As mídias, a reprodução dos discursos negacionista e científico

POPULISMO E CRISE

As mídias, a reprodução dos discursos negacionista e científico e a reconfiguração política em curso

por Grupo de Pesquisa Discurso
23 de julho de 2020
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Neste quarto texto da série “Populismo e Crises: A análise política dos discursos sobre a pandemia da Covid-19”, produzida pelo Grupo de Pesquisa “Discurso, Redes Sociais e Identidades Sócio-Políticas (DISCURSO)”, analisamos o papel e as estratégias das mídias na pandemia com a reconfiguração política resultante.

Caracterizamos em artigos anteriores a pandemia Covid-19 como acontecimento, que coloca em suspensão a hegemonia e identificamos os principais elementos dos discursos negacionista e científico. Neste novo trabalho analisamos como a disputa de discursos se reproduz nas mídias tradicionais e sociais. Para tal, contextualizamos a emergência da pandemia destacando a nova ordem mundial, a guerra cibernética, a estratégia do pandemônio e o “momento populista”. Olhando para as continuidades e rupturas entre as mídias tradicionais e sociais, identificamos o surgimento de uma digitalização do populismo e caracterizamos a disputa de discursos negacionista e científico em ambas mídias, assim como a reconfiguração política que se expressa através de pesquisas de opinião, com o realinhamento de identidades políticas.

O contexto: nova ordem mundial, guerra cibernética e pandemônio

O acontecimento pandemia Covid-19 traz ao senso comum a percepção de que vivemos numa sociedade planetária. A nova ordem mundial da globalização neoliberal, anunciada nos anos 1990 – e celebrada como o fim da História com a queda do muro de Berlim – se faz presente hoje no cotidiano de isolamento social de bilhões de pessoas no mundo todo, nos receios pela paralisia econômica[1] e também na disputa na arena comunicacional, de narrativas sobre a pandemia e nosso futuro.

Em 2011, o grupo editorial “Página 12” convidou o juiz da Suprema Corte Argentina, Eugenio Raul Zaffaroni, a escrever um dossiê sobre o que seria um projeto de sociedade democrática e sem violência. Nesse trabalho[2] Zaffaroni adverte, primeiro, que os debates sobre democracia, paz e violência continuam se organizando em torno de personagens, instituições e problemas locais, enquanto poucos se dão conta que se trata de uma questão global sobre o futuro que se deseja para a humanidade. A sua segunda advertência diz respeito à dimensão comunicacional que a globalização impingiu a esse jogo, seja qual for o atual estágio do sistema do capital (financeiro, tardio, pós-industrial, pós-histórico, pós-moderno, de vigilância etc.). Essas advertências, que em 2011 pareciam um tanto herméticas ao senso comum, hoje se tornam quase uma banalidade: Trump, Bolsonaro, Brexit, Jornadas de junho de 2013 e Primavera Árabe são resultados de uma guerra comunicacional que se vulgariza e invade tanto práticas materiais cotidianas como subjetividades, para nos colocar, compulsoriamente, num campo de batalha. Os sentidos e os termos dessa inserção, assim como seus limites e potenciais, é um jogo que, para alguns, está sendo jogado há bastante tempo, mas, para a maioria, talvez só comece a ser disputado agora.

A guerra comunicacional – ou guerra cibernética, com suas estratégias desenvolvidas nos centros de inteligência militar das potências globais, é um elemento central da dimensão política da revolução tecnocientífica que, nesse início de século 21, projeta e modela um mundo adequado aos interesses hegemônicos[3]. No coração dessa guerra está o “pandemônio”[4]: uma estratégia de luta e dominação pelo uso da inteligência artificial. No “pandemônio” existem demônios e escravos (máquinas inteligentes e humanos tolos) pelos quais estruturas cibernéticas (como as mídias digitais) podem ser controladas e utilizadas como arma de guerra ideológica e de informação. O “pandemônio” é a capital imaginária do mundo infernal: corresponde originalmente a um lugar onde há muita gritaria, confusão, agitação; dominado por sistemas de controle descentralizados e adaptativos – ou seja, estruturas tecnológicas (robôs) que antecipam o movimento dos inimigos, que podem ser demônios traidores (robôs a serviço do inimigo) ou escravos rebeldes (humanos insurgentes). Essas estruturas são programadas para domesticar todos os cenários possíveis, antes mesmo que estes se manifestem[5].

Uma guerra cibernética com articulações entre o Vale do Silício, Wall Street e agências de inteligência[6]. Ela se manifesta nas tecnologias 3G, depois 4G e agora 5G para acoplar smartphones, georreferenciamento e big data (ferramentas de mineração e correlação de dados). Propicia a aceleração de processos de exclusão e descarte social, a exploração e a expropriação de bens, direitos e a mercantilização de cada milímetro de terra do planeta; e também de cada pulsão, desejo e subjetividade para configurar aquilo que alguns autores, de forma acertada ou não, têm chamado de capitalismo de vigilância[7].

A informação via fake news tem pautado a política e inviabilizado o modelo de debate público formatado para mídias eletrônicas (rádio e TV) no século XX[8]. Conteúdos digitais direcionados para grupos de compartilhamento público e privado desde a eleição de Trump nos EUA ganharam visibilidade no cenário político global. Esses conteúdos parametrizados para perfis individualizados via redes digitais são inoculados (como vírus em hospedeiros) em grupos de compartilhamento privado como Whatsapp, e mistos ou abertos como Facebook, Instagram, Twitter e Youtube. Essas estratégias produzem um engajamento de receptores instrumentalizados para “curtir” e “compartilhar” conteúdos impulsionados por robôs em escala exponencial.

Em várias partes do mundo, a articulação entre redes sociais digitais e política tem ocupado o espaço público. Em 2018, no Brasil, candidatos se pautaram – ou foram pautados – pelas redes digitais. Em especial, pela avalanche de fake news que ocupou as timelines de celulares e computadores dos eleitores, que não têm preparo para a decodificação de uma informação modificada pelas novas formas de produção, publicação e compartilhamento de conteúdo semióticos complexos. Informação que ganha novo sentido quando estruturada em fragmentos recombinantes (bits) dentro de pacotes abertos a reedições e reinserções em fluxos descentralizados e não previstos pelos produtores/emissores iniciais.

Mas as mudanças no ambiente tecnológico são suficientes para explicar as transformações no espaço público com a manipulação do debate político e da opinião pública?

Mídias, globalização e momento populista

A contextualização histórica indica mais continuidades que rupturas entre as estratégias de manipulação do debate político e da opinião pública acionadas pelas mídias tradicionais e as novas mídias digitais, apesar das muitas transformações que estas operam. Por exemplo, a polarização do debate político no Brasil não resulta das mídias digitais. O processo parece iniciar-se nos EUA, ainda nos anos 1990, com um jornalismo de combate praticado por grandes corporações de mídia, como o grupo “News Corp.” de Rupert Murdoch que inclui a Fox News. Criado para desqualificar o partido Democrata e atrair um público conservador, o canal cresceu no final dos anos 90 e durante os anos 2.000, tornando-se a rede dominante de notícias por assinatura nos EUA[9].  Este estilo de expansão do neoconservadorismo norte-americano pela hiper-partidarização das mídias impulsionou a polarização da esfera pública. Uma polarização que promove a redução do debate público ao embate entre duas narrativas opostas e igualmente pré-estabelecidas[10]. Desta forma, a hiper-partidarização das mídias, do jornalismo de guerra, da informação de combate, da polarização da esfera pública assim como da guerra cibernética surgem interconectados com a globalização neoliberal impulsionada desde o centro hegemônico norte-americano. A tecnologia digital e as mídias sociais não teriam, então, produzido a polarização da esfera pública, mas dado um novo contorno a processos relacionados à globalização da agenda do neoconservadorismo norte-americano[11].

