As incubadoras de comentaristas entrevistados na mídia - Diplô Brasil

UM MERGULHO NO UNIVERSO DOS THINK TANKS FRANCESES

As incubadoras de comentaristas entrevistados na mídia

Edição 149 | França
por Grégory Rzepski
3 de dezembro de 2019
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Aposentadorias, serviço público, mercado de trabalho: em muitos campos essenciais, as reformas liberais das últimas décadas foram precedidas de estudos efetuados por laboratórios de ideias. Privados, mas financiados em parte por subvenções públicas, esses think tanks aproveitaram o vazio ideológico dos partidos para enquadrar o debate público

Em 17 de novembro de 2018, nas rotatórias das ruas francesas, mais de 300 mil pessoas protestavam. Era o ato I do movimento dos coletes amarelos, o início da maior mobilização vista na França desde 1968. No mesmo dia, no grande anfiteatro da Sorbonne, em Paris, algumas dezenas de pessoas estavam reunidas para, “diante da ascensão do populismo, superar [suas] divisões e defender um projeto progressista para a Europa”. Entidades como a Fundação para a Inovação Política (Fondapol), a Fundação Jean-Jaurès, a Les Gracques e a Terra Nova realizavam uma cúpula dos reformistas.

Cimentar o bloco burguês, “tornar populista o popular”:1 a maioria dos think tanks [usinas de ideias] franceses contribui para a manutenção da ordem social. Não todos, é claro: há aqueles que tentam alinhar a política externa do país à dos Estados Unidos,2 e outros que servem à causa da segurança. E há alguns que até chegam a ser progressistas.

Anos atrás, Alexis Corbière, então chefe de estudos do Partido da Esquerda, apresentava os think tanks como “lobbies maliciosos que, sob um verniz científico, alegam produzir ideias imparciais, enquanto defendem os interesses dos grupos privados que os financiam” (Le Monde, 8 jan. 2012). Um julgamento meio apressado, uma vez que as grandes fundações reconhecidas como de utilidade pública têm como principal recurso os subsídios públicos, que uma estrutura como a Associação para a Tributação de Transações Financeiras e para a Ação Cidadã (Attac) vive das contribuições feitas por seus membros, e ainda que alguns think tanks são agências governamentais. Mas apenas alguns: sejam eles generalistas – do Terra Nova ao Instituto Montaigne – ou especializados – do Fabrique de la Cité ao Instituto de Gestão Delegada3 –, os think tanks mais influentes atuam como auxiliares dos poderosos, por meio de notas ou da participação em “debates”, no canal de TV BFM ou na emissora de rádio France Culture.

 

O peso crescente das finanças

Claro que tudo é uma questão de definição. As “sociedades do pensamento” floresceram na década de 1930 (X-Crise, grupo Esprit); o fenômeno dos “clubes” marcou o fim da Quarta República (Club Jean-Moulin), depois o início dos anos 1980, com o Club 89 ou o Club de l’Horloge, quando a direita concluiu sua conversão para o liberalismo. Em 1982, dois acadêmicos – François Furet e Pierre Rosanvallon – e dois altos funcionários próximos dos círculos patronais – Roger Fauroux e Alain Minc – criaram a Fundação Saint-Simon. Até sua dissolução, em 1999, ela reuniu personalidades do mundo dos negócios, da administração, da academia e da imprensa com o objetivo de fazê-las dialogar “para além das barreiras colocadas pela clivagem entre esquerda e direita”.4 A fundação pôde se orgulhar de trazer à tona temas que passaram a ocupar um lugar de destaque no repertório das ideias conservadoras. Em fevereiro de 1994, por exemplo, ela publicou uma nota intitulada “La préférence française pour le chômage” [A preferência francesa pelo desemprego]. Seu autor, Denis Olivennes, então do alto escalão do funcionalismo público, viria a se tornar um empresário da comunicação e do comércio.

