As tragédias mais do que “naturais” de Petrópolis...

A “CIDADE DE PEDRO” NÃO FOI PENSADA PARA TODAS AS PESSOAS

As tragédias mais do que “naturais” de Petrópolis…

por Carla de Carvalho Almeida da Silva
31 de agosto de 2022
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Não temos como garantir quando se iniciaram os deslizamentos, enchentes ou mortes. Mas sabemos que são inúmeras as famílias que vivem de “morro em morro”, tentando escapar com vida da próxima chuva

Não é por acaso… nunca foi. Petrópolis tem 179 anos de fundação e foi uma cidade planejada. Claro que foi organizada e criada com a força da escravidão (história escondida nas literaturas da cidade), mas recebeu colonos alemães e italianos em sua maioria e foi moradia de verão para a família imperial. Foi planejada para essa gente, não para os pobres e negros que teimaram em permanecer nela. Já na República, também dedicou-se um palácio para receber os presidentes da nação em períodos de férias de verão. E os pobres teimosos, insistindo em se “pendurar” nos morros.

Por essa história imperial e de veraneio, é uma das cidades mais abastadas da Região Serrana e ainda serve, principalmente nos distritos, para descanso das famílias ricas de outras regiões do Brasil, destacando aqui os locais de casas de campo, para descanso e isolamento. Muitos condomínios onde a riqueza é tão grande que chega a ser quase inacreditável que possa existir pobreza tão perto.

Embora seja uma cidade de história operária, de lutas contra a ditadura e contra o fascismo, também é uma cidade considerada conservadora que faz questão de esconder sua história de luta e também as tradições de matrizes africanas. Na última década, inclusive, o carnaval foi excluído do calendário da cidade, projetando nacionalmente as festas de colonizadores europeus para favorecimento do turismo e da hotelaria.

Nesse cenário, de orgulho dos bairros e ruas com nomes europeus, a “Cidade de Pedro” não foi pensada para todas as pessoas. Para os pobres, necessários à mão de obra barata das famílias abastadas, sobram encostas e beiras dos rios. Os bons espaços que restam recebem títulos de área de proteção ambiental e são impossíveis aos pobres, até que seja autorizado um grande empreendimento para ricos pela Secretaria de Meio Ambiente e órgãos reguladores.

Em 2022, o zoneamento da cidade, disponível no mapa apontado no site da prefeitura, ainda não apresenta um plano diretor atual. Ou seja, a lei municipal que estabelece as normas para as atividades de uso, parcelamento e ocupação do solo é de 28 de maio de 1998. Com mais de vinte anos, a lei existente é praticamente ignorada no que diz respeito à construção de grandes corporações para a faixa de renda da população com condições de compra de apartamentos em condomínios com muitas opções de diversão e bem estruturados.

Imagem: Tomaz Silva/Agência Brasil

E os pobres? O Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis, fundado em 1979 já a partir de tragédias da cidade, no acolhimento a vítimas e na luta pelo direito à moradia, tentou estabelecer uma linha do tempo com as recorrentes tragédias que afetam a cidade deixando vítimas, prejuízos financeiros, perda da história da vida, da esperança. Não temos como garantir quando se iniciaram os deslizamentos, enchentes ou mortes. Mas sabemos que são inúmeras as famílias que vivem de “morro em morro”, tentando escapar com vida da próxima chuva. Muitos escapam, mas deixam para trás suas histórias, pertences e a tristeza de algum parente.

Podemos utilizar aqui o termo que é comum em cidades que convivem com vulcões ou tornados, que são os “deslocados ambientais” – é o que mais acontece aqui em nossa cidade. As histórias de vida que contam com a tragédia socioambiental são quase que onipresentes entre as famílias pobres. Todas possuem algum relato sobre tragédias, permanência em abrigo, reconstrução de vida ou até mesmo o acolhimento, ainda que de maneira temporária, de algum parente ou amigo que perdeu tudo.

E a culpa? Há mais de trinta anos, quando já trabalhávamos a prevenção das tragédias, os governantes culpavam as vítimas dos deslizamentos e das enchentes por lixo jogado nas encostas e rios. O trabalho de prevenção passava pela conscientização das famílias em jogar os resíduos no local designado pelo poder público. Muitas comunidades construíram lixeiras fixas para evitar que o lixo fosse deixado em local inadequado. As organizações sociais e associações de moradores trabalhavam a educação da população e tentavam garantir acesso adequado às moradias, construindo por mutirão as servidões, escadarias etc. A pobreza da época colocava abaixo os barracos de madeira. O peso nos morros era menor e, mesmo assim, as tragédias e mortes já aconteciam.

Nesta época minha moradia foi afetada, no morro do Neylor, onde a sala da casa de minha avó desceu junto com o barro. Por alguns dias, nossa moradia virou a Escola Carlos Demiá, até minha avó desconsiderar os laudos e riscos apontados pela Defesa Civil, conseguir um empréstimo com os seus patrões e começar a construção de um muro de contenção na frente da casa que a segurou por muitos anos. Até que a caixa d’água (outra parte do morro) veio abaixo também, aterrando dois cômodos.

