Bolsonaro ano 1: a democracia no picadeiro - Le Monde Diplomatique

Capítulo do livro inédito

Bolsonaro ano 1: a democracia no picadeiro

por Eduardo Borges
15 de julho de 2020
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A chegada ao poder de um indivíduo com o perfil público de Jair Messias Bolsonaro ao posto mais alto da política brasileira, certamente não seria um evento comum.  Membro do parlamento brasileiro por quase trinta anos, Bolsonaro sobreviveu nas entranhas da Câmara legislativa construindo uma trajetória que flertou permanentemente com as franjas do poder. Parlamentar do chamado baixo clero, grupo de indivíduos com pouca ou nenhuma visibilidade na dinâmica da Casa legislativa, Bolsonaro foi se constituindo em uma espécie de outsider.

Incorporando um perfil ideológico conservador e reacionário, defensor de causas que pouco dialogava com a civilidade da vida pública, foi com esse know how que Jair Messias Bolsonaro resolveu investir em voos mais altos e buscar uma ousada candidatura a presidente da República. Diante de uma conjuntura de extremo desprestígio da política e dos próprios políticos, Bolsonaro apresentou-se como representante de uma suposta “nova política” e se posicionou como a solução mais realista para os problemas brasileiros. Uma parcela da população reconheceu no político de extrema direita o Messias que nos salvaria do Armagedon da “velha política”.

Uma vez vencedor Bolsonaro não nos surpreendeu. Não cometeu o que tradicionalmente se chama de estelionato eleitoral. Ao acompanhar os sujeitos e as ações que compuseram o governo Bolsonaro em seu primeiro ano de governo esse livro registra, para a posteridade, imagens pitorescas e degradantes de um momento sui genere da história política do Brasil. O país se viu refém das influências de um improvável guru até o comportamento abjeto de uma “filhocracia” sem noção. Os capítulos que compõem o livro relembram a todos os brasileiros o quanto a destruição da política e dos valores democráticos podem colocar em risco as mais básicas conquistas civilizatórias.  No primeiro ano em que esteve à frende do governo brasileiro, Jair Bolsonaro e sua turma, zombaram de todos nós, tripudiaram sobre valores mais caros à existência humana e transformaram o país e seu sistema democrático em um grande e patético picadeiro.

 

Confira um capítulo do livro inédito “Bolsonaro ano I: a democracia no picadeiro”

Das sombras ao estrelato ou como Jair se transmutou de homem em mito debochando de todos nós

Passados um ano e meio do governo liderado pelo presidente Jair Bolsonaro e diante do que se transformou sua presença como ilustre inquilino do Planalto, uma grande parcela daqueles que o elegeram já se mostraram arrependidos. Entretanto, algo em torno de trinta por cento ainda se mantem fiel ao líder que eles preferem insistentemente chamá-lo de mito. Não sabemos a dimensão correta das pesquisas e tampouco se temos realmente um país dividido politicamente entre 70 X 30 por cento. Contudo, para aqueles que hoje pularam da barca bolsonarista sob o argumento da decepção e do estelionato eleitoral, é imprescindível reavivar suas memórias no sentido de demonstrar que a democracia cobra um preço muito alto quando optamos pela alienação voluntária. Nas linhas que se seguem, o que veremos é o engodo que esteve por trás do processo de transmutação do homem em mito

A trajetória e atuação de um membro da “neo-velha política”

A história de vida pessoal de Jair Messias Bolsonaro, 38º presidente da República Federativa do Brasil, não será o centro do que vem pela frente. O sentido exclusivo é o de apresentar o homem público que se tornou importante na mediada em que venceu a eleição presidencial e se credenciou à condição de cidadão brasileiro com maior visibilidade pública no país.

Formado na Academia Militar das Agulhas Negras em 1977 somente em 1986 Bolsonaro teve seu nome levado ao conhecimento público através de um artigo publicado na coluna “Ponto de Vista” do semanário VEJA. Na época da publicação ocupava o posto de capitão de artilharia e tinha 31 anos de idade. Quase perto de chegar a 10 anos de exército, o jovem militar já dava pistas de que seu futuro não era vivenciando a rotina dos quarteis, mas o espaço intricado e imponderável do universo da política. Naquele contexto, Bolsonaro também começava a definir o perfil de seus eleitores em potencial: os inúmeros companheiros de caserna que passaram a enxergá-lo como defensor solitário de suas causas.

O artigo rendeu ao capitão 15 dias de prisão por indisciplina. Em 1987, novamente a revista VEJA teve o atual presidente da República como personagem central. De acordo com reportagem, Bolsonaro e outro militar planejavam explodir bombas pra pressionar o comando do exército a reajustar salários. Apesar da negação do acusado, o caso chegou ao Superior Tribunal Militar e ele foi absolvido (esse tema será abordado em detalhes mais à frente). Nesse momento, o militar já tinha sido substituído pelo político. O  artigo polêmico de 1986 se transformara em votos nas urnas. Já como capitão da reserva, Bolsonaro foi eleito vereador no Rio de Janeiro com o apoio massivo dos militares.

A presença de Bolsonaro no parlamento municipal durou somente dois anos. Em 1990 foi buscar voos mais altos. Com um discurso conservador e falando diretamente a militares, se elegeu deputado federal, lá ficando por sete legislaturas consecutivas.

A atuação de Bolsonaro como parlamentar foi previsível. Ocupou permanentemente o chamado baixo clero, espaço reservado a parlamentares de pouca expressão e de atuação discreta na dinâmica de poder da Casa legislativa. Sua trajetória em 27 anos de parlamento baseou-se unicamente na defesa de uma agenda reacionária, voltada para uma clientela cativa formada por militares e setores conservadores da sociedade carioca. Uma pesquisa no site da Câmara dos deputados mostra o número 642 para o quantitativo de projetos de leis e outras proposições com participação do deputado Jair Bolsonaro em todos os anos de Parlamento. Destes 642 projetos de lei somente 166 foram de autoria individual.

Apesar desse número até certo ponto representativo, apenas dois projetos foram aprovados. Esse número é baixo e ilustra bem a dificuldade ou incapacidade do deputado Jair Bolsonaro em estabelecer boa estratégia de articulação e negociação com seus pares. Sua agenda conservadora destoava até mesmo em meio a um parlamento que sempre esteve longe de se constituir em maioria progressista. Bolsonaro passou 27 anos nas sombras e nas franjas do poder. Ao defender suas ideias e teses agiu de maneira quixotesca na maioria das vezes.

Uma rápida análise dos temas de seus projetos quase um terço deles vinculou-se aos militares, seu público fiel e preferencial. Em seu primeiro ano de mandato foram 10 projetos de lei, desses, metade dizia respeito ao universo militar.

A educação nunca foi prioridade do deputado Bolsonaro, isso explica bem a instabilidade do MEC em seu governo. Um levantamento e análise dos temas proposto por Bolsonaro em seu período como parlamentar seria exaustivo nesse espaço. Asseguro-lhes que fiz a leitura da maioria deles, muitos desmascaram o atual discípulo do ultra liberal Paulo Guedes. A maioria de seus projetos propunha sem constrangimento não só ações intervencionistas por parte do Estado, como uma série de isenções tributárias a grupos que o Bolsonaro versão Planalto acusaria de privilegiados.

