DA TARIFA AO ALGORITMO

As três faces da interferência externa nas eleições brasileiras

Estados Unidos têm uma estratégia explícita para interferir nas eleições da América Latina e disputa no Brasil acontece em um ambiente de anormalidade institucional 

Após o resultado do primeiro turno das eleições de 2026, a maior parte dos jornalistas comentou sobre os erros da campanha de Lula e inúmeros influencers sugeriram uma melhor estratégia para amplificar a voz da esquerda nas redes sociais. Embora esses pontos sejam importantes e devam ser considerados pela equipe de campanha do PT, eles não consideram que as eleições aconteceram em um ambiente de anormalidade institucional. Isso porque, pela primeira vez desde o final da Guerra Fria, os Estados Unidos têm uma estratégia explícita para interferir nas eleições da América Latina, baseada na Doutrina Donroe. 

Essa linha de política externa tem por base o uso de táticas comuns utilizadas em esquemas de guerra híbrida. A primeira tática é sempre mais visível e utiliza de diferentes formas de coerção, inclusive para desviar atenção do que está de fato ocorrendo. A segunda é de menor visibilidade e se vale de meios intermediários de desinformação. Já a terceira tática é quase invisível ao direcionar a desinformação àqueles suscetíveis a uma mudança de comportamento no pleito eleitoral, hoje em grande parte realizado por meios digitais. 

Crédito: The White House/Wikimedia Commons
  1. A pressão explícita

A primeira tática teve sua mais clara demonstração quando da imposição de novas tarifas alfandegárias em julho de 2025, como forma de retaliação à condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. Segundo a narrativa que os Estados Unidos tentaram impor, o “governo do Brasil acusou injustamente Bolsonaro de múltiplos crimes relacionados ao segundo turno das eleições de 2022, e a Suprema Corte do Brasil decidiu, de forma equivocada, que ele deve ser julgado por acusações criminais infundadas” (The White House, 2025).  

O resultado dessa primeira ação da Casa Branca foi diferente daquele esperado, pois, nesse momento, o governo Lula conseguiu reverter o processo internamente, demonstrando que os Estados Unidos estavam atacando a soberania brasileira. E assim, o Departamento de Estado teve que repensar sua estratégia e desenvolver novas táticas dentro dessa linha, indo da esfera econômica para a esfera política, com foco explícito no Supremo Tribunal Federal, em especial por meio da aplicação da lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes.  

Em seguida, o governo de Donald Trump aprofundou essa linha de ataque por meio da denominação, por parte do Departamento de Estado, de organizações criminosas, como o PCC e o Comando Vermelho, como grupos terroristas capazes de ameaçar os Estados Unidos. Tal ação foi certamente mais inteligente já que não afrontava abertamente a política econômica, nem questionava a autonomia do Judiciário nacional, inclusive, com apelo direto na opinião pública brasileira, que considera a violência e a segurança pública o maior problema do Brasil (G1, 2026). Embora não de forma declarada, essa decisão sinalizava um apoio à campanha de Flávio Bolsonaro sob a justificativa de que a Casa Branca se colocava assim à disposição de um eventual governo do mesmo para combater a criminalidade no Brasil, mascarando o caráter claro de uma ingerência externa. 

Além disso, os Estados Unidos têm atacado a maior processadora de pagamentos do Brasil, o Pix, lançado pelo Banco Central do Brasil em 2020 (DOMINGUEZ, 2026). Desde então, o Pix se tornou o método de pagamento mais popular do país, inclusive em relação ao dinheiro em espécie. O governo norte-americano alega que o Pix está envolvido em práticas comerciais desleais, argumentando que as processadoras de pagamento dos Estados Unidos estão sofrendo perdas financeiras devido à popularidade da plataforma.  

Mais recentemente, o Departamento de Estado norte-americano reforçou a ideia de uma ameaça terrorista desenfreada no Brasil ao decidir fechar sua embaixada e consulados nas vésperas do primeiro turno. Tal medida, sem qualquer embasamento com a realidade, recebeu apoio da Austrália, e criou um terror psicológico, fortalecendo a possibilidade de um rompimento dos Estados Unidos, caso Lula se reeleja. Embora sem precedente, um eventual desdobramento, por mais dramático que seja, faria coro à revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington Maria Luiza Viotti, em agosto de 2026. Ou seja, os Estados Unidos parecem hoje realmente dispostos a se valer de diferentes medidas a fim de garantir que um governo automaticamente alinhado com seus interesses na América Latina venha a ser eleito no Brasil. 

 

  1. Medidas com um grau menor de visibilidade

A segunda tática que os Estados Unidos têm utilizado para impor seus interesses nas eleições brasileiras apresenta um menor grau de visibilidade e acontece por canais indiretos a partir do financiamento de organizações não governamentais para desestabilizar o país. Nessa abordagem, há dois tipos de vazamentos relevantes, conforme detalhado recentemente pela Folha de S.Paulo (SALOMÃO, 2026) e pelo jornal inglês The Guardian (ROTH; GEDEON, 2026).  

A primeira reportagem trata da alocação de recursos financeiros para a ONG conservadora Rockbridge Network, cofundada pelo vice-presidente JD Vance e pelo empresário Chris Buskirk. Segundo a matéria, a Rockbridge tinha a missão de abrir operações no Brasil para treinar jovens lideranças de extrema direita, meios de comunicação e ações no Legislativo. A segunda matéria aborda outro caso tradicional de guerra híbrida, que é o direcionamento de recursos financeiros para uma organização não identificada que conseguisse desestabilizar o STF. Sem ainda termos conhecimento mais preciso sobre essa informação, sabemos que o escândalo do Banco Master se voltou contra os principais membros do Supremo Tribunal Federal durante o mês eleitoral de setembro, colocando de lado qualquer envolvimento de Flávio Bolsonaro no maior caso de corrupção do país. 

