Assassinato em Karachi - Le Monde Diplomatique

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Assassinato em Karachi

por William Dalrymple
1 de dezembro de 2003
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Dois livros descrevem o bárbaro assassinato de Daniel Pearl. O de sua mulher, Mariane, sem ódio ou preconceito com o islamismo e o Paquistão homenageia o marido com generosidade e energia pacífica. O do filósofo francês Bernard-Henry Levy toma o rumo contrário e ainda apresenta-se repleto de imprecisões.William Dalrymple

Karachi é uma das cidades mais tristes que existe. É uma espécie de Beirute do sul da Ásia: situada à beira-mar, é uma cidade rica e até charmosa em alguns lugares; mas também é um monumento ao ódio entre as várias seitas e etnias, assim como um fracasso enquanto sociedade civil. É uma cidade que tanto está em guerra contra si mesma, quanto contra o mundo exterior. A metrópole mais populosa do Paquistão, Karachi é um lugar profundamente conturbado, constantemente envolvido em surtos de matanças e seqüestros. É uma cidade em que a polícia fica entrincheirada em fortificações de areia, por segurança, e os consulados estrangeiros parecem castelos do tempo dos cruzados – o que é precisamente como a população de Karachi os vê: as insolentes cabeças de ponte das agressivas potências alienígenas.

No consulado norte-americano, cercado por arame farpado e uma espiral de barreiras com marcas de estilhaços de granadas – o último atentado-suicida contra o prédio foi há apenas dezesseis meses -, pode se observar um mapa da Grande Karachi, esparramada em toda sua complexidade. À primeira vista, com as diferentes zonas coloridas em cores primárias, lembra os mapas de metrô de muitas capitais importantes. Só observando com maior cuidado é que se percebe que as cores significam os distintos tipos de indústria que são particularidade específica de cada bairro da cidade.

Saga sangrenta

A zona rosa, na parte oriental, é dominada pela máfia da droga de Karachi; a zona vermelha, do lado ocidental, indica a área que se destaca pela sofisticação dos seqüestros e pelas gangues especializadas em extorsão; a zona verde, ao sul, é o reduto dos grupos especializados em violência sectária. Os refugiados afegãos ligados ao fanatismo religioso da guerra santa apodrecem em campos organizados na região norte, na zona lilás. Uma lista amarela estreita, no centro da cidade – o enclave diplomático – demarca uma zona de relativa segurança, onde a tranqüilidade só é perturbada por eventuais conspirações com o objetivo de enviar cartas-bomba ou explosivos aos consulados ou mesmo eventuais bombardeios. Entre todos os postos diplomáticos norte-americanos no exterior, Karachi representa o mais alto índice de risco pessoal – com exceção de Cabul e Bagdá, ambas recentemente submetidas a experiências de invasão e ocupação por parte dos Estados Unidos. Por enquanto, isto ainda não ocorreu em Karachi, mas são poucos os lugares do mundo em que os norte-americanos são mais impopulares.

Somente a invasão e o bombardeio do Afeganistão pelos EUA conseguiu desviar a atenção para o que foi considerado um inimigo comum: os norte-americanos

Há dez anos, no início da década de 90, a cidade pôs de lado veleidades que ainda pudessem existir de unidade e coerência, embarcando numa sangrenta saga de violência comparável, às vezes, à violência da guerra civil em Beirute de vinte anos antes. Os mujahirs, originários da Índia que se estabeleceram no Paquistão após a partilha e a criação do novo Estado, voltaram-se contra seus vizinhos sindhis e punjabis1 . Os sunnis assassinavam os shias; os pobres seqüestravam os ricos. Somente a invasão e o bombardeio do Afeganistão pelos Estados Unidos conseguiu desviar a atenção para o que, na época, foi considerado um inimigo comum: os norte-americanos. Conseguia-se, finalmente, algo com que praticamente todo mundo concordava em Karachi. No início do outono de 2001, a cidade foi envolvida num frenesi de manifestações (“Morte aos norte-americanos”), durante as quais foram queimadas centenas de bandeiras dos Estados Unidos, assim como cartazes com o retrato do presidente.

A armadilha

Foi então que chegou a Karachi um jornalista norte-americano de 38 anos, idealista, com a tarefa de informar o Wall Street Journal sobre o clima de intranqüilidade. A época dessa visita não poderia ter sido mais perigosa e a tarefa não poderia ser mais arriscada para um norte-americano, em especial por ele ser judeu e ter raízes familiares em Israel. No dia 20 de janeiro de 2002, algumas semanas após sua chegada, Daniel Pearl foi atraído a uma armadilha e seqüestrado. Pouco depois, teria sua garganta cortada, ao vivo, em vídeo, após ter sido obrigado a dizer: “Meu pai é judeu. Minha mãe é judia. E eu sou judeu”. Seu corpo foi esquartejado.

Recentemente, foram lançados dois livros com a descrição deste assassinato bárbaro. Um deles é um livro de amor, escrito de uma maneira simples, mas uma homenagem comovedora a um marido assassinado, feita por uma esposa consternada e mortificada. O outro é um livro de ódio, uma denúncia exaltada contra uma cidade e um país, escrito por um homem para quem Karachi é o inferno ao vivo e o Paquistão, um país do mal absoluto. Ambos os livros são muito interessantes, embora o segundo relate fatos sem fundamento e esteja permeado de erros.

