NESSE JOGO CONTRA A INDÚSTRIA DAS APOSTAS, O BRASILEIRO ESTÁ PERDENDO DE GOLEADA.

Bets: a pandemia do século

A Espanha conquistou a Copa do Mundo de 2026. Mas, antes mesmo da decisão, outra vencedora já estava definida: as bets. No Brasil, um terço da população apostou dinheiro em plataformas de apostas esportivas durante o Mundial, revelando a dimensão de um mercado que se expande na mesma velocidade que seus custos sociais

Meu primeiro contato com uma plataforma de apostas ocorreu durante a Copa do Mundo de 2022. Inicialmente, depositei R$ 10 na conta, valor que logo se transformou em um aporte de R$ 20, e assim sucessivamente. Ao fim da competição, meu dinheiro havia se dissipado como um grão de areia levado pelo vento do deserto do Catar, palco daquele torneio. O valor relativamente pequeno que desapareceu em um piscar de olhos da minha conta bancária – cerca de R$ 150 – foi suficiente para me fazer abandonar de vez a jogatina. Infelizmente, essa não é a realidade da maioria dos brasileiros atraídos pelos jogos online e por mais uma edição do maior evento futebolístico do planeta.

Quatro anos depois da minha estreia no sórdido universo das apostas, pouca coisa mudou. A CazéTV, única emissora do país a transmitir os 104 jogos da Copa do Mundo de 2026, esteve no centro das discussões devido ao bombardeio de propagandas de plataformas de apostas ao longo das transmissões.

A repercussão foi tamanha que o Ministério da Justiça abriu uma investigação para apurar indícios de publicidade abusiva de plataformas de apostas na CazéTV, levando a emissora a adotar novos formatos para esse tipo de divulgação. Em paralelo, o Ministério da Fazenda editou novas regras para a publicidade do setor. As peças publicitárias passaram a ser acompanhadas de advertências, em modelo semelhante ao adotado para propagandas de cigarros e bebidas alcoólicas.

Foto: Divulgação

Os tentáculos da jogatina no futebol não se restringem à Copa do Mundo. No Campeonato Brasileiro, é praticamente impossível assistir a uma partida sem se deparar com a publicidade dessas empresas, seja nas placas ao redor do gramado, nas inserções durante a transmissão, nos intervalos ou, ainda mais frequentemente, estampada na parte “master” das camisas dos clubes por meio de contratos milionários. Para se ter uma ideia, segundo levantamento da Folha de S.Paulo, um telespectador tem mais chances de ver anúncios de casas de apostas do que a bola rolando no Brasileirão. O veículo analisou 22 transmissões da edição de 2025 em diferentes canais com direito de transmissão.

Como se isso não bastasse, alguns dos principais jogadores (em atividade ou não) e jornalistas esportivos brasileiros são patrocinados por essas empresas, caso do narrador Galvão Bueno (Betnacional) e dos atacantes Vinícius Júnior (Betnacional) e Neymar (Blaze), ambos convocados por Carlo Ancelotti para a disputa do Mundial realizado no Canadá, México e Estados Unidos. Lucas Paquetá, outro atleta chamado para a seleção e atualmente no Flamengo – clube patrocinado pela Betano –, chegou a ser investigado por suposta manipulação esportiva quando defendia o West Ham[1], atualmente patrocinado pela BOYLE Sports, outra empresa do setor.

Quando se fala em apostas online, existem diferentes modalidades. Há aquelas que dependem da previsão de resultados ou acontecimentos esportivos – como o placar exato de uma partida, número de escanteios ou cartões recebidos por determinada equipe – e as baseadas em algoritmos, popularmente associadas ao “Jogo do Tigrinho” (Fortune Tiger). Semelhantes aos caça-níqueis, elas funcionam de maneira ainda menos transparente. Em comum, todas compartilham o mesmo objetivo: fazer o usuário perder dinheiro, mas continuar jogando por acreditar que, uma hora, receberá uma bolada.

Em dezembro de 2024, a revista piauí lançou luz sobre a explosão das bets ao publicar uma extensa reportagem, que mostrava como a expansão da jogatina virtual foi impulsionada pela publicidade de influenciadores com milhões de seguidores nas redes sociais. A matéria revela, por exemplo, que a empresária Virgínia Fonseca, hoje com mais de 56 milhões de seguidores, foi uma das maiores beneficiadas pelos cachês milionários pagos por empresas do setor para divulgação.

Pouco antes da publicação da reportagem, foi instaurada uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), no Senado Federal, para investigar o impacto das apostas virtuais e dos jogos de azar no orçamento das famílias, sua possível associação com organizações criminosas e o papel desempenhado por influenciadores digitais na promoção dessas plataformas. Em maio, quando Virgínia prestou depoimento à comissão, o circo já estava armado. A melhor demonstração da galhofa veio do senador Cleitinho (PL-MG), que pediu um vídeo da influenciadora para sua família.

No fim das contas, o relatório final da CPI foi rejeitado em junho de 2025, e tudo acabou em pizza. Quem pagou essa conta, literalmente, foi a população.