Ao mesmo tempo, cabe destacar que o ambiente tecnológico não é suficiente para compreender os efeitos ou resultados do descontentamento de trabalhadores e profissionais liberais que agora se encontram terceirizados, precarizados ou desempregados e empobrecidos pela globalização neoliberal[12]. Um descontentamento capitalizado por movimentos reacionários e neofascistas que substituem o debate por uma política fundada em mitos como os de supremacia étnico-racial, nacionalismos xenofóbicos ou fundamentalismos religiosos[13].

Porém, as mídias digitais introduzem novos fluxos de informação e inclusão de sujeitos até então ausentes do debate público, este já polarizado pelas mídias tradicionais. Os novos fluxos introduzidos pelas mídias digitais são contemporâneos da atual reorganização das mídias tradicionais e da convergência entre a agenda neoconservadora globalizada desde os anos 1990 e novas lideranças populistas de direita, principalmente após 2010.

A emergência de populismos de direita – uma hipótese prevista por Laclau em sua análise do “momento populista” [14] – encontra uma forma de expressão na atual arquitetura das redes digitais, que oferece uma experiência de engajamento e participação popular mediada por um padrão reacionário[15].

Com as mídias digitais, timelines de sujeitos populares isolados passam a ser ocupadas por postagens parametrizadas pelas técnicas de mineração de dados e psicometria (microtargeting) para explorar suas singularidades emocionais, afetivas, morais e cognitivas reforçando valores e posições de um campo político; e demonizando, caluniando e difamando o campo adversário, através de conteúdo sem compromisso com a verdade. Ao mesmo tempo, essa transformação do debate político articula-se com a emergência  do grotesco, da paródia e das inversões dos argumentos associados a falsos perfis de robôs, que capturam e parametrizam informações moduladas para diferentes grupos sociais, em processos combinados com a desqualificação e desarticulação sistemática das fontes e reputações que antes hierarquizavam e estabilizavam os debates públicos. Assim, espaços digitais de grupos familiares, religiosos e de outras sociabilidades privadas são capturados para parasitar relações e vínculos afetivos e convertê-las em campo de luta política compulsória. Nesses espaços são compartilhados conteúdos digitais por receptores desprovidas de filtros racionais e emocionais, para decodificar informações tecnicamente modeladas para produzir efeitos políticos no meio digital. É possível identificar um novo modelo de ação política nesse contínuo e compulsório fluxo de conteúdos digitalmente manipulados e direcionados [16].

Haveria uma digitalização do populismo[17]. Isto é, a abordagem do populismo de Laclau e Mouffe[18] teria sido apropriada e traduzida para o contexto cibernético das guerras hibridas, e operacionalizada para promover a ascensão de líderes populistas de direita como Trump e Bolsonaro. Uma simetria entre aspectos do populismo e a recorrência de estratégias e componentes dos discursos e das fake news compartilhadas nas redes digitais. Por exemplo, os elementos estruturadores da cadeia de equivalências  que produz o líder como significante vazio e o antagonismo nós/eles estariam atualizados na mobilização digital através de hashtags, que operam como significantes vazios; e a recorrência de conteúdos criando uma multiplicidade e reiteração de falsas teorias conspiratórias manteriam os apoiadores permanentemente mobilizados contra um inimigo comum [19]. Outro elemento cibernético que potencializa o momento populista estaria na recursividade entre as ações do líder e do “povo”, que retroalimentam o sistema pela apropriação e reconfiguração por cada usuário da rede dos pacotes de bits, e pela redistribuição dentro do sistema [20]. Cabe destacar também o perfil histórico da relação entre líder populista e os meios de informação, onde as lideranças populistas sempre buscam controlar canais de mediação confiáveis entre líder e povo. A desqualificação dos meios tradicionais de informação e a tentativa de usufruir de um canal digital direto e exclusivo dos atuais líderes populistas de direita seria mais um indicativo desse populismo digital emergente [21].

Um outro elemento central ao populismo para Laclau e Mouffe – presente nas estratégias de digitalização do populismo – é a mobilização de afetos e paixões. No meio digital, esse elemento é explorado tanto pela utilização da psicometria como pela construção de argumentos reducionistas, baseados em emoções e julgamento morais e estéticos apoiados na escolha binária amigo/inimigo. Nesse sentido, encontramos nos meios digitais uma estética associada aos programas radiofônicos policialescos, a uma sociabilidade onde se equivalem emotividade e racionalidade (como a do futebol) [22]. Todos com a prevalência de símbolos e argumentos que fogem ao padrão estabelecido para o debate político: a paródia e o humor como arma retórica presente nos memes e nas fake news; a oposição entre alto e baixo muitas vezes escatológica, o simplismo e a grosseria como valor de pureza ou sinceridade, enfim: toda uma série de elementos que a análise histórico literária de Bakhtin vai associar à tradições seculares da praça pública[23] e da cultura popular[24]. Nesse sentido, a emergência de sujeitos populares desprovidos das ferramentas exigidas para a participação nos espaços que as democracias liberais institucionalizaram, junto com a mobilização desses sujeitos para um projeto político – utilizando estratégias convergentes com aquelas que Laclau e Mouffe identificaram como características do modo populista de organizar a ação política – obriga as democracias liberais a enfrentarem contradições que carregam desde o iluminismo, como aquela que separa a praça pública e a cultura popular da esfera pública, lugar da razão e da consciência ilustrada. Como sintetiza Barbero, a respeito do iluminismo e da modernidade: com o povo contra a opressão e contra o povo a favor da razão [25].

Haveria, assim, um aparato e uma estratégia populista digital posta em funcionamento a favor de um projeto reacionário nacional e global[26]. Conseguir capturar usuários das redes convertidos em escravos que se sentem livres e empreendedores para produzir esses efeitos de forma dócil, controlada e contínua, passa a ser a grande arte dessa política em tempos de guerra cibernética.

A disputa política de discursos sobre a pandemia nas mídias

Num contexto de crise da globalização neoliberal e de guerra cibernética, com seu pandemônio associados à digitalização do populismo, é que irrompe o acontecimento Covid-19.  Assim, a disputa política de discursos sobre a pandemia envolve velhas e novas mídias, governos, corporações transnacionais e outros atores geopolíticos interagindo com tecnologias tão opacas quanto violentas e eficazes. É com este olhar que temos analisado nos artigos desta série a disputa política entre os discursos científico e negacionista sobre a pandemia. E o aplicamos neste trabalho, ao focar nossa atenção nas mídias tradicionais, nas mídias digitais e na reconfiguração política resultante.

Para isso, no caso das mídias, particularmente as brasileiras, fizemos uso de dispositivos de monitoramento existentes acompanhando o período que vai desde fevereiro até julho de 2020, visando acessar as narrativas e os discursos sobre a pandemia tanto nas mídias tradicionais como nas mídias digitais [27].

Nas mídias tradicionais encontramos o alinhamento dos veículos corporativos com o discurso científico. Nos primeiros meses da pandemia da Covid-19, observou-se uma guinada em bloco do posicionamento editorial no sentido de adotar em uníssono o discurso científico. Num primeiro momento, a grande mídia impressa, representada pelos grupos Globo/Folha/Estadão, focava apenas impactos econômicos do vírus na economia mundial e seus reflexos na economia local. Até março, a saúde pública aparecia vinculada à má gestão estatal, e o jornal O Globo publicava nos editoriais dos dias 2 e 11 de março críticas ao SUS. Porém, no editorial do dia 17 de março, a Folha de São Paulo marcou uma virada (em seguida reproduzida pelos outros grandes grupos): Presidente confinado: Na crise do vírus, melhor deixar tarefas com capazes e Bolsonaro com bizarrices.  Nesse editorial, a Folha adotou um discurso que inclui termos como os mais vulneráveis à debacle, seja na saúde, seja na renda, exigem socorro prioritário. A asfixia econômica também requererá ações para que o mergulho passageiro não deflagre uma onda de falências[28]. No dia 30 de março, o jornal O Globo publicou elogios ao SUS e seus editoriais passaram a assumir a defesa das instituições como o próprio SUS e o Ministério da Ciência e Tecnologia, em oposição ao negacionismo do presidente Bolsonaro. Essas transformações coincidem com a oficialização da pandemia pela OMS, com a Europa convertida no centro da crise e com a chegada da Covid-19 no Brasil e nos EUA. Essas tendências se mantiveram durante o mês de abril, com maior intensidade após a demissão do então Ministro Mandetta.

