Bairro Notre-Dame

INCÊNDIO EM PARIS

Bairro Notre-Dame

por Benoît Duteurtre
30 de abril de 2019
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Eu pensei, então, que vivíamos num mundo estranho, onde a obsessão pela segurança não impede que uma estrutura de oito séculos vire fumaça e onde os turistas nunca foram tão numerosos a se espremer nos cais para fotografar a catedral calcinada, cuja simples visão aperta meu coração

Eu tive a felicidade, uma noite, de subir uma escada de pedra até o órgão da Notre-Dame, onde o organista e compositor Thierry Escaich faria um concerto. Nós tínhamos nos reunido, com alguns amigos, para o ensaio e passamos duas horas nessa abóbada imensa, sozinhos na catedral, depois da hora de fechar. Thierry tocava, improvisava nesse instrumento extraordinário concebido pelo genial Aristide Cavaillé-Coll, e eu contemplava as galerias da nave com a impressão deliciosa de encontrar ao mesmo tempo o mundo medieval, a história religiosa, a história literária (Quasímodo deveria estar escondido em algum canto) e a história musical, tão presente nessa igreja onde o célebre Louis Vierne morreu tocando nesse mesmo órgão, num dia de 1937.

Vivendo na Île de la Cité há trinta anos, sempre tive a impressão de morar no “bairro da Notre-Dame” e frequentemente parava na catedral para saborear a sombra, o espaço e os perfumes de incenso. Os turistas numerosos não me impediam de deambular de uma capela para a outra, diante da quantidade de quadros e objetos religiosos, das velas que portavam fé ou superstição. Frequentemente as missas estavam em andamento no coro, como se a catedral dos passantes rodeasse a dos devotos, mas a imensidade do lugar tornava essa coabitação entre a igreja e o fórum possível. Eu admirava as rosáceas do transepto, os barroquismos do coro, tão desencontrados da geometria gótica. Um pouco mais tarde, no pátio em frente à catedral, eu lançava um olhar sobre a pedra que indicava o “quilômetro zero” das distâncias francesas.

De um passeio a outro, aprendi a amar a Notre-Dame de todos os ângulos; e, primeiro, do lado da Rua Chanoinesse, abordando sem recuo essa muralha de esculturas e gárgulas – ao contrário da perspectiva espetacular que oferece a grande praça liberada por Haussmann. Na beira da margem esquerda do rio, ao longo do pequeno braço do Sena, a catedral revela todo o seu esplendor na vegetação florida – até no inverno, acima das árvores nuas, onde grasnam os corvos e piam os pardais. Mais longe, da Ponte de Sully, ela aparece como uma vigia no coração de Paris. E se descemos a Rua de Beaubourg em direção ao Hôtel de Ville, parece então que ela cresce pouco a pouco, coberta por esse teto extraordinário – que queimou no dia 15 de abril –, e que domina o bairro inteiro, como se os prédios da cidade fossem apenas pequenos personagens aos pés de uma nave.

Nos dias de sol, vou procurar a sombra na Praça Jean-XXIII, maravilhoso jardim acomodado sob os arcos de pedra que descem em espirais na beira da catedral. As folhagens garantem em pleno verão um frescor delicioso – decorado pelo barulho da fonte medieval. E às vezes, no coreto, uma fanfarra sueca ou da Marinha francesa faz um recital, aumentando ainda mais o prazer que experimentamos, entre o lado direito e o esquerdo do rio, no cruzamento dos braços do Sena, nesta pura beleza urbana.

As coisas mudaram, no entanto, ao longo dos anos, transformando cada vez mais este bairro em um bastião da indústria turística. Primeiro foi a reconversão acelerada das últimas lojas em lojinhas de suvenir e restaurantes falsamente típicos; depois, a chegada dos VTC [espécie de táxi que opera somente por meio de reservas], os táxis-bicicleta e os ônibus de dois andares, propondo, em inglês, a travessia de Paris. Cada vez mais numerosas, as asiáticas em vestido de noiva vinham tirar fotos na Ponte do Archevêché, cultivando uma visão kitsch do “romantismo” parisiense – no entanto, degradado pelos cadeados presos às grades da passarela: curioso símbolo do amor que obrigou a prefeitura a substituir os antigos parapeitos.

A verdadeira mudança, no entanto, tanto para os moradores do bairro quanto para muitos franceses, aconteceu após diversos atentados, que provocaram um controle sistemático dos visitantes da Notre-Dame. A entrada rápida e fluida pelo portão acabou para sempre dando lugar a uma longa fila de espera até o meio do pátio, e tive de renunciar às minhas pequenas pausas nos bancos da catedral. Os alertas às bombas se multiplicaram também, por causa das bolsas esquecidas, e entendi que o clima da época não era mais de brincadeira, que os perímetros de segurança deviam se estender sem limites, e a autoridade se mostrar, de fuzil na mão. Ainda recentemente, minha rua inteira foi fechada por causa de um pacote suspeito, muito longe, no pátio. E, como eu tentava negociar para chegar ao meu prédio, logo atrás da barreira, uma jovem policial me respondeu sem amenidades: “Se você não gosta, mude de bairro”. Mas essas medidas também valem para as visitas de pessoas importantes, como Michelle Obama, de passagem com suas filhas, tanto que tive, nessa vez também, de esperar que ela fosse embora para entrar no meu prédio.

