ENTREVISTA

Autoconhecimento e escrita: o caminho da mulher moderna, segundo Bruna Ramos da Fonte

Bruna Ramos da Fonte, comenta seu novo livro, Manual da Mulher Moderna, onde reflete sobre como mulheres podem se reconectar consigo mesmas

A jornalista e psicanalista Bruna Ramos da Fonte, de 34 anos, é uma autora multifacetada e lança este ano novo livro Manual da Mulher Moderna. Sua bibliografia inclui biografias de músicos brasileiros como Roberto Menescal e Sidney Magal, além de livros sobre escrita terapêutica, como Escrita Terapêutica: um caminho para a cura interior (2021). Em 2023, organizou o planner de autoconhecimento Sentir um pensamento (Rocco), inspirado na obra de Clarice Lispector. 

Bruna também é pesquisadora e professora universitária. Especializou-se em Direito Internacional e Direitos Humanos (PUC-Minas), Gênero e Sexualidade (Universidade Anhembi Morumbi) e Teologia (Universidade Municipal de São Caetano do Sul). Professora de graduação e pós-graduação na Faculdade Paulus de Comunicação (FAPCOM), é membra colaboradora da Comissão Permanente de Direitos Humanos da OAB/SP, além de Conselheira Consultiva do Instituto Socinpro Viver da Arte.  

Prefaciado pela atleta olímpica Soraia André César – pioneira do judô feminino no Brasil , seu mais recente lançamento, Manual da Mulher Moderna (Editora Vida & Consciência; 2025), propõe autoconhecimento e exercícios de escrita terapêutica como ferramentas para desconstruir crenças limitantes e fortalecer o protagonismo feminino. Em entrevista, Bruna fala sobre o livro, a importância do cuidado com a saúde mental e como se tornar protagonista da própria história. 

Crédito: Divulgação

Confira a entrevista completa com a autora:  

Ao abordar assuntos tão diversos e complexos – que vão de relacionamentos a sexualidade, passando por maternidade e abusos – como você costurou esses temas de forma a criar um diálogo coerente e transformador com a leitora? 

Os temas abordados no livro são aqueles que fazem parte do universo da vida da mulher moderna, e que o tempo inteiro geram dúvidas e conflitos dentro de nós: relacionamentos, papéis impostos pela religião e pela sociedade, trabalho, realização pessoal e profissional, maternidade, abusos (nas suas mais diversas formas), sororidade, casamento, sexo e sexualidade, estupro etc. Ao longo dos capítulos, recorro a exemplos e histórias do meu cotidiano para introduzir esses temas, com o intuito de promover a reflexão e a conscientização.  

Para sintetizar a essência do projeto, e as minhas intenções ao escrevê-lo, recorro a um trecho do texto de contracapa: “Com reflexões diretas, histórias reais e exercícios de Escrita Terapêutica, Manual da Mulher Moderna foi pensado para apoiar as mulheres na quebra de paradigmas e na desconstrução de crenças limitantes, incentivando a reflexão sobre temas do universo feminino. Com sensibilidade e coragem, a autora propõe uma imersão em assuntos ainda considerados tabus, com o objetivo de promover o autoconhecimento e fortalecer o protagonismo feminino na luta contra o machismo estrutural, que atravessa gerações e se reflete na cultura e na sociedade”. É disso que se trata! 

E como você chegou e escolheu os temas abordados no livro? 

Em algum momento da minha atuação como palestrante e psicanalista, passei a ser frequentemente convidada para falar e atuar com grupos de mulheres e empoderamento feminino, principalmente na esfera corporativa. Ao longo dessa trajetória, observei e elenquei aqueles temas que eram mais recorrentes e angustiantes para elas. Foi a partir desta vivência que eu selecionei os temas mais urgentes e necessários, a fim de compor as temáticas abordadas no livro.  

O projeto nasceu em plena pandemia, de uma ausência de encontros presenciais com mulheres. Como essa travessia impactou o tom da obra? E de que forma o longo período de escrita (2021 a 2024) amadureceu as reflexões que você traz? 

Com o início da pandemia em 2020, em um primeiro momento, toda a minha agenda de palestras e vivências com mulheres foi cancelada devido ao lockdown. É claro que, ao longo do tempo, os eventos passaram a acontecer de maneira virtual, mas naqueles primeiros meses, senti uma falta enorme desse contato ao qual estava tão habituada. Por essa razão, decidi começar um blog chamado Blog da Mulher Moderna, com a intenção de seguir dialogando com as mulheres virtualmente, até que pudéssemos nos encontrar novamente. Porém, o blog teve uma duração muito curta, e o projeto se converteu na ideia deste livro. A partir de então, nos anos seguintes eu mergulhei em um processo bastante profundo de pesquisa e reflexão a fim de escrever os textos e exercícios de “Escrita Terapêutica” que proponho ao longo do livro. Como a pandemia foi um período muito intenso de trabalho para mim, a escrita do livro aconteceu entre os anos de 2021 e 2024, o que me permitiu trabalhar e refletir sobre cada tema de maneira bastante profunda. Esse tempo de maturação enriqueceu determinantemente o resultado do projeto. 

Você propõe que a leitora seja também coautora do livro, por meio da “Escrita Terapêutica”. Como esse convite à ação amplia a força da mensagem e transforma a leitura em um processo de autoconhecimento? 

