Babel jovem e inocente - Le Monde Diplomatique

UM ESCRITOR, UM PAÍS

Babel jovem e inocente

por Yan Lianke
31 de julho de 2020
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Autor entre os mais oníricos de seu tempo, Yan Lianke se apossa dos males da sociedade chinesa, correndo o risco de ser censurado em seu próprio país, mas não cede nem um pouco em seu comprometimento, humor e escrita. Aqueles que revelam a verdade – ou simplesmente a realidade – pagam por isso às vezes com a morte, como neste conto especialmente escrito para o Le Monde Diplomatique

O rapaz ia à cidade.

Em direção ao leste, ao nascer do dia seguinte.

As férias de verão jorravam como suor. Na véspera, a última aula fora muito simples, tal como um problema de matemática resolvido desde a leitura do enunciado.

Fim da aula.

As férias começavam.

O rapaz se lançou para fora da sala de aula. Na entrada da escola, o mural de avisos estava coberto de pequenos papéis. Em um deles estava escrito: “Querida XXX, eu te amo tanto que a cada noite sou obrigado a me aliviar sozinho”. Em um outro: “Zhang, você ainda não me devolveu os três yuans que te emprestei este semestre!”. Entre todos esses papéis, havia um, vermelho-vivo, no entanto escrito com uma caneta esferográfica de tinta preta e grossa, com uma frase desconhecida, em inglês:

I fuck your mom”.

Essa sequência de letras lhe causou o efeito de um voo de gansos selvagens em sua direção. Ele levou os pássaros para casa. Deixou a mochila e se dirigiu ao fundo do vilarejo, à casa do professor, que estava alimentando os porcos. O menino lhe entregou o papel vermelho, o educador leu e ruborizou-se antes de anunciar três observações:

– Eu não sei direito o que significa essa frase. Também não vale a pena ir perguntar a outras pessoas; de qualquer modo, no próximo semestre você passará a uma série superior e aprenderá inglês.

A terceira observação foi apenas uma recomendação insistente, como relembrou o rapaz enquanto voltava para casa:

– Ei! Sobretudo não pergunte a ninguém, essa frase com certeza não é boa de escutar!

O moleque ficou com ainda mais vontade de se informar. Mais vontade ainda de saber o que significava “I fuck your mom”. No dia seguinte, decidiu ir à cidade para questionar o professor de inglês. Levantou-se cedo, tomou o café da manhã que sua mãe havia preparado, colocou no bolso o dinheiro que seu pai lhe dera e, enquanto o sol erguia sua bandeira, deixou a casa. Caminhou alguns lis,1 chegou à rota do cume da montanha para esperar ao pé de uma velha Sophora por um ônibus que atendia à zona rural. Nesse momento, um grupo de joaninhas passou diante dele, tão rápido como um raio; em seguida, algumas borboletas o rodearam. Então pensou consigo que era melhor andar. A pé pode-se ver a paisagem. Foi então assim, tranquilamente, até a entrada da cidade. Enfim, parecia que o ideal o abraçava. Os prédios, as casas novas e o pórtico sobre uma larga avenida. Restaurantes à margem, as bancas e os feirantes espalhados. Era bem ali seu destino. Embora esgotado, a ideia de encontrar logo o professor de inglês fazia que nem sentisse mais o cansaço. Tirou do bolso o papel vermelho, deu uma olhada nele e, verificando que o papel com a frase “I fuck your mom” ainda estava lá, passou pelo pórtico. Uma dezena de metros à frente, avistou uma jovem mulher que vendia saias. Perguntou-lhe se conhecia o endereço do professor de inglês; ela respondeu-lhe que não. No mesmo instante, um jovem homem surgiu de trás dela, com uma sacola de saias no braço, a qual colocou no chão antes de perguntar:

– É o senhor Zhao, o professor de inglês do colégio, que você procura?

O menino arregalou os olhos.

– É meu primo.