A partir de maio de 2020, o tema pandemia Covid-19 passa a dividir espaço com a crise política do governo Bolsonaro. Os editoriais do grupo Globo mantiveram a defesa do isolamento social opondo-se à retomada das atividades econômicas, apoiando-se no discurso científico. E ampliou suas críticas ao governo Bolsonaro, dando espaço à saída de Moro do Ministério da Justiça, a divulgação da gravação da reunião ministerial, as interferências na Polícia Federal e as crises com os governadores. À essa diretriz de oposição ao governo federal acrescentou o tópico econômico, centrado no controle dos gastos estatais e nas ameaças que políticas sociais representariam para o futuro econômico do país. O Estado de S. Paulo foi mais agressivo nas críticas ao governo Bolsonaro e suas articulações no Congresso e, ao mesmo tempo, mais relativista na abordagem científica ao dar maior espaço para temas sobre os efeitos econômicos da pandemia. O Estado de São Paulo também se diferenciou por responsabilizar Lula e o PT pela ascensão e erros do governo Bolsonaro no enfrentamento da Covid-19. A Folha, por sua vez, retomou seu viés economicista, deixando a pandemia em segundo plano para destacar reformas econômicas, mas também ampliou as críticas à Bolsonaro, destacando a saída de Moro e a divulgação da reunião ministerial. No final de maio os três veículos convergiram para a temática da defesa da democracia, propondo uma união contra ameaças à liberdade representadas por Bolsonaro, defendendo também que essa união não deveria incluir nem Lula nem o PT, pois estas seriam forças “antirrepublicanas”.

Ao mesmo tempo, a televisão ampliou sua credibilidade na crise da Covid-19[29]. Em pesquisa Datafolha realizada entre 19 e 20 de março de 2020, a TV alcançou 61% de confiança nos seus conteúdos, pela primeira vez na história superando a imprensa que obteve 58% de confiança. A audiência da TV Globo subiu e ultrapassou todas as outras emissoras somadas. A linha editorial cobrou do governo liderança no combate à pandemia, criticou sua omissão e defendeu o aumento dos gastos públicos. O ex-ministro Mandetta era apresentado como voz consciente em oposição à Bolsonaro. Em março, o principal telejornal da TV Globo criou uma seção para desconstruir argumentos contrários ao isolamento. A neutralidade habitual dos jornalistas âncoras deu lugar à uma apresentação mais emotiva das notícias com a atualização diária das mortes por Covid-19. Apenas a cobertura da TV Record se diferenciou, focando dramas pessoais dos afetados pela doença e, apesar de seguir em defesa do governo Bolsonaro, chegou a veicular informações científicas.

De forma sintética, podemos apontar as seguintes tendências nas mídias tradicionais: (1) um movimento em bloco das mídias tradicionais; (2) exclusão sistemática do campo político oposto às agendas que defende, ou seja, a cobertura das mídias tradicionais não abre espaço para o antagonismo inerente ao político, produzindo a “inexistência” da pluralidade social e de lideranças sem alinhamento com suas pautas liberais conservadoras; (3) a defesa em bloco das posições cientificas a partir da metade de março; (4) contínua ampliação também em bloco das críticas ao governo Bolsonaro, mas defesa da agenda conservadora na economia; (5) a partir de meados de março, o SUS, a ação estatal, políticas sociais e medidas emergenciais na economia passaram a ser aceitas; (6) narrativas polarizadas entre “heróis” sanitaristas – profissionais de saúde, ex-ministro Mandetta, governadores e vilões do negacionismo – Bolsonaro e Trump; (6) na TV, a defesa do discurso científico e de políticas sociais e econômicas emergenciais é mais espetaculosa; (7) a pandemia da Covid-19 fortalece as mídias tradicionais como veículos confiáveis; (8) o alinhamento automático entre Bolsonaro e Trump passou a ser objeto de crítica; (9) a cobertura da pandemia na América Latina é incipiente e invisibiliza governos não alinhados aos padrões neoliberais.

A análise das mídias tradicionais tem corroborado a tese de hiper-partidarização. Por exemplo, pela restrição ao acesso de pautas não alinhadas à agenda neoliberal e pela exclusão da pluralidade da atores e agendas que caracterizam as sociedades democráticas e o momento político. É significativo que ganhem espaço e relevância nesses aparelhos de promoção, defesa e reverberação do pensamento liberal conservador as causas e os objetivos relacionados à pandemia Covid-19 e à adoção do discurso científico. Nesse sentido, o contexto do acontecimento da pandemia Covid-19 alterou em alguma medida padrões discursivos que, pelo menos temporariamente, deixaram em segundo plano a agenda econômica antiestatal. Finalmente, o alinhamento corporativo entre os veículos também é indicativo dessa hiper-partidarização, com previsíveis reflexos nos padrões de democracia vigentes.

Nas mídias digitais, o alinhamento com o discurso científico das mídias tradicionais se fragmenta e polariza, talvez pelas próprias características do meio digital. Práticas discursivas negacionistas ganham maior visibilidade no WhatsApp (rede digital popular estruturada em grupos privados de compartilhamento), associado ao YouTube, um dos principais destinos dos redirecionamentos de links postados no WhatsApp. Ambos configuram um ecossistema digital[30] que envolve também sites de notícias, blogs de opinião e perfis de outras redes digitais como Facebook e Instagram, e que até recentemente tinha nos algoritmos do YouTube a matriz geradora dos fluxos de propagação da polarização política e dos discursos de ódio nas redes sociais[31].

As mídias digitais são o espaço de divulgação e reprodução priorizadas pelos porta vozes do discurso negacionista. O Twitter é o principal meio de comunicação direta do presidente com seus apoiadores. Diariamente, pelo menos uma tag relacionada ao governo consegue alcançar os Trending Topics. Às quintas-feiras o presidente realiza uma live transmitida em seu canal oficial do Youtube, onde fala sobre assuntos que ocorreram ao longo da semana.

Nas redes digitais concentra-se o reforço da polarização através de publicações impulsionadas de forma simétrica ao isolamento político do presidente. Num primeiro momento, declarada a pandemia e adotadas as medidas de isolamento, observou-se uma aproximação entre os discursos nas redes digitais e nas mídias tradicionais [32]. No dia 12 de abril, um post publicado pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (DAPP/FGV) informava: “Análise de rede: medidas contra a pandemia preocupam mais do que seu impacto econômico”[33]. Porém, após a demissão de Mandetta, a saída de Moro e a divulgação da reunião presidencial, o núcleo bolsonarista aumentou a sua participação nas redes e, de forma simultânea, ocorreu nelas uma queda do tema pandemia. Esse movimento se repete em sintonia com as crises e movimentos do governo federal, o que garantiu ao longo do mês de maio diversos momentos de supremacia dos grupos alinhados com o discurso negacionista, sendo que o momento de maior presença de perfis pró presidente foi no episódio das ações policiais contra as fakenews: Investigações contra blogueiros e aliados do presidente geram forte movimento de defesa no Twitter, levando grupo bolsonarista a reunir 27% do debate público no país, maior percentual desde o início da pandemia de Covid-19[34] .

No WhatsApp, persiste sempre a dominância de fakenews pró negacionismo e a defesa do governo do presidente. No Instagram, há uma significativa presença de perfis pró-bolsonaristas seguido de uma diversificação equilibrada entre perfis institucionais, de lideranças políticas e influencers de viés científico. No entanto, no Twitter a interação entre uma maioria politicamente indefinida e a base de oposição ao governo tem garantido uma dominância das abordagens cientificas, opostas ao governo do presidente e seu negacionismo. As publicações mais acessadas no YouTube, por outro lado, têm um recorte científico, a maioria geradas pelos grupos corporativos das mídias tradicionais. No Facebook, o perfil dos conteúdos se mostra também mais articulado com a perspectiva cientifica[35].