A ideia do Manual da Mulher Moderna é convidar a leitora a refletir sobre temas que fazem parte do seu próprio universo, para que ela se habitue a questionar normas e crenças enraizadas na nossa cultura e em nosso pensamento. Acredito que as verdadeiras transformações somente acontecem a partir da conscientização e da reflexão, e é por isso que eu decidi incluir exercícios de “Escrita Terapêutica” ao final de cada um dos textos: para que ela não seja apenas leitora, mas também uma coautora do livro, encontrando um espaço no qual possa se aprofundar nas suas reflexões sobre os temas propostos. Desejo que, com este livro, a leitora perceba que ela é a única protagonista da sua história, e que as rédeas da sua vida estão nas suas próprias mãos – ainda que o mundo, o tempo inteiro, tente tirar esse poder de nós. 

Você disse que este é o livro que gostaria de ter lido há 15 ou 20 anos. Se pudesse entregar o Manual da Mulher Moderna para a sua versão mais jovem, em que situações da sua trajetória ele teria feito diferença? 

É claro que este livro também resulta do meu processo pessoal e de toda a minha trajetória enquanto mulher moderna, que o tempo inteiro busca romper barreiras e superar limites impostos. Tenho dito bastante que este é o livro que eu gostaria que a Bruna tivesse lido aos quinze ou vinte anos de idade, pois as reflexões ali contidas teriam me fortalecido e conscientizado para lidar com mais propriedade com aquelas situações com as quais me deparei ao longo dos anos, e que deixaram marcas profundas em mim.  Como disse Virginia Woolf, “Deverá passar muito tempo ainda, a meu entender, para que uma mulher possa se sentar e escrever um livro sem encontrar um fantasma que matar, uma pedra contra a qual bater.” Para mim, nesta frase ela não fala apenas sobre as histórias contidas em livros, mas também sobre as histórias das nossas próprias vidas; para que possamos conduzir as nossas vidas e escrever as nossas próprias histórias, precisamos frequentemente lidar com os fantasmas que nos assombram. E eu só consegui escrever este livro porque matei muitos fantasmas ao longo do meu próprio caminho. 

 Sua trajetória com a “Escrita Terapêutica” e como biógrafa parecem dialogar diretamente com este livro. Como essas duas frentes se entrelaçam na construção de um “manual” que é, ao mesmo tempo, íntimo e coletivo? 

Eu venho escrevendo sobre “Escrita Terapêutica” há muitos anos, então é claro que tenho uma intimidade muito grande com o tema, o que facilitou bastante o processo de escrita deste livro. Sou biógrafa e a minha experiência no campo biográfico também colaborou bastante para o meu processo – considerando que este livro se propõe a ser, de certa forma, uma biografia da mulher moderna. 

Você estuda a dimensão terapêutica da escrita há mais de uma década. O que mais te instiga nesse cruzamento entre literatura, psicanálise e cura? 

Há mais de dez anos comecei a pesquisar as funções terapêuticas da escrita. Quando iniciei a minha formação em Psicanálise Clínica, essas pesquisas se intensificaram, pois passei a recorrer à escrita como ferramenta no contexto analítico. A partir de então, comecei a formar turmas para trabalhar o autoconhecimento através da escrita. Foram cinco anos de atendimentos, aulas e cursos que resultaram na escrita do meu primeiro livro sobre o tema, e que se tornou uma referência na área; o livro se chama Escrita Terapêutica: um caminho para a cura interior, e hoje é utilizado por médicos, psiquiatras, psicólogos e psicanalistas de todo o Brasil.  

Você acredita ter um estilo de escrita específico? Qual é? 

No ano passado, em uma crítica para a Folha de S. Paulo, o jornalista André Barcinski definiu o meu estilo de escrita como “caleidoscópico” e eu achei genial. Foi a melhor definição que alguém já deu para o meu trabalho. As minhas influências, a minha formação e toda a minha trajetória pessoal e profissional são extremamente diversas, e isso se reflete na minha escrita também. Penso que essa característica é o que enriquece o meu texto, e o que define a minha identidade como autora. 

Manual da Mulher Moderna não é o seu primeiro livro. Quando foi que a escrita entrou na sua vida? Você tem algum ritual de escrita? 

Comecei a escrever aos nove anos de idade; publiquei em antologias, venci alguns concursos literários para a minha faixa etária. Mas o meu primeiro livro solo foi publicado aos quinze anos de idade e, desde então, nunca parei de publicar. Manual da Mulher Moderna é o meu décimo primeiro livro.  

Não acredito em rituais de escrita; a minha escrita se baseia essencialmente em planejamento e organização. Quando estou no processo de escrita de um livro, crio um calendário de trabalho considerando a minha agenda para aquele período; como sou professora universitária, palestrante, e tenho uma grande demanda de palestras e cursos, cada livro segue um ritmo diferente.

 

Marcela Güther é jornalista, gestora de comunicação e especialista em relacionamento com a mídia e influência na Editora Orlando e na Com.tato, empresa especializada em comunicação para editoras e autores independentes. Com mais de 10 anos de experiência no setor de comunicação, atua também como mediadora de clubes e mesas literárias, combinando paixão por leitura com expertise em comunicação e curadoria de conteúdo literário. 

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