A casa da minha mãe, que era de aluguel, também foi afetada e veio abaixo. Já nesta ocasião estávamos organizadas em um coletivo de mães no bairro Alto Independência – na luta pela moradia, como mães solteiras “sem-teto”. Eu tinha uns 8 anos na época em que a luta dessas mulheres por moradia começou. Foi em mutirão, com apoio de várias organizações. Capinamos, tiramos terra, organizamos os pequenos pedaços para cada família e, em 1988, quando a cidade sofreu absurda tragédia, a prefeitura resolveu ajudar o grupo de mães; desde que estas permitissem que seu pedaço de terra fosse reduzido e dividido com famílias que não tinham onde morar em virtude dos deslizamentos. O acerto foi feito e todos ocupamos módulos de metal e tijolos, com 20m², banheiro e cozinha. Água e energia elétrica demoraram mais de dois anos para chegar e a precariedade era a lei das famílias que tinham perdido tudo e precisavam aceitar aquele tipo de oferta. Dignidade é algo que se perde com a barreira e não volta depois. Sempre é assim. Quando você perde a casa, vai com ela tudo o que você poderia querer, sonhar, pedir. Você sempre vai ser considerado “sortudo” por receber alguma coisa e precisa se dar por satisfeito por ter sido visto de alguma forma. Em uma cidade que não destina nenhum centavo de seu orçamento próprio para a pauta da moradia, a invisibilidade também é política pública habitacional.

E as tragédias vão acontecendo, ano após ano, contabilizando vítimas e mais famílias na lista do déficit habitacional. Mas não tem problema… algumas já estavam na lista e só perderam de novo, móveis, documentos. São os mesmos, os de sempre, os que nunca têm vez. O que foi construído para as vítimas da maior tragédia do Brasil de 2011, que em Petrópolis afetou o Vale do Cuiabá, está mal acabado, com recorrentes pequenos incêndios na parte elétrica, e graves questões sociais uma vez que foram colocadas, no mesmo espaço, 773 famílias dos mais diferentes locais da cidade. Estas já estavam com seus tecidos sociais fragilizados porque saíram do Vale do Cuiabá em 2011 e até 2020 rodavam de um lado para outro na luta por aluguel que pudesse ser pago pelo governo. Pagamento este tantas vezes ameaçado. Isso sem esquecer que, no caso do Vale do Cuiabá e de outras tragédias, a culpa seria das famílias que constroem em locais inadequados.

Na linha do tempo da tragédia chegamos a 2022. Desde muito tempo discutimos que os desastres não são ambientais, que são políticos, socioambientais, econômicos, racistas. E chega 2022 com um volume de chuvas que demonstrou mais uma vez essa lógica. Desta vez toda a cidade foi afetada. Não houve um setor, um bairro, um distrito afetado. Todos os foram. O Centro Histórico, as lojas do centro, toda a cidade. Os carros das garagens dos edifícios das ruas mais ricas da cidade ficaram submersos. Condomínios ricos tiveram parte de seus acessos retirados. Casas grandes e sem qualquer risco anteriormente percebível foram inundadas e tiveram paredes e muros arrastados. A morte também afetou a todos.

Mas e aí, todos afetados, mortes em todas as camadas da sociedade e ainda estamos no discurso do racismo ambiental, dos deslocados ambientais, do abandono do pobre? Sim. No caso dos mortos, não existe diferença de dor entre aqueles que perderam, mas a quantidade de pobres foi infinitamente maior. No caso dos pobres, foi a maior parte de famílias inteiras. Gestantes. Muitas crianças sobreviveram por estarem em horário escolar no momento dos deslizamentos, mas o resto da família e da casa já não está mais lá.

Os carros e casas perdidas nas áreas nobres já foram recuperadas pelas seguradoras, mas no caso dos pobres, a luta pela possibilidade de uma casa para alugar que aceite como pagamento o “aluguel social”, que é a política ofertada de maneira emergencial, se mantém. Passados seis meses da tragédia, algumas famílias desistiram de procurar pelo local de moradia temporária onde o pagamento seria feito pelo governo. Retomaram suas forças e voltaram para o risco, para a história do medo recorrente, dividindo sua consciência entre risco, medo e dignidade.

E a culpa desta vez?

Os donativos que chegaram foram mais que suficientes, chegaram a estragar. Onde as pessoas guardariam tantas roupas, tantos sapatos, tantos brinquedos sem ter onde se abrigar? A questão que se mantém é o desemprego, a desesperança, a fome que já era grande em virtude da pandemia e é ainda mais grave porque não existe mais posto de trabalho no polo de modas da Rua Teresa (que foi extremamente afetado) e nem em muitas lojas do Centro Histórico que só possuem como mostruário a placa de “Aluga-se”.

E nós, que estamos por aqui, nos mantemos firmes junto às lideranças comunitárias, buscando recursos para a redução da dor, para a redução da fome, para a luta pela dignidade. E os olhares políticos? Neste momento estão voltados pra outra tragédia brasileira, também tão triste, que acontece todo dia, já que o respeito ao meio ambiente, ao clima, à ecologia e a garantia de políticas públicas não é ausência somente na cidade de Petrópolis. A tragédia é triste, dói demais, deixa feridas abertas, lembranças e dores. Mas, para os outros, decretar o estado de calamidade, utilizar a dor alheia e fazer promessas sob a terra arrasada para muitos reflete lucro e continuidade de poder.

Vamos por aqui trabalhando e tentando sobreviver até… a próxima tragédia socioambiental política, racista e “planejada”.

E neste 2022, já que todos foram afetados, a culpa foi jogada na quantidade de chuva mesmo…

 

Carla de Carvalho Almeida da Silva é pedagoga, com especialização em gestão de pessoas e viabilidade de projetos e em psicopedagogia clínica e institucional. Coordenadora do Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis.



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