Apesar dos esforços da base do presidente, mesmo nas mídias digitais e mesmo com picos esporádicos que essa base gera a cada crise governista que se sucede, a tendência prevalente ao longo do mês de junho foi de ampliação da base de oposição ao governo do presidente e ao negacionismo: na última semana, observa-se grande centralidade de influenciadores virtuais em três dos cinco diferentes grupos que se mobilizaram contra o governo federal. Os youtubers Felipe Neto e Átila Iamarino se destacaram entre os perfis que criticaram a alteração da divulgação de dados sobre a Covid-19 e o humorista Whindersson Nunes mobilizou perfis não alinhados em tuítes bem humorados com críticas ao governo federal. Entre os atores políticos, houve baixo engajamento, com destaque para lideranças de partidos de esquerda, como o PSOL e o PT [36].

Buscando identificar o perfil das informações enganosas compartilhadas nas redes digitais ou por aplicativos de mensagens[37], e a partir de uma amostra levantada por 24 diferentes veículos de comunicação[38], acessamos a natureza das fakenews mais difundidas e suas articulações com os discursos políticos sobre a pandemia da Covid-19. O que se destaca nessa análise é a massiva articulação entre fakenews e os discursos negacionistas e uma simultaneidade das publicações das fakenews com fatos políticos relacionados ao negacionismo do presidente e seus apoiadores. No WhatsApp, cloroquina e China são as pautas centrais, com destaque para as fakenews contrárias ao isolamento: Médico responsável por superdosagem de cloroquina que matou paciente é petista/ a China vai se lascar de verde e amarelo/ Brasil descobre remédio com 94% de eficácia no combate à Covid-19, diz MCTIC/ Índia arrasta China a tribunal internacional pela guerra biológica da Covid-19/ Economista-chefe da FAO alerta para o risco de escassez de alimentos em função de medidas de quarentena [39].

Assim podemos identificar as seguintes tendências nas mídias digitais: (1) modelos editoriais corporativos que passam a integrar mídias tradicionais e mídias digitais; (2) a prevalência de conteúdos com abordagens cientificas, mais acessadas e compartilhadas no YouTube e no Facebook; (3) Na rede WhatsApp, dominam fluxos comunicacionais subterrâneos, que propalam em escalas exponenciais fakenews com narrativas negacionistas e bolsonaristas, e que garantem a dominância desses discursos na rede; (4) No Instagram, verifica-se a presença de conteúdos negacionistas a partir de influencers ligados ao bolsonarismo, contrapostos pela presença significativa de conteúdos científicos em perfis diversificados; (5) uma tendência de polarização impulsionada pelas bases governistas nas redes sociais, sempre associada às crises do governo federal; (6) uma diferenciação dos territórios digitais, onde o negacionismo vai se consolidando em espaços populares como Whatsapp, com prevalência de fakenews em formatos de paródias e memes; (7) YouTube como um campo de luta dividido por publicações cientificas e negacionistas, mas com tendência de maior acesso às publicações das mídias tradicionais e de instituições oficiais de natureza cientifica.

A reconfiguração política com a disputa dos discursos científico e negacionista

As disputas de discursos políticos, com suas narrativas, remetem a uma confrontação entre diferentes práticas e projetos. Diante de situações que saem da normalidade, como as que envolvem a pandemia da Covid-19, as soluções e propostas para enfrentá-la implicam em escolhas por parte de suas lideranças não só de saúde pública, mas políticas. Tais escolhas, para além dos componentes técnicos ou administrativos, expressam também as disputas antagônicas do político [40] – e dos discursos políticos em particular – com sua capacidade de reconfigurar as identidades contingentes de sujeitos políticos para os quais se orientam as ações. Essa reconfiguração das identidades políticas, ao fazer crescer ou diminuir a adesão às lideranças e aos seus projetos, expressa a mudança das correlações de força entre os atores e blocos de poder com seus projetos de sociedade em disputa. Assim, a disputa entre os discursos negacionista e científico (com suas falas, ações, propostas e performances) é uma disputa política, e seus impactos na reconfiguração das identidades políticas dos brasileiros pode ser acompanhada também nos resultados das pesquisas de opinião sobre o desempenho, apoio ou rejeição dos governantes.

No Brasil, os resultados das pesquisas variam ao longo da pandemia. Cabe deter-se inicialmente na pesquisa da Vox Populi, feita entre 18 e 26 de abril, com resultados por estratificações de regiões, escolaridade e renda. Nela a aprovação do presidente aumentou em todas as regiões pesquisadas, como no Nordeste, local em que ele possuía uma maior rejeição: sua reprovação diminuiu para 41%, ao passo em que a aprovação subiu 15 pontos, alcançando um total de 27%. No Centro Oeste e Norte, a aprovação aumentou, chegando a 43%, mas a reprovação também, alcançando os 31%. No Sul o aumento da aprovação foi significativo, chegando a 45%, mantendo-se a reprovação em 32%. No Sudeste, a aprovação aumentou para 34% e a reprovação diminuiu, chegando em 41%.  Já em relação à escolaridade, houve uma polarização dos resultados segundo as faixas. No grupo com apenas Ensino Fundamental a aprovação aumentou para 42%, revertendo a tendência anterior, enquanto a reprovação, que crescia, diminuiu para 30%. No grupo com ensino médio, a aprovação aumentou para 33% enquanto a reprovação subiu 14 pontos chegando aos 40%. Entre os que tem ensino superior, a aprovação desceu para 24% e a reprovação disparou, alcançando 55%.  Em relação à renda familiar, a reprovação entre os de renda baixa diminuiu para 38%, enquanto a aprovação aumentou para 24% (existindo uma correlação com a tendência do grupo de escolaridade até o ensino fundamental). De forma similar, o grupo de renda média acompanha a tendência dos escolarizados com ensino médio: a reprovação se mantém em 38%, mas a aprovação aumenta para 36%. No grupo de renda alta – diferentemente dos que possuem ensino superior – cresce tanto a rejeição, para 43%, como também a aprovação, com 37%.

Assim, esta leitura mais detalhada dos dados da pesquisa da Vox Populi de abril, permitiria identificar que, após a instalação da pandemia, haveria uma mudança na base eleitoral do presidente. Parte da classe média (grupos de maior renda e mais escolarizados) teria rejeitado o discurso negacionista do presidente. Porém, esse discurso – junto com o auxílio emergencial liberado – teria ganhado eco nos setores populares. É bem significativa a diminuição da rejeição no NE, que integra a base do lulismo. Seria parte do “subproletariado” de Singer[41], isto é, membros das classes E, D e C, com condições econômicas limitadas num contexto de agravamento do desemprego. Nesse contexto difícil, ante os impactos da pandemia Covid-19, ficaram mais sensíveis as práticas discursivas do presidente que priorizam eixos como renda (coronavoucher [42]) e a volta ao trabalho.

Posteriormente, em junho, durante o crescimento da pandemia, se olhamos para pesquisas realizadas por diferentes institutos sobre o governo – como Datafolha[43], XP/Ipespe[44], Atlas[45] e DataPoder360[46] – podemos visualizar que a polarização em torno das avaliações ótima/boa e ruim/péssima aumentou, devido à uma migração dos que consideravam o governo regular e dos que “nada sabiam”. A polarização em curso, no contexto da globalização neoliberal, articula-se à uma lógica de redução do debate ao embate entre duas narrativas opostas, mas igualmente pré-estabelecidas [47]. Além dessa polarização, em maio e nas três primeiras semanas de junho, em geral, podemos considerar que o apoio ao presidente tende a se estabilizar, apesar das variações que as diferentes pesquisas apresentam[48].

