu há décadas. Se tomarmos como exemplo os meios de comunicação mais influentes, vemos que eles permaneceram os mesmos com suas receitas ideológicas capazes de seduzir os mais tolos, sem falar da enorme influência dos tele-evangélicos.

Mas a grande novidade são as ações produzidas nos Facebooks, Whatsapps, Googles… onde os homens se transformam em atores anônimos de uma tragédia política – alguns desempenhando o papel de cínicos rindo da burrice de muitos candidatos – que alia “à perfeição técnica mais avançada uma total cegueira”, como escreveu Adorno a propósito do fascismo.

O ciclo é uma realização do Sesc e de Artepensamento, com o apoio do Instituto Francês e é reconhecido como curso de Extensão universitária pela UFRJ.



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