Um exemplo bastante peculiar que mostra o DNA puro sangue da prática política bolsonarista foi o Projeto de Lei Complementar (PLP) 354/2006. Uma rápida pesquisa em sua atuação como parlamentar é suficiente para entendermos sua natureza. O deboche e o sarcasmo sempre foi regra e não exceção. Se hoje, alguns mais incautos, se assustam com as postagens escatológicas nas redes sociais e a forma debochada e infantilizada do Jair presidente, já estava tudo lá, faltava apenas conhecermos.

Sobre a citada PLP 354/2006 versava sobre a reserva de 50% de cotas para deputados federais entre as populações negras e pardas. O projeto do parlamentar carioca foi um grande acinte com o sério debate na Casa sobre cotas para negros nas universidades. Na justificativa ele mesmo informou que votaria contra seu próprio projeto.  Segue na íntegra a justificação do projeto, um verdadeiro escarnio não só com seus pares, mas principalmente com a população brasileira que paga os salários de seus representantes. “A cada dia se torna mais frequente o surgimento das chamadas ações afirmativas, que buscam a inclusão de minorias e segmentos ditos “menos favorecidos”. Neste sentido, a previsão de cotas para as populações negras e pardas em Universidades Públicas ilustra bem esse contexto. O exemplo tem que vir desta Casa que, por essência, é a legítima representação do povo e, em assim sendo, deve possuir de forma proporcional representantes de todos os segmentos sociais. As justificativas que servem de subsídio para todas as proposições desta natureza devem dar suporte, de igual forma, a este projeto, pelo que peço, coerência aos nobres pares, para a apreciação da matéria. Se o sistema de cotas é justo para o ensino, deve também ser para a representação federal. Mesmo sendo autor da proposição, por coerência, votarei contra esta matéria.” O trecho grifado já seria suficiente para expor o acinte bolsonarista.

No Projeto de Lei 7699/2017 Bolsonaro propôs a inscrição do nome do ex-deputado federal Éneas Ferreira Carneiro no Livro dos Heróis da Pátria. Veja trecho da justificativa: “Seu valoroso nacionalismo e sua oposição ao comunismo o qualificam como herói da pátria, por haver se somado aos defensores dos valores nacionais e ao conservadorismo patriótico, contribuindo assim para a defesa de nossa democracia e construção de um país mais justo, tendo empenhado sua vida sendo um brilhante profissional e, ao final, sendo um exemplo de político a ser seguido.” A obsessão anticomunista foi devidamente contemplada.

Outra obsessão foi contemplada no Projeto de Decreto Legislativo (PDC) 18/2015 que sustava a resolução do uso de nome social para travestis e transexuais nos Boletins de Ocorrência e também nas instituições de ensino. Os indígenas também sempre foram vítimas do reacionarismo bolsonarista. Em 1993 o PDC 365/1993 tornava sem efeito o Decreto de 25 de maio de 1992, que homologou a demarcação administrativa da terra indígena Yanomani nos estados de Roraima e Amazonas.

O ano de 1997 foi bastante produtivo, ao todo foram 19 tipos de propostas. Os três Projetos de Decretos Legislativos versaram sobre uma ideia fixa do político ou como ele enxerga a solução dos problemas da violência no país. Vejamos as ementas dos projetos: a)Estabelece plebiscito sobre a aplicação da prisão perpetua; b)estabelece plebiscito para aplicação da pena de morte e c)estabelece plebiscito sobre a aplicação de trabalho forçado.

Bolsonaro também enviou propostas referentes aos direitos humanos como o PDC 1662/2014 cuja ementa diz o seguinte: Ficam sustados os efeitos da Portaria Interministerial nº 2, de 20 de novembro de 2014, que institui Grupo de Trabalho com a finalidade de adotar medidas visando receber denúncias de crimes de discriminação nas redes sociais on line. A justificativa do projeto é bolsonarista 100%: “Com o anúncio do software do Governo Federal que supostamente mapeará ocorrências de crimes de ódio na internet, abre-se a temporada de caça aos que se opõem à esquerda e ao politicamente correto.” Aqui a frase é profética e já antecipava os robôs que iriam formar o exército do chamado “Gabinete do Ódio”. Perceba que entre o deputado e o presidente a mentalidade continua a mesma, é inegável que existe uma coerência.

Dos 642 projetos apresentados apenas dois foram aprovados, sendo que somente  um deles foi de autoria individual o Projeto de Lei (PL) 2.514/1996, que estendeu o benefício de isenção do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) para bens de informática e automação. O outro, o PL 4.639/2016,  foi proposto juntamente com 19 coautores. O projeto autorizou o uso da fosfoetanolamina sintética por pacientes diagnosticados com neoplasia maligna, conhecida como a “pílula do câncer”.

Bolsonaro sempre fez, durante sua vida parlamentar, o discurso de defensor da família e dos bons costumes, isso se materializou através da pequena oligarquia política formada por filhos e esposas. Na prática, o clã funciona como um grupo fechado com regras de conduta rígidas e devidamente estabelecidas pelo líder (ou pai), com a intenção de criar condições objetivas de perenidade política com base na defesa de uma agenda conservadora e reacionária.

Seus três filhos mais velhos compõem, juntamente com o pai, os membros dessa micro oligarquia. Cada cargo público a ser disputado pelos membros é pensado de maneira estratégica para que não ocorra concorrência de votos e o clã consiga êxito em todas as suas candidaturas. Flavio, o mais velho, seguiu uma trajetória estável no legislativo estadual do Rio de Janeiro elegendo-se por quatro legislaturas seguidas: 2002, 2006, 2010 e 2014. Em 2019, na carona do crescimento da popularidade do pai, buscou sonhos mais altos e alcançou a cadeira de senador da República.

O segundo filho, Carlos, tem uma história política inusitada, mas bem representativa da lógica bolsonarista de lidar com o poder e com as relações pessoais. Aos 17 anos de idade se elegeu vereador na cidade do Rio de Janeiro. A entrada prematura de Carlos na política foi resultado de um típico conflito de interesses entre família e política no interior da micro oligarquia bolsonarista. Rogéria Bolsonaro ou Rogéria Nantes Nunes Braga, esposa de Bolsonaro e mãe de seus três filhos mais velhos, também atuava como membro do grupo político liderado pelo marido. O problema é que nem sempre misturar as duas coisas pode dar certo. Rogéria tinha sido eleita para dois mandatos como vereadora com o apoio decisivo do marido. Na eleição de 2000, entretanto, o casal já não dividia a mesma cama e por tabela não iria dividir os mesmos votos.

Visando impedir a reeleição da ex-esposa, mas ao mesmo tempo buscando manter um quadro de seu grupo político familiar no parlamento municipal, Bolsonaro dá o pulo do gato emancipando o filho do meio, na época com apenas 17 anos de idade, e lançando sua candidatura à Câmara municipal.  Em reportagem bastante documentada do jornalista Vinícius Segalla do site Jornalistas Livres, é citada uma justificativa de Bolsonaro em relação a seu afastamento político da ex-mulher. A fala é primorosa e em poucas palavras Bolsonaro passa um retrato completo de sua personalidade como político e como pessoa, vejamos: “Nas questões polêmicas, ela deveria falar comigo para decidir o voto dela. Mas começou a frequentar o plenário e passou a ser influenciada pelos outros vereadores. Eu a elegi. Ela tinha que seguir minhas ideias. Acho que sempre fui muito paciente, mas ela não soube respeitar o poder e a liberdade que lhe dei.