Ao final de junho e início de julho de 2020 (25/06-03/07), houve uma nova pesquisa da Vox Populi, com resultados por estratificações de regiões, escolaridade e renda. Cabe nos determos nela. Em relação à pesquisa anterior, realizada em abril, a aprovação do presidente aumentou somente no Nordeste, chegando a 32% depois de crescer 5 pontos, local em que Bolsonaro possuía uma maior rejeição. Apesar disso, sua reprovação na região aumentou de 41% para 44%. Em todas as outras regiões, se constatou um aumento da reprovação e uma diminuição da aprovação. O presidente perdeu mais apoio no Sudeste, a região com maior número de vítimas da Covid-19[49], onde a aprovação caiu 10 pontos, chegando a 24%, e a reprovação também subiu 10 pontos, chegando a 51%. As taxas de aprovação e reprovação no Sudeste atingiram o menor e maior percentuais quando comparamos com outras regiões. O Sul se consolida como a região onde o presidente possui o maior índice de aprovação, apesar da queda de 45% para 41%, ao passo que, mesmo no Sudeste, a reprovação subiu 4 pontos chegando à 36%. Já no Centro Oeste e Norte, a aprovação caiu 8 pontos, chegando aos 35%, enquanto a reprovação subiu de 31 para 34%.

Em relação à escolaridade, a aprovação do presidente só subiu entre os que tem Ensino Superior, subindo 6 pontos e chegando aos 30%. Apesar disso, foi nesse grupo que o presidente obteve menor percentual de aprovação. O mesmo acontece em relação à reprovação, que também atingiu o seu maior índice, chegando aos 51%, ainda que tenha caído 4 pontos. No grupo com apenas Ensino Fundamental, a aprovação diminuiu 9 pontos, chegando aos 33%, ao passo que a reprovação chegou aos 40%, com crescimento de 10 pontos. No grupo com Ensino Médio, a aprovação diminuiu 5 pontos chegando aos 33%, enquanto a reprovação subiu 6 pontos, chegando aos 46%.

Já em relação à renda familiar, no grupo de renda alta, acompanhando tendência do grupo com Ensino Superior, a aprovação do presidente aumentou de 37% para 41%, enquanto a reprovação caiu 2 pontos chegando a 41%. A aprovação diminuiu mais entre os de renda baixa, alcançando 26% após cair 8 pontos, enquanto a reprovação subiu 5 pontos chegando aos 43%. Já o grupo de renda média foi o que mais reprovou o presidente: alcançou 48% após subir 10 pontos. A reprovação aqui caiu 6 pontos, chegando aos 30%.

Relacionando todas as variáveis, teríamos que a base do presidente continua forte na região Sul do país e aumenta no Nordeste. Porém em termos de escolaridade e renda, nota-se uma nova variação dessa base. As camadas médias com ensino médio e superior continuam insatisfeitas, porém, as camadas de baixa renda e ensino fundamental revertem a tendência de apoio crescente e passam a demostrar sua insatisfação com o desempenho do presidente. Ao passo que, apesar de sentirem-se insatisfeitas, ele recupera apoio nas camadas de alta renda e ensino superior.

Cabe destacar que, além dos discursos sobre a pandemia e dos eventos relacionados à ela, como as demissões de Luiz Mandetta, no dia 16 de abril, e de Nelson Teich, no dia 15 de maio, outros fatos  contribuíram para o crescente aumento das avaliações negativas, como a demissão de Sérgio Moro, no dia 24 de abril, a divulgação do vídeo da reunião ministerial, no dia 22 de maio, e a prisão de Fabrício Queiroz, no dia 18 de junho.

Essa tendência de aumento da rejeição e sua diversidade de causas fica mais nítida nas mídias sociais. Segundo análise de tweets realizada pelo Núcleo Jornalismo [50], dos dias 17 de março a 4 de abril [51], 71% de todas as interações foram realizadas em tweets negativos ao presidente, ao passo que apenas 20,5% foram positivas. Um levantamento realizado pela DAPP/FGV mostra que a demissão de Moro gerou amplo repúdio contra o governo no Twitter, alcançando quase 70% dos perfis engajados no debate nas redes e dividindo a própria base de apoio do presidente Bolsonaro, superando a demissão de Mandetta, que chegou a mobilizar 60% dos perfis[52].

A participação do presidente em algumas manifestações e carreatas que pediam um novo AI5, o fechamento do Congresso Nacional e do STF, também parece ter contribuído para o aumento da avaliação negativa. Em pesquisa sobre Democracia x Ditadura[53] realizada pelo Instituto Datafolha nos dias 23 e 24 de junho de 2020, a resposta “Democracia é sempre melhor do que qualquer forma de governo” atingiu os 75%, o maior percentual desde sua primeira realização, em 1989. As respostas “tanto faz se é uma democracia ou uma ditadura” e “em certas circunstâncias é melhor uma ditadura do que um regime democrático”, atingiram 12% e 10%, respectivamente, alcançando também os menores percentuais desde 1989. A tendência é de que a avaliação regular migre ainda mais para o polo negativo, tendo em vista diversos eventos ainda em curso com potencial de ferir ainda mais a imagem do governo, como o inquérito aberto pelo STF sobre fakenews, a aproximação com o Centrão associado à corrupção, o aumento diário do número de mortes por Covid-19, o aumento do desemprego e a piora das condições de vida.

O relatório Ciência Contaminada, realizado pelo LAUT, INCT.DD e Cepedisa[54] que analisou as campanhas de desinformação sobre o Covid-19 a partir do YouTube, chegou à conclusão que duas teorias da conspiração se destacam  no discurso negacionista: narrativas de cunho geopolítico, culpando a China pela produção do vírus como arma biológica e usando-a para fins econômicos; e narrativas de cunho religioso, que buscam enquadrar a pandemia num contexto de simbologia bíblica, e por vezes endossam visões e recomendações sobra o vírus e a doença que contrariam orientações científicas e médicas. As redes religiosas identificadas na pesquisa acumularam mais de 11 milhões de visualizações, 1 milhão de curtidas, 67 mil comentários e 142 mil horas de vídeo, sendo formadas por canais como o do Pastor Silas Malafaia e do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira, que utilizam dados científicos distorcidos para minimizar os efeitos da pandemia. Nesse discurso negacionista destacam-se ainda referências à Jesus, Bíblia e Apocalipse que se unem à defesa de valores de nação e família, do modo de vida ocidental e do capitalismo para a crítica da histeria em torno das medidas de combate à pandemia.

No discurso negacionista no Brasil, junto a este descrédito da ciência – traduzido na relativização dos riscos e efeitos da Covid-19 – se expressa a desqualificação das instituições com a guerra entre os poderes. A polarização e o conflito, o confinamento do debate na dimensão antagônica do político[55] e as fakenews, são parte, ao mesmo tempo, tanto da construção do discurso negacionista como do modo de governar do presidente. A oposição ao governo, que contempla desde setores progressistas até parte da direita, além de mobilizar o discurso científico de combate à Covid-19, não deixa de explorar os problemas do presidente com ministros, as operações contra fakenews envolvendo a base bolsonarista e a aproximação com o Centrão no Congresso. Portanto, a reconfiguração política que compreende o enfraquecimento do presidente e a reorganização da direita é multicausal, ainda que tenha no negacionismo e na pandemia Covid-19 um centro articulador.

Quando analisamos outros líderes no âmbito internacional, a adesão ao discurso negacionista ou científico – articulada a outros elementos políticos econômicos que se potencializam no contexto da pandemia – parece estar relacionada também à perda ou ganho de popularidade.

Em pesquisa do Opina Argentina[56], realizada em 28 e 29 de março de 2020, a imagem positiva do presidente Alberto Fernández subiu 24% em relação à pesquisa realizada em fevereiro de 2020, passando de 58% para 82% (soma das imagens muito boa, 56%, e boa, 26%).  Porém, com a manutenção da quarentena e com o recrudescimento da oposição, a percepção positiva do presidente começou a cair alguns pontos percentuais a partir de maio, segundo pesquisa do Instituto Opinaia[57]: em fevereiro, Fernandez detinha 55%; em abril, 76%; em maio, 71%; e em junho, 64%. Apesar disso, Alberto Fernández, um dos principais defensores do discurso científico no combate à pandemia a nível internacional, ainda detém um grande apoio popular, ainda mais comparado a dois dos principais emissores do discurso negacionista: Trump e Bolsonaro.

