Bocas do Tempo - Le Monde Diplomatique

RESISTÊNCIAS

Bocas do Tempo

por Eduardo Galeano
1 de setembro de 2004
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Profissão de fé clarividente e maliciosa, o discurso do escritor uruguaio durante a festa dos cinqüenta anos do Le Monde diplomatique, em 8 de maio de 2004Eduardo Galeano

O que faz rir as caveiras?

Quem é o autor das blagues sem autor? Quem é o velhinho que inventa as blagues e as dissemina pelo mundo? Em que cavernas ele se esconde? Por que Noé não fez mosquitos entrarem na Arca?

São Francisco de Assis amava também os mosquitos?

As estátuas que faltam são tão numerosas quanto as que restam?

Se a tecnologia da comunicação está cada vez mais desenvolvida, por que cada dia somos mais surdos e mais mudos?

Por que ninguém, nem mesmo o Bom Deus, pode compreender o que dizem os especialistas em comunicação?

Por que os livros de educação sexual acabam com toda a sua vontade de fazer amor durante vários anos?

Nas guerras, quem vende as armas?

Pontos de vista

A chuva é uma maldição para o turista e uma boa nova para o camponês

1
Do ponto de vista do mocho, do morcego, do boêmio e do ladrão, o crepúsculo é a hora do café da manhã.

A chuva é uma maldição para o turista e uma boa nova para o camponês.

Do ponto de vista dos autóctones, o que é pitoresco é o turista.

Do ponto de vista dos índios das ilhas Caraíbas, Cristóvão Colombo, com seu chapéu com plumas e sua capa de veludo vermelho, era um papagaio de dimensões nunca vistas.

2
Do ponto de vista do Sul, o verão do Norte é o inverno.

Do ponto de vista de uma minhoca, um prato de espaguetes é uma orgia.

Onde os hindus vêem uma vaca sagrada, outros vêem um grande hambúrguer.

Do ponto de vista de Hipocrátes, de Galeno, de Maimônídes e de Paracelso, existia uma doença chamada indigestão, mas nenhuma doença chamada fome.

3
Do ponto de vista do Oriente do mundo, o dia do Ocidente é a noite.

Na Índia, os que estão de luto se vestem de branco.

Na Europa antiga, o negro, cor da terra fecunda, era a cor da vida, e o branco, cor dos ossos, era a cor da morte.

Segundo os velhos sábios da região colombiana do Chocó, Adão e Eva eram negros e negros eram seus filhos Caim e Abel. Quando Caim matou seu irmão com um golpe de bastão, a cólera de Deus trovejou. Diante da fúria do Senhor, o assassino empalideceu-se de culpabilidade e de medo, e empalideceu-se tanto que continuou branco até morrer. Nós, os brancos, somos todos filhos de Caim.

4
Se os santos que escreveram os Evangelhos tivessem sido santas, como seria explicada a primeira noite da era cristã?

São José, contam as santas, era mal-humorado. Era o único amuado na creche em que o menino Jesus, recém-nascido, resplandescia em seu berço de palha. Todos sorriam: a Virgem Maria, os anjinhos, os pastores, as cabras, o boi, o asno, os magos que vieram do Oriente e a estrela que os conduzira até Belém. Todos sorriam, salvo um. São José, entristecido, murmurou:
“Eu queria uma filha.”

O direito ao delírio

Do ponto de vista dos autóctones, o que é pitoresco é o turista

Um milênio se vai, outro chega.

O tempo zomba dos limites que inventamos para ele para acreditar que nos obedece; mas o mundo inteiro comemora e teme essa fronteira.

A ocasião é propícia para que os oradores cheios de palavras veementes pontifiquem sobre o destino da humanidade e para que os porta-vozes da cólera de Deus anunciem o fim do mundo e a desintegração geral, enquanto o tempo continua, de boca fechada, seu curso ao longo da eternidade e do mistério.

Para ser franco, ninguém resiste a isso: por mais arbitrária que seja essa data, cada um experimenta a tentação de se perguntar sobre como serão os tempos futuros. Mas quem poderia saber? Temos apenas uma certeza: já somos pessoas do século passado e, pior ainda, do milênio passado.