A frase grifada é autoexplicativa. Carlos Bolsonaro é eleito o mais jovem vereador da história do Brasil. Foram 16.053 mil votos. Uma reportagem da revista Istoé fez um resumo do perfil político do jovem parlamentar: “O vereador mais jovem da história do Brasil defende a pena de morte, a tortura para traficantes de drogas, acha que os integrantes do Movimento dos Sem Terra não passam de vagabundos e faz piada da proposta de legalização da união civil entre homossexuais.”  Deixando obvio sua função na engrenagem da maquina política do clã, o jovem representante dos cidadãos do Rio de Janeiro, foi sincero: “Falarei com meu pai antes de tomar qualquer decisão importante.

Com um filho no legislativo municipal e outro no estadual, restava o mais jovem, Eduardo. Para o filho 03 a saída foi uma candidatura à Câmara Federal pelo estado de São Paulo, domicilio eleitoral alternativo ao Rio de Janeiro, base eleitoral da família. Em 2014 elegeu-se para seu primeiro mandato e em 2018 entrou para a história como o deputado federal mais votado na história do país. Certamente que o mais otimista membro do clã não imaginaria que em 2019 eles chegariam ao topo do poder. Mantendo a agenda conservadora, pautada nos costumes e ampliada por opiniões polêmicas nas redes sociais, o clã convenceu para suas teses uma enorme parcela da sociedade brasileira.

A atual esposa, Michelle, também se beneficiou das articulações políticas da micro oligarquia bolsonarista. Bolsonaro a empregou em seu próprio gabinete na Câmara dos deputados entre 2007 e 2008. Michelle era lotada na liderança do PP partido do marido. Ao mudar de endereço funcional Michelle teve um bom reajuste em seus vencimentos e ainda foi promovida pelo próprio marido/chefe. Sua exoneração veio em 2008 em decorrência da Súmula Vinculante do STF que proibiu a prática de nepotismo.

Não só a família nuclear foi alcançada pelo projeto político dos bolsonaros. Os benefícios do erário também chegaram à família consanguínea.  Por todo o período em que pai e filhos exerceram cargos públicos parentes próximos ocuparam funções nos diversos gabinetes. Ana Cristina Valle, segunda esposa e atualmente ocupando a condição de segunda ex de Bolsonaro, sua irmã, Andrea, e o pai das duas, José Cândido Procópio, ocuparam cargos nos mandatos do clã. Eduardo, o filho número 3, antes de tornar-se deputado fez um pequeno ensaio como funcionário da liderança do PTB entre 2003 e 2004, então partido do pai.

Até antes de agosto de 2008 quando o Supremo Tribunal Federal aprovou a 13º Súmula Vinculante que vedou o nepotismo no âmbito da União, estados e municípios, Bolsonaro não cometeu nenhum crime ao empregar familiares em seu gabinete e nos dos filhos parlamentares. O problema é que para quem se elegeu com o discurso que propunha uma “nova política”, Jair Bolsonaro, até 2008, parecia agir com desenvoltura em relação ao nepotismo, que imaginamos, por motivos éticos, deveria ser prática relacionada com a “velha política”. No fundo, o que Jair pregou em campanha foi uma espécie de “ neo-velha política”.

Para quem se propõe vender uma imagem de defensor intransigente da moralidade pública, Bolsonaro cometeu alguns erros primários na construção dessa imagem. Quem não se recorda do caso Wal? Reportagem da Folha de São Paulo trouxe a público a história de Walderice Santos da Conceição que apesar de estar registrada como funcionária do gabinete do deputado, tinha como sua principal atividade a venda de açaí em um pequeno comércio situado na Vila de Mambucaba, a 50 quilômetros de Angra dos Reis, onde fica a casa de veraneio do atual presidente da República. Em plena campanha eleitoral, Bolsonaro foi questionado algumas vezes pelo jornal e deu explicações pouco convincentes. No final, depois de afirmar que tinha demitido a “funcionária fantasma”, o na época candidato a presidente fechou a questão com uma explicação nível “lacração bolsonarista”: “tem dois cachorros lá e para não morrer de vez em quando ela dá água pros cachorros lá, só isso. O crime dela é esse aí, é dar água pro cachorro. Uma resposta de “mito”, suficiente para convencer seu leal e subserviente eleitor/seguidor.

Outra prática do que talvez seja o modo “neo-velha política” é a infidelidade partidária. Desde 1988, quando ingressou na vida pública pela porta do PDC (Partido democrata Cristão) até à candidatura presidencial pelo PSL,  Bolsonaro passou por nove partidos. Sua segunda legenda foi o PPR uma fusão do PDC com o PDS filho pródigo da Arena partido dos ditadores do regime militar. Ao ingressar no PPR, o atual presidente do Brasil iniciou sua trajetória política sob a liderança de uma das mais expressivas figuras do submundo da política brasileira, Paulo Salim Maluf. Maluf sempre foi uma referência para o político Jair Bolsonaro, o que torna risível, hoje, todo seu discurso contra a corrupção. Que moral tem alguém que passou toda a vida política sob o amparo ético do malufismo, querer posar de combatente da corrupção na política?

A terceira sigla foi o PPB também resultado de fusões estratégicas de partidos conservadores entre eles o PPR de Maluf e Bolsonaro. Entre 1995 e 2003, foram oito anos de aproximação aos projetos reacionários de uma legenda que seguia firme como espaço de acolhimento das viúvas da ditadura militar. De 2003 a 2005 filiou-se ao PTB, se aproximando de outra figura controversa da política brasileira o ex-deputado federal Roberto Jefferson. Flertou rapidamente com o PFL em 2005 e retornou, como bom filho, ao convívio malufista filiando-se ao PP e por lá permanecendo por 11 anos.

Quem ouve hoje o discurso virulento de Bolsonaro contra o ex-presidente Lula, a quem ele desejou que permanecesse na cadeia até morrer, por ter sido, segundo ele e seus seguidores, o maior corrupto da história do Brasil, não imagina que Bolsonaro conviveu praticamente – com pequenos intervalos de tempo – por quase vinte anos ao lado de Paulo Salim Maluf em um bom exemplo da hipocrisia seletiva da “neo-velha política” bolsonarista.

Faço questão de relembrar alguns episódios da trajetória pública de Paulo Salim Maluf, referência política do atual presidente brasileiro.  Conhecido popularmente como o deputado do “rouba, mas faz” ou do “estupra, mas não mata”, a ficha corrida do político paulista é longa e inclui principalmente superfaturamento em obras públicas e fraude em compras do governo. Desde 1970, quando presenteou os craques da seleção campeã do mundo com 25 fuscas comprados com dinheiro público, Maluf não mais parou. Quando prefeito de São Paulo, entre 1993 e 1996, período em que ele e Bolsonaro dividiam a mesma sigla,  Maluf cometeu uma série de irregularidades na construção da Avenida Aguas Espraiadas. Quase vinte anos depois, teve seu mandato de deputado federal cassado em decorrência dessa acusação. Em 2010, já no PP, também com Bolsonaro a seu lado, Maluf foi condenado por improbidade administrativa em um processo sobre compra irregular de frangos para a prefeitura de São Paulo ocorrida em 1996. Só para lacrar, Maluf teve o privilégio de ter seu nome escrito na lista de procurados da Interpol e da polícia francesa.