A Fundação Saint-Simon é ainda hoje um modelo para muitos think tanks, especialmente desde que a universidade, outrora capaz de abrigar alguns focos de subversão, começou a enfrentar, a partir dos anos 1980, o declínio de “sua autonomia institucional e intelectual, em favor do novo poder dos especialistas, políticos e econômicos”, nas palavras de François Cusset, que comenta: “Uma evolução crucial para que se possa entender a nova submissão do trabalho intelectual – e o desaparecimento, se não da crítica, pelo menos de uma atividade de pensamento protegida pela comunidade científica da função que os poderes desejam atribuir a ela. Tal comunidade está, de fato, se aproximando da empresa”.5

Nos anos 1990, e mais ainda na década de 2000, duas outras dinâmicas contribuíram para o desenvolvimento dos think tanks. A primeira delas se refere à aproximação observada entre a alta administração pública e o mundo corporativo. Com a banalização do recurso às empresas de consultoria, a Revisão Geral das Políticas Públicas (RGPP) colocou em questão o monopólio da experiência legítima exercido pelos diplomados oriundos da Escola Nacional de Administração (ENA) e da Escola Politécnica de Paris. A fim de conduzirem o processo permanente de reforma da administração pública, as elites do setor público e do setor privado passaram a trabalhar em conjunto para nela injetar categorias e dispositivos próprios do mercado.6 Essa dinâmica foi acompanhada pelo enfraquecimento das instituições governamentais que poderiam produzir uma sólida expertise e até mesmo pelo desaparecimento de tais instituições, como é o caso da Direção da Previsão, no Ministério da Economia, e da Direção de Pesquisa e Assuntos Técnicos e Científicos, no Ministério do Equipamento. Em um país onde, segundo Philippe Manière, ex-diretor do Instituto Montaigne, durante muito tempo se pensou “que apenas o Estado poderia saber onde ficava o bem comum”,7 seria ser motivo de alegria ver surgir atores mais “independentes”.

Na mesma sequência, assiste-se ao enfraquecimento dos partidos como estruturas de reflexão. No interior de organizações assombradas pelos novos imperativos do marketing eleitoral, obnubiladas pelo desejo de “se manterem atuais”, o trabalho de fundo perdeu sua importância, e os profissionais da política passaram a “confiar o conteúdo de seu cérebro a empresas terceirizadas”.8 Uma tendência à terceirização ainda mais forte pelo fato de que muitos deles “hoje mantêm estreitas relações com uma miríade de interesses privados, aos quais, com excessiva frequência, estão submetidos”.9

Enquanto o governo de Emmanuel Macron conta com ex-lobistas (Édouard Philippe, Benjamin Griveaux, Emmanuelle Wargon), o de Jacques Chirac já abrigou, no Ministério da Economia, Francis Mer e Thierry Breton, duas personalidades do capitalismo francês. Depois de contribuir, em 2000, para as reflexões do Instituto Empresarial sobre Tecnologias da Informação, Breton confiou, em 2005, a Michel Pébereau, então presidente desse think tank patronal, a elaboração de um relatório sobre a situação das finanças francesas que difundiu a imagem do bebê que já nasce “com 20 mil euros de dívida pública”.10

Ilustração: Claudius
Diversos tons do mesmo cinza

Nesse contexto de hibridização das elites, a legislação tornou-se mais favorável aos think tanks. A Lei Léotard criou, em 1987, o estatuto de “fundação reconhecida como de utilidade pública”. Graças a suas disposições, as fundações Robert Schuman e Jean-Jaurès são, desde sua criação – em 1991 e 1992, respectivamente –, isentas de impostos comerciais e elegíveis para receber patrocínio. A Lei Aillagon é ainda mais atraente para pessoas físicas e jurídicas: desde que entrou em vigor, em 2003, os patrocinadores em geral e aqueles que subsidiam “usinas de ideias” (associações ou fundações), em particular, contam com uma redução de 60% do valor do imposto sobre lucros, dentro do limite de cinco para mil do volume de negócios, e não mais apenas com uma dedução do resultado dos montantes pagos dentro do limite de 2,25 por mil do volume de negócios.