A influenciadora Virgínia Fonseca em reunião da CPI das Bets – Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Não chega a surpreender que o setor de apostas online conta com um lobby robusto e bem articulado em Brasília. O senador Ciro Nogueira (PP-PI), por exemplo, alterna sua agenda entre os corredores do Congresso, viagens a Courchevel, na França, ao lado de seu “irmãozão”, o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e viagens luxuosas à ilha de Saint Martin, paraíso fiscal no Caribe, na companhia de Fernandin OIG, apontado, em outra apuração da piauí, como um dos responsáveis pelo “Jogo do Tigrinho”

No Brasil, as empresas de apostas passaram a ter respaldo legal em 2018, durante o governo Michel Temer. No entanto, somente em 2023, já na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, o setor foi regulamentado, com a definição de regras para operação, fiscalização e tributação.

Para atuar legalmente no país, essas empresas precisam obter autorização do Ministério da Fazenda mediante o pagamento de uma licença com prazo de validade determinado. Além disso, devem recolher tributos e cumprir uma série de exigências regulatórias. Com a regulamentação, o governo passou a bloquear e suspender plataformas que operavam sem autorização ou em desacordo com as novas normas, as chamadas bets ilegais. Na prática, porém, muitas dessas plataformas fraudulentas continuam operando irregularmente.

Nesse jogo contra a indústria das apostas, o brasileiro está perdendo de goleada. Desde o início da Copa do Mundo de 2026, mais de um terço da população enviou dinheiro para plataformas do setor. Os números revelam um cenário alarmante: comprometimento da renda, adiamento de projetos de vida, endividamento, impactos sobre a saúde mental e desenvolvimento de comportamentos compulsivos relacionados ao jogo. Para se ter uma ideia, quem seguiu as sugestões de narradores e comentaristas da CazéTV – vale lembrar, a única emissora a transmitir todos os jogos da competição — perdeu dinheiro em quase 61% das apostas, segundo levantamento do ICL Notícias.

O problema pode ser ainda maior. De acordo com dados da Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (Abmes), 34% dos brasileiros entre 18 e 35 anos que ingressariam em uma graduação em 2025 precisaram adiar esse projeto por terem gasto seu dinheiro com plataformas de apostas e cassinos virtuais. A expectativa também é de novo encolhimento das receitas no setor de serviços, já que uma parcela cada vez maior da renda disponível deixa de ser destinada à indústria e ao comércio para ser destinado para casas de apostas.

Em ano eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a endurecer o discurso contra o setor. Lula afirmou que, se a decisão dependesse exclusivamente dele, acabaria com as bets. A declaração foi interpretada como um aceno ao eleitorado feminino, que tem defendido medidas mais rígidas para conter o avanço dessas empresas.

Uma das iniciativas mais interessantes para combater o vício em jogos de azar foi a criação do serviço de autoexclusão. Por meio dele, qualquer cidadão brasileiro pode restringir voluntariamente o próprio acesso às plataformas autorizadas pelo governo. Apesar do caráter preventivo, a ferramenta apenas mitiga um problema que ainda está muito longe de ser solucionado. (Até o momento, quase 700 mil pessoas já recorreram ao mecanismo de autoexclusão de casas de apostas).

Sejam relacionadas a eventos esportivos ou a jogos baseados em algoritmos, essas plataformas contam com sofisticadas estratégias de publicidade. Se, em um primeiro momento, sua presença estava concentrada nas transmissões de futebol e nas redes sociais de influenciadores com milhões de seguidores, hoje ela se espalhou pelos mais diversos espaços da vida cotidiana. Festivais culturais e eventos tradicionais, como as festas de São João e o Carnaval, passaram a contar com o patrocínio dessas empresas, ampliando sua exposição e naturalizando sua presença no imaginário popular.

Essa pandemia também se espalhou pelo transporte público das grandes cidades. Não é raro encontrar anúncios em trens, metrôs e ônibus com QR Codes que direcionam o passageiro diretamente para plataformas de apostas, oferecendo “bônus”, “rodadas grátis” e outras “vantagens” – entre aspas, mesmo – para atrair novos usuários. Considerando que os brasileiros que utilizam transporte público nas capitais passam, em média, cerca de duas horas por dia em deslocamentos, isso representa quase 120 minutos diários de exposição a estímulos cuidadosamente planejados para seduzir potenciais apostadores e alimentar um comportamento que pode evoluir para o vício. De maneira, no mínimo, sádica, todas essas campanhas vêm acompanhadas do clichê “jogue com responsabilidade” – como se o vício pudesse ser controlado apenas pela força de vontade. A advertência passou a ser obrigatória após a regulamentação do setor promovida pelo governo Lula.

As bets funcionam como uma droga: estão disponíveis 24 horas por dia, ao alcance de um celular, impulsionadas por campanhas publicitárias, influenciadores digitais e pela exposição constante nos meios de comunicação. Como definiu o escritor Sérgio Rodrigues, em coluna publicada na Folha de S.Paulo, “criar uma rede nacional de milhões de cassinos de bolso legalizados e abertos 24 horas não é tão diferente de vender crack no horário nobre”.

 

Guilherme Loureiro é jornalista.

 

[1] O jogador foi inocentado ano passado das acusações que respondia.

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