Se ainda não foi possível perceber porque gastei demasiada tinta falando de Paulo Maluf em um artigo sobre Jair Bolsonaro, respondo com uma pergunta: Onde estava o incorruptível Jair, caçador de comunistas, defensor da moralidade pública, quando seu parceiro de sigla fazia suas peripécias com o dinheiro público? Moralismo com o partido dos outros é refresco. É a hipocrisia como estratégia e o seletivismo como tática. Foi com esse tipo de “moral de botequim” que Bolsonaro seguiu, a cada dia, transmutando-se, aos olhos de seus eleitores/seguidores, da condição de homem em “mito”.

A última da série “neo-velha política” foi a elástica ética bolsonarista que o permitiu, quando ainda era deputado federal, mesmo tendo imóvel próprio em Brasília, receber o auxílio-moradia, benefício pago aos parlamentares que não ocupam os apartamentos funcionais a eles disponibilizados pela Câmara dos Deputados. Confrontado por repórteres do jornal Folha de São Paulo sobre o uso do auxílio, o na época pré-candidato à presidência da República respondeu com o deboche que reafirmaria sua condição de mito entre seus seguidores, disse ele: “Como eu estava solteiro naquela época, esse dinheiro de auxílio-moradia eu usava para comer gente. Tá satisfeita agora ou não?”

Moral da história: empregar familiares, fazer vista grossa para “companheiro” corrupto, receber auxílio-moradia sem necessidade, são apenas detalhes. Pode configurar comportamento antiético, mas se não é ilegal, pode até ser imoral, mas o que importa é a imoralidade deles, não a nossa.  Vida que segue.

Um mau militar

A eleição do capitão da reserva Jair Messias Bolsonaro ao posto de presidente da República Federativa do Brasil é visto por muitos como uma efetiva chegada dos militares ao poder. Diferente de 1964, cujo poder lhes chegou através de um golpe de estado, com a eleição do capitão reformado veio como um presente da democracia. O apoio dos militares, principalmente a força terrestre, à campanha de Jair Bolsonaro foi sendo construída no processo, quando alguns membros do alto oficialato perceberam no capitão a possibilidade de vencer as eleições e estabelecer uma normalidade conservadora historicamente cara a todos eles.

A escolha de um general como vice deve ter animado ainda mais uma parcela da alta patente do exército, não só os da ativa, como os que já teriam trocado a farda pelo pijama. O governo de Jair Bolsonaro, pela quantidade de militares no primeiro e segundo escalão, pode sim ser considerado um governo com forte diretriz militar. Por outro lado, essa presença maciça de homens de farda nos corredores da burocracia governamental sob a batuta de Jair Messias Bolsonaro, parece representar uma “dupla realidade” que os contemporâneos de 64 fizeram questão de repudiar.

A título de esclarecimento sobre o que chamei de “dupla realidade” a ser negada por contemporâneos de 64, vejamos uma posição do ex-presidente Ernesto Geisel sobre a presença de militares no poder depois da queda do regime e sobre como ele enxergava o capitão reformado, hoje presidente da República, Jair Bolsonaro.

Entre julho de 1993 e abril de 1994 o ex-presidente Ernesto Geisel concedeu uma entrevista à cientista política Maria Celina d’Araújo e ao antropólogo Celso Castro que resultou em um livro publicado pela Fundação Getúlio Vargas em 1997. Em dois momentos da entrevista em que surge o nome Bolsonaro o general Geisel reproduz um ponto de vista que explica o atual presidente da República em toda sua complexidade.

A entrevista foi concedida no início dos anos noventa do século passado e ao se referir sobre a presença de militares na vida política desse período, Geisel criticou a postura de alguns saudosistas do regime militar que buscavam seu retorno ao fazer o seguinte comentário: “Temos que dar um golpe! Temos que derrubar o presidente! Temos que voltar à ditadura militar! E não é só o Bolsonaro, não! Temos muita gente no meio civil que está pensando assim”.[1]

Indagado sobre o que era mais forte, o passado dos civis batendo nas portas dos quartéis ou a aspiração de alguns militares querendo liderar politicamente o pais,  o ex-presidente respondeu fazendo um longo histórico explicativo da aproximação dos militares com a política que segundo ele vinha desde a colônia e se tornou uma coisa tradicional. Cita para isso vários militares que disputaram cargos eletivos ou que exerceram funções na burocracia dos governos. Porém, se referindo ao presente, pergunta o que há de militares no congresso, ao que ele mesmo responde: “Não contemos o Bolsonaro, porque o Bolsonaro é um caso completamente fora do normal, inclusive um mau militar. Mas o que há de militar no congresso? Acho que não há mais ninguém.”[2]

Em 2011 o repórter Claudio Leal do site Terra Magazine escreveu no primeiro parágrafo de uma entrevista com o ex-ministro Jarbas Passarinho o seguinte texto: “O repórter pronunciou o nome “Jair Bolsonaro” e, do outro lado da linha, o ex-ministro Jarbas Passarinho abusou do fôlego de 91 anos para bendizer o deputado federal: “Ah, esse homem eu nunca pude suportar!.” Em outro trecho da entrevista, Passarinho usa da esquerdista Simone de Beauvoir para definir nosso atual presidente: “Ele é um radical e eu não suporto radicais, inclusive os radicais da direita. Eu não suportava os radicais da esquerda e não suporto os da direita. Pior ainda os da direita, porque só me lembram o livrinho da Simone de Beauvoir sobre ‘O pensamento de direita, hoje’: ‘O pensamento da direita é um só: o medo’. O medo de perder privilégios.” Se referindo ao caso do julgamento e absolvição de Bolsonaro no Superior Tribunal Militar (STM), veja o que falou Passarinho: “Foi mau militar, só se salvou de não perder o posto de capitão porque foi salvo por um general que era amigo dele no Superior Tribunal Militar. O ministro (do Exército), que era o Leônidas (Pires Gonçalves), rompeu com esse general por causa disso”. Jarbas Passarinho, o profeta do caos.

O Bolsonaro ativista e o relatório do STM

Na noite do domingo em que ficou decidido que a eleição iria para um segundo turno entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, o candidato do PSL fez uma transmissão ao vivo na internet ao lado de seu futuro ministro da economia Paulo Guedes. Bolsonaro repetiu o mesmo mantra de toda a campanha, frases de efeitos e propostas vazias, mas uma frase fugiu ao script, disse ele com total desenvoltura: “Vamos botar um ponto final em todos os ativismos no Brasil”.

Isso não foi uma frase vazia. Ato contínuo fui levado involuntariamente a interpretar a frase ao pé da letra. “Ponto final” é a resolução definitiva de um suposto problema. Fez-me lembrar da “solução final” dos nazistas. Como se põe um ponto final em algo? Quais instrumentos se usam para alcançar esse objetivo? Em seguida, fui a um desses dicionários on-line e busquei alguma definição para ativismo: “Transformação da realidade por meio da ação prática. Doutrina ou argumentação que prioriza a prática efetiva de transformação da realidade em oposição à atividade puramente teórica. Efetivação dessa doutrina ou dessa argumentação, através da defesa de uma causa ou da transformação da sociedade por meio da ação e não da especulação”.

Se é objetivo do bolsonarismo acabar com qualquer tentativa de transformação da realidade, resta saber se a realidade que ele quer nos impor, pode ser transformada por quem não se sinta contemplado com ela.  Eis o objetivo e o enigma da “solução final” bolsonarista.

