Brasil, França e os caminhos para a cinematografia do futuro
Parceria inédita entre o Projeto Paradiso e as Escolas Kourtrajmé celebra 200 anos de relações Brasil–França e inaugura um laboratório internacional que aposta na diversidade como força motriz do audiovisual do futuro
Em 2025, Brasil e França celebraram 200 anos de relações diplomáticas com uma série de eventos que reafirmam a relevância das trocas culturais entre os dois países. A Temporada França-Brasil é um convite para olhar para o futuro e, no audiovisual, esse futuro se constrói quando diferentes pontos de vista, linguagens e narrativas se friccionam, se tensionam e se provocam mutuamente. É nesse espírito que as Escolas Kourtrajmé e o Projeto Paradiso se encontraram, instituições unidas pela convicção de que o cinema do amanhã será forjado por vozes de origens diversas, invertendo a posição de cinematografias que historicamente ocupavam as margens.
Essa aproximação começou a ganhar forma em 2022, quando Ladj Ly, cineasta e fundador das Escolas Kourtrajmé, esteve em Salvador para o II Encontro Nacional da Rede Paradiso de Talentos. O diálogo iniciado naquele momento, marcado por debates sobre representatividade, novas linguagens e o funcionamento do mercado global, plantou as bases da parceria que agora se consolida. Ficou claro ali que o fluxo de conhecimento não corre mais apenas do Norte para o Sul Global. Hoje, é o Brasil quem ensina e inspira, exportando perspectivas únicas sobre representatividade e narrativa audiovisual.

Essa dinâmica se concretiza na iniciativa Vozes Decoloniais: Oficina de Desenvolvimento de Narrativas Seriadas, laboratório inédito criado pelas duas instituições. A oficina reúne cineastas de quatro territórios – Brasil, França, Caribe e Senegal –, promovendo um intercâmbio singular e intercontinental. A primeira fase, composta por masterclasses de profissionais brasileiros como Adirley Queirós, Lílis Soares, Luciana Bezerra e Luis Lomenha, abordou temas fundamentais: representatividade na narrativa, estética e política do cinema negro, a fotografia da pele negra, desenho de som e estratégias de criação coletiva. Esses temas tensionam o imaginário dominante e ampliam modos de olhar.
Na segunda etapa, a teoria dá lugar à prática coletiva. Oito profissionais – quatro brasileiros e quatro ex-alunos Kourtrajmé – foram selecionados para um laboratório criativo imersivo em Salvador, na Bahia, que começa em 5 de dezembro. Nessa fase, o grupo vai desenvolver, de forma colaborativa, o protótipo de uma série original (um “proof of concept”) que poderá ser apresentado para players do mercado internacional. A escolha da Bahia não é por acaso: além de polo cultural negro de enorme simbolismo, o estado sintetiza esse diálogo transatlântico que o projeto almeja. A criação resultante deverá refletir as realidades sociais e ambientais diversas de seus autores e, ao mesmo tempo, dialogar com o mundo profissional, considerando público-alvo, desafios de produção, formatos inovadores de distribuição e potencial de mercado.
Importa realçar que a Rede Paradiso de Talentos, núcleo brasileiro dessa colaboração, é em si um exemplo de diversidade e inclusão. Formada por profissionais do audiovisual de todas as regiões do país e com uma composição de 40% de profissionais não-brancos, a Rede evidencia a aposta em talentos dentro e fora dos grandes centros. O compromisso abrange dimensões regionais, raciais e de gênero. Este ano, por exemplo, o Projeto Paradiso viabilizou pela primeira vez uma vaga exclusiva para um roteirista da Região Norte na Maestría em Escrita Criativa da EICTV, em Cuba. Outro exemplo é a Aceleradora Paradiso, iniciativa de formação e inserção de profissionais negros realizada em parceria com empresas do audiovisual.
Do lado das Escolas Kourtrajmé, a decisão de criar escolas gratuitas e profissionalizantes respondia ao diagnóstico de um audiovisual confrontado com graves desafios de representatividade, tanto nas equipes artísticas quanto técnicas, na produção e na formação. Cada escola é uma associação de interesse público, gratuita, militante e enraizada no território. A primeira foi criada em 2018 em Clichy-Montfermeil, subúrbio parisiense onde Zied e Bouba morreram em 2005 durante uma perseguição policial que desencadeou revoltas em toda a França, e onde Ladj filmou Os Miseráveis doze anos depois. Em seguida vieram as unidades de Marselha, Dakar e Guadalupe, que recrutam estudantes de cada região.
Desde a sua criação, elas permitiram que talentos sub-representados desenvolvessem seus conhecimentos e competências, mas também – e sobretudo – sua legitimidade para transformar o setor audiovisual de seus territórios e de seus países. Após apenas cinco anos de existência, é uma conquista para as Escolas Kourtrajmé poder levar ex-alunos de cada território para uma formação em contato com talentos brasileiros. Essa troca será também uma oportunidade para as equipes das Escolas Kourtrajmé explorarem os modos de atuação inovadores do Projeto Paradiso e esboçarem uma forma de acompanhamento para os seus ex-alunos nos próximos anos.
A lição mais valiosa para ambos os lados talvez resida no próprio encontro. Esses esforços apontam para uma cinematografia do futuro moldada por policentrismos. Se antes o nosso cinema buscava validação nos cânones europeus, hoje há um movimento mais recíproco. Novas estéticas emergem desse cruzamento cultural, combinando técnicas e sensibilidades de origens diversas. Uma série desenvolvida coletivamente entre Brasil, Marselha, Dakar e o Caribe, carrega em si a promessa de mobilizar histórias capazes de dialogar com audiências igualmente plurais. Assim, a iniciativa reafirma uma convicção que nos move: para tocar o futuro, é preciso escutar as vozes que o anunciam.
Josephine Bourgois é Diretora-Executiva do Projeto Paradiso.
Ladj Ly é cineasta e fundador das Escolas Kourtrajmé.