Em 2017, François Hollande e Anne Hidalgo apresentaram um projeto de renovação da Île de la Cité. Ele visa transformar o bairro em uma grande base turística e comercial com a partida do Palais de Justice, da Préfecture de Police e das atividades hospitalares do Hôtel-Dieu. Cogitam, por exemplo, construir uma cobertura de vidro no lindo mercado de flores para desenvolver atividades ali. No mesmo momento, a comerciante da Rua de Arcole fechou sua velha loja cheia de jornais e imagens santas, último testemunho do tempo em que este bairro era mais um local de peregrinação do que uma etapa entre a Torre Eiffel e a Disneylândia Paris. Seu comércio foi comprado pela Häagen-Dazs. Ultimamente, a prefeitura fechou diversas entradas da Praça Jean-XXIII: tratava-se de lutar contra os batedores de carteira dos turistas, que utilizam essa passagem para fugir. Consequentemente, os moradores foram punidos e eu atravesso esse jardim com menos frequência. A prefeitura, inclusive, deixou de cuidar da fonte do jardim, quase sempre seca.

No começo de abril, observei a flecha rodeada de grandes andaimes e pensei, um pouco triste, que não a veria por muito tempo… mas que, sem dúvida, os especialistas e os computadores tinham feito uma boa escolha ao assegurarem o frágil monumento plantado lá há 150 anos. Enfim, na segunda-feira, dia 15, pelas 7 horas da noite, saindo da estreita Rua de Bièvre com algumas compras, cheguei ao Cais da Tournelle e percebi centenas de turistas balançando celulares para tirar fotos da Ponte do Archevêché. Me espantei com essa multidão, mesmo se tratando de um dos pontos de vista mais famosos do mundo. De repente, ao virar a cabeça, descobri as grandes chamas que subiam os andaimes. O incêndio começava a se propagar, atiçado pelo vento, e eu senti uma angústia terrível, que não tinha a ver com o perigo, mas com a violência desse ataque do fogo sobre o monumento radiante, nesse céu azul do fim de tarde. Afobado, perguntei-me como os bombeiros chegariam lá em cima, depois acelerei o passo, motivado pela experiência: “Preciso ir para casa logo, eles vão fechar o bairro”. De fato, a polícia chegou uma hora depois ao meu prédio – que, no entanto, fica bem longe da igreja – e começou a pedir que fôssemos para o ginásio e para a inevitável sala de assistência psicológica! Eu preferi me fingir de morto e passar a noite na clandestinidade, enquanto os bombeiros controlavam pouco a pouco o acidente e a imensa coluna de fumaça desaparecia. Mas fiquei em estado de choque, tomado pelo cataclismo que atingia tão perto de mim o coração de Paris.

Nos dias seguintes, enquanto o drama passava repetidamente na mídia, a Île de la Cité se transformou num campo entrincheirado, acessível apenas com uma carteira de identidade. As estações de metrô fecharam e os menores deslocamentos se tornaram extraordinariamente difíceis. A extensão do perímetro de segurança, passando muito longe das beiras da Notre-Dame, provocou nas duas margens do rio engarrafamentos gigantes, como se a autoridade quisesse tomar medidas do tamanho do acontecimento. Quando a Prefeitura de Paris e o ministro do Interior foram visitar o local, meus vizinhos tiveram de esperar fora da ilha antes de poder voltar para casa. Eu pensei, então, que vivíamos num mundo estranho, onde a obsessão pela segurança não impede que uma estrutura de oito séculos vire fumaça e onde os turistas nunca foram tão numerosos a se espremer nos cais para fotografar a catedral calcinada, cuja simples visão aperta meu coração.

Reconforto-me imaginando que esse incêndio terrível parece ter poupado o grande órgão, que espero ouvir novamente. Depois volto para a Notre-Dame pela pequena Rua Massillon, onde a muralha medieval permanece de pé com suas gárgulas, como se nada tivesse mudado. Mais um consolo: durante esses dias em que a ilha estava fechada, salvo aos residentes, dois ou três cafés de turistas abriram seus terraços para os vizinhos e animaram uma praça de vilarejo a dois passos da catedral ferida.

 

*Benoît Duteurtre é escritor. Publicou recentemente En marche! Conte philosophique [Em marcha! Conto filosófico], Gallimard, Paris, 2018.



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