Contudo, como o mundo é redondo – com a permissão dos terraplanistas – ele dá voltas e Jair Messias Bolsonaro já esteve em oposição a uma determinada realidade e contra ela usou todas as armas de seu ativismo. A contradição tem se constituído quase em sinônimo de Bolsonaro.

O Brasil de 1986 começara o ano com os brasileiros se credenciando à função de “Fiscal do Sarney”. Instituído em fevereiro, o Plano Cruzado foi um pacote de medidas econômicas com as quais o governo visava nocautear nossa galopante inflação. Ao congelar os preços e criminalizar quem os aumentasse, o governo buscou a cumplicidade da sociedade. Durante todo o ano de 1986 brasileiros foram às ruas e se mobilizaram em defesa desse projeto. Desde o movimento das Diretas-Já, o brasileiro não demonstrava tanto entusiasmo no exercício da cidadania.

No segundo semestre o plano começou a ser minado. Contando com forte oposição de produtores, as prateleiras dos supermercados se esvaziaram, os preços começaram a dar sinal de arrancada e as coisas foram saindo do controle do governo. Em novembro viria o Plano Cruzado II, o objetivo foi reparar erros do plano I, mas a esperança de dias melhores se tornava mais distante do horizonte. A inflação, o monstro que os planos econômicos buscavam domar, tinha corroído fortemente os salários e o poder de compra da população. Diversos sindicatos se mobilizaram em defesa de suas categorias.

Em setembro de 1986, no contexto desse debate em torno de perdas salariais, a revista VEJA publicou, na coluna ponto de vista, um artigo intitulado: “O salário está baixo[3]. O autor do artigo não foi nenhum sindicalista barbudo de tendência esquerdista, mas um barbeado membro do exército brasileiro, o até então desconhecido  Jair Messias Bolsonaro. Se hoje, como presidente da Republica, ele quer acabar com todo tipo de ativismo, será que teríamos um Bolsonaro presidente não fosse seu ativismo do passado?

O artigo publicado na revista VEJA merece algumas ponderações. O conteúdo do texto coloca Jair Bolsonaro como uma espécie de “liderança sindical” da tropa. Alguém, naquele momento, deveria romper o silêncio imposto a um segmento que sempre se caracterizou por ter sua voz castrada enquanto cidadãos. Bolsonaro se posicionou como o sujeito que cumpriria essa missão. A prova de que naquele momento ele representava os anseios de muitos de seus colegas de farda é uma informação contida no relatório do Superior Tribunal Militar, de 1990, que julgou os atos de insubordinação de Bolsonaro. De acordo com o relatório, muitos de seus colegas teriam afirmado “alguém tinha que falar”. Estava nascendo um ativista, mesmo que hoje ele desabone essa conduta entre seus adversários.

Escreveu o militar ativista em seu artigo na Veja: “Como capitão do Exército brasileiro, da ativa, sou obrigado pela minha consciência a confessar que a tropa vive uma situação crítica no que se refere a vencimentos”. Bolsonaro demonstra sua insatisfação com a injustiça sofrida pela categoria dos militares que por força de lei não poderia ter instituições representativas de seus interesses trabalhistas. É irônica essa insatisfação de um sujeito que viria a se eleger presidente condenando todas as formas de organização da classe trabalhadora, demonizando sindicatos e combatendo todos os ativismos. Seguiu ele renitente: “agora, na Nova República, novamente sofremos uma grande perda salarial: a maioria dos trabalhadores, através de lutas sindicais que nos são expressamente proibidas gozava de adiantamentos, trimestralidade, bônus e outros ganhos que foram incorporados ao salário”.

É interessante notar que para o militar Jair Bolsonaro, a representação de classe é um direito que lhes é negado pelo sistema militar. Contudo, esse mesmo Jair,  no posto de presidente da República, responsabiliza o que ele chama de “excesso de direitos da classe trabalhadora” como o principal responsável pela crise de emprego no país.  O que pensa, hoje, o Jair presidente em relação ao Jair ativista da causa dos militares?

Depois de tratar em detalhes todas as dificuldades econômicas que afligia a categoria dos militares, Bolsonaro concluiu seu artigo com um nível de indignação de fazer inveja ao mais radical dos dirigentes sindicais: “Corro o risco de ver minha carreira de devoto militar seriamente ameaçada, mas a imposição da crise e da falta de perspectivas que enfrentamos é maior. Sou um cidadão brasileiro cumpridor dos meus deveres, patriota e portador de uma excelente folha de serviços. Apesar disso, não consigo sonhar com as necessidades mínimas que uma pessoa do meu nível cultural e social poderia almejar”. Nesse momento, o militar já estava sendo substituído pelo político.

Certamente que tal nível de rebeldia não seria recebido com condescendência pela organização militar. Bolsonaro foi preso por “transgressão grave”. O Exército não admitiria o menor risco que fosse de sublevação hierárquica da tropa. Bolsonaro deveria ter  a dimensão exata dos riscos, pagou para ver e se deu bem, entrou na carreira política e nunca mais saiu dela.

O melhor do ativismo bolsonarista ainda estava por vir. Em edição do dia 25 de outubro de 1987 a revista VEJA publicou outra reportagem trazendo mais uma vez como destaque o capitão Jair Bolsonaro. Sob o título: “Pôr bombas nos quartéis, um plano na Esao”, Veja se referia à Escola Superior de Aperfeiçoamento de Oficiais, e o conteúdo da reportagem mostrava que Jair Bolsonaro e outro militar, Fábio Passos, planejavam explodir bombas em unidades militares do Rio de Janeiro para pressionar o comando do exército.

Na época da produção da matéria um capitão de nome Sadon Pereira Filho tinha sido preso por ordem do comando da Esao por ter entregue a seus superiores um documento reivindicando melhores salários. A prisão do capitão Sadon revoltou parte da tropa, entre eles o capitão Jair Bolsonaro. A repórter escalada por VEJA foi Cassia Maria que entrevistou dois militares buscando maiores informações sobre o caso. Um desses dois militares foi o capitão Jair Messias Bolsonaro. Na oportunidade, a esposa de um dos militares, chamada Ligia, revelou a Cassia alguns detalhes de uma operação que estava sendo organizada e que levaria o nome de “Beco sem Saída”. A operação consistia em detonar algumas bombas nos banheiros da Esao e em outras unidades do Exército como a famosa Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). O objetivo era constranger o general Leônidas Pires, na época, ministro do exército do governo José Sarney.

Em conversa que duraria duas horas entre a repórter, Bolsonaro e o outro militar, identificado apenas como Xerife, perguntado sobre a veracidade da operação relatada por Ligia, Bolsonaro teria ironicamente respondido que seria “só a explosão de algumas bombinhas”. Porém, a reportagem de VEJA discorre o seguinte trecho retirado da conversa entre a repórter e o capitão ativista: “Sem o menor constrangimento, Bolsonaro deu uma detalhada explicação sobre como construir uma bomba-relógio. O explosivo seria o trinitrotolueno, o TNT, a popular dinamite. O plano dos oficiais foi feito para que não houvesse vítimas. A intenção era demonstrar a insatisfação com os salários e criar problemas para o ministro Leônidas”. Se isso não é ativismo radical com requintes de balburdia, então o que é?

O ministro Leônidas Pires tratou de minimizar a situação. Em uma longa entrevista na porta do Palácio do Planalto acusou a revista VEJA de estar mentindo e que acreditava na negativa de seus dois oficiais, pois sabia quem era sua gente.