Um dispositivo muito mais interessante, um teto mais elevado (duplamente): em seu conjunto, a perda de receita tributária passou de 90 milhões de euros em 2004 para mais de 900 milhões de euros em 2017. É difícil quantificar o aumento da parcela relativa apenas às “sociedades de pensamento”, porém, seja como for, a lei reforçou a capacidade de influência do mundo dos negócios sobre o jogo democrático. Aliás, reforçou mais tal capacidade: em novembro de 2002, ou seja, alguns meses antes da promulgação da lei sobre patrocínio, o Instituto Montaigne (que desde então se beneficia grandemente dela) publicou “25 propostas para desenvolver fundações na França”, entre as quais a 20ª e a 21ª consistem, precisamente, em tornar “mais atraente” o mecanismo tributário dedicado a ampliar os patrocínios, transformando-o em uma redução tributária de 50% sobre os lucros, além de elevar o teto para 0,5% do volume de negócios. Embora o nível de recursos dos think tanks franceses seja muito menor do que aquele de que gozam essas entidades nos Estados Unidos (e até mesmo daquelas ligadas à Alemanha ou à União Europeia), a importância que tais organizações ganharam no debate público fez a economista Julia Cagé falar em “financiamento disfarçado da democracia”.11

Também parece adequado falar em intervenção sub-reptícia no jogo político quando se sabe que o artigo 4 da Constituição [francesa] reserva o direito de concorrer “à expressão do sufrágio” unicamente a “partidos e agrupamentos políticos”. Durante a campanha de 2012, foi necessária uma intervenção do Conselho Superior do Audiovisual (CSA) para que a rádio e a TV BFM, bem como a RMC parassem de difundir spots do Instituto Montaigne exaltando propostas muito próximas daquelas apresentadas pelo candidato Nicolas Sarkozy. Como já haviam feito o Instituto Empresarial e a Fondation Ifrap (Instituto Francês de Pesquisa em Administrações Públicas), o mesmo Instituto Montaigne publicou, em 7 de abril de 2017, no jornal Les Échos, sua “análise” sobre os principais programas presidenciais. O think tank validou o custo do programa de Macron, ajustou o montante do programa do candidato da França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, e deu um “zero bem redondo” ao de Benoît Hamon (Partido Socialista – PS). Em uma entrevista ao Télégramme de Brest, em 16 de março de 2017, o diretor do instituto justificou o exercício: “Divulgar esses números é uma questão de transparência”. Mas, com toda a transparência, Laurent Bigorgne não deveria ter especificado que contribuía para a campanha do futuro presidente desde (pelo menos) abril de 2016?

Apoiado principalmente por LVMH, Total, Vinci, SFR e Carrefour, em 2017 o Instituto Montaigne, com um orçamento de 5,9 milhões de euros, era o mais rico dos think tanks generalistas franceses. Embora, como a Fundação Ifrap, ele receba os benefícios gerados pela isenção tributária das doações de pessoas físicas e jurídicas, nenhuma das duas entidades recebe do Estado os subsídios diretos reservados às fundações políticas. Um apoio cujo montante pode ser dez vezes maior ou menor dependendo da entidade em questão: em 2018, foi 1,688 milhão de euros para a Fundação Jean-Jaurès – historicamente vinculada ao PS, mas em excelentes termos com A República em Marcha! –, e 150 mil euros para a Fundação da Ecologia Política, apoiada pelo Europa Ecologia-Os Verdes. O valor dessas dotações fica a critério do chefe de gabinete do primeiro-ministro.

Não é apenas por meio da atribuição de fundos públicos que o Estado apoia os think tanks próximos ao mercado. Ele também lhes empresta seus “cérebros”, altos funcionários e pesquisadores, especialistas de todos os tipos. Em junho de 2015, quando o Instituto Empresarial publicou uma análise das políticas de “saneamento orçamentário” na Europa, o grupo coordenado por Pébereau contava com seis inspetores de finanças. Três deles deixaram a administração pública para se juntar aos grupos Bolloré, Carrefour (ligado ao Instituto Empresarial) e Renault.

Os jovens altos funcionários da administração pública envolvidos nesse tipo de “tarefa” são remunerados. Em 2014, durante a campanha para as eleições municipais, um ex-aluno da ENA liderou o exercício de análise de custo dos programas do Instituto Montaigne nas maiores cidades da França. A estimativa do “custo” das medidas previstas pelos dois candidatos com maior probabilidade de chegar ao segundo turno custava mil euros por algumas horas de trabalho.

