Assata - uma autobiografia

Apresentação

Assata – uma autobiografia

por Ynaê Lopes dos Santos
29 de julho de 2022
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Leia a apresentação escrita por Ynaê Lopes dos Santos para a autobiografia de Assata Shakur, publicada pela Pallas editora. “Assata Shakur chega ao Brasil num momento em que sua vida e sua experiência são história e também possibilidade”

Era dia 2 de maio de 1973, e ela estava viva.

Lida assim, de primeira, essa frase pode não fazer muito sentido. Mas ela quer dizer exatamente o que está escrito: era dia 2 de maio de 1973, e ela estava viva.

A pretensa falta de nexo da frase pode ser resolvida com duas simples perguntas: quem estava viva no dia 2 de maio de 1973? E por que isso importa?

Assata Shakur começa sua autobiografia justamente no dia em que estar viva era uma vitória e, ao mesmo tempo, o início da experiência concreta de um pesadelo. Um dia que marcou e virou sua história. O dia em que ela foi presa, mas também o dia em que ganhou o mundo.
Para o público brasileiro, Assata Shakur pode ser conhecida apenas como uma das mulheres mais procuradas pelo FBI. Não que isso seja pouco, tendo em vista a importância do órgão federal na implementação das políticas públicas estadunidenses, sejam elas de abrangência nacional ou internacional. Isso sem contar o peso simbólico do FBI no imaginário dos brasileiros, que o conhecem muito mais por meio de filmes e séries do que por uma compreensão mais profunda de suas reais atuações. O fato é que reduzir Assata Shakur ao cartaz de “Procura-se” é um erro. Um erro que limita e, uma vez mais, aprisiona a história dessa mulher e de tudo o que ela conecta.

Sendo assim, o dia 2 de maio de 1973 importa por ser uma espécie de ponto de partida para conhecer a história de uma mulher negra que tomou decisões pouco usuais na luta pelo que considerava correto. Decisões entendidas como radicais e até mesmo extremistas, e que até hoje [2021] a impedem de entrar nos Estados Unidos.

E, se para Assata Shakur o dia 2 de maio de 1973 foi um momento de grandes e profundas mudanças, para nós, que nos aventuramos a conhecer sua vida, esse é o dia em que iniciamos o mergulho em uma trajetória que nos ajuda a compreender as muitas dimensões da História, tanto aquela com letra maiúscula como a mais comunzinha, de todos os dias.

Para nós, brasileiras e brasileiros, este livro é um mergulho em águas profundas. Por vezes, essas águas nos parecerão por demais turvas, causando certo incômodo e até mesmo desconforto. Em outros momentos, essas mesmas águas se tornarão impressionantemente translúcidas, podendo, a distância, ser tomadas como reflexos de nós mesmos.


Por essa possibilidade de causar estranheza e identificação – a depender de quem lê este livro –, defendo aqui que a leitura da obra de Assata Shakur é uma experiência individual e intransferível. Não que a leitura das demais obras literárias não sejam. Mas esse misto de excepcional e ordinário, que tece todo o livro, faz com que nós, leitores, por vezes sintamos estar numa trama milimetricamente construída para desvelar as contradições, as violências e as alegrias que marcaram a vida dessa mulher. Assata Shakur parece ser uma heroína, a partir da qual se desenrola um roteiro de ação, drama e suspense, com inúmeras cenas de violência. E muitas vezes é preciso parar, respirar fundo e lembrar que não estamos com uma obra de ficção nas mãos. São histórias vividas. E tão importante quanto: histórias contadas por quem as viveu.

Sendo assim, o que faço aqui é menos uma apresentação e mais uma sugestão. Em parte, porque seria impossível eleger as duas ou as três passagens que mais marcaram minha leitura. Toda a vida de Assata Shakur vale a pena. Mas, sobretudo, porque nada do que eu disser pode chegar perto da potência e da vivacidade com as quais Assata Shakur narra sua vida e a vida da amérika em que ela nasceu e viveu por muitos anos. Esta autobiografia é a materialização do conceito de escrevivência cunhado por Conceição Evaristo. Sendo assim, se me cabe dar um conselho a quem (pelas mais variadas razões) se deparou com este livro, é: leia-o, e se deixe afetar.

E quando falo em se afetar, estou me referindo ao sentido etimológico do verbo. Produza sua impressão sobre as histórias guardadas neste livro, se deixe tocar por elas, comova seu espírito. Porque é impossível sair dessa leitura da mesma forma como entramos. Na verdade, é mais do que isso: ao se escreviver, Assata Shakur nos convida a olhar para a História de uma nova maneira. Ao narrar sua vida, Assata também nos brinda com uma outra forma de ser e estar no mundo.

Publicada pela primeira vez em 1988, a autobiografia de Assata Shakur chegou em um mundo que, embora profundamente racista, dava sinais de mudanças significativas. Grande parte dos países africanos já havia passado por sua independência e estava vivenciando os desafios da construção de suas soberanias nacionais. A bipolaridade entre os modelos capitalista e socialista já estava em ruínas, o que se consolidou pouco depois, com a queda do muro de Berlim, em 1989. Políticas públicas antissegregacionistas continuavam sendo implementadas nos Estados Unidos, como resultado da longa luta pelos Direitos Civis da população negra do país. Inúmeras ditaduras latino-americanas estavam sendo derrubadas, e o Brasil iniciava a construção da sua experiência democrática mais progressista. Havia um sopro de esperança no ar. E o livro de Assata Shakur era mais uma narrativa que disputava os sentidos possíveis da palavra liberdade, lembrando que esse conceito nunca caminha sozinho.

