As singulares relações germano-israelenses - Le Monde Diplomatique

ALEMANHA PROCURA RECUPERAR SEU PRESTÍGIO PERDIDO

As singulares relações germano-israelenses

por Daniel Marwecki
1 de abril de 2020
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Logo após a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha Ocidental tentou comprar uma imagem de pureza ao apoiar a construção do Estado de Israel. Desse modo, Bonn desempenhou no Oriente Médio um papel tão importante quanto desconhecido. Ao longo dos anos 1950 e 1960, contudo, essa diplomacia nem sempre conseguiu mascarar a existência de um passado prestes a ressurgir

Em abril de 2018, o Parlamento alemão se reuniu para comemorar o aniversário de 70 anos da criação do Estado hebreu. No decorrer das discussões, Martin Schulz, falando em nome do Partido Social-Democrata (SPD), declarou: “Ao protegermos Israel, nós nos protegemos dos demônios do passado”.1 O porta-voz do partido ecologista, de centro-esquerda, resumiu em uma frase a quintessência do debate: “O direito à existência de Israel não é maior ou menor que o nosso”.

Quando a classe política do além-Reno fala de Israel, fala sobretudo de si mesma. Suas relações com esse Estado formam a base sobre a qual a Alemanha pós-nazismo assenta sua identidade progressista. A atitude dos alemães em relação a Israel nos diz mais sobre seu próprio estado de espírito que sobre essas relações bilaterais, sua história e seu verdadeiro teor.

República Federal Alemã (RFA) e Estado de Israel: dois países nascidos na esteira da Segunda Guerra Mundial e do genocídio dos judeus. A aproximação ocorreu com o “acordo de reparações” entre Alemanha e Israel, concluído em 10 de setembro de 1952. Como explicar esse movimento apenas alguns anos depois que o Terceiro Reich quase conseguiu exterminar o povo judeu, com o apoio de grande parte de sua população?

Difícil acreditar na retórica oficial alemã, que insiste na base “moral” de suas relações com Israel. Como demonstraram profusamente os historiadores, antigos responsáveis pelo regime nazista ainda ocupavam altas funções na Alemanha vencida, enquanto a sociedade em geral estava mergulhada na negação diante da barbárie que ela havia desencadeado pouco tempo antes.

Talvez Konrad Adenauer, primeiro chanceler do pós-guerra e símbolo do “renascimento” de seu país, nos esclareça melhor sobre esse assunto. Entrevistado em 1966 pela televisão alemã, dois anos depois de se retirar do poder, em um horário de grande audiência, ele explicou sua política de reparações em que “expiar ou reparar [os crimes alemães contra os judeus] era a condição sine qua non para recuperar nosso status internacional”. E acrescentou: “Ainda hoje, o poder dos judeus não deve ser subestimado, sobretudo na América”.

Portanto, aos olhos de Adenauer, as reparações decorriam menos de uma questão moral do que da necessidade de recuperar o prestígio perdido da Alemanha. Sua segunda justificativa surpreende mais. Ao evocar o “poder dos judeus”, ao qual ele acrescentou um revelador “ainda hoje”, Adenauer retomava de fato um dos temas do repertório antissemita. Sua política em relação a Israel apoiava-se em dois pilares: a vontade de reabilitar a Alemanha e uma avaliação exagerada da influência judaica sobre a opinião pública ocidental.

 

Em nome dos norte-americanos

Essas eram as motivações alemãs. Quanto ao Estado dirigido por David Ben-Gurion, fundado depois dos horrores da solução final, por que teria aceitado a mão manchada de sangue que lhe estendia uma Alemanha Ocidental que fazia pouco havia abandonado o nazismo? Os sobreviventes do extermínio representavam um terço da população de Israel na data de sua criação. Raros eram os israelenses que não contavam com algum morto em sua família ou em seu círculo. O país havia sido literalmente construído por refugiados traumatizados da Europa. Uma única razão poderia explicar sua aproximação com a Alemanha: a satisfação de suas necessidades materiais, pois, após sua guerra de independência, marcada pelo êxodo forçado da maior parte da população palestina, o jovem Estado encontrava-se em uma posição frágil no Oriente Médio. Além disso, estava exangue do ponto de vista econômico e militar.

O acordo de 1952 foi o primeiro grande tratado definindo o pagamento das reparações alemãs. Embora preparasse o terreno para uma indenização individual, que seria estabelecida futuramente, dizia respeito mais especificamente às reparações devidas ao Estado de Israel. A República Federal comprometia-se assim a pagar 3,45 bilhões de marcos alemães, o equivalente a cerca de 7 bilhões de euros hoje. Dois terços dessa soma foram alocados sob forma de mercadorias (matérias-primas, máquinas, barcos etc.). Um terço do montante total destinou-se à compra de petróleo bruto junto a empresas britânicas. O acordo marcou o lançamento de um programa de industrialização cujo abastecimento de combustível estava assegurado.