Acrescentou que era inútil procurá-lo em sua casa, pois, sendo dia de feira, o professor Zhao estaria certamente na loja de eletrodomésticos Mondial, na segunda avenida. Ele ensinou o rapaz a chegar lá. O garoto hesitou e se dirigiu por fim ao endereço indicado. Ao final de uma avenida comprida de dois lis, encontrou a loja. O professor de inglês estava ali de fato. Era o proprietário e, embora seu irmão e sua cunhada ficassem lá habitualmente, o senhor Zhao se instalava atrás do balcão durante as férias escolares. Era um homem de 40 anos, estatura média, vestindo uma camisa branca, cabelos curtos penteados com escova, calçando sapatos de couro sujos e com marcas, um jeans antigo, exatamente como se apresentava no colégio. A loja era constituída de três cômodos, as prateleiras cheias de fornos elétricos, chaleiras elétricas, lâmpadas, tomadas etc. No chão, ao longo das paredes, televisores de todos os tamanhos, produzidos na China ou importados. Um adolescente, um pouco mais velho que nosso protagonista, ia e vinha diante do balcão, sem ter o que fazer. O professor de inglês conversava com um casal de pessoas de idade diante de um grande aparelho, cujo preço discutiam.

O rapaz entrou.

Permaneceu timidamente na soleira da porta. Não avançou, aguardando com paciência até que o professor e as pessoas idosas terminassem sua conversa. Por fim, o casal declinou da compra, o professor os acompanhou até a saída, virou-se e, ao garoto que o observava com vergonha, perguntou:

– Você quer comprar algo?

– Eu sou do colégio do burgo.

Estendeu-lhe o papel dobrado em quatro e acrescentou:

– Queria lhe perguntar o que significa a frase escrita em inglês nesse papel.

O professor pegou o papel, desdobrou-o. Ficou levemente branco, com o rosto contraído. Perguntou ao menino quem havia escrito aquilo. O rapaz respondeu que havia visto o bilhete no dia anterior, antes de sair de férias, no mural de recados na entrada da escola.

O professor o olhou bem dentro dos olhos e fez outra pergunta:

– Você não sabe realmente o que significa esta frase?

– Somente no semestre que vem eu vou começar a aprender inglês.

O professor lhe entregou o papel.

– Bem, você terá sua resposta no semestre que vem.

O menino se recusou a pegar o papel de novo, elevou um pouco a voz e insistiu:

– Eu vim especialmente para lhe perguntar isso, andei mais de vinte lis!

O professor parecia em dúvida. Seus olhos se voltaram, gelados, para o rosto da criança:

– Vinte lis?

– Vinte lis.

Essa última réplica satisfez o rapaz. Viu na expressão do professor que este estava surpreso e desconcertado, então prosseguiu:

– Também vim à cidade com a intenção de comprar alguns livros.

Aliviado, o professor lhe acariciou um pouco a cabeça e disse:

– Já que você tem de ir à livraria, compre também um dicionário inglês-chinês, lá você encontrará o que significa essa frase.

E acrescentou:

– Não tenho meu dicionário comigo, não sei muito bem como traduzir essa frase corretamente para você.

Ele parecia lamentar e falava com um sorriso confuso e pálido nos lábios. Em seguida, dobrou de novo o papel e deslizou-o na mão do menino.

O moleque saiu da loja um pouco perdido e parou, desconcertado, na soleira. Na rua, uma maré humana se dirigia à feira, o calor do mês de junho se espalhava e os vapores de suor fervente preenchiam o mundo. Ele hesitou e lentamente percorreu a avenida em direção à livraria. De repente, alguém surgiu de trás dele e bateu em suas costas.

Ele parou. Virou-se. Era o adolescente que havia visto mais cedo na loja. Dez centímetros maior que ele e parecendo dois ou quatro anos mais velho.

– Sei o que significa a frase que você mostrou ao professor Zhao – disse ele estendendo a mão para que lhe entregasse o papel vermelho-escuro.