A reação da revista veio em reportagem de quatro de novembro do mesmo ano. A matéria trazia o seguinte título: “De próprio punho: O ministro do Exército acreditou em Bolsonaro e Fabio, mas eles estavam mentindo”.[4] Bolsonaro desmentira a conversa com a repórter Cassia Maria e seu colega Fabio dissera que nem a conhecia. Fizeram isso por escrito e de próprio punho. Devem guardar isso até hoje em suas consciências.

A reportagem apresentou uma série de pessoas que teriam testemunhado os quatro encontros entre Cassia e Bolsonaro. Em uma dessas conversas, ainda segundo a matéria, “Bolsonaro foi didático. Desenhou um croqui em que apareciam as tubulações do que seria a Adutora do Guandu, responsável pelo abastecimento de agua do Rio de Janeiro, e, junto a elas, colocou o rabisco de uma carga de dinamite detonável por intermédio de um mecanismo elétrico instalado num relógio”. Já imaginou se houvesse na época a lei antiterrorismo? O interessante da narrativa desse episódio é demonstrar   as peculiaridades da contradição entre passado e presente da trajetória ética e moral do atual presidente brasileiro.

Entre 1988 e 1990 as coisas não foram fáceis na vida do capitão ativista. Sua atitude de rebeldia iniciada com o artigo em VEJA e na suspeita de planejar uma operação de cunho terrorista contra o Exercito, levaria Bolsonaro ao supremo julgamento de seus pares.

Um relatório do Centro de Inteligência do Exército, de 1990, identificado na época como secreto, mas agora disponível, apresenta em detalhes todo o desenrolar jurídico da acusação de insubordinação que pesou sobre o capitão Jair Messias Bolsonaro. As primeiras páginas do relatório, em um total de 96, faz uma síntese do prontuário do capitão Bolsonaro. São vários os pontos abordados, mas quatro deles são suficientes para a nossa narrativa:

1- Em 02 Set 86 como Cap. Art. Do 8º GAC/PQDT, RIO/RJ, foi punido com 15 (Quinze) dias de prisão por ter elaborado e publicado em uma revista semanal (Veja – semana 03 set 86), sem conhecimento e autorização de seus superiores, artigo em que tece comentários sobre a política de remuneração do pessoal civil e militar da união.

3-Em 18 Nov 87, o Sr. Ministro do Exército determinou que o nominado fosse submetido a Conselho de Justificação.

6- Em 29 Dez 87, a jornalista CASSIA MARIA, autora de reportagem denunciando a existência de um complô de capitães que pretendiam explodir bombas em quarteis do exército afirmou durante o depoimento no Conselho de Justificação a que responde o nominado, ter recebido uma ameaça de morte do Cap BOLSONARO, momentos antes de iniciar seu depoimento.

8- Em 6 Abr 88, o BRE n 2/SEGx publica decisão do Sr. Min Ex:

– “Concordar com o parecer do Conselho de Justificação e considerar o nominado não justificado”.

Até esse momento, abril de 1988, Bolsonaro não tinha convencido seus pares de sua inocência. O Conselho de Justificação, depois de ouvir as partes envolvidas e testemunhas, não reconheceu a negativa de Bolsonaro para os fatos e o declarou culpado. Ainda restava o Superior Tribunal Militar (STM) e a ele o capitão ativista recorreu.

Em 16 de junho de 1988 o STM se reuniu para julgar os autos do Conselho de Justificação a que Bolsonaro tinha sido submetido e depois de analisar o mérito dos autos, o julgou, por maioria dos votos (9×4) como inocente. Não custa reproduzir a fala do falecido Jarbas Passarinho sobre esse episódio: “Foi mau militar, só se salvou de não perder o posto de capitão porque foi salvo por um general que era amigo dele no Superior Tribunal Militar. O ministro, que era o Leônidas, rompeu com esse general por causa disso”. Ainda que tenha alcançado a absolvição o relatório do STM não foi nada favorável à  sua biografia.

Por outro lado, é inegável que o episódio foi fundamental para alavancar sua carreira política. Em 2014 o tema voltaria a rondar o então deputado Jair Bolsonaro. Falando com a imprensa, disse ele sobre o fato: “Eu nem pensava em entrar na política, mas isso me ajudou porque fiquei conhecido e então eu fui eleito no ano seguinte“.[10] Complementou em seguida bem ao estilo que o transformaria em “mito”: “Muita gente votou em mim achando que eu era louco, outros porque eu peitei o presidente José Sarney“. Qualquer semelhança com a campanha de 2018 não é mera coincidência.

O relatório do STM, o mesmo que o inocentou, assim escreve no último tópico da síntese do prontuário se referindo ao já eleito vereador:

14- A partir dessa data, na reserva não remunerada, inicia um intenso trabalho como defensor dos interesses da classe militar, sem que para isso tenha representatividade ou delegação, arguindo, contrapondo e acusando de forma descabida autoridades constituídas nos mais diversos níveis.

O relatório do STM descreveu perfeitamente a atuação de um rebelde inconformado com sua situação social e destemido suficiente para continuar lutando por seus direitos mesmo que para isso tivesse que afrontar todo um sistema opressor. Sim, eu acabei de descrever o outrora ativista Jair Messias Bolsonaro. Aquele que hoje, de maneira explicitamente oportunista, populista e demagoga luta por colocar uma solução final em todo tipo de ativismo.

Mesmo eleito vereador e logo em seguida assumindo como deputado federal Bolsonaro não deixou de ser perseguido pelo oficialato que continuava sem perdoar seu ato de insubordinação. Matérias de jornais demonstraram o ressentimento da caserna em que oficiais do Exército buscavam dificultar a relação entre o político Jair Bolsonaro e a instituição militar.

A primeira das reportagens foi publicada em abril de 1991 na Tribuna da Imprensa. De acordo com o jornal o coronel de cavalaria Carlos Cid da Nóbrega Lopes comandante do Comando Militar do leste teria obrigado a todos os militares sob seu comando que fizessem a leitura do relatório do STM sobre o processo do capitão Jair Bolsonaro. Ainda em abril de 1991, outro oficial, o então chefe do estado maior das Forças Armadas o general Jonas de Morais Correia Neto é citado em uma reportagem como o autor de uma carta em que repudiava a forma como o deputado federal Jair Bolsonaro criticava o exército na tribuna do parlamento. Na carta, Correia Neto chamava Bolsonaro de “embusteiro, intrigante e covarde”. Em outubro de 1991 a Tribuna de Imprensa novamente repercutia a insatisfação de alguns oficiais com a forma em que o deputado Bolsonaro usava seu mandato para influenciar seus pares. De acordo com a reportagem o general Alberto dos Santos Lima Fajardo, comandante do Comando de Operações Terrestres (Coter), teria expedido um documento proibindo a entrada de Bolsonaro nos quarteis sob a justificativa de que ele estava “insuflando oficiais superiores e sargentos com panfletos criticando exaustivamente a atual política salarial da tropa.”

O relatório do STM é composto tanto pelas informações do Conselho de Justificação, em que Bolsonaro foi condenado, quanto do julgamento no STM em que o mesmo foi absolvido. Ainda no período em que estava sendo feita investigações no âmbito do Conselho de Justificação o relatório trouxe em anexo na página 7 uma carta anônima, possivelmente escrita por um militar, que teria sido enviada a diversos oficiais do corpo docente, discente e administrativo da Esao.