Por outro lado, o presidente dos EUA, segundo pesquisa Reuters/Ipsos[58] realizada entre 10 e 16 de junho de 2020, possui 55% de desaprovação na forma com que lida com a Covid-19, e 40% de aprovação. Comparando com pesquisa dos mesmos institutos realizada em 2 e 3 de março de 2020, Trump possuía 47% de desaprovação e 38% de aprovação. O presidente teve um aumento de 8% na desaprovação e perda de 2% na aprovação. Uma tendência de avaliação parecida com a do presidente do Brasil em determinado período, na qual as avaliações extremas sobem, com predominância da negativa. Isso significa uma maior fidelização da base, que enfrentaria uma oposição maior e crescente. Caso a eleição presidencial dos EUA fosse no dia 17/06, Trump, com 35% das intenções de voto entre os eleitores registrados, perderia para o democrata Joe Biden, que possuía 48% das intenções no momento.

Recuperando pistas sobre mídias, disputa de discursos e momento populista

Apesar do uso mais eficaz das mídias digitais por parte da extrema-direita nos últimos anos, representado pelas vitórias improváveis de Trump, Bolsonaro e do Brexit, há de se notar a eclosão de manifestações e protestos progressistas recentes construídos a partir de continuidades online e offline. Um dos mais significativos e mais atuais é o Black Lives Matter, movimento contra a violência policial e contra a discriminação e desigualdade raciais, originado em comunidades afro-americanas em 2013, com intenso uso das mídias sociais e com efeitos em diversos países. Em 2020, a difusão de vídeos que mostravam o assassinato de George Floyd por um policial em Minneapolis, quando este se ajoelhou no pescoço da vítima por 8 minutos e 46 segundos, enquanto ela dizia “I can’t breathe“, desencadeou intensos protestos que levaram a debates sobre as diversas expressões e dimensões do racismo em todo mundo.

A partir do olhar de Laclau, que destaca o caráter contingencial do político[59], podemos afirmar que as mídias sociais são estruturas tecnológicas e comunicativas disponíveis a grupos políticos de quaisquer espectro ideológico, mas que, no contexto atual, são parte fundamental da atuação política de líderes populistas de direita, que por meio de fakenews difundem o discurso negacionista no combate à Covid-19. No Brasil, esse discurso se une a elementos extra-pandemia relacionados a demissões de ministros, a processos contra militantes bolsonaristas, à protestos antidemocráticos, a aproximação com o Centrão, à crise econômica, e tem provocado um aumento da avaliação negativa do presidente, apesar do apoio de sua base se mostrar resiliente. Outro ponto importante é que a duração das medidas de isolamento social decretadas pelos governantes nos estados e municípios parecem ter um peso sobre a avaliação deles. Se os governadores dos Estados se fortaleceram em um primeiro momento a partir de um discurso científico de combate à Covid-19, pode-se afirmar que a população tem ficado menos tolerante com as medidas de isolamento social ao longo do tempo, levando a uma perda de popularidade desses governantes enquanto a vida não “volta à normalidade” de um “mundo sem pandemia”.

A análise dos discursos negacionista e científico nas mídias brasileiras, articulada com as variações das pesquisas de opinião sobre o governo do presidente fortalecem a hipótese do potencial do acontecimento pandemia Covid-19 gerar reconfigurações de relações hegemônicas. Um elemento significativo desse potencial está nos movimentos das grandes corporações de mídia que no quadro de hiper-partidarização e polarização operam como bloco transnacional de reverberação dos dogmas neoliberais. Ao flexibilizar os discursos economicistas e antiestatais esse bloco indicaria uma nova linha de causalidade que orientaria as estratégias do pensamento liberal conservador e os interesses financeiros hegemônicos, com possíveis rupturas nas configurações de poder e interesses econômicos que, até então, davam sustentação a esse bloco.

Ao mesmo tempo, o debate entre discursos negacionistas e científicos dá maior visibilidade às continuidades entre mídias tradicionais e mídias digitais, pela reconfiguração dos modelos de negócio das grandes corporações de mídia que ampliam seus territórios digitais, como também pela manutenção de um padrão comunicacional de confinamento do espaço público a um campo binário e pré-formatado, que reduz ou elimina potenciais dialógicos e criativos presente em sociedades complexas e plurais, tendo como uma ou principal consequência inviabilizar a emergência de projetos de sociedade e visões de futuro diversas e inovadoras. De alguma forma, o acontecimento pandemia Covid-19 não só torna mais evidente esse bloco de reverberação conservadora como também abre brechas numa configuração historicamente associada à globalização neoliberal, que nos trouxe ao atual isolamento social e à catástrofe ecológica.

E a análise dos discursos científico e negacionista nas mídias digitais confirma sua articulação com contextos políticos, econômicos e culturais que transcendem a dimensão tecnológica e contesta visões de história reduzidas a história das técnicas. Essas análises indicaram o potencial do acontecimento pandemia Covid-19 para suspender configurações hegemônicas, mas também iluminam a guerra cibernética em curso, onde o conceito de “informação” precisa ser repensado na sua dimensão técnica, política e cultural. Uma guerra cibernética movida por algoritmos opacos, mas que traduz projetos de poder e dominação global concretos, localizados e históricos.

Ao mesmo tempo, as práticas políticas nas redes digitais atualizam as categorias de Laclau e Mouffe para um novo contexto, onde mais do que nunca as identidades políticas não são representadas, mas construídas no campo político, dentro de uma lógica relacional, contingente e antagônica. E, como já apontamos, a competência para manipular esses processos relacionais, mediados pelas ferramentas digitais com seus opacos algoritmos, parece ser a grande arte da política populista de direita em tempos de pandemônio cibernético.

No entanto, é preciso avançar para além do imediato, e dos seus algoritmos para analisar a dialética do populismo não como uma ideologia, mas como uma prática apta a ser mobilizada tanto por forças conservadoras e opressoras como por projetos progressistas e emancipatórios. As relações entre redes digitais e política nos traz a emergência de sujeitos populares dentro de uma nova configuração do fazer político. Uma nova configuração presente no perfil de novos atores que incidem no debate político; nas relações entre espaços público, privado e ação política nas redes digitais; no papel ativo que sujeitos populares e isolados assumem dentro de fluxos descentralizados de mobilização e de ação política; nas estratégias e ferramentas de manipulação desses fluxos; na emergência de novos campos retóricos que articulam argumentos racionais e passionais associados a esses atores e sujeitos; e na dimensão que valores, crenças e toda a diversidade de práticas e identidades culturais assume nessa nova retórica política.

A dimensão e a força dessa nova configuração, seus vínculos com o “momento populista” e os desafios que impõem aos processos democráticos tornam-se centrais para a reflexão e para a prática política. E, ao mesmo tempo, recolocam no centro dos debates atuais e futuros uma pergunta presente na história das democracias liberais desde suas origens iluministas: qual o lugar do “povo” na política? No próximo artigo da série recuperaremos esta e outras questões relativas sobre o futuro pós-pandemia no olhar de intelectuais e ativistas.