O garoto o entregou. O mais velho o desdobrou e em seu rosto se formou um estranho sorriso:

– Eu vou te dizer o que significa esta frase, mas você precisa me pagar uma melancia.

O menino o encarou.

O rapaz olhou ao redor e fixou o olhar na lateral da avenida. Havia lá uma barraca de melancias. O vendedor estava exatamente descarregando-as para dispô-las no chão. Em uma mesa em frente a seu carro, uma fruta que tinha acabado de ser cortada se avermelhava como um sol se elevando ao topo dos montes. O adolescente escolheu com habilidade uma melancia na bancada, entregou-a ao vendedor para que a pesasse, deixou o menino pagar três yuans e vinte centavos e em seguida puxou-a para perto de si. Mais uma vez olhou para o papel e, com uma voz calma, declarou:

– Essa frase quer dizer “Eu como sua mãe”.

O menino o examinou com ar de espanto, parecendo não compreendê-lo.

O maior repetiu com seriedade:

– É verdade! É “Eu como sua mãe”!

Achando que o garoto poderia não estar acreditando nele, pela terceira vez releu a frase em inglês e repetiu a tradução “Eu como sua mãe”. O menino continuava simplesmente a encará-lo, com um leve tremor no canto dos lábios, e, quando o maior lhe estendeu o papel, voltou-se para a mesa, pegou a faca de cortar melancia e a enfiou, de uma vez, na barriga do adolescente. Tudo se passou tão rápido que ninguém teve tempo de perceber nada. O maior não sentiu nenhuma dor, demonstrou certa surpresa diante do rumo que as coisas haviam tomado, emitiu um leve “Oh!”, largou a fruta e fraquejou, de joelhos no chão. O solo se avermelhou com uma poça, a respeito da qual não se podia discernir se era de sangue ou de suco de melancia.

Assim que a lâmina perfurou o mais velho, o garoto se afastou, apressando-se com dificuldade. Saiu da margem da avenida para se misturar na massa humana, rápido como uma gota que, caindo do toldo, tocou o solo.

Era o mês de junho, o calor se fazia mais ardente. O mundo transpirava um odor fétido. Na hora do almoço, o menino tomou um ônibus para voltar para casa. Seus pais, que comiam no quintal, perguntaram-lhe por que voltara tão cedo, não havia ido à feira? O menino respondeu que havia muita gente na cidade, que não estava interessante, e entrou rápido na cozinha para beber um copo de água gelada em um só gole. Quando reapareceu no quintal diante de seus pais, um barulho alto e estridente ressoou da entrada do vilarejo: a sirene de policiais de moto. Também se percebia o barulho de passos dos habitantes locais correndo atrás deles. As motos pareciam vir para ali. Seu pai e sua mãe aguçaram os ouvidos, curiosos, mas o rapaz, com uma aparência pálida, sentiu surgir em sua cabeça, como o bote de uma serpente, uma frase em inglês que havia aprendido alguns dias antes. Então, com um sorriso rígido, declarou em inglês:

Dad, mom: I love you!2

 

Pequim, 20 de maio de 20203

 

Yan Lianke, escritor, é autor, especialmente, de Servir le peuple [A serviço do povo], Un chant céleste [Um canto celeste] e La Mort du soleil [A morte do Sol], todos pela Philippe Picquier, Arles, respectivamente em 2018 (reedição), 2019 e 2020. Este texto foi traduzido do chinês (mandarim) por Brigitte Guilbaud.

 

1 O li é uma medida de distância chinesa correspondente a 500 metros. (N.T.)

2 “Papai, mamãe, eu amo vocês!” (N.R.)

3 A pronúncia em chinês dessa data é muito parecida com o som de “Eu te amo”. Com o desenvolvimento da internet, os chineses adquiriram o costume, já há alguns anos, de expressar seu amor ou seu afeto no dia 20 de maio. (N.T.)



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