No entanto, a maioria dos think tanks não costuma remunerar seus analistas: as entidades funcionam como uma espécie de “ONG para diplomados da ENA”.12 Entrar em um think tank, ou criar um, permite encontrar um lugar ao sol sem ter de passar pelas servidões da militância. A redação de uma nota para o Instituto Montaigne ou para o Terra Nova também é a forma de um alto funcionário público apresentar propostas sem precisar submetê-las à validação de sua hierarquia – mas sem esquecer aqueles que financiam o think tank. Em seu relatório para o Instituto Montaigne, “L’impossible État actionnaire?” [O impossível Estado acionista?], publicado em 2017, David Azéma, ex-diretor-geral da Agência de Participações Estatais (APE), fez uma espécie de autocrítica: “Olhando em retrospectiva, […] refleti sobre essa experiência e cheguei à conclusão de que eu havia me desviado, de que os termos ‘Estado’ e ‘acionista’ são ontologicamente incompatíveis e que é preciso considerar as consequências disso”.

Transparentes, competentes, pluripartidários, os think tanks deveriam contribuir para a vitalidade do “debate democrático”. Mas, mesmo postulando a existência de uma diversidade entre eles, isso não garantiria que seus pontos de vista tivessem a mesma força no espaço público. Todos os círculos de reflexão que têm acesso à mídia dominante estão distribuídos ao longo de um estreito espectro ideológico: da ultraliberal Fundação Ifrap ao social-liberal Terra Nova. Inspetores de finanças, economistas, especialistas em pesquisas, jornalistas: esses círculos cultivam as relações internas a eles mesmos, portanto a conformidade ideológica. A Fondapol é presidida pelo diretor-geral do grupo Arnault (Nicolas Bazire); o Instituto Montaigne, pelo ex-presidente da Axa (Henri de Castries); o think tank Les Gracques, pelo chefe do lobby dos seguros (Bernard Spitz). Dos 23 administradores do Terra Nova, apenas quatro não se formaram no Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po), na ENA, na Escola de Altos Estudos Comerciais de Paris (HEC) ou na Escola Politécnica de Paris.

Considerando essas circunstâncias, é mais fácil entender como uma usina de ideias “progressista” conseguiu defender, em 2011, a necessidade de uma ruptura entre a esquerda e as classes populares. “Quanto mais elevada é a formação de um indivíduo”, afirmava então o think tank Terra Nova, “mais esse indivíduo adere aos valores culturais da esquerda: liberdade de costumes, tolerância, abertura às diferenças culturais, aceitação da imigração”. No entanto, como observaram os economistas Bruno Amable e Stefano Palombarini, “há um pressuposto fundamental da pesquisa do Terra Nova que não foi absolutamente discutido no relatório: como e por quem foi definida a lista dos valores culturais de esquerda? Pode-se supor que os resultados obtidos […] teriam sido diferentes se valores como igualdade ou solidariedade […] tivessem sido levados em consideração”.13

Empresários e executivos, os administradores do think tank aderem aos valores de igualdade e solidariedade, mas por conta própria. Ex-banqueiro, Lionel Zinsou, que preside o Conselho de Administração do Terra Nova, também foi membro do comitê diretor do Instituto Montaigne. Montaigne e Terra Nova publicaram em conjunto, em outubro de 2018, um relatório intitulado “Sauver le droit d’asile” [Resguardar o direito de asilo]; Fondapol e Terra Nova se uniram pela mesma petição, reivindicando “Plus d’Europe” [Mais Europa] na France Télévisions, em maio de 2014.