Uma mulher notável

É evidente que Mariane, a viúva de Daniel Pearl, é uma mulher notável. Grávida de cinco meses quando seu marido foi seqüestrado, ela conseguiu impressionar muita gente com seus veementes apelos aos seqüestradores pela CNN, o que fez com uma força e uma beleza extraordinárias. A trágica história que tem para contar em A Mighty Heart: The Brave Life and Death of My Husband, Danny Pearl é comovente – e ela a conta de modo simples e eficaz.

A época da visita de Pearl não poderia ter sido mais perigosa e a tarefa não poderia ser mais arriscada para um norte-americano, em especial por ele ser judeu

Ela descreve com clareza a complexidade dos fatos: como Pearl estava tentando conseguir uma entrevista com o xeque Mubarak Ali Shah Gilani, guru do terrorista Richard Reid (cujos saltos do sapato, explosivos, até hoje são motivo para que centenas de milhares de pessoas tenham que ficar descalças nos aeroportos norte-americanos, como se fosse o caso de uma fantástica festa em pijamas). Atraído a um restaurante em Karachi, Pearl foi acompanhado até um carro e depois conduzido, de olhos vendados, para uma distante creche na periferia. Ficou preso ali, acorrentado a um motor, possivelmente por uma semana, antes de ser brutalmente assassinado.

Mariane Pearl, que também foi repórter para uma rádio francesa, descreve seus esforços para localizar os assassinos do marido e o apoio que recebeu da polícia paquistanesa, do FBI e do consulado norte-americano. Ressalta o trabalho brilhante de um policial paquistanês a quem chama “capitão”, que consegue rastrear as mensagens eletrônicas dos seqüestradores até um albergue de estudantes, onde identifica o responsável: um islamita fanático chamado Omar Sheikh, com inúmeros antecedentes de seqüestros. Sheikh, conta ela, era um paquistanês de origem britânica, de uma próspera família de classe média. Freqüentou a mesma escola pública britânica que o cineasta Peter Greenaway e, em seguida, entrou para a London School of Economics. Após ter visto os horrores que se passavam na Bósnia, com muçulmanos sendo massacrados, abandonou a faculdade e resolveu militar na guerra santa (jihad). Sheikh foi detido pela polícia indiana, depois de um período de combates na região de Caxemira, quando tentava seqüestrar um grupo de turistas ocidentais em Nova Déli, em 1994. Seria solto no início do ano 2000, quando alguns companheiros seus seqüestraram um avião indiano em Katmandu. Em seguida, foi para o Paquistão, onde se filiou ao Harkat ul-Mujahedin, um grupo ativista que tivera vínculos com a Al-Qaida e o ISI, agência de espionagem paquistanesa. Aparentemente teria seqüestrado Pearl com o intuito de o utilizar numa troca por militantes islamitas presos. Posteriormente, entregou-se, confessou ter participado do seqüestro de Pearl e, atualmente, está recorrendo junto à justiça, contra a pena de morte a que foi condenado.

Vitória sobre uma tragédia

Na narrativa de Mariane, este histórico político é intercalado com registros de ordem pessoal: uma série de retrospectos descrevendo como conhecera Daniel Pearl numa festa em Paris, como se haviam enamorado, uma viagem a Cuba para levar as cinzas de sua mãe de volta ao lugar em que nascera e a decisão de se mudarem para Bombaim por conta do trabalho do marido para o Wall Street Journal. O quadro que Mariane descreve de Pearl é inteiramente convincente e ela não cai no sentimentalismo em momento algum. Apresenta Pearl como um homem liberal, um jornalista inteligente e encantadoramente brincalhão, amoroso, que gostava de tocar bandolim e via seu trabalho como uma ponte para a compreensão entre o Oriente e o Ocidente, entre o islamismo, o cristianismo e o seu judaísmo. Era, obviamente, um casal muito próximo e apaixonado; e a história de uma mulher grávida, bela e corajosa, que é obrigada a esperar dias a fio quando seu marido foi seqüestrado – e, em seguida, preso e brutalmente assassinado – é quase insuportável, do ponto de vista emotivo.

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Mariane Pearl, que também foi repórter para uma rádio francesa, descreve com clareza a complexidade dos fatos e seus esforços para localizar os assassinos do marido

Enquanto autobiografia, seu livro também é surpreendentemente contido: apesar do sofrimento e do desespero com a perda, Mariane Pearl jamais escorrega para a autocomiseração. Ainda mais notável é o fato, em homenagem aos esforços de seu marido de buscar a reconciliação das variadas culturas, de evitar qualquer tipo de ódio, tanto em relação ao islamismo, quanto ao país em que Daniel foi morto. Sua generosidade e energia pacífica – ela descreve como chegou a pensar em suicídio e decidiu não o fazer – elevam o texto da mera narrativa de uma viúva para algo de mais profundo: não apenas o de uma vitória pessoal sobre uma tragédia, mas o de uma lição de não desistir de tentar compreender.

Qualidade amadorística

O segundo livro sobre o caso, Who Killed Daniel Pearl?, do filósofo francês Bernard-Henri Levy (ou BHL, como é normalmente chamado nas colunas de fofoca da imprensa parisiense), é um trabalho mais ambicioso, com pretensões a um jornalismo investigativo original e a uma prosa de romance. Mas é consideravelmente falho, repleto de erros factuais importantes e, sob todos os aspectos, um livro menor que o de Mariane Pearl. Embora pretendendo criar uma nova forma literária – que Levy chama de romanquête, uma mistura de reportagem com o estilo literário de John Berendtö ou Truman Capote – fica claro, desde as primeiras páginas, que Bernard-Henri Levy não tem fôlego. i



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