No entanto, se não podemos adivinhar como será a época, pelo menos temos o direito de imaginar como queremos que ela seja.

Em 1948 e em 1976, as Nações Unidas estabeleceram uma longa lista dos direitos do homem; mas a humanidade, em sua imensa maioria, tem apenas o direito de ver, de escutar e de se calar.

E se começarmos a exercer o direito, jamais proclamado, de sonhar? E se delirássemos durante alguns instantes?

Vamos pôr os olhos além da infâmia, para descobrir um outro mundo possível. Um outro mundo onde:

O ar será isento de qualquer veneno que venha dos medos humanos e das paixões humanas;

nas ruas, os automóveis serão esmagados pelos cachorros;

as pessoas não serão conduzidas pelo automóvel, nem programadas pelo computador, nem compradas pelo supermercado, nem observadas pela tv;

o televisor deixará de ser o membro mais importante da família e será tratado como o ferro de passar roupas ou a máquina de lavar;

Em 1948 e em 1976, as Nações Unidas estabeleceram uma longa lista dos direitos do homem; mas a humanidade, em sua imensa maioria, tem apenas o direito de ver, de escutar e de se calar

as pessoas trabalharão para viver em vez de viver para trabalhar;

será introduzido no código penal o delito de estupidez que cometem aqueles que vivem para possuir ou para ganhar, em vez de viverem simplesmente para viver, como canta um pássaro sem saber que canta e como brinca uma criança sem saber que brinca;

não serão presos os jovens que se negam a fazer o serviço militar, mas os que querem fazê-lo;

os economistas não denominarão mais nível de vida o nível de consumo, e não denominarão mais qualidade de vida a quantidade de coisas;

os chefes de cozinha não acreditarão mais que as lagostas adoram ser fervidas vivas;

os historiadores não acreditarão mais que os países adoram ser invadidos;

os políticos não acreditarão mais que os pobres adoram se alimentar de promessas;

a formalidade deixará de acreditar que é uma virtude, e ninguém levará a sério o indivíduo incapaz de rir de si mesmo;

a morte e o dinheiro perderão seus poderes mágicos, e a morte ou a fortuna não farão mais de um canalha um homem virtuoso;

ninguém será considerado um herói ou um imbecil porque fez o que crê justo em vez de fazer o que melhor lhe convém;

o mundo não estará mais em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza, e a única solução da indústria armamentista será a de se declarar falida;

o alimento não será uma mercadoria, nem a comunicação um comércio, porque o alimento e a comunicação são direitos humanos;

ninguém morrerá de fome, pois ninguém morrerá de indigestão;

as crianças de rua não serão mais tratadas como se fossem lixo, pois não haverá crianças de rua;

as crianças ricas não serão mais tratadas como se fossem dinheiro, pois não haverá mais crianças ricas;

Vamos pôr os olhos além da infâmia, para descobrir um outro mundo possível. Um outro mundo onde: os desertos do mundo e os desertos da alma serão rearborizados

a educação não será privilégio dos que podem pagá-la;

a polícia não será a maldição dos que não podem comprá-la;

a justiça e a liberdade, irmãs siamesas condenadas a viver separadas, serão novamente reunidas, ombro a ombro;

uma negra será presidente do Brasil e outra negra dos Estados Unidos; uma índia governará a Guatemala e outra o Peru;

na Argentina as loucas da Praça de Maio – las locas de Plaza de Mayo – serão um exemplo de saúde mental, pois vão se recusar a esquecer a época da amnésia obrigatória;

Nossa Santa Madre Igreja corrigirá os erros das Tábuas de Moisés, e o sexto mandamento ordenará festejar o corpo;

a Igreja ditará também um outro mandamento que Deus havia esquecido: “Amarás a natureza da qual fazes parte”;

os desertos do mundo e os desertos da alma serão rearborizados;

os desesperados serão esperados e os desgarrados serão encontrados, pois são eles que se desesperam de tanto esperar e que se desgarram de tanto procurar;

seremos os compatriotas e os contemporâneos de todos aqueles que quiserem a justiça e a beleza, quaisquer que sejam o lugar onde tenham nascido e a época em que tenham vivido, sem dar a menor importância às fronteiras da geografia ou do tempo;

a perfeição cont



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