A consanguinidade entre os grandes think tanks funciona muito bem. Em setembro de 2015, o Terra Nova coeditou (com Odile Jacob) a obra Réformer le code du travail [Reformar a legislação trabalhista], de Jacques Barthélémy (advogado e fundador da consultoria Barthélémy) e Gilbert Cette (economista). O livro denuncia a “proliferação de textos jurídicos” e defende um “direito regulatório que se impõe apenas de forma suplementar”. Alguns meses depois, em maio de 2016, o Instituto Montaigne copublicou Un autre droit du travail est possible [Uma outra legislação trabalhista é possível], de Bertrand Martinot (economista) e Franck Morel (advogado da consultoria de Barthélémy). O livro lamenta uma “lei invasiva [que] deixa pouco espaço para os outros atores” e pretende “dar precedência ao acordo da empresa”. A Fondapol não publicou livros, mas lançou, em fevereiro de 2016, uma petição intitulada “Oui à la Loi travail, non au chômage!” [Sim à reforma trabalhista, não ao desemprego!]. Quanto à Fundação Ifrap, em um artigo intitulado “Projet de loi El Khomri: une révolution en marche?” [Projeto de Lei El Khomri: uma revolução em marcha?], ela explica, magnânima: “Não temos tantas oportunidades assim de comemorar as iniciativas do governo, a ponto de deixarmos de reconhecer a coragem com a qual ele tem se dedicado a uma verdadeira reforma da legislação trabalhista”.

A grande mídia está sempre ansiosa em divulgar esses vários tons do mesmo cinza. Os autores do Terra Nova estiveram na France Inter, France Culture, France Info, Arte, La Chaîne Info (LCI) e BFM TV, que também convidaram os do Instituto Montaigne. A promoção midiática do livro de Martinot e Morel também foi garantida por veículos como La Croix, Le Monde, Le Parisien, La Tribune e Les Échos. Em comparação, no mesmo período, o Grupo de Pesquisa por uma Outra Legislação Trabalhista (GR-Pact), iniciativa que reúne cerca de vinte acadêmicos comprometidos em demonstrar que seria possível racionalizar e ampliar a proteção, contou com uma exposição reduzida (L’Humanité, France 24).

Alguns think tanks trabalham com agências de comunicação – a Fondapol conseguiu os serviços da Image 7, a favorita do CAC 40, que reúne as maiores empresas da França –, mas, em seu conjunto, eles garantem aos jornalistas novidades e, principalmente, todos os sinais externos de desenvolvimento intelectual. Para preencher a grade de programação de canais de notícias 24 horas, é muito útil ter à mão especialistas que sabem falar com o público e vêm, gratuitamente, promover sua “usina de ideias” citando Virgílio ou Helmut Kohl. E, se quase sempre é preciso escolher entre fazer “um programa ruim com um bom especialista ou um bom programa com um especialista ruim” – como admitiu recentemente Raphaël Bourgois, produtor da France Culture14 –, paciência.

A publicação do manifesto (minimalista) de uma “usina de ideias” de jovens diplomados da ENA é tratada como um evento editorial, e os think tanks mais estabelecidos alimentam incessantemente a imprensa, o rádio e a televisão com editoriais, crônicas e entrevistas. Seus porta-vozes participam de debates semanais no Europe 1 (a altamente invasiva Agnès Verdier-Molinié, da Fundação Ifrap, sempre celebrada pela Le Figaro Magazine) ou na France Culture (o ex-braço direito de Pierre Rosanvallon, Thierry Pech, do Terra Nova). O Le Monde organiza “eventos” com o Círculo dos Economistas ou coloca Gilles Finchelstein, da Fundação Jean-Jaurès, para comentar as pesquisas. Em 24 de março de 2019, a coluna de Erwan Le Noan no diário liberal L’Opinion intitulava-se “Viva os think tanks!”. Nela, o autor elogiava os trabalhos recentes do Instituto Montaigne ou da Fondapol, sendo ele mesmo membro do conselho científico dessa fundação. Em compensação, as aspirações populares são caricaturadas: em um artigo publicado no site da Fundação Jean-Jaurès em 14 de janeiro de 2019, Roman Bornstein, jornalista da France Culture, contou sobre sua “imersão digital com os coletes amarelos”, descrevendo os “mecanismos de radicalização” e a “relação de desafio e até de ódio que mantêm [os membros de grupos do Facebook de coletes amarelos] com a mídia tradicional”.