Mas não nos esqueçamos de que a História é um campo de batalhas, efetivas e simbólicas. E que a linearidade sugerida pela “linha do tempo” eurocêntrica é uma grande falácia.

No Brasil, a publicação da autobiografia de Assata Shakur acontece mais de 30 anos depois, num contexto intenso, extraordinário e violento. E mesmo depois de um mundo tão mudado – no qual os próprios Estados Unidos tiveram um homem negro eleito como seu governante máximo –, a obra de Assata se mostra atual e necessária. Não só por narrar uma vida que é sinônimo de luta, mas, principalmente, por ter na sua escrita uma forma de denúncia.

Uma denúncia que, infelizmente, ainda ecoa e produz uma série de sentidos.

E seus ecos chegaram em um mundo cingido pela pandemia da COVID-19. Pandemia que descortinou as contradições, as complexidades e as desigualdades profundas que nos estruturam social, política e economicamente. Não por acaso, o racismo se tornou um dos temas mais debatidos e discutidos. E, por ironia perversa do destino, o racismo e essa pandemia que nos assolou apresentaram sintomas semelhantes: ambos não deixam suas vítimas respirarem. Poder respirar foi o último pedido de George Floyd, assassinado no dia 25 de maio de 2020 por um policial de Minneapolis, Estados Unidos. A busca de ar também foi o brado desesperado de João Freitas, assassinado pelos seguranças de um supermercado em Porto Alegre (Brasil) no dia 20 de novembro de 2020. Dois homens negros de meia-idade, mortos por serem quem eram: dois homens negros. Dois assassinatos brutais cometidos por agentes que deveriam estar preservando a vida das pessoas que eles mataram.

A violência policial contra a população negra não é uma novidade nos Estados Unidos, muito menos no Brasil – apesar da nossa insistência em manter a crença no mito da democracia racial. Na realidade, ela é a face mais visível do caráter estrutural do racismo em ambas as sociedades, pois desnuda os projetos políticos implementados por esses dois Estados nacionais. Projetos nos quais os assassinatos narrados há pouco não são casos pontuais, muito menos exceções. Eles são a regra do sistema racista, funcionando em situações-limite.
Em certa medida, a vida de Assata Shakur é também uma situação-limite do sistema racista. A violência policial, o encarceramento em massa, o sistema educacional desigual e segregado, a discriminação nas oportunidades de emprego, o não usufruto dos direitos civis assegurados constitucionalmente. Tudo isso está nas páginas que constituem este livro. Isso porque, assim como Grada Kilomba pontuou recentemente, Assata aprendeu que o racismo é a combinação nefanda do preconceito com o poder.

Poder.

Esta é uma palavra-chave para acompanhar a leitura da autobiografia de Assata, e também para entender as dinâmicas da natureza sistêmica e estrutural do racismo que, ao mesmo tempo que cria inúmeras violências e desigualdades na vida das pessoas negras, constrói castelos de privilégios usufruídos única e exclusivamente pelas pessoas brancas – que muitas vezes não têm consciência de que tais privilégios são, na realidade, a consolidação de uma supremacia branca.

Mas, ainda que existam escalas diferentes, a natureza e a direção do poder são diversas. Não por acaso, um dos maiores slogans do movimento negro estadunidense era (e ainda é) o Black Power. E, na ousadia de quem tem o privilégio de apresentar o livro de uma mulher como Assata Shakur, eu diria que essas duas palavras poderiam resumir esta obra. Vocês têm em mãos um livro sobre o Poder Negro, ou sobre o Poder do Negro. Não só no que tange à disputa direta de forças que Assata Shakur imprimiu e imprime contra a estrutura racista estadunidense. Mas, sobretudo, por essa disputa estar calcada no que ela definiu como “autodeterminação negra”, um direito básico na luta pela libertação.

Aí, vamos para uma outra dimensão, muito menos tangível, da estrutura racista. Estou falando da desumanização sistemática que recai sobre a população negra (e não branca, em geral), cujas vidas são facilmente substituídas por números, gráficos e estatísticas. Seja na medição dos índices de morte de jovens, seja na incidência de violência obstétrica, seja na impossibilidade de representação positiva da sua experiência de ser (humano). A universalização da população branca acaba destituindo os negros desse lugar de humanidade. Essa foi uma das constatações importantes que Frantz Fanon fez ao pontuar (com ironia e acidez) que o negro não era um homem – o mesmo valendo para as mulheres.

Sendo assim, a luta negra é sempre uma luta pela humanidade, tanto pela vida de cada negro ou negra – #BlackLivesMatter – como pela ampliação desse coletivo que chamamos de seres humanos. Pode parecer uma afirmação quase banal, mas ler a vida de uma mulher negra, escrita por ela própria, é uma das formas de ampliar nossa perspectiva de humanidade. Seja no incômodo das águas turvas ou no reflexo das águas límpidas.

Assata Shakur chega ao Brasil num momento em que sua vida e sua experiência são história e também possibilidade. E o mais bonito é que ela não chegou sozinha. Sua obra veio se somar aos escritos de Angela Davis, Patricia Hill Collins, bell hooks, Audre Lorde, Maya Angelou, Toni Morrison, Françoise Ega, Maryse Condé, Carolina Maria de Jesus, Lélia Gonzales, Beatriz Nascimento, Sueli Carneiro, Conceição Evaristo – isso apenas citando as mais velhas.

Se estamos vivendo a percepção mais dura de como o racismo estrutura nossas vidas, também estamos cada vez mais bem instrumentalizados na luta contra ele. Essa é a herança que as mulheres negras carregam, de maneiras diferentes e plurais: tecer outros caminhos possíveis.

Estamos no ano de 2021. Assata Shakur está viva. Estamos vivos. A história não para.
Sigamos.



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