A carta é endereçada a Bolsonaro e seu conteúdo apresenta uma série de comentários nada lisonjeiros sobre o capitão e sua esposa. O texto levanta suspeita sobre o comportamento da esposa do capitão com insinuações de prática de infidelidade conjugal. Em relação à Bolsonaro o documento apócrifo se refere de maneira bastante ofensiva ao registrar a seguinte informação: “Ao invés de fazer croqui de bombas, escreva quantas vezes você foi ao Paraguai trazer muamba. Conte sobre os seus problemas no Mato Grosso. Verifique qual é o seu conceito na BDA PQDT”. Quanto à veracidade dessas informações assim o relatório concluiu: “Não se obteve, ainda, registro algum que comprove a veracidade dos fatos veiculados pelo documento em questão”.

A questão não é bem saber se o conteúdo da carta anônima é verdadeiro ou não. O que fica desse episódio é o nível de tensão que passou a mediar a relação entre o político Jair Bolsonaro e a caserna. Aparenta ser uma relação utilitária em que ambos se suportam na medida do interesse particular de cada parte envolvida. O apoio à aventura do capitão em candidatar-se ao Planalto não foi assimilado de maneira natural e imediata por uma parcela do alto oficialato. A aproximação foi sendo tecida aos poucos na medida em que o fantasma do anticomunismo, resignificado no antipetismo, foi ocupando corações e mentes do Clube Militar. O atual governo Bolsonaro é uma grande ilha cercada por militares por todos os lados, mas não sabemos ao certo o quanto de tensão e de jogo de interesses paira sobre essa relação. Só o futuro dirá.

 

A atração do picadeiro

Muita gente votou em mim achando que eu era louco, outros porque eu peitei o presidente José Sarney“. Esse é o ponto de partida para se entender como um inexpressivo político do parlamento brasileiro se transmutou em candidato viável à presidência da República. Jair Messias Bolsonaro tinha a dimensão exata de suas limitações enquanto parlamentar. Sabia que o alcance de seu eleitorado não ultrapassava em muito o universo militar e uma horda de conservadores de extrema direita. Era para eles que Jair discursava, mas eles não eram suficientes para se tentar voos mais altos além dos limites de deputado federal. Contudo, enquanto um número suficiente de pessoas continuasse achando que ele tinha um pouco de louco em sua lucidez, e era bastante lúcido em sua aparente loucura, já seria razoável para se conservar vivo no jogo.

Não é algo de simples explicação o nascimento do fenômeno Bolsonaro como político de dimensão nacional. Além disso, é impossível determinar quando esse fenômeno ganhou materialidade no tempo e no espaço. É possível, entretanto, analisar esse fato sob duas perspectivas que correram juntas e em paralelo. De um lado, estava um político devidamente estabelecido em termos de perenidade eleitoral, com eleições ganhas de maneira consecutiva e com um eleitorado cativo, fiel e com tendência de alta. De outro, e em paralelo, o país passou a conviver desde a crise do chamado “mensalão” com uma constante e deliberada demonização da esquerda, do petismo e da própria política. Tudo isso com o apoio raivoso de uma mídia mezzo reacionária mezzo oportunista e fisiológica.

É nesse ambiente de desqualificação do debate político, de crescimento do obscurantismo intelectual e do afastamento dos setores da sociedade civil organizada dos grandes temas nacionais, que indivíduos de perfil oportunista e caricato, tendem a estabelecer seus tentáculos sobre a sociedade. Se a política com P maiúsculo já não responde aos anseios da população por estar impregnada de sujeira e corrupção, é tempo de se forjar uma nova agenda que atenda a essa demanda. O nível do debate certamente tende a cair no lugar comum e no clichê moralista de cunho funcionalista. As respostas aos grandes problemas do país já não podem ultrapassar os limites dos poucos caracteres do twitter.

O processo de transmutação bolsonarista de homem em mito ocorreu no tempo e foi sendo forjado a cada frase abjeta que ajudava a revelar sua verdadeira natureza e materializar o candidato perfeito para uma parcela pusilânime da sociedade brasileira carente de uma referência que lhe desse régua e compasso.

Sobre a democracia Bolsonaro não teve escrúpulo ao afirmar que “através do voto você não vai mudar nesse país, nada, absolutamente nada! Só vai mudar, infelizmente, quando, um dia, nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro, e fazendo o trabalho que ´regime militar não fez. Matando uns 30 mil, começando com o FHC, não deixar pra fora não, matando! Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente”. Hoje, A covid 19 tem cumprido o papel de matar os 30 mil de Jair. Se vai morrer alguns inocentes, e daí?

Mas esse negócio de morrer gente é só um detalhe para quem nunca escondeu ser a favor da tortura, lembra-se? “Pau-de-arara funciona. Eu sou a favor da tortura, tu sabe disso. E o povo é favorável também”. Em 2018, 57 milhões de brasileiros fizeram questão de dizer publicamente que Jair não estava sozinho em sua trajetória de crueldade. Mas ele foi além e abriu o coração quando demonstrando profunda sensibilidade afirmou: “Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo”. Esse foi o momento em que mito trouxe para perto os hipócritas defensores da vida, os adversários do aborto.  Com eles vieram algumas das principais vítimas do aborto, a mulher, aquela a quem Jair identificou como fruto de “uma fraquejada”. Mas vieram também em busca do conforto os afrodescendentes, aqueles a quem Jair em visita a um quilombo assim os descreveu: “ o mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada, eu acho que nem pra procriar servem mais”. Arroba, procriação, falava Jair de humanos ou animais?

Palavras tão sábias foram, que ironia, aplaudidas efusivamente pela audiência formada por membros da comunidade judaica. A sedução dessa gente diante do mito minava completamente o sentimento de empatia e solidariedade. Os negros (a quem Jair humilhou) dividiram com os judeus (de quem Jair recebeu aplausos) as agruras dos Campos de Concentração nazista. Nesse momento, uma parcela da sociedade já demonstrava ter entrado em um caminho sem volta e capitulado diante de tamanho obscurantismo e de completa ausência de afeto, fraternidade e empatia. Assim, de frase em frase, Bolsonaro se firmava como representante legítimo de um segmento cujos valores básicos de humanismo e civilidade tornava-se uma simples questão de “politicamente correto”.

Nesse contexto, a mídia, principalmente a televisiva, passou a ter uma responsabilidade central. Programas como o Big Brother Brasil ditaram o ritmo do debate intelectual brasileiro. Os telejornais se transformaram em porta vozes do reacionarismo anti-político. Programas de auditório, essencialmente rasos e sensacionalistas, definiram temas e pautas e os abordaram com a desenvoltura de quem ensina a fazer uma bela feijoada para o almoço do final de semana.

O jornalista Mauricio Stycer em artigo interessante sobre tema semelhante fez a seguinte afirmativa: “’CQC’ e ‘Superpop’ não eram sócios de Bolsonaro na sua estratégia de promoção. Ambos apenas enxergaram a chance de conseguir audiência sem fazer esforço. Daí os inúmeros convites e entrevistas com ele”.[11]Foi a união da fome com a vontade de comer. A presença de Bolsonaro em programas como o Superpop proporcionava a ambos, político e programa, a possibilidade de audiência momentânea. Não havia risco de conflitos, melhor, os conflitos eram resultantes de riscos combinados. Bolsonaro era o anti-sistema que o sistema necessitava no momento. A auto verdade bolsonarista ditava o ritmo do programa que se sustentava no limite de um bom senso bastante sutil. Assim o inexpressivo deputado reacionário acumulava milhas e se estabelecia como alternativa a um sistema em crise de credibilidade.