 

“O ideal de uma governança pelos números”

Para Bigorgne, haveria “neste país, pela primeira vez, uma forma de ameaça à democracia. Entidades como Terra Nova, espero que como Montaigne, como os outros think tanks, são, a meu ver, indispensáveis para que se mantenha vivo o confronto de ideias, portanto também a democracia, em nossa República”.15 Mas a realidade é mais cruel do que isso, e mais medíocre. Em uma das primeiras pesquisas realizadas sobre o Terra Nova, o pesquisador norte-americano Alexander Zevin descobriu que as notas produzidas pelo círculo de reflexão eram “muito mais notáveis por sua profusão vertiginosa do que por seu conteúdo”.16

Em essência, ao contrário do que eles próprios afirmam ser ou fazer, o papel político dos think tanks não é tanto produzir novas ideias, mas fazer circular um conjunto de crenças e impor temas e questões. Em um artigo famoso, de 1976, Pierre Bourdieu e Luc Boltanski explicam que a ideologia dominante procede de uma “circulação circular capaz de produzir um efeito de autoconfirmação e autorreforço”.17 Exemplo recente: a apresentação do projeto de lei sobre mudança no serviço público, em 27 de março de 2019, foi precedida não apenas pela publicação, em fevereiro, de uma perícia da Inspetoria Geral de Finanças crítica ao trabalho dos funcionários públicos, mas também, em 15 de março, por um relatório do Instituto Montaigne recomendando o uso mais frequente de trabalhadores contratados. Seu autor, um alto funcionário público, já havia escrito em abril de 2008 um “Livro Branco” sobre o futuro da administração pública – descrita por ele como um “inferno regulatório” em outro relatório – para o liberalíssimo think tank Génération Libre.

Incentivo (mais que regulamentação), educação (na falta de emancipação), inovação (como única perspectiva de progresso): qualquer problema social deveria encontrar sua solução técnica na implementação desses princípios. Repetindo esse discurso, os think tanks não trabalham apenas em favor de um bloqueio ideológico: eles colaboram com o estreitamento da imaginação política. Além disso, como todos podem verificar ligando o rádio pela manhã, o debate democrático está saturado de relatórios de especialistas que invocam números e revelam “o ideal de uma governança pelos números tendendo a suplantar o do governo pelas leis”.18

Se a organização das reuniões do Círculo de Economistas durante o elegante festival de arte lírica de Aix-en-Provence perpetua o mesmo ideal, ela contribui sobretudo para reforçar a coesão de certa elite. Da mesma forma, o Instituto Montaigne organiza para as empresas a ele associadas cafés da manhã com celebridades, como, em novembro de 2018, com o primeiro-ministro Édouard Philippe. Um pouco antes, em 2017, Bigorgne, diretor do instituto, foi nomeado membro do Comitê de Ação Pública 2022 (CAP22), instalado por Philippe para criar o projeto de reforma do Estado. Em junho de 2018, o startupper Gilles Babinet foi nomeado vice-presidente do Conselho Nacional do Digital, depois de ter sido, por muito tempo, a referência do Instituto Montaigne sobre esse assunto.

Entre os mais influentes, outros think tanks além do Montaigne deram sua colaboração ao candidato Macron. Em julho de 2016, Gilles de Margerie, personalidade do Les Gracques e do En Temps Réel, organizou em Paris um jantar de angariação de fundos para o futuro presidente. Em janeiro de 2018, ele foi nomeado comissário-geral da France Stratégie, um think tank governamental, logo após um de seus companheiros do Les Gracques, Éric Lombard, ex-presidente da Generali, virar diretor da Caisse des Dépôts et Consignations. A ferramenta “think tank” constitui, portanto, um meio eficaz de autopromoção. Bigorgne, Finchelstein e Pech estavam entre os 65 “intelectuais” convidados a debater com Macron no dia 22 de março de 2019, embora todos eles tenham, na esfera intelectual, apenas conquistas modestas.

Basicamente, em uma década e meia, o Instituto Montaigne e, depois, o Terra Nova impuseram um modelo importado dos Estados Unidos que privilegia o financiamento por grandes empresas e o recurso à expertise de executivos do setor público ou privado – uma tendência que não parece prestes a se reverter. Como observa Emmanuel Todd, “os hiper-ricos têm tanto dinheiro que não sabem mais o que fazer com ele. E eles ainda têm um terreno a conquistar: o mundo das ideias!”.19

 

Grégory Rzepski é coautor (com Mathias Reymond) de Tous les médias sont-ils de droite? [Toda a mídia é de direita?], Syllepse, Paris, 2008, e colaborador do laboratório de ideias L’intérêt général (http://interetgeneral.net).