 

Jorge Osvaldo Romano, Paulo Augusto André Balthazar, Renan Alfenas de Mattos, Thais Ponciano Bittencourt, Liza Uema, Eduardo Britto Santos, Annagesse de Carvalho Feitosa, Paulo Petersen, Juanita Cuellar Benavídez, Daniel Borges , Daniel Macedo Lopes Vasques Monteiro, Ana Carolina Aguiar Simões Castilho, Caroline Boletta de Oliveira Aguiar, Érika Toth Souza, Larissa Rodrigues Ferreira, Myriam Martinez dos Santos, Vanessa Barroso Barreto  são pesquisadoras e pesquisadores do grupo de pesquisa “Discurso, Redes Sociais e Identidades Sócio-Políticas (DISCURSO)” vinculado ao Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento Agricultura e Sociedade e ao Curso de Relações Internacionais do DDAS/ICHS da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, registrado no CNPq e com apoio de ActionAid Brasil

 

 [1] mas em  alguns setores a acumulação se amplia: agronegócio e distribuição de alimentos, serviços de entrega, infraestrutura de home office e grandes corporações digitais: Amazon, Apple, Microsoft, Google, Facebook in:   https://www.segs.com.br/mais/agro/240056-agronegocio-acumula-ganhos-mesmo-em-tempos-de-pandemia e também in: https://forbes.com.br/forbes-insider/2020/04/pesquisa-revela-os-setores-que-estao-se-dando-bem-na-crise-causada-pela-pandemia/.

[2] Zaffaroni E.R: La cuestión Criminal, in: https://www.pagina12.com.ar/diario/especiales/18-175157-2011-08-23.html.

[3] Casanova, P. G., Las nuevas ciencias y las humanidades: de la academia a la política publicado, Ed. Boitempo, São Paulo, 2004.

[4] Pandemônio 1, (pandemonium) Nome imaginado pelo poeta inglês Milton (1608-1674) para designar a corte dos infernos. 2 Conluio de indivíduos para fazer o mal ou armar desordens. 3 Balbúrdia, tumulto MICHAELIS: moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo: Melhoramentos, 1998.

[5] Idem nota 3.

[6] Snowden, E. Eterna Vigilância, Ed. Planeta do Brasil, São Paulo, 2019.

[7] Zuboff, S. Big Other: capitalismo de vigilância e perspectivas para uma civilização da informação, in: Tecnopolíticas da Vigilância: perspectivas da margem. org.: Fernanda Bruni [et al], Ed. Boitempo, São Paulo, Brasil, 2018.

[8] As fakenews têm uma longa história nos meios de comunicação de massa, mas ganha significado específico no atual contexto tecnológico. O que caracterizaria fakenews hoje é sua inserção no quadro de hiper-partidarização das mídias, onde o que importa na notícia não é ser falsa ou verdadeira, mas ser a informação de combate. Márcio Moretto Ribeiro & Pablo Ortellado, “O que são e como lidar com as Notícias Falsas,  Dos sites de notícias falsas às mídias hiper-partidárias”  in: https://sur.conectas.org/wp-content/uploads/2018/07/sur-27-portugues-marcio-moretto-ribeiro-pablo-ortellado.pdf

[9] A Fox News tem sido descrita como divulgadora de reportagens tendenciosas em favor do Partido Republicano, das administrações de George W. Bush e Donald Trump e de causas conservadoras, enquanto calunia o Partido Democrata e espalha propagandas nocivas destinadas a afetar negativamente o desempenho eleitoral de seus membros Os críticos citaram o canal como prejudicial à integridade das notícias em geral Os funcionários da Fox News disseram que as reportagens operam independentemente de sua opinião e programação de comentários, e negaram o viés nas reportagens, enquanto ex-funcionários disseram que a Fox ordenou que eles “inclinassem as notícias em favor dos conservadores”. Durante a presidência de Trump, os observadores notaram uma tendência pronunciada da Fox News para servir como “porta-voz” do governo, fornecendo “propaganda” e um “ciclo de feedback” para Trump, com um estudioso presidencial afirmando: “é o mais próximo que temos de uma TV estatal”  in: https://pt.wikipedia.org/wiki/Fox_News_Channel.

[10] Ribeiro e Ortellado, 2018 (ver nota 7).

[11] Esse modelo chega ao Brasil em especial após a ascensão de governos populares trabalhistas, quando se naturalizaram os chamados factoides, legitimando a desconexão entre fato e versão e abrindo espaços para pautas fundamentalistas. Um modelo comunicacional que constrói o ambiente linguístico de negação da diferença e obstrução do debate político no cotidiano.

[12] https://jornalggn.com.br/analise/a-eleicao-de-donald-trump-e-o-fim-do-neoliberalismo-progressista-por-nancy-fraser/.

[13] As relações entre mito e política estão associadas a visões fatalista do mundo e do Estado, como o there is no alternative de Margaret Tatcher e Ronald Reagan, que pauta a globalização neoliberal há 40 anos. Uma negação da política que produz movimentos semelhantes aos analisados por Cassirer no ambiente político e cultural que produziu o nazismo na Alemanha, quando trabalhadores empobrecidos e humilhados foram convertidos em guerreiros brancos arianos. Cassirer opõe uma esfera secular, em que o homem confia nas suas habilidades para resolver questões materiais e culturais, a outra esfera mágica acessada quando se defronta com situações de crise, esgotamento, colapso ou limites dos recursos materiais e culturais existentes. Nesses momentos, que também caracterizam a tragédia como gênero literário, as habilidades relacionadas ao pensamento racional são substituídas pelo poder do miraculoso ou transcendente relacionados ao pensamento mítico (Cassirer, E. O Mito do Estado, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1976). Essa mesma oposição entre visões de um Estado secular ou de um Estado mágico, a escola de Frankfurt irá reproduzir opondo história e mito. Em ambas, a questão subjacente diz respeito à concepções iluministas que opõem razão, história e política à emoção, mito e fé.

[14] Para Laclau o populismo é um entre outros modos de constituição de uma relação política entre agentes sociais. Essa constituição se dá pelo que denomina de prática articulatória populista. Uma articulação entre diferentes demandas originada em diferentes agentes sociais que, tendo como pressuposto sua permanente insatisfação derivada da incapacidade do sistema institucional em atendê-las, estabelecem entre si uma relação de equivalência, e constituem uma subjetividade social mais ampla na condição de demandas populares, em oposição antagônica com esse poder instituído incapaz de absorvê-las. O povo como uma identidade popular e como ator político se constitui quando essas diversas demandas são unificadas num significante vazio que passa a representar todo o conjunto de equivalências. Um significante vazio que dá ao conjunto heterogêneo e descontínuo de significados uma unidade e uma continuidade histórica. Dessa forma, o momento populista, para Laclau é sempre uma articulação contingente que depende dessa construção de um povo, que mesmo sendo uma parcialidade do todo social, se apresenta como única totalidade legitima em oposição a uma outra parcialidade que representa o poder instituído (Laclau, E. A Razão Populista, Ed. Três Estrelas, São Paulo, 2011, págs. 122 a 128).

[15] Ver entrevistas de Steve Bannon: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/24/internacional/1553454729_290547.html e https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,o-populismo-e-o-futuro-da-politica,70002724328

[16]  Um verdadeiro afogamento das timelines por conteúdos que reforçam um determinado viés (firehosing) que associado a outras estratégias digitais como as fakenews e micotarketing  produzem “bolhas” ideológicas.

[17] Cesarino, L., Como vencer uma eleição sem sair de casa: a ascensão do populismo digital no Brasil, Internet & Sociedade n.1/ v.1, fevereiro 2020, págs. 91-120, in: https://revista.internetlab.org.br/wp-content/uploads/2020/02/Como-vencer-uma-eleição-sem-sair-de-casa.pdf.

[18] Particularmente a articulação de uma cadeia de demandas heterogêneas numa palavra de ordem que opera como um significante vazio e o caráter antagônico do político a partir da identificação de um eles representado pelas elites, que permite a delimitação de um nós, o povo, aglutinado em torno de um líder (Laclau, E. A Razão Populista, Ed. Três Estrelas, São Paulo, 2011).

[19] Idem nota 17.

[20] Idem nota 17.

[21] Idem nota 17.

[22] Idem nota 17.

[23] Metodologicamente, ao longo do texto pusemos em itálico palavras ou significados tanto expressos por autores específicos, como em mídias tradicionais e mídias sociais como aquelas que achamos adequadas, em termos de significado, pelo trabalho analítico e que gostaríamos de destacar.

[24] Bakhtin, M. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento na Obra de François Rabelais, Ed. Hucitec, 1987.

[25] Barbero, J. M., Dos Meios as Mediações. Ed. UFRJ, 2015.

[26] Para fortalecer a hipótese que vincula as redes digitais e o populismo de direita que se instaura no Brasil, cabe lembrar a intensa mobilização da rede Bolsonarista registrada pelos núcleos de monitoramento das redes digitais, a cada novo desdobramento das investigações sobre as fakenews com a participação de empresários no financiamento de robôs e disparos em massa, e de sites, blogs e perfis disseminadores de fakenews, articulados ao chamado “gabinete do ódio”, todos esses elementos em conjunto indicam a importância estratégica dessas estruturas para a continuidade e sucesso desse projeto reacionário de caráter tão global quanto o globalismo que demonizam.

[27] Sala de Democracia Digital da Diretoria Análise de Políticas Públicas da FGV que analisa as mídias digitais in: http://observademocraciadigital.org/timeline; Manchetômetro que faz a cobertura da grande mídia sobre temas de economia e política produzido pelo Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública, sediado no Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), in: http://www.manchetometro.com.br; Projeto Comprova monitora Fakenews, in: https://projetocomprova.com.br.  

[28] https://cidadania23.org.br/2020/03/17/veja-as-manchetes-e-editoriais-dos-principais-jornais-hoje-17-03-2020/.

[29] https://anchor.fm/manchetometro/episodes/1-Podcast-do-Manchetmetro-o-comportamento-da-TV-durante-a-crise-do-coronavrus-ecbkk6.

[30] “(…) a rede passa a funcionar como um ecossistema concentrado de plataformas, que substituíram de vez a conexão relativamente independente do usuário por uma sociabilidade induzida por algoritmos mediante o processamento de seus dados e preferências pessoais” in: Van Dijck, Jose. La cultura de la conectividad. Buenos Aires: Siglo Veintiuno, 2016.

[31] https://theintercept.com/2019/01/09/youtube-direita/.

[32] A DAPP/FGV in: http://observademocraciadigital.org/timeline.

[33] Idem nota 32.

[34] Idem nota 32.

[35] Idem nota 32.

[36] Idem nota 32.

[37] Cabe destacar que as mídias sociais têm realizado algumas ações para combater fakenews durante a pandemia. O Instagram ocultou uma publicação com conteúdo falso nas stories da conta oficial do presidente Bolsonaro, enquanto o Twitter colocou sugestões para checagem de fatos publicados por Donald Trump. E nesse período também ganha destaque a iniciativa global Sleep Giants, um movimento de denuncia das grandes corporações que financiam sites, bloques e perfis que reiteradamente propagam notícias falsas – essa ação já provocou a saída da Unilever e da Coca Cola do financiamento de perfis no Facebook.

[38] https://projetocomprova.com.br.

[39] https://projetocomprova.com.br.

[40] O político tem a ver com o nível ontológico, enquanto dimensão do antagonismo constitutiva das sociedades humanas. O discurso com suas práticas, aciona e reconfigura o político. Por sua vez a política tem a ver com o nível ôntico, enquanto o conjunto de práticas e instituições através das quais se cria uma determinada ordem, organizando a coexistência humana no contexto da coletividade derivada do político (Mouffe, Chantal: En torno a lo político. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2011: pp. 15-16).

[41] Singer, A. Os sentidos do Lulismo. Reforma Gradual e Pacto Conservador. São Paulo: Companhias das Letras, 2012

[42] Cabe lembrar que a presidência tinha proposto uma ajuda emergencial de R$ 200 por família, e que o Congresso propus aumentar para mais de R$ 500. Nesse contexto, o presidente, capitalizou politicamente a mudança, elevando o valor a ser pago para R$ 600, e ficando como o principal benfeitor.

[43] Disponível em: http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2020/06/26/5523e982193513b0d5c49b599edbd2bdblsnrqrz.pdf. Acesso em 29/06/2020.

[44] Disponível em: https://conteudos.xpi.com.br/politica/pesquisa-xp-junho-2020-interrupcao-na-tendencia-de-aumento-na-reprovacao-ao-presidente-jair-bolsonaro/.Acesso em 29/06/2020.

[45] Disponível em: https://www.atlasintel.org/poll/brazil-national-2020-05-27. Acesso em 01/07/2020.

[46] Disponível em: https://www.poder360.com.br/datapoder360/41-aprovam-e-50-desaprovam-governo-bolsonaro-diz-datapoder360/. Acesso em 01/07/2020.

[47] Ribeiro e Ortellado, ibid nota 6.

[48] Por exemplo, parte das pesquisas analisadas como XP/Ipespe e Atlas, mostram que entre os meses de maio e junho, a avaliação negativa teve uma pequena diminuição, enquanto a outra parte, composta por Datafolha e DataPoder360, mostra que continua a aumentar. Porém, a avaliação positiva, que cresceu em um primeiro momento no início da pandemia em todas as pesquisas analisadas, teve uma menor variação. Nas pesquisas Datafolha e DataPoder360, o percentual de pessoas que consideram o governo bom/ótimo segue diminuindo. Na pesquisa Atlas, a avaliação positiva caiu bruscamente em abril, mas cresceu nos meses posteriores, enquanto na pesquisa XP/Ipespe , o percentual atinge o menor índice em maio e sobe um pouco em junho; entretanto, mesmo com as subidas recentes, os percentuais de avaliação ótima/boa atualizadas ainda estão muito abaixo daqueles do início da pandemia.

[49] Em consulta realizada no dia 19/07/2020, o site do Ministério da Sáude apontava que, das 78.772 mortes por Covid-19 no Brasil, 35.732 foram na região Sudeste. Disponível em: https://covid.saude.gov.br.

[50] Disponível em: https://nucleo.jor.br/redes/2020-04-07-bolsonaro-coronavirus-engajamento-twitter. Acesso em 15/05/2020.

[51] “O Núcleo captou e analisou 1,27 milhão de tweets únicos (exclui RTs e comentários) com o termo ‘Bolsonaro’ ou hashtags relacionadas a ele, de 17 de março a 4 de abril. Essas publicações geraram um total de 50,3 milhões de interações (curtidas e retweets)”. “Para conseguirmos ter uma ideia do saldo de popularidade, analisamos, um a um, os 1.000 tweets com mais interações nessa base, a fim de avaliar como as publicações com maior repercussão se posicionavam em relação a Bolsonaro.”

[52] Disponível em: http://observademostrcraciadigital.org/posts/saida-de-sergio-moro-do-governo-gera-repudio-de-70-e-divide-base-de-direita-no-twitter/. Acesso em 05/05/2020.

[53] Disponível em: http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2020/06/29/ae4ce42b1f209589158cb991d1123b8cdd.pdf. Acesso em 29/06/2020.

[54] A iniciativa é uma parceria entre o Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo (LAUT), o INCT.DD e o Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário (Cepedisa). Assinam o estudo os pesquisadores do INCT.DD, João Guilherme Santos e Nina Santos, além de Caio Vieira Machado e Daniel A. Dourado. Disponível em https://inctdd.org/relatorio-analisa-desinformacao-sobre-coronavirus-no-youtube/.

[55] Idem nota 35.

[56] Disponível emhttps://761b6f02-2853-490f-8ebf-b60e11417c5e.filesusr.com/ugd/1cc2f9_6293eec4dcf7462e83d0dd988b440e2e.pdf?index=true>. Acesso em 16/05/2020.

[57] Disponível em: https://www.perfil.com/noticias/politica/encuesta-preocupacion-economia-golpea-imagen-alberto-fernandez.phtml. Acesso em 02/07/2020.

[58] Disponível em https://www.ipsos.com/sites/default/files/ct/news/documents/2020-06/2020_reuters_tracking_-_core_political_presidential_approval_tracker_06_17_2020.pdf. Acesso em 25/06/2020.

[59] Laclau, E. Los fundamentos retóricos de la sociedad. Buenos Aires: FCE, 2014.



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