Em artigo publicado pelos pesquisadores Victor Piaia e Raul Nunes os autores apresentam alguns números da presença de Jair Bolsonaro em programas televisivos entre os anos de 2010 e 2018, escreveu eles: “As participações de Bolsonaro ocorreram em programas como Agora é com Datena (1), Agora é Tarde (3), Casos de Família (1), CQC (5), Manhã Maior (1), Mega Senha (2), Mulheres (1), Okay Pessoal (1), Pânico na Band (1), Programa do Ratinho (2), Programa do Raul Gil (1), Quem convence ganha mais (1), Superpop (11), The Noite (1) e Você na TV (1)”.[12]

O caso do Superpop com 11 participações é notável sobre o quanto havia de simbiose de interesses entre o político e a atração televisiva. Os programas se alternavam entre os formatos de talk show, com os entrevistadores servindo de escada para as escatologias bolsonarista, e os de debates em que temas eram colocados em discussão entre um grupo de “especialistas”. Os pesquisadores Piaia e Nunes assim escalaram o time de especialistas: “Os convidados são majoritariamente (sub)celebridades LGBT e/ou militantes da causa: Léo Áquilla, Thammy Miranda, Moranguinho (ex-BBB), Luisa Marilac, Felipeh Cortes, Christian Pior, Maite Schneider e Toni Reis (ABGLT)”. Uma trupe que se completava perfeitamente com o deputado midiático.

As opiniões sustentadas no programa viralizavam nas redes sociais no dia seguinte. A polêmica vazia, gerada por posições fúteis e de pouco ou nenhum embasamento, era o principal recheio que segurava a fidelidade da audiência. Alguns dos mais importantes temas da vida nacional eram debatidos com a profundidade do entretenimento. O deputado Jair Bolsonaro, com o lugar de fala referendado na condição de membro do parlamento brasileiro, legitimava o debate dando-lhe ares de seriedade e de oficialidade. Alguns dos valores mais caros à humanidade eram espetacularizados entre esfuziantes vaias e palmas como em um grande circo dos horrores.

Bolsonaro foi sendo popularizado e sua irreverência quase grotesca foi tornando-se palatável a ouvidos mais exigentes. Temas caros à sociedade, mas também ao próprio Bolsonaro como racismo, machismo e homossexualidade entraram na casa do telespectador sob a ótica da simples polêmica ou de um suposto discurso do respeito ao contraditório e à liberdade de expressão.

A estratégia perfeita de Bolsonaro foi o de se colocar na condição de única alternativa “a isso que está aí” usando uma expressão que lhe é peculiar. O desgaste do campo mais progressista do espectro político com seus temas e abordagens com um grau de sofisticação e complexidade de pouca eficácia comunicacional abriu espaço para o discurso simplório, de frases curtas e de efeito rápido como “bandido bom é bandido morto”. A chamada fake News, tão bem incorporada à linguagem ágil e imediatista do Twitter e do WhatsApp, se materializava em mensageira da “verdade” através de “memes” e pequenos filmes didáticos. Assim Bolsonaro e seguidores estabeleciam suas conexões com o Brasil profundo, esquecido pelo discurso sofisticado de seus principais adversários. Apenas Lula tinha a capacidade de contrapor Bolsonaro e se fazer presente nos corações e mentes desse Brasil profundo, mas esse a elite econômica e judiciária tratou de alijar da disputa.

Jair Messias Bolsonaro foi comendo pelas beiradas como se diz na linguagem popular. Ao brigar com todos os políticos e se colocar como o outside da política brasileira, Bolsonaro foi definindo sua estratégica posição do “nós contra eles”. A cada nova aparição na televisão o capitão reafirmava sua condição de candidato e legitimava sua projeção nacional.  As falas grotescas e insanas lhe deram a fama de autêntico. A composição desse mosaico de características tipicamente populistas deu a Bolsonaro o inesperado apoio de uma parcela da sociedade, formada por uma parte da classe média “eternamente” em crise de identidade e com viés conservador, uma elite ultraliberal e individualista, um bom número de vulneráveis sociais que reconheciam no “mito” o Messias que os levaria ao paraíso social provocado pelo desalento da crise econômica e um conjunto de indivíduos neopentecostais agindo a partir de suas dogmáticas referências de poder. Se esses grupos não formaram a totalidade do eleitor bolsonarista, foi sua grande maioria.

Com a política judicializada a partir da ofensiva empreendida pelos procuradores da operação Lava Jato e com o establishment político seja de esquerda ou de direita desgastado em decorrência da midiática operação policial, restou um campo aberto para oportunistas que soubessem capitalizar para si esse momento de fragilidade da democracia brasileira. Enfim, se o picadeiro dos programas televisivos não pode ser considerado o único fator de viabilidade da candidatura Jair Bolsonaro, certamente contribuiu decisivamente para colocá-lo como um agente político representativo de um eleitor vulnerável e carente de um candidato que lhes apresentasse as respostas mais simples às perguntas mais complexas.

Hoje, passados quase um ano e meio desse “torturante band-aid em nosso calcanhar” chamado governo Bolsonaro, temos muitos a quem atribuir responsabilidades, cito os principais: Uma imprensa moralmente seletiva com seu antipetismo inconsequente e irresponsável.  Uma classe média cínica e moralista de ocasião que abriu mão de qualquer empatia em nome de um discurso tosco e vazio de combate à corrupção. No fundo, somente reagiam ao risco de cruzarem com seus  criados na Champs Elysées ou na Disney. A alta elite econômica, aquela que anda de jatinhos particulares e viram no capitão e em seu Posto Ipiranga Paulo Guedes, a possibilidade de eliminar por completo um entulho chamado legislação trabalhista e criar as condições necessárias para o melhor dos mundos capitalista: o do maior lucro com o menor custo. E a toda uma parcela de vulneráveis sociais, essa que precisa arriscar sua vida em plena quarentena para poder comer o pão de cada dia. A esse grupo, pesa o fato de ajudar a eleger Bolsonaro, mas esses são mais vítimas do que algozes.

Para esse grupo de vulneráveis é que o mundo pós covid 19 deve essencialmente debruçar o seu olhar. Se teremos outro mundo depois da pandemia (o que muito duvido), que sejam o coletivismo a solidariedade e o humanismo os mitos dessa Nova Era.

 

Eduardo Borges é doutor em História e professor adjunto do Departamento de Educação na Universidade do Estado da Bahia.

 

 

 

[1 Ernesto Geisel. Organizadores Maria Celina D`Araújo e Celso Castro. Rio de Janeiro: Ed. Fundação Getulio Vargas, 1997, p.112.

[2] Idem, p.113.

[3] Revista Veja, 3 de outubro de 1986.

[4] Revista Veja, 4 de novembro de 1987.

[10]https://noticias.band.uol.com.br/noticias/100000675543/bolsonaroboatodebombasoajudouameeleger.html

[11] https://tvefamosos.uol.com.br/blog/mauriciostycer/2018/10/29/qual-foi-o-papel-de-cqc-superpop-e-panico-na-popularizacao-de-bolsonaro/

[12]http://iespnaseleicoes.com.br/politica-entretenimento-e-polemica-bolsonaro-nos-programas-de-auditorio/

 



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