 

1 Segundo a bela expressão de David Dufresne no documentário Le Pigalle. Une histoire populaire de Paris [Pigalle. Uma história popular de Paris] (2019).

2 Este artigo não trata do caso particular dos think tanks sobre política externa.

3 O primeiro foi criado pela [construtora] Vinci e trabalha com “inovação urbana”. O segundo é um think tank patronal que promove a gestão privada de serviços públicos. Cf. Marc Laimé, “L’Institut de la gestion déléguée, cheval de Troie du libéralisme” [Instituto de Gestão Delegada, o cavalo de troia do liberalismo], Les Eaux glacées du calcul égoïste, 19 jul. 2019. Disponível em: <www.eauxglacees.com>.

4 Ler Laurent Bonelli, “Les architectes du social-libéralisme” [Os arquitetos do social-liberalismo], Le Monde Diplomatique, set. 1998.

5 François Cusset, La Décennie. Le grand cauchemar des années 1980 [A década. O grande pesadelo dos anos 1980], La Découverte, Paris, 2006.

6 Cf. Julie Gervais, “Les sommets très privés de l’État. Le ‘Club des acteurs de la modernisation’ et l’hybridation des élites” [As muito privadas cúpulas do Estado. O “Clube dos Atores da Modernização” e a hibridização das elites], Actes de la Recherche en Sciences Sociales, n.194, Paris, set. 2012.

7 Citado por Pierre Lepetit, “Le rôle des think tanks” [O papel dos think tanks], Problèmes Économiques, n.2912, Luxemburgo, 6 dez. 2006.

8 Roger Lenglet e Olivier Vilain, Un pouvoir sous influence. Quand les think tanks confisquent la démocratie [Um poder sob influência. Quando os think tanks confiscam a democracia], Armand Colin, Paris, 2011.

9 Michel Pinçon e Monique Pinçon-Charlot, “La caste au pouvoir” [A casta no poder], Le Monde Diplomatique, fev. 2019.

10 Cf. Yann Le Lann e Benjamin Lemoine, “Les comptes des générations” [As contas das gerações], Actes de la Recherche en Sciences Sociales, n.194, abr. 2012.

11 Julia Cagé, Le Prix de la démocratie [O preço da democracia], Fayard, Paris, 2018.

12 Olivier Saby, Promotion Ubu Roi. Mes vingt-sept mois sur les bancs de l’ENA [Promoção Ubu Rei. Meus 27 meses nos bancos da ENA], Flammarion, Paris, 2012.

13 Bruno Amable e Stefano Palombarini, L’Illusion du bloc bourgeois. Alliances sociales et avenir du modèle français [A ilusão do bloco burguês. Alianças sociais e o futuro do modelo francês], Raisons d’Agir, Paris, 2017.

14 Citado em “Expertise et démocratie. Faire avec la défiance” [Especialistas e democracia. Usar com desconfiança], France Stratégie, Paris, 2018.

15 “‘Regards croisés sur Terra Nova’: le film” [“Perspectivas cruzadas sobre Terra Nova”: o filme], Terra Nova, 24 out. 2018. Disponível em: <http://tnova.fr>.

16 Alexander Zevin, “Terra Nova, la ‘boîte à idées’ qui se prend pour un think tank” [Terra Nova, a “usina de ideias” que se considera um think tank], Le Monde Diplomatique, fev. 2010.

17 Pierre Bourdieu e Luc Boltanski, “La production de l’idéologie dominant” [A produção da ideologia dominante], Actes de la Recherche en Sciences Sociales, n.2-3, jun. 1976.

18 Alain Supiot, Grandeur et misère de l’État social [Esplendor e miséria do Estado de bem-estar social], Collège de France-Fayard, Paris, 2013.

19 Weronika Zarachowicz, “L’influence des think tanks, cerveaux des politique” [A influência dos think tanks, o cérebro dos políticos], Télérama, Paris, 14 dez. 2011.



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