O resultado da política de desestabilização institucional do STF foi efetivo, apesar da rapidez em se estancar o processo quando ele atingiu diretamente os aliados à Bolsonaro, que hoje estão no exercício da presidência e vice-presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE): Kassio Nunes e André Mendonça. Questionamentos sobre o TSE nas mudanças de seções no primeiro e segundo turno e na lentidão da fiscalização de notícias falsas foram devidamente silenciados dentro da Corte após esse desgaste político, afrouxando até mesmo o ministro Alexandre de Moraes, que teve sua família diretamente envolvida no escândalo. 

 

  1. A invisível, previsível e eficaz tática dos algoritmos

A terceira e última tática se refere ao direcionamento de notícias falsas produzidas especificamente para perfis mapeados pelos algoritmos com o objetivo de reverter o posicionamento daqueles sujeitos que estão indecisos na escolha do candidato ou até mesmo no comparecimento no dia da eleição. Com o cancelamento injustificado de contas de mídias e influencers de esquerda, o bloqueio temporário da página do presidente Lula e de aliados, a derrubada de postagens verídicas e o uso de técnicas shadowban, que reduzem a visibilidade de uma conta ou publicação sem informar claramente seu responsável, a plataforma Meta foi denunciada pela campanha de Lula à OEA após o primeiro turno. 

Reportagens da Agência Pública (RUDNITZKI, 2026) indicaram diversos casos de bloqueios realizados pela Meta, sem um motivo legítimo, além de mostrarem que um número significativo de anúncios foi pago à Meta em dólar, descumprindo as regras eleitorais brasileiras. Outra matéria publicada pela BBC mostrou que o grupo de dança de crianças de Uganda, Hypers Kids Africa, que participou da Copa do Mundo, fez promoção a favor da campanha de Bolsonaro em troca de 120 milhões de $B22, ativos digitais que podem ser transferidos e trocados por dinheiro, sem ter qualquer conhecimento sobre o que isso representava (PINA, 2026)  

Por fim, matérias na imprensa identificaram como a Inteligência Artificial da Meta foi treinada para criar folders de campanha para Flávio Bolsonaro, negando-se a realizar as mesmas tarefas para a campanha do presidente Lula (BERGAMO, 2026). O termômetro publicado pela Agência Pública, com base no levantamento da ONG CTRL+Z, indica o impulsionamento da campanha de Flávio Bolsonaro, com um maior número de seguidores e um engajamento muito maior do que Lula às vésperas das eleições (MELO, 2026).  

No mesmo sentido, como informou o site PanAmerican Dispatch (GARCIA,2026), pelo menos 1.069 anúncios mencionando o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou o opositor Flávio Bolsonaro no Facebook, Instagram e Threads foram pagos em dólares. Dados da Biblioteca de Anúncios da Meta, analisados pela jornalista Aline Melo (2026) da Agência Pública, revelam que os anúncios custaram pelo menos US$ 120.800. Além disso, segundo informações do mesmo site, criptomoedas foram oferecidas para usuários que compartilham conteúdo nas redes sociais incentivando o voto no candidato presidencial Flávio Bolsonaro. 

A iniciativa se chama B22, uma referência ao sobrenome e ao número da cédula do senador. Segundo o site, a moeda digital é distribuída para pessoas que promovem o projeto nas redes sociais. Alguns dos conteúdos promocionais incluem vídeos que vinculam diretamente a compra ou o compartilhamento do token ao apoio a Flávio Bolsonaro nas urnas. (GARCIA, 2026) 

Cabe ressaltar, por fim, embora o foco deste artigo seja na ingerência dos Estados Unidos, que a campanha de Flavio Bolsonaro, certamente inspirada nas ações de atores norte-americanos, lançou uma operação clandestina para mapear eleitores, criar contas falsas, espalhar mentiras junto a uma a empresa que vende nos Estados Unidos sistema de IA para manipular eleições no exterior. 

Nunca existiu poder hegemônico sem sofisticação nas formas de impor suas vontades ao redor do mundo. Mesmo que em acelerada crise, a hegemonia norte-americana continua a valer-se de instrumentos cada vez mais diversificados, indo da coerção econômica à influência política e à manipulação digital, para manter zonas de influência sob seu poder. Em nenhum lugar no mundo isso fica tão claro quanto na América Latina, seja do ponto de vista histórico, seja nos dias de hoje, pela reinstauração de uma política externa nos moldes da Doutrina Monroe.  

É por isso que a eleição do próximo fim de semana se torna tão importante e dramática. Mais do que uma disputa entre dois projetos políticos, ela representa um teste para a soberania brasileira e para a capacidade de nossa democracia resistir às pressões de uma potência estrangeira. Afinal, o que está em jogo não será somente a manutenção da nossa democracia, mas também os limites da ingerência norte-americana sob os destinos da América Latina e, assim, de todo o Sul Global. 

 

Natalia Fingermann é professora de Relações Internacionais, ESPM-São Paulo 

Rafael Ioris é professor de História da América Latina, University of Denver 

 

Referências bibliográficas  

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