Nahum Goldmann, à época presidente do Congresso judeu mundial e principal negociador israelense, qualificou o acordo de “salvamento em regra”. Para a Alemanha, o custo foi baixo, pois as despesas anuais previstas pelo tratado nunca ultrapassaram 0,2% de seu PIB. Melhor: a produção dos setores exportadores se viu estimulada pelas indenizações, alimentando o “milagre econômico”.

Inicialmente econômica, a “normalização” logo ganhou o terreno militar. Na sequência da crise do Canal de Suez, em 1956, até a guerra decisiva de 1967 (a Guerra dos Seis Dias), a Alemanha tornou-se, ao lado da França, o principal apoio do Exército israelense. Grande arquiteto da cooperação militar com esses dois países, o dirigente israelense Shimon Peres resumiu bem a situação: “Os Estados Unidos nos dão dinheiro, mas não armas. A França nos dá armas, mas não dinheiro. A Alemanha viu aí um modo de virar a página do regime nazista fornecendo-nos armas sem nada pedir em troca”.

De acordo com os arquivos do Ministério das Relações Exteriores alemão, a ajuda militar a Israel teve início em 1957. Consistia, essencialmente, no fornecimento de armas leves, aviões e navios de guerra e programas de treinamento. O primeiro grande contrato de armamento data de 1962, com o fornecimento por parte da Alemanha de artilharia pesada, aviões, helicópteros, navios e submarinos. Em 1964, Washington ordenou a Bonn que acrescentasse a essa lista 150 tanques Patton em nome dos norte-americanos. Preocupados em se colocarem como mediadores neutros no conflito árabe-israelense e em não despertarem a cólera dos nacionalistas árabes, os Estados Unidos preferiram evitar armar diretamente Israel, pelo menos até 1967.

O apoio alemão revelou-se crucial. Em 1965, desde sua instalação na Embaixada de Israel em Bonn, Asher Ben-Nathan, primeiro titular da função, confiou ao chanceler Ludwig Erhard que um conflito no Oriente Médio “não duraria mais que alguns dias. Israel [devia], portanto, ficar constantemente em alerta. A ajuda da Alemanha [havia feito] muito pelo desenvolvimento do país, e seu apoio militar [havia sido] igualmente determinante para sua segurança”.

Tivemos a confirmação disso dois anos depois. A guerra árabe-israelense de 1967 durou apenas seis dias, e o apoio militar alemão teve seu papel. Quarenta e oito horas após o fim do conflito, o embaixador alemão em Israel enviou a Bonn um telegrama breve, mas eloquente: “Segundo um oficial do Estado-Maior, os modernos carros blindados que lhes fornecemos não poderiam dar melhor prova de seus méritos”.

O próprio desenrolar dessa guerra ilustra a importância conjunta da França e da Alemanha para Israel na época. Enquanto os Mirages franceses se sobressaíam na campanha aérea, os tanques alemães dominavam os combates no solo do Egito. Informados da contribuição da República Federal ao esforço de guerra israelense, os representantes dos Estados árabes raramente deixavam de se queixar.

 

Estranha mutação

Outro aspecto capital da ajuda alemã foi um empréstimo de 644,8 milhões de marcos alemães. Disfarçada com o nome de Operação Business Friend, essa transação efetuou-se sob sigilo, assim como o envio de armamento. Em 1965, uma vez estabelecidas as relações diplomáticas entre os dois países, o empréstimo foi convertido em ajuda ao desenvolvimento oficial. Ao se expressar décadas depois, em 2015, nas colunas do jornal conservador pró-israelita Die Welt, Hans Rühle – um especialista em proliferação nuclear com altas responsabilidades no Ministério da Defesa alemão e na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) – afirmou que esse dinheiro tinha servido para financiar o programa nuclear israelense. Levando-se em consideração o papel da República Federal na consolidação do Estado de Israel, a teoria é plausível, mas de difícil averiguação.

Ironia da história, as relações germano-israelenses evoluíram muito mais rapidamente que o processo de confrontação da Alemanha com seu próprio passado. Essa defasagem engendrou uma estranha mutação no antissemitismo à moda antiga, incrustado na tela de fundo das relações com Israel. Um único exemplo basta para nos convencer disso. Em 1961, Gerhard von Preuschen, chefe da delegação de observadores alemães durante o processo de Adolf Eichmann, conclui seu relatório final com um elogio “à juventude israelense, que se destaca das gerações precedentes de maneira muito promissora. Esses jovens – as crianças dos imigrantes judeus alemães – não apresentam quase nenhuma das características que habitualmente associamos aos judeus. Altos, em sua maioria loiros de olhos azuis, com rostos de traços regulares, autônomos e livres em seus movimentos, eles encarnam uma forma de judeidade desconhecida até aqui”.

Impressionante por seu racismo assumido, elegantemente descrito, essa declaração reflete uma percepção um pouco egocêntrica de Israel: o Estado hebreu se tornou ariano. Esse gênero de paradoxo pontua a história das relações entre os dois países. Um narcisismo comparável transpirava da cobertura da guerra de 1967 pela imprensa do além-Reno, em particular a do grupo Springer. A vitória israelense foi saudada aí como uma “vitória relâmpago”, o general israelense Moshe Dayan foi aplaudido, enquanto os exércitos árabes vencidos sofriam um desprezo que exalava o feroz triunfalismo alemão de uma época passada.

Última curiosidade dessas singulares relações bilaterais: as reflexões de Rolf Pauls, primeiro embaixador alemão em Israel e ex-general da Wehrmacht (as Forças Armadas alemãs durante o regime nazista) condecorado com a Cruz de Ferro. Suas anotações pessoais associam regularmente seus interlocutores israelenses ao dinheiro e ao poder. Em 1965, indignou-se com os israelenses que “falam de moralidade, mas só pensam em dinheiro”. Convencido de que “a influência de Israel e dos judeus nos grandes centros mundiais onde se molda a opinião pública [era] determinante”, Pauls estimou que a Alemanha não se encontrava em posição de cortar as provisões de Tel Aviv, pois na falta delas “os judeus [soltariam] os cães, de Jerusalém a Londres, passando por Nova York”.

A política israelense da República Federal é hoje objeto de debates que, por natureza, tocam a moral. Seus detratores também adoram lembrar que a Alemanha se mostra muito mais preocupada com a segurança de Israel que com a sorte daqueles que foram caçados de suas terras pela criação desse Estado. Mas essa crítica negligencia um aspecto fundamental: na realidade, a virada alemã em favor de Israel nunca teve nada a ver com a moral.

No pós-guerra, enquanto suas reparações e seus armamentos participavam da construção do Estado de Israel, a Alemanha tinha naturalmente consciência da existência dos refugiados palestinos. Mas, em uma época em que os deslocamentos populacionais eram moeda corrente no mundo colonizado e na Europa, raras eram as incitações para reconhecer o infortúnio de um povo que não conseguia ele próprio fazer sua voz ser ouvida.

No seio do governo alemão, as discussões sobre ajuda humanitária aos refugiados estavam centradas no imperativo de criar um impulso de boa vontade nos Estados árabes – os quais desconfiavam, com justa razão, que a Alemanha fornecia a Israel um apoio bem mais importante do que ela queria admitir. Os dirigentes alemães, no entanto, zelavam para que essa assistência humanitária não os colocasse em uma posição de “responsabilidade indireta”. A Alemanha encoraja hoje a autodeterminação do povo palestino, defendendo a solução de um Estado que englobaria a Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental, mas suas relações com Israel permanecem prioritárias.

Uma primeira virada nas relações entre Alemanha e Israel ocorreu logo após a guerra de 1967, quando a aliança entre Estados Unidos e Israel se manifestou, reservando à República Federal apenas um papel secundário. Essas ligações bilaterais evoluíram em seguida ao sabor dos sobressaltos da Guerra Fria, da integração europeia e do conflito israelo-palestino, com a queda do Muro de Berlim e a reunificação alemã imprimindo finalmente uma mudança mais radical.

 

*Daniel Marwecki, professor-pesquisador da School of Oriental and African Studies (Londres) e da Universidade de Leeds, é autor de Germany and Israel: Whitewashing and Statebuilding [Alemanha e Israel: whitewashing e construção de Estado], Hurst, Londres, com lançamento previsto para 30 de abril de 2020.

 

1 Esta citação e as seguintes foram extraídas da obra do autor Germany and Israel: Whitewashing and Statebuilding [Alemanha e Israel: whitewashing e construção de Estado], Hurst, Londres, 2020.

 

 

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Doutrina de dois gumes

 

Se a República Federal Alemã era uma aliada fundamental de Israel, a República Democrática Alemã (RDA) havia tomado o partido dos palestinos. Essa simetria perfeita refletia mais do que as divisões da Guerra Fria. Assim, o regime da Alemanha Oriental era tão implacavelmente antissionista como seu homólogo do Ocidente era pró-sionista.

A transposição desse conflito germano-alemão ao Oriente Médio deve também muito à “doutrina Hallstein”. Ministro dos Assuntos Exteriores do chanceler Adenauer, Walter Hallstein havia estabelecido em 1955 que a Alemanha Ocidental consideraria o reconhecimento da RDA por outro país como um “gesto hostil” suscetível de desencadear sansões, até uma ruptura das relações diplomáticas. Esse princípio daria paradoxalmente aos Estados árabes conduzidos pelo Egito de Nasser uma formidável alavanca: podiam agora ameaçar reconhecer diplomaticamente a RDA para se opor ao apoio alemão a Israel. Por isso, Bonn preferiu dissimular esse apoio sob um véu pudico, mesmo com os israelenses afirmando desde 1956 sua vontade de normalização